segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Terro(tu)ristas

Na Agência, o analista Anyone agradece ao Facebook por ter inventado um sistema tão perfeito: a informação que antes eles tinham de se matar para conseguir agora as pessoas postam felizes, por vontade própria

28 de dezembro de 2013 | 16h 00

Juan Pablo Villalobos
Esta história começa quando A olha uma foto da montanha K2 no Facebook. Usamos A em vez do nome verdadeiro, para respeitar, pelo menos, esse pequeníssimo detalhe de sua privacidade. Com a foto, uma frase: "As montanhas não são justas ou injustas, são simplesmente perigosas".
Alerta! Estaria ocorrendo um complô gay-latino-americano-magrebino? - Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão
Alerta! Estaria ocorrendo um complô gay-latino-americano-magrebino?
Foto e frase foram postadas por B, que, pelo visto, aprecia as montanhas, mas não a propriedade intelectual: ele não diz quem é o autor da frase. Alguns dos seus "amigos" no Facebook, os que não o conhecem na "vida real" poderiam pensar que a frase é de B e que B, na vida real, escalou a K2 e, quando chegou ao pico, foi inspirado por esse pensamento.
Contudo, B é um tipo sedentário, não escalou a K2 nem saiu de sua cidade nos últimos três anos. O que faz soar o alarme em Algum Lugar do Império. E também o fato de A, que gostou muito da foto e da frase, ter feito um clique no "Curtir" do Facebook. Na verdade, ele foi o único a curtir a foto.
Tudo parece tremendamente suspeito. Para começar, porque A e B vivem em cidades diferentes e, segundo os registros armazenados no Sistema em Algum Lugar do Império, há dez anos não se viam. Há três questões gravíssimas que podem resultar numa Ameaça à Segurança Nacional. A Segurança Nacional do Império, claro, a única que importa.
Primeira questão, A e B se conheceram em Porto Alegre (são brasileiros), no Fórum Social Mundial, esse covil de rebeldes de diversas espécies. Segunda, a montanha K2 está localizada na fronteira entre Paquistão, Caxemira e China. Nas chamadas "Áreas do Norte" do Paquistão, Gilgit-Baltistan, um barril de pólvora cercado por montanhas cheias de neve. Aliás, só há duas coisas por ali: turistas e terroristas. O terceiro problema é retórico: o uso da dicotomia justiça/injustiça. A clássica retórica anti-imperialista.
Os alarmes disparam em Algum Lugar do Império. A e B são turistas potenciais ou terroristas reais? Seja qual for a resposta, é urgente fazer alguma coisa. Ou detê-los imediatamente para torturá-los e extrair informações sobre seus planos terroristas ou começar um ataque em massa de propaganda de pacotes de viagem "tudo incluído" à Cordilheira do Himalaia.
Quem vai decidir? Um analista do Sistema, que chamaremos de Anyone. A e B são latino-americanos e isso deixa Anyone na defensiva: ele conhece muito bem o rancor terceiro-mundista acumulado nesses países. Um rancor que tem como alvo os mesmos países visados pelos terroristas. Anyone é especialista em rancores latino-americanos, por isso o alerta foi passado a ele e não a outro dos milhares de Anyones que administram o Sistema. É a pessoa perfeita para o caso: não pode esquecer quando, no 11 de Setembro, estudante de intercâmbio num país da América Latina, viu as Torres Gêmeas tombarem entre as risadas e aplausos de muitos estudantes universitários. A aliança do rancor entre a América Latina e os terroristas lhe parece perfeitamente possível. E mais: está esperando por ela há anos. Assim, Anyone suspende o que estava fazendo (seguindo a pista de uma jovem na Guatemala que tem visitado, obsessivamente, websites de artesanato nepalês, um deles pertencente a uma ONG financiada por um obscuro emir do Catar, e o de um ancião na Venezuela. Oh! Venezuela! E ela ainda tuitou uma frase de Yasser Arafat de 1963). Ele começa a nova investigação.
Não foram trocados e-mails entre A e B. A usa o Twitter, B não. B usa o Google +, A, não. O rastreamento do restante dos subsistemas (YouTube, Flickr, Instagram, Candy Crush, Match, Ashley Madison, etc.) não informa nada interessante. No momento, o único vínculo entre ambos é o Facebook. Anyone volta a pensar, e pensa nisso sempre, que o Sistema não conseguiu inventar nada mais perfeito que o subsistema do Facebook: a informação que antes tinham que se matar para conseguir agora as pessoas postam felizes, pela própria vontade.
Anyone constrói o perfil de A com o método multiplataformas, ou seja, com informações obtidas em todos os subsistemas: A tem 31 anos, é mestiço, heterossexual, casado, um filho de 2 anos, formado em comunicação, trabalha em uma agência de publicidade. E seguem todos os dados de contato, marcas favoritas de chocolate e de xampu, etc.
O perfil de B: 32 anos, branco, homossexual (alerta!), solteiro, sem filhos, formado em jornalismo, doutor em antropologia social (alerta!) viveu cinco anos em cidades diferentes de dois continentes (alerta!), trabalha como freelancer para diferentes revistas e jornais (alerta!), etc.
A e B são amigos do Facebook há apenas 11 meses. Por quê? Por que retomaram o contato agora, se se conhecem há dez anos? Isso sim é interessante: se algo deve ocorrer, algum plano do qual participam, esse plano está em curso. Vejamos. Amigos em comum... Bingo! Entra em cena W. H., um tunisiano que vive... no México! Numa cidade da fronteira! Mas que diabos faz um tunisiano no México? Quantos tunisianos há no México? Quantos tunisianos podem estar no México por razões normais?
Anyone envia o alarme para o nível seguinte. Um tunisiano que vive na fronteira do México conectado com brasileiros "interessados" no Paquistão é algo que ultrapassa suas funções. Mas não vamos deixar de lado uma informação importantíssima: Anyone acaba de ser premiado por localizar um caso com coincidências suficientes para ser passado para o nível seguinte.
