segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

1964 - O último dia de Jango

29/12/2013 - 03h00


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RIO DE JANEIRO - Lá pelas 10 horas da manhã, sentindo que nada mais tinha a fazer no Rio, João Goulart partiu para Brasília. Lá chegando, descobriu que também não tinha mais governo. Houve apelos à resistência, mas preferiu embarcar para Porto Alegre, onde foi recebido por alguns soldados que lhe prestaram a guarda regulamentar. Reuniu-se com Brizola, que desejava a resistência a qualquer preço, bastava uma palavra de Jango e o movimento militar se transformaria realmente em guerra civil.
Mas ele era homem pacífico e derrotado. Se resistisse, poderia retornar ao poder na crista de uma revolução. Sua índole não era guerreira, governava com tédio, nostálgico de seus campos e de suas invernadas. Cumprira o seu papel dentro das possibilidades de um homem introvertido, inseguro, levado pelos acontecimentos.
Ao contato com as massas, ele se transformava, tinha no sangue o carisma do caudilho de fronteira. Fizera o impossível para se manter no poder, não faria o absurdo. No dia seguinte partiria para o Uruguai, num comprido exílio que devastou seu rosto, tornando-o vincado, sofrido, velho.
O aspecto negativo de seu governo prevalecerá, mas os historiadores já começam a suspeitar que ele foi deposto mais pelas suas qualidades do que por seus defeitos. Não teve comando para domar assessores mais radicais. Criou a Eletrobrás que Getúlio Vargas arrolou na carta-testamento como uma empresa "obstaculizada até ao desespero".
Iniciou os estudos para a construção de uma gigantesca usina, aproveitando o potencial do rio Paraná, e Itaipu forneceria os 12 milhões de kW necessários ao progresso do país. Embrulhado em tantos problemas de ordem institucional e em suas próprias contradições de classe, faria mais se a pressa das esquerdas em aproveitar o vento da história não o tivesse escolhido para um papel que ele dispensava e, no fundo, desprezava.
carlos heitor cony
Carlos Heitor Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 2000. Sua carreira no jornalismo começou em 1952 no "Jornal do Brasil". É autor de 15 romances e diversas adaptações de clássicos.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Contas abertas ( Serbin no Aliás, a partir de depoimento à CEVRP

O 50º aniversário do golpe de 64 pode ser divisor de águas na apuração dos crimes

