quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Vale assina acordo de R$ 37,6 bi por danos causados em Brumadinho, OESP

 Leonardo Augusto, especial para o Estadão

04 de fevereiro de 2021 | 11h13
Atualizado 04 de fevereiro de 2021 | 14h23

BELO HORIZONTE - Dois anos depois do rompimento da barragem de Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a mineradora fechou nesta quinta-feira, 4, acordo na Justiça de Minas Gerais para pagamento de indenização ao poder público pelos danos causados na tragédia, que matou 272 pessoas. A mineradora se comprometeu a pagar R$ 37,68 bilhões.

O rompimento da barragem ocorreu em 25 de janeiro de 2019. A partir de outubro de 2020, uma série de reuniões foi realizada entre as partes buscando evitar que o processo se encaminhasse para sentença, sem sucesso. As negociações começaram nessa época porque foi quando ficaram prontos projetos para uso dos recursos a serem pagos de indenização.

Brumadinho
As famílias das vítimas de Brumadinho não foram incluídas formalmente nas discussões da proposta. Foto: Douglas Magno/ AFP

No último dia 21 de janeiro, o governo de Minas deu as negociações por encerradas, mas informou que aceitaria uma proposta da empresa até 29 de janeiro. Na mesma data, porém, a Justiça deu mais 15 dias para um acordo. No dia 3, o governo anunciou a audiência desta quinta-feira, com a possibilidade de assinatura do termo.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) e o diretor jurídico da Vale, Alexandre Silva D'Ambrosio, assinaram o acordo. Segundo Aras, foi encontrada "uma solução para um grande problema".

Conforme Zema, "não é possível mudar o passado, mas podemos melhorar o futuro". "Acordo é inédito porque foi construído, não foi uma decisão jurídica. Todos foram ouvidos", afirmou. "Estamos usando essa reparação para o povo mineiro, e não para o caixa do Estado".

O valor a ser pago era o entrave para o acerto. A ação do Estado, da qual participam ainda o Ministério Público Federal, o Ministério Público Estadual e a Defensoria Pública, pedia R$ 54 bilhões de indenização. A Vale queria pagar R$ 21 bilhões. O valor subiu e, antes de atingir o patamar fechado nesta quinta-feira estava em R$ 28 bilhões. 

O processo envolve ressarcimento por perdas tributárias, destruição de infraestrutura e danos morais coletivos. Não estão incluídas no processo indenizações pessoais. O governo reclamava que só em relação a tributos a perda com a tragédia foi de R$ 10 bilhões. Projetos para aplicação dos recursos já estão prontos. 

Protesto

O representante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Joceli Andrioli, é contrário ao fechamento do acordo nos termos acertados e afirma que a entidade pretende recorrer. O dirigente defende que o valor a ser pago deveria ser o pedido inicialmente, de R$ 54 bilhões.

Os atingidos, que fizeram manifestação na porta do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) durante a audiência desta quinta, não foram incluídos nas negociações. "Sem a nossa presença o Estado perdeu força nas conversas com a Vale. A empresa só funciona com pressão popular", declarou. Na manifestação foram colocadas faixas contra a empresa. "Vale criminosa: dois anos de impunidade e violação de direitos" e "Vale e Estado fazem acordo injusto e violam direitos dos atingidos", diziam.

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Atingidos fizeram manifestação na porta do Tribunal de Justiça de Minas Gerais durante a audiência desta quinta-feira, 4 Foto: Leonardo Augusto/ESTADÃO

A advogada Ísis Táboas, da coordenação geral da Aedas Paraopeba, que presta serviço de assessoria para atingidos pelo rompimento, tem o mesmo posicionamento do MAB. "Esse acordo desrespeitou os princípios constitucionais de publicidade e transparência e o princípio consagrado internacionalmente da centralidade do sofrimento das vítimas. As vítimas não foram ouvidas e estão aqui, do lado de fora do tribunal, denunciando a sua não participação", disse.

O governo de Minas afirma que dos R$ 37,68 bilhões vai gastar R$ 9,17 bilhões em programas de transferência de renda, R$ 4,7 bilhões em reformas em escolas e postos de saúde ao longo do Paraopeba, rio atingido pela lama que desceu da barragem ao se romper, R$ 6,55 bilhões para saneamento básico nos municípios atingidos, R$ 2,055 bilhões para captação de água para a Grande Belo Horizonte, R$ 4,95 bilhões em estradas e ampliação do metrô da capital, e R$ 4,37 bilhões para melhoria de hospitais e R$ 5,89 bilhões em medidas emergenciais.