O alerta chega então a outro analista, mais qualificado. Digamos que se chame Somebody.
Humm... A análise do mural no Facebook de W. H. revela que ele teve uma atitude ambivalente com relação à Primavera Árabe. Às vezes estava a favor, às vezes contra, de vez em quando se mostrava moderado, ou então conservador; outras vezes, radical... Parecia querer aparentar ser uma pessoa normal! Terrivelmente suspeito. E o que foi fazer no México? Ah! W. H. queria viver em liberdade sua preferência sexual (tem um namorado mexicano que conheceu na Europa).
A grande pergunta é: onde A, B e W. H. se conheceram?
Somebody inicia o programa que cruza informações de geolocalização histórica. Eureka! Be W. H. fizeram juntos o seminário "Memória e Holocausto" na Universidade Autônoma de Barcelona há sete anos. Somebody se pergunta se isso justificaria convocar seu contato no Mossad, serviço secreto israelense (uma maneira de ganhar um dinheirinho extra, mas ninguém precisa saber).
Aparentemente, A e W. H. não se conhecem pessoalmente e são amigos no Facebook por intermédio de B, o amigo comum.
Pois bem, quem é W. H.? Somebody lê o perfil preparado por Anyone: 29 anos, magrebino (alerta!) homossexual (alerta!), etc. W. H. esteve no Paquistão há um ano.
Será um complô gay-terrorista-latino-americano-magrebino?
Esse assunto não se insere na área de Somebody, pois a confluência de mais de duas marginalidades como origem de uma conspiração é uma questão de alto nível. O caso terá de ser enviado para uma esfera superior, onde outro analista, digamos... Someone, será o responsável.
Somebody, claro, acaba de ganhar também uma bonificação (paga, adivinhem, com o dinheiro dos contribuintes).
Quando Someone recebe o dossiê, os acontecimentos se precipitam: agora é A que posta no Facebook a foto de uma montanha no Paquistão. Dessa vez ela não está acompanhada de uma frase, somente a imagem da montanha com neve. Bonita, não? Someone espera, com os nervos à flor da pele, um sinal para interpretar o significado dessa atividade. Não precisa esperar muito: B clica em "Curtir" e, 20 minutos depois, W. H. clica também!
Someone monta uma pasta com todas as informações, comprime-a, codifica e a envia ao diretor do Sistema, que a envia imediatamente ao diretor da Agência, o Secretário da Defesa. No dia seguinte ela chega às mãos do Presidente do Império.
Há uma agitação sobrenatural, como se tivesse aparecido um fantasma, não o fantasma do comunismo, mas a temida aliança do rancor terceiro-mundista latino-americano com o terrorismo árabe e a vingança de gênero! Os criptógrafos não descansam até desentranhar o malévolo plano oculto atrás desse jogo complicadíssimo de postar fotos e "curtir".
O Secretário da Defesa não tem dúvida quanto ao que é preciso fazer e o Presidente o apoia: enviar de imediato três drones para sobrevoar as cabeças dos terroristas, três drones que seguem o sinal de GPS dos iPhones dos três desgraçados.
Agora tudo depende do Presidente do Império: uma ordem sua e A, B e W. H serão liquidados.
O Presidente do Império pensa nas consequências diplomáticas. Não gostaria de ter de usar seus queridos drones em países amigos. Como ele gosta de seus drones! Quanta afeição tem pelos bichinhos voadores! Mas nesse caso a dúvida persiste: que incômodo vai ser para a presidenta brasileira! E faria tudo para não ter de falar por telefone com o presidente mexicano, que o deixa tão nervoso com seu blá-blá-blá incompreensível!
Senhor Presidente, temos uma janela de cinco minutos, diz o Secretário da Defesa como se fosse um ator de Homeland.
Alto!, grita outro Someone, alto! Observamos uma atividade significativa na rede: B acaba de entrar na internet, no website de uma agência de turismo especializada em viagens ao Himalaia. O Facebook anuncia que B está navegando ali e A o contatou imediatamente pelo bate-papo: "Está pretendendo ir? Eu também! Estou economizando há anos". W. H. posta uma mensagem no mural de B: "Fui no ano passado, não perca essa oportunidade".
Não eram terroristas, eram turistas!
O Presidente ordena que os drones voltem para casa (ele sente falta de seus pequeninos). O Secretário da Defesa olha para o diretor da Agência como se acabassem de ter um coitus interruptus.
Antes de sair da sala de comando, o Presidente quer saber em que estado está o PUIIFC (Protocolo de Uso de Informação Irrelevante com Fins Comerciais). Cem por cento em andamento, senhor Presidente, responde o diretor do Sistema. Prove que é verdade, retruca o Presidente, não perca de vista esses indivíduos. O Presidente faz menção de sair, mas retorna e acrescenta: não gosto desse tunisiano no México, pobrezinho! Se quer realmente viver em liberdade, tragam-no para cá. Como queira, senhor Presidente, responde o Diretor da Agência.
Para sua surpresa e deleite, nos dias seguintes A e B começam a ver banners por toda a internet com ótimas ofertas para viajar ao Himalaia. Recebem e-mails personalizados de agências de viagens e empresas aéreas. O banco os avisa que ampliou o limite de seus cartões de crédito.
Semanas depois, A e B partem de férias para o Paquistão (férias felizes, vigiados em segredo por agentes do Mossad).
W. H. recebe uma oferta de trabalho em São Francisco.
Anyone, Somebody e Someone cobram suas bonificações.
O orçamento do Sistema, da Agência e da Secretaria da Defesa aumenta graças aos magníficos resultados do PUIIFC.
O Presidente ordena a compra de mais drones (um para entregar pizza na Casa Presidencial).
E todos foram felizes para sempre.
JUAN PABLO VILLALOBOS, ESCRITOR MEXICANO, É AUTOR DE FESTA NO COVIL E SE VIVÊSSEMOS EM UM LUGAR NORMAL (COMPANHIA DAS LETRAS)