29 de dezembro de 2013 | 2h 07

Kenneth Serbin* - O Estado de S.Paulo
Enquanto em 2012 teve início no Brasil uma campanha de escrachos - denúncias populares contra ex-agentes da ditadura visando a pressionar a presidente Dilma Rousseff a instalar a Comissão Nacional da Verdade (CNV) -, em 2013 o País finalmente intensificou os esforços para uma prestação de contas mais completa do aparato repressivo, autor dos abusos contra os direitos humanos no período 1964-1985.
Valendo. Para promotoria, crimes atribuídos a Ustra não prescreveram - Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão
Valendo. Para promotoria, crimes atribuídos a Ustra não prescreveram
A implantação oficial da CNV, em maio de 2012, ocorreu 28 longos anos após a volta do governo civil. A demora do Brasil contrasta significativamente com a rapidez com a qual a Argentina não só se livrou dos líderes militares como os processou ao vivo na TV e mandou os principais para a cadeia. O líder do golpe argentino de 1976, general Jorge Videla, foi condenado à prisão perpétua. Morreu na cadeia em maio, com 87 anos.
Outros países latino-americanos que viveram sob governos ditatoriais ou experimentaram devastadoras guerras civis trataram rapidamente de estabelecer comissões da verdade e da reconciliação. O Chile teve duas comissões da verdade e também condenou à prisão diversos perpetradores de abusos, como Manuel Contreras, ex-chefe da polícia secreta do ditador Augusto Pinochet. O próprio Pinochet foi acusado por um juiz espanhol de crimes contra a humanidade e passou 16 meses detido na Inglaterra.
O governo brasileiro e vários governos estaduais indenizaram numerosas vítimas da ditadura e suas famílias. O exemplo mais famoso é o do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também é importante lembrar que ativistas dos direitos humanos, e particularmente as famílias dos militantes mortos ou desaparecidos, nunca pararam de exercer pressões para que fosse criada uma comissão da verdade e os perpetradores fossem levados aos tribunais.
Como o predecessor e companheiro na oposição ao regime, Fernando Henrique Cardoso, Lula deixou passar a chance de estabelecer uma comissão, embora seu ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, tivesse divulgado o primeiro relatório federal oficial sobre mortes e desaparecimentos da era militar.
Entretanto, o sentimento de injustiça continua forte no Brasil. Em 2013, a CNV e dezenas de outras comissões da verdade criadas no âmbito estadual e em instituições como a Universidade de São Paulo procuraram estabelecer a justiça, ainda que incompleta e tardia.
Enquanto milhões de brasileiros protestavam este ano contra os líderes políticos, exigindo melhorias no atendimento de necessidades humanas mais imediatas, como transportes públicos e saúde, as comissões da verdade - e outras instituições governamentais e grupos populares empenhados na própria busca de justiça - procuravam esclarecer a sociedade a respeito do que houve durante a ditadura.
Numerosos casos ocorridos durante o período foram trazidos à tona para serem revistos. Dois deles envolveram ex-presidentes. Os restos de João Goulart, cuja morte em 1976 há muito é considerada suspeita, foram exumados e levados a Brasília para realização de exames. A morte de Juscelino Kubitschek, também em 1976, num acidente de carro considerado igualmente suspeito por muitos, voltou a ser investigada. Além disso, em 2013, foram focalizados grupos sociais não revolucionários, como indígenas assassinados na era militar.
Desse impulso por justiça que caracterizou este ano poderão resultar duas transformações importantes de cunho jurídico.
Primeiro, corre um processo criminal federal contra Carlos Alberto Brilhante Ustra, chefe do DOI-Codi de São Paulo no ápice da repressão no início dos anos 1970, e dois agentes da polícia política de São Paulo, em relação aos quais, segundo a promotoria, a Lei da Anistia não se aplica porque os restos mortais das vítimas sequestradas nunca foram encontrados. Portanto, o crime não prescreveu.
Isso poderá levar à condenação dos três réus pelo crime de sequestro, no primeiro processo e condenação de indivíduos acusados de abusos contra prisioneiros políticos. Sua condenação encorajaria outros processos penais. 
Até o momento, o único caso de punição ocorreu com as condenações, em 1973, de oficiais do Exército que torturaram até a morte quatro soldados em Barra Mansa, caso lembrado este ano por causa da morte, no dia 30 de novembro de dom Waldyr Calheiros, ex-bispo de Barra do Piraí-Volta Redonda responsável pela denúncia dos crimes.
Segundo, a CNV emitirá seu relatório final até o fim de 2014, prevendo-se que incluirá a recomendação de que a Lei da Anistia seja modificada a fim de que agentes do governo responsáveis por graves violações dos direitos humanos sejam punidos, embora não haja no momento consenso sobre o assunto na comissão. Essa conclusão da CNV ajudaria a restabelecer o equilíbrio da balança política, permitindo a revisão da lei. Ironia das ironias, esse desdobramento, que tem o caráter de divisor de águas, poderá ganhar força no ano em que o Brasil marcará o 50º aniversário do golpe.
Se o movimento pela verdade tiver sucesso, o País encerrará finalmente uma parte importante de um processo que permaneceu inconcluso em sua agenda democrática. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
*É DIRETOR DO DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA DA UNIVERSIDADE DE SAN DIEGO E AUTOR DE DIÁLOGOS NA SOMBRA: BISPOS E MILITARES, TORTURA E JUSTIÇA SOCIAL NA DITADURA