Em comunicado, a mineradora disse que a reparação dos danos causados pelo rompimento da barragem em Brumadinho é um compromisso da empresa.

"A Vale está determinada a reparar integralmente e compensar os danos causados pela tragédia de Brumadinho e a contribuir, cada vez mais, para melhoria e desenvolvimento das comunidades em que atuamos.  Confiamos que este acordo global é um passo importante nessa direção.  Sabemos que temos um caminho a percorrer e seguimos firmes em nosso propósito, alinhado com nosso Novo Pacto com a Sociedade", disse o diretor-presidente da Vale, Eduardo Bartolomeo, no comunicado.

"Pela governança estabelecida no acordo, a quitação das obrigações previstas se dará de duas formas: mediante o pagamento dos compromissos, com valores e cronograma definidos para projetos geridos pelo Estado de Minas Gerais e Instituições de Justiça; e mediante a conclusão, pela Vale, de projetos pré-definidos no acordo, que incluem principalmente os projetos de reparação socioambiental", afirmou o Luiz Eduardo Osorio, diretor-executivo de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Comunicação da Vale.

"O compromisso da Vale é promover uma reparação integral dos danos causados pelo rompimento da Barragem B-1. Nesse sentido, o acordo contempla inúmeras medidas de reparação, desde ações para atenuar o sofrimento das pessoas e comunidades, até projetos para fomento econômico da região e melhoria da infraestrutura. Muitas iniciativas continuarão a ser implementadas pela própria Vale, enquanto outras ficarão a cargo do Estado e suas instituições, com recursos providos pela Vale", declarou o diretor especial de Reparação e Desenvolvimento da Vale, Marcelo Klein.

Livraria Cultura fecha mais lojas em São Paulo e em Curitiba, OESP

 Maria Fernanda Rodrigues

04 de fevereiro de 2021 | 15h04

Livraria Cultura fechou suas duas últimas livrarias em shopping na cidade de São Paulo: a do Villa-Lobos e a do Bourbon. Elas encerraram as atividades no domingo, 31. Ne mesma data, a rede de livrarias de Pedro Herz fechou as portas no Shopping Curitiba.

Livraria Cultura no Shopping Bourbon, em SP (Foto: Shopping Bourbon)

Em recuperação judicial desde outubro de 2018 e com um tortuoso caminho (para trás e adiante) – de ameaça de falência, negociação com credores, pedido de mais crédito e mais dívidas- , a empresa, como todas as outras, foi afetada pelo fechamento do comércio como medida para conter o coronavírus. Em entrevista ao PublishNews, Sergio Herz, CEO da livraria, disse que o fechamento está diretamente ligado à mudança do comportamento do leitor brasileiro, que migrou parte importante de suas compras para os ambientes virtuais. O fracasso em renegociar a aluguel também motivou a decisão.

Herz disse ainda que apenas as lojas que tiverem algum retorno financeiro no curto prazo serão mantidas pela rede. E que repensam o formato das lojas.

Também em recuperação judicial e sob ameaça de falência, a Saraiva fechou 36 livrarias durante a pandemia.

 

GLOBAL WITNESS Há, sim, vínculos entre os maiores frigoríficos do Brasil e o desmatamento, FSP

 Global Witness

ONG fundada em 1993 com atuação global em assuntos relacionados a corrupção, direitos humanos e meio ambiente

Na Global Witness, nós tentamos ir além das campanhas publicitárias desonestas que o nosso trabalho lamentavelmente atraí, por expor a destruição do meio ambiente. Porém, algumas vezes, não nos resta outra escolha além de responder a elas. A recente tentativa de Otávio Cançado de descreditar um dos nossos relatórios nas páginas deste jornal é um desses momentos.

No nosso relatório, nós revelamos que, entre 2017 e 2019, no estado do Pará, as gigantes indústrias de carne JBS, Marfrig e Minerva compraram gado de um total de 379 fazendas que continham um equivalente de 20 mil campos de futebol de desmatamento ilegal. Isso em contradição aos acordos legais com promotores federais e compromissos voluntários de não-desmatamento, em vigor desde 2009. O artigo do Sr. Cançado consiste em uma combinação de artifícios estatísticos, distorções da verdade e omissão de fatos-chave. É uma satisfação para nós esclarecer os fatos.