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
 

Os sans-culottes de De Gaulle

Rebeliões buscam preencher o vazio provocado pela inflexível Constituição do general francês

28 de dezembro de 2013 | 16h 00

Gilles Lapouge
Franceses são tradicionalistas - e um de seus rituais favoritos é a manifestação. De tempos em tempos eles invadem as ruas, agitam bandeiras e chamam os ministros de idiotas. É o que vêm fazendo há alguns meses.
Já na Idade Média os camponeses pegavam seus forcados e saíam às ruas para atemorizar seus senhores. Mais tarde os forcados foram substituídos por lanças. E, na ponta das lanças, as cabeças de aristocratas. Foi o que fizeram em julho de 1789: a Revolução Francesa começava.
Não há mais lanças nem cabeças de aristocratas, mas há um ano os acessos de cólera tomaram as ruas. O mais violento, que abriu o baile dos descontentes, foi o dos adversários do casamento homossexual autorizado pelo poder socialista.
Apesar de o governo não ter voltado atrás, a campanha contra o "casamento para todos" foi um sucesso. Durante meses as ruas das cidades foram tomadas por milhões de indignados que rejeitavam o casamento homossexual e a procriação assistida. Manifestações inusitadas. Em geral quem se manifesta nas ruas é a esquerda, os proletários, os comunistas, os sindicalistas. No caso do "casamento para todos", foi a direita - a extrema direita, bem entendido, mas também a direita moderada, as famílias tradicionais, a burguesia, os cristãos e até alguns socialistas moralistas. A revolta política bebia na fonte da revolta moral.
A direita não tem muita experiência de rua. Ela é uma especialidade da esquerda, que é diplomada na matéria. Suas palavras de ordem são claras, ditadas por verdadeiros profissionais, os sindicatos, com apoio policial, disciplina, slogans, palavras de ordem, cerveja, grandes sanduíches, etc.
A direita, pois, teve de aprender rapidamente a profissão de agitadora. No início estava desordenada e tímida. Depois tomou gosto. A cada oportunidade saca suas trombetas e atrai uma enorme multidão. O sucesso levou outras categorias sociais a se lançarem na briga. E há um ano as revoltas têm prosperado maravilhosamente.
Um movimento de sucesso foi o dos "gorros vermelhos", que irrompeu na Bretanha. O pretexto? O poder socialista planejava cobrar uma "ecotaxa", que aliás foi idealizada pelo governo de Sarkozy e cujo princípio era um imposto cobrado dos caminhoneiros contra a poluição dos caminhões.
Os agricultores da Bretanha ficaram furiosos, sentindo-se lesados por esse novo imposto. A Bretanha fica distante dos grandes circuitos e necessita do transporte rodoviário para escoar sua produção de frangos e porcos. A revolta rapidamente extrapolou em termos de reivindicação e os "gorros vermelhos" passaram a protestar contra todas as injustiças sociais e econômicas das quais a região se sente vítima.
A maioria dos jornais nos explicou que, à época da Revolução Francesa, os bretões que se revoltaram contra os parisienses eram reconhecidos pelo seus gorros vermelhos. Na verdade, trata-se de um erro crasso. Os jornalistas franceses adoram a história, mas a conhecem mal. Os camponeses bretões que, eles sim, conhecem verdadeiramente sua história, fizeram a retificação: a "revolta dos gorros vermelhos" não ocorreu em 1789, durante a Revolução Francesa, mas em 1675, quando os bretões se rebelaram contra o ministro do rei Luís XIV, Colbert, um sujeito muito eficiente, azedo e de péssimo humor que quis impor o uso de papel timbrado nas transações. Um erro de mais de um século, mas nada grave... O gorro vermelho deu resultado.
Compreendemos assim que um movimento fora do contexto político normal (direita contra esquerda) e das organizações poderosas (partidos políticos, sindicatos, etc.) precisa, para não desaparecer, encontrar um nome relevante. Como os ciclones, batizados de Chantal, Gabrielle, Melissa; ou as campanhas militares das quais a intimidação faz parte: Operação Chumbo Derretido, Tempestade no Deserto.
Eis porque, há alguns meses, todos os enfurecidos buscam nomes bonitos para suas revoltas. E, como a França é uma nação de agricultores, embora seja uma classe em desaparecimento, os nomes escolhidos habitualmente têm sido de animais de fazenda.
No final de setembro de 2012 vimos a eclosão dos pigeons (pombos), pequenos empresários do setor de tecnologia que protestaram contra a decisão do governo de aumentar de 32% para 60% a taxa sobre os ganhos de capital de investidores e empreendedores. Hollande recuou. Em maio de 2013, os poussins (pintinhos) entraram em cena. Rejeitavam a reforma do estatuto dos empreendedores autônomos. O poder socialista disse que iria pensar a respeito.
No meio do ano chegaram os tondus (tosquiados), em greve contra o pagamento dos encargos sociais que estrangulam pequenos empresários. No final de agosto, os plumés (depenados) se uniram numa associação de patrões exasperados com as minúcias dos controles administrativos.
O termo plumé coincide, por acaso, com uma reflexão feita no século 17 pelo mesmo Colbert, ministro de Luís XIV, que explicou a arte do imposto: "Trata-se de depenar o ganso de maneira a obter o máximo possível de penas com o mínimo de gritos".
Devemos reconhecer que Hollande não tem talento para depenar o ganso. Basta criar um imposto e a França inteira cacareja, bale, urra, grunhe, grasna, arrulha, ladra. As cicognes (cegonhas - parteiras) se juntaram para exigir modificações do seu estatuto; os dindons (perus) eram os pais hostis às mudanças de horário das escolas.
Recentemente, os revoltados perceberam que o filão animais de fazenda começou a se esgotar. Por exemplo, um protesto dos moutons (carneiros) foi um fracasso. Decidiu-se então voltar às cores: vieram os bonnets bleus (gorros azuis), os policiais descontentes; o vert (verde), que reuniu os insatisfeitos com o transporte público; o noir (negro), os grupos contrários à reintrodução de lobos nas florestas da França.
No início de dezembro uma nova revolta agitou os clubes hípicos contra o aumento do IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Os birrentos poderiam se chamar simplesmente "pôneis em cólera", mas preferiram também adotar uma cor, o laranja.
A última tendência abriu um novo campo léxico. Em 9 de dezembro os profissionais liberais denunciaram os impostos escorchantes que lhes são cobrados. E se deram um nome: les asphyxiés (os asfixiados). Outro movimento nasceu no dia seguinte sob o nome de les étouffés (os sufocados). Confesso que não sei o que os sufoca.
Se é o caso de apontar o responsável pelas desordens, eu citaria, além de Hollande, dos patrões, dos camponeses bretões ou dos pôneis mal-humorados, o verdadeiro guru: o general de Gaulle.
Charles de Gaulle chegou ao poder em 1958. Logo em seguida colocou em votação uma nova Constituição, que ainda rege o país. E essa Constituição é uma fortaleza. Tudo é dirigido pelo presidente da república, eleito por sufrágio universal, que nomeia seu premiê e demais ministros e não pode ser destituído (salvo em casos raros). Portanto, Hollande governará tranquilamente até o fim do mandato (2017), não importando seus méritos ou deficiências, por mais furor que isso possa provocar.
Antes do general De Gaulle, se um primeiro-ministro fosse considerado irracional, um voto do Parlamento o destituía rapidamente e outro era eleito pelos deputados. Claro que esse procedimento punha em risco a autoridade do Estado, mas dava à república a flexibilidade que a Constituição de De Gaulle tornou impossível.
Eis por que os insatisfeitos, cientes de que conviverão com Hollande por mais três anos, sem esperança de derrubá-lo, escolheram a ação direta e a todo momento criam pombos, asfixiados, gorros vermelhos ou pretos, para realizar nas ruas um exercício político que a Constituição baniu do seu ambiente normal, o Parlamento, com sua Câmara de Deputados e Senado.
Uma expressão popular diz que nas manifestações de rua o cidadão "vota com os pés". É exato. Mas sem dúvida seria melhor votar com o cérebro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