Gado pasta no Parque Nacional da Serra do Pardo, em São Félix do Xingu, no Pará - Rogério Cassimiro/Folhapress

O autor, ex-funcionário da JBS, começou com o apoio aos contra-argumentos dos frigoríficos às nossas denúncias. As empresas negaram que qualquer das 379 fazendas estivessem descumprindo seus compromissos de não desmatamento, criando uma gama de desculpas que encobrem cada uma das propriedades. Estas justificativas são apresentadas, agora, como fatos pelo Sr. Cançado. Ele não mencionou que a Global Witness analisou e contestou as justificativas apresentadas pelas empresas para cada uma das 379 propriedades, publicando análises de cada fazenda em links acessíveis a todos no nosso relatório.

Depois, o autor compara o total de 97.769 fazendas no Pará às 379 propriedades das quais a JBS, Marfrig e Minerva haviam comprado irregularmente. Diante disso, ele presume que a indústria da carne atingiu uma taxa de eficiência de 99.56% ao remover desmatamento das suas cadeias produtivas. Isso seria, certamente, impressionante –se fosse verdade. Porém, conforme reconhecido por ele, nem todas as fazendas no Pará fornecem para as três grandes empresas, que foram o tema principal do nosso relatório. Ele não está tratando de fatos comparáveis.

Ele também não menciona que o nosso relatório revelou que 4.000 fazendas, as quais são fornecedores indiretos das três empresas, continham um valor estimado de 140 mil campos de futebol de desmatamento. Esse fato, ainda mais chocante que o anterior, é completamente ignorado pelo autor.

Nos últimos três anos muitos relatórios conectaram os três frigoríficos ao desmatamento. Os analistas de risco financeiro da organização Chain Reaction Research (CRR) estimaram, de forma conservadora, que, em 2019, a JBS comprou gado de 983 fazendas com mais de 20 mil hectares de desmatamento. Outras 1.874 fazendas, de fornecedores indiretos da JBS, tiveram mais de 50 mil hectares de desmatamento. A Reporter Brasil, o Greenpeace Brasil e a Anistia Internacional fizeram denúncias similares, embora tenham sido negadas ou evitadas, como de costume, pelas companhias.

Existem, ainda, outras táticas que possibilitam que o gado de fazendas desmatadas na Amazônia entrem nas cadeias produtivas das três empresas que o nosso relatório nem chegou a analisar. Por exemplo, fazendas teoricamente legais comercializam gado de fazendas clandestinas. No ano passado, o Greenpeace Brasil alegou que a JBS, a Marfrig e a Minerva fizeram compras de uma fazenda envolvida em lavagem de gado (as empresas alegaram que os casos eram de difícil identificação). O número real de todas as fazendas com desmatamento e que abastecem as três companhias é desconhecido.

Em certo momento, o autor sugere que as Guias de Trânsito Animal (GTA) para o transporte de gado, nas quais o nosso relatório se baseia, não são documentos públicos. Nós solicitamos estudos legais e independentes para verificar se as GTAs são de domínio público ou não. O relatório analisa esta questão em detalhe. De acordo com um precedente judicial do STF (Supremo Tribunal Federal), em um julgamento no qual o Ministro Edson Fachin foi relator, o tribunal concordou que as GTAs são documentos públicos.

Nós estamos cientes de que a JBS, e até o Ministério da Agricultura, contesta essa afirmação. Porém, o Ministério é amplamente considerado um porta-voz do agronegócio e o precedente do STF fala mais alto.

A utilização das GTAs é o primeiro passo de uma luta mais ampla para assegurar o rastreamento de cadeias produtivas de alto risco, uma vez que as três empresas estão sob o constante escrutínio de seus investidores, bancos e compradores, para garantir que não estejam ligados ao desmatamento.

Diferentes das informações da cadeia de fornecedores da JBS, Marfrig e da Minerva, nossos dados estão disponíveis publicamente. Nós defendemos as nossas conclusões, nas quais acreditamos levantar preocupações sérias e alarmantes.

Em tempos em que a destruição da Amazônia é a maior desde 2008, cada ator conectado ao desmatamento deveria estar fazendo o possível para diminuí-lo. Artigos distorcidos e enganosos escritos por membros da indústria não deveriam deixar de ser contestados quando eles têm o simples objetivo de disfarçar o desmatamento em nome de velhos amigos de corporações sedentas por lucros.