Quer apostar? Não lido

Juliana Sayuri
2013 passou nas ruas como "nunca antes na história deste País", quer dizer, desde o "Fora Collor" de 1992. No eixo Rio-São Paulo, nos poderes de Brasília, no asfalto e na terra, no fora do eixo das cidades rebeldes, foram hasteados milhares de cartazes com as mais diversas causas. E se não era só por R$ 0,20, passadas as jornadas de junho, o que restou?
Capital total. Diante das contradições do sistema, inexplicável é não haver mais revolta - Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão
Capital total. Diante das contradições do sistema, inexplicável é não haver mais revolta
"Os R$ 0,20 foram a faísca. Mas, como vimos, a pólvora estava bem seca, pois as chamas se alastraram rapidamente. O movimento explodiu quando as pessoas deixaram de ficar só no Twitter e Facebook, saíram do sofá e foram para a rua. Eram só R$ 0,20? Sim, mas que simbolizavam algo muito maior: um sentimento de injustiça social, de insatisfação com os rumos administrativos das cidades, de indignação", diz o sociólogo paulistano Michael Löwy, radicado em Paris desde 1969.
Para Löwy, indignação é a melhor palavra para definir o espírito do nosso tempo. Diretor emérito do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e organizador de Revoluções (Boitempo, 2009) e O Capitalismo como Religião (Boitempo, 2013), Löwy costura Benjamin, Hessel e Weber, indignados e zapatistas, MPL e MST, para discutir esses tempos fraturados. Marxista insubordinado, como dizem As Utopias de Michael Löwy, o sociólogo concedeu esta entrevista exclusiva ao Aliás durante sua temporada no Brasil

Prof. Löwy, conversamos pela primeira vez após a ruidosa reintegração de posse da reitoria da USP (O Transbordo do Copo de Cólera, 13/11/2011). Lembro de uma expressão do sr. na época: seria uma ‘faísca’ o clamor dos estudantes contra a presença policial no câmpus. ‘Mas o que se passa é muito maior que isso. Há uma indignação com a ordem das coisas no mundo. Um sentimento de cólera.’ Nos reencontramos agora e pergunto: os R$ 0,20 também foram uma ‘faísca’?

Moro em Paris. Portanto, não acompanhei o princípio das jornadas de junho in loco. Desembarquei no Brasil em outubro - e ainda havia uma agitação no ar, protestos nas periferias de São Paulo e principalmente professores nas ruas do Rio. Eram novos capítulos desse longo junho. Assim, diria o seguinte: sim, os R$ 0,20 foram a faísca. Mas, como vimos, a pólvora estava seca, pois as chamas se alastraram rapidamente. O movimento explodiu quando as pessoas deixaram de ficar só no Twitter e no Facebook, saíram do sofá e foram para a rua, essa coisa antiga. Foi isso que provocou o terremoto. Eram só R$ 0,20? Sim, mas que simbolizavam algo muito maior: um sentimento profundo de injustiça social, de insatisfação com os rumos administrativos das cidades, de indignação com a ordem das coisas no mundo. Ao mesmo tempo, por trás dessa faísca imediata havia uma ideia mediata ainda maior: o próprio passe livre. À primeira vista, o movimento foca questões estruturais: o transporte coletivo deve ser público e gratuito, isto é, não deve ser um negócio. A ideia de gratuidade está na contracorrente da ideologia neoliberal, para a qual tudo é mercadoria. É simplesmente insuportável para a doxa dominante imaginar uma cidade em que os cidadãos não paguem para se deslocar diariamente. Além disso, a ideia de passe livre tem uma dimensão ecológica, pois ao organizar e privilegiar o transporte coletivo, organizar e garantir mais espaço para pedestres e ciclistas, seria possível reduzir progressivamente a frota de automóveis - e o verdadeiro pesadelo para São Paulo é esse excesso de carros, responsável por atravancar o trânsito e poluir o ar. No fundo, a demanda do passe livre, simples à primeira vista, carrega uma proposta complexa: outro mundo, outra realidade possível. Esses estudantes ousaram imaginar outra maneira de viver. Foi muito importante as jornadas de junho terem partido daí. No entanto, após a repressão brutal da polícia, nos governos de São Paulo e Rio, outros setores da sociedade foram às ruas também. Positivo, pois traz uma mensagem: não aceitaremos essa violência da PM nas manifestações pacíficas. Depois vieram black blocs e vândalos, mas isso é outra história. À medida que as manifestações explodiam, as ideias se diluíam. Após os governos recuarem no aumento da tarifa, ficou difícil de responder: quem é o inimigo agora? Começaram a pipocar questões, muitas justas, mas diversas: o dinheiro esbanjado nos estádios da Copa, a precariedade nos campos da saúde e da educação, os políticos corruptos, e assim por diante. Grupos de direita se infiltraram nos protestos, ao lado talvez dos grupos de esquerda. Com quem estavam, afinal? E contra quem? A certo ponto, virou confusão. Depois, a chama arrefeceu. No fim, ficaram duas ideias emancipadoras. Primeiro, a importância do serviço público para a sociedade. Segundo, se quiser seus direitos, o povo precisa ir às ruas.
Fiz essa pergunta ao historiador britânico Perry Anderson, seu amigo (A Rua e o Poder, 3/12/2013): nos últimos tempos, vimos o Occupy Wall Street, os indignados espanhóis e outros movimentos contra o capitalismo. A mensagem é similar: outro mundo é possível. Por que esses movimentos explodem, expõem as contradições do sistema e depois desaparecem? Aliás, desaparecem? Por que não podem ‘mudar o mundo’?
Infelizmente, não há resposta pronta. Mas digamos o seguinte: esses movimentos realmente se tornaram um fenômeno mundial. Passaram por Espanha, Grécia, Portugal, Turquia, Chile, Brasil e os "Occupies" presentes em diversos países. Essa ascensão está relacionada à crise financeira, mas principalmente às injustiças gritantes do neoliberalismo. É formidável assistir a esse sentimento de revolta na sociedade civil, principalmente na juventude, tomar corpo nas ruas. Inexplicável? Não, muito razoável: o mundo está passando por um momento de turbulência. Inexplicável é não haver ainda mais revolta: por que não há mais indignados noutros países? Estamos vivendo a mais dramática crise financeira desde 1929. Essa crise mostra a profunda irracionalidade do sistema: faltam recursos para resolver as questões mais elementares da população, mas há bilhões de euros disponíveis para salvar os bancos. Nesse sistema, os responsáveis econômicos e políticos só agravam a crise, com as políticas de austeridade, numa espiral sem fim, que faz com que economistas como Paul Krugman digam: mas é absurdo, como isso é possível? Bom, essa é a lógica irracional do sistema capitalista. As decisões são tomadas no mercado, no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia - e os governos se curvam, obedecendo a essas decisões, nos ministérios e nos Parlamentos, com consequências terríveis para os cidadãos, como o desemprego massivo, na casa dos 60% entre os jovens gregos. Assim, há pouquíssima diferença entre governos de centro-esquerda e centro-direita. Às vezes paira a impressão de que a crise é um pretexto da classe dominante para desmantelar o que sobrou do welfare state, uma das conquistas do movimento operário no pós-guerra. Não sabemos aonde isso levará. Alguns de meus amigos marxistas acreditam que essa é a crise "final" do capitalismo, vítima de suas próprias contradições. Não concordo. Fico com Walter Benjamin, que dizia: o capitalismo nunca morrerá de morte natural. Apesar das crises, o sistema encontra saídas, como encontrou na década de 1930: uns com o fascismo; outros com a 2ª Guerra Mundial.
O último livro organizado pelo sr. reúne ensaios de Walter Benjamin. O que mais nos diria o filósofo alemão?
O Capitalismo como Religião é um fragmento escrito em 1921, com três ou quatro páginas. Foi encontrado na Escola de Frankfurt anos mais tarde. Era, na realidade, um rascunho, destinado a um só leitor: o próprio Benjamin. Apesar de hermético, é um texto incrivelmente instigante e atual. Walter Benjamin parte de Max Weber, que dizia que o capitalismo tem suas origens numa religião, com a ética protestante do trabalho. Mas Benjamin diz que o próprio capitalismo é uma religião, sem dogmas nem teologia, mas com cultos. As práticas capitalistas seriam uma espécie de ritual religioso ininterrupto de adoração ao dinheiro, ao ouro e ao invisível capital nos movimentos especulativos, nos investimentos, nos jogos nas bolsas. É capitalismo total, sem trégua e sem piedade - na expressão francesa sans trêve et sans merci -, impermeável a interferências da ética e valores outros. Não é "maldade", o sistema simplesmente é assim. Há nessa religião capitalista a ideia de schuld, uma palavra alemã que significa ao mesmo tempo "culpa" e "dívida". Essa coincidência é diabólica: somos culpados se estamos endividados. Na Europa, o discurso dominante do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia diz que os países endividados são culpados pela crise - uns preguiçosos, esbanjam e não trabalham, isto é, uma culpabilização moralista dos povos. E a mídia designa esses países como pigs - iniciais de Portugal, Itália, Grécia, Espanha, uns porcos. Assim, Benjamin diz, a religião capitalista nos leva à "casa do desespero". Não é isso que vemos agora? Uma onda de suicídios, principalmente na Grécia e na Espanha. Mas o desespero também pode nos levar à raiva. Ou ao que os zapatistas chamavam de "digna raiva", isto é, a indignação. Aí as pessoas vão às ruas para extravasar esse sentimento, manifestar sua indignação. Ainda mais atual se lembrarmos de Stéphane Hessel, escritor e herói da resistência francesa, que já velhinho escreveu Indignai-vos. Esse pequeno livro traduz o zeitgeist, nosso espírito da época. Foi publicado em diversos países, como um chamado aos jovens para se indignar contra a injustiça - daí nossos indignados. Em sua juventude, Hessel foi amigo de Benjamin. Interessante que justamente um amigo do autor tenha dado essa "palavra de ordem" para uma alternativa ao desespero. Isso é extremamente positivo, pois sem indignação não há história. Nenhum movimento revolucionário aconteceu sem esse sentimento. Mas, apesar de ser uma condição necessária para qualquer transformação, a indignação não basta. É preciso passar para outro momento e propor alternativas.
Que alternativas?
Dentro dos movimentos dos indignados já estão surgindo propostas por alternativas. Mas falta encontrar uma expressão política, pois é no campo político que se decidirá aonde vão esses países. Essa é a parte difícil - não por culpa dos indignados, mas porque as forças políticas existentes não estão à altura dos impasses e das expectativas da sociedade. Na Espanha, o partido socialista não difere muito dos conservadores, enquanto a ala radical da Izquierda Unida ainda está muito engessada numa visão tradicional da política. Assim, falta sensibilidade para essa onda de protestos por uma política mais democrática, libertária e participativa. Há um descompasso entre os indignados e as organizações políticas presentes, mesmo as mais à esquerda. Exceto na Grécia, onde os indignados encontraram uma expressão política na chamada Syriza, a coalização de esquerda radical, com linhas do trotskismo e presença dos movimentos sociais. Foram os únicos que se solidarizaram com os protestos. Nas últimas eleições, eles saltaram dos 5% para os 28%.
A ideia de promover mudanças necessariamente passa pelo Estado?

A questão é complicada. Evidentemente uma série de alternativas e transformações sociais são impostas, na prática, pelos movimentos, paralelamente aos Estados. No Brasil, o MST não esperou que viessem as medidas da reforma agrária, mas começou a ocupar e cultivar as terras. É verdade que as iniciativas podem e devem vir da sociedade civil e dos próprios movimentos sociais - como a economia solidária como alternativa para a pobreza e o desemprego. Portanto, não é preciso esperar por tudo. Mas há limites, pois quem predomina é o capital. Em última análise, é preciso haver um enfrentamento antissistêmico que passe pelo campo político, pelas instituições. Obviamente essas instituições precisam ser transformadas. Ainda são totalmente oligárquicas e alheias aos interesses e aspirações da sociedade. O Estado, tal como está, dificilmente pode impulsionar transformações. Assim, a revolução deve ser estar no nosso horizonte histórico, mas isso não nos impede de lutar por reivindicações concretas e imediatas no presente.
As definições de ‘direita’ e ‘esquerda’ ainda valem atualmente?

Sim. É verdade que as diferenças entre centro-esquerda e centro-direita se reduziram muito. Ainda assim, há diferenças. Na França, o governo socialista de François Hollande é quase um "extremo centro". Quem encarna os ideias da esquerda atualmente é a esquerda radical. Na época da Revolução Francesa, a ala direita defendia o direito divino do rei, enquanto a esquerda defendia a soberania popular. Atualmente, a direita defende o direito divino dos banqueiros e da oligarquia financeira, enquanto a esquerda defende a soberania popular e o direito de decidir sobre a economia, a distribuição da renda e do consumo. No fundo, socialismo é isso, a democratização da economia. Logo, os princípios de esquerda e direita continuam valendo. Isso vale para a Europa e para a América Latina também.
Após décadas de neoliberalismo, vimos ‘novos’ governos na América Latina - Chávez na Venezuela, Kirchner na Argentina, Lula no Brasil. Nomes da esquerda também foram eleitos na Bolívia, Equador e Uruguai. Olhando para trás, as expectativas sobre esses governos eram muito altas?
De fato, aconteceu uma virada à esquerda na política latino-americana nos últimos 10, 15 anos, resultante de uma indignação popular com as diretrizes neoliberais que predominaram após as ditaduras. Isso mudou o retrato político da América Latina. Mas eu distinguiria dois tipos entre esses governos. Primeiro, um governo social-liberal, que não rompe com o padrão do neoliberalismo, mas demonstra uma preocupação social traduzida em diversas medidas. É o caso do Brasil, do Chile com Michele Bachelet (que voltou agora) e do Uruguai com Tabaré Vázquez e agora Pepe Mujica. É uma mudança positiva, certamente, mas na fórmula: fazer tudo o que é possível em favor dos pobres, com a condição de não mexer com os interesses dos ricos. Segundo, um governo anti-imperialista. É a Bolívia com Evo Morales, o Equador com Rafael Correa e a Venezuela com Hugo Chávez e agora Nicolás Maduro. Esses governos tentam romper com o modelo neoliberal - e peitaram uma briga dura para isso. Fizeram medidas mais avançadas, como a nacionalização dos recursos naturais e a preservação das culturas indígenas. Esses governos impuseram como seu horizonte histórico o socialismo do século 21. Nenhum deles ainda realizou esse socialismo, mas essas iniciativas mostram que ainda é possível ensaiar alternativas.
O socialismo no século 21 é possível? Também se tornaria uma religião?

O socialismo é uma herança preciosa, de séculos de luta. Ao mesmo tempo, há uma crítica das formas predominantes do socialismo no século 20, desastrosas, que polarizaram a social-democracia de um lado e o comunismo stalinista de outro. É preciso pensar um novo socialismo, democrático, ecológico, libertário, disposto a aprender com os movimentos sociais - e não pensar que as respostas do mundo estão apenas nos escritos de Marx, Lenin, Trotsky. Se o socialismo se tornaria uma religião? Não sei. Mas o socialismo tem uma dimensão de fé secular. Lucien Goldmann, um marxista ateu, se debruçou sobre isso. Dizia: não pode haver socialismo sem uma adesão a valores de justiça. É uma aposta numa possibilidade histórica. Goldmann lembra a aposta de Pascal: não podemos provar a existência de Deus, só podemos apostar. Com o socialismo seria a mesma coisa. Mariategui, um marxista latino-americano, dizia que há uma dimensão religiosa no socialismo, no sentido humanista e não transcendental. Entretanto, o que se deve evitar é a transformação do socialismo em igreja, com poder institucional, perseguição dos hereges, dogmatismo. Isso aconteceu com o stalinismo, o comunismo se tornou igreja inquisitorial.
Como o sr. responde a quem critica o marxismo como o ‘ópio dos intelectuais’?
(Risos). É verdade que certas formas de marxismo acabam se tornando um ópio, uma espécie de compensação imaginária para a realidade. Há formas alienadas de marxismo, sobretudo nas mais dogmáticas, como o stalinismo. Mas não são as únicas formas possíveis. Por exemplo, o que Perry Anderson indica como marxismo ocidental, como Benjamin, Gramsci, Lukács e a Escola de Frankfurt. É o bom marxismo crítico, dialético, subversivo. Não é ópio. É um sinal de alarme, um aviso de incêndio para despertar as pessoas.
Qual é o papel dos intelectuais?
Os intelectuais têm várias responsabilidades. Uma delas é transmitir a herança do pensamento crítico e revolucionário. Valorizar a herança de Marx, Gramsci, Benjamin, autores do século passado, mas extremamente atuais. Não dá para formular novas propostas sem lembrar dessas teorias. Por outro lado, o intelectual não pode se limitar a comentar os textos clássicos. Esses textos nos dão ideias e pistas, mas não respostas. Há situações novas e, para enfrentá-las, é preciso analisar essas questões. Terceiro, é preciso aprender com os movimentos sociais - os estudantis, os feministas, os indígenas, os negros, o MPL. Afinal, intelectual que não aprende não está cumprindo seu papel emancipador.
Que podemos esperar para 2014?
Nós, historiadores e sociólogos, temos muita dificuldade para entender o passado, mais ainda o presente. Agora, prever o futuro... Francamente não acredito. As revoluções sempre acontecem de maneira imprevista, lá onde não se espera. Na Venezuela, ninguém imaginava que o movimento seria iniciativa de militares, de um general Chávez. Ninguém previa a Primavera Árabe, uma fantástica onda de revoltas que derrubou ditaduras enferrujadas e agora enfrenta suas contradições. Ninguém esperava pelas jornadas de junho. O que podemos fazer é esperar e apostar. Vivemos nessa aposta do que esperamos que aconteça. Ainda bem. Se o futuro fosse previsível, o mundo seria muito chato.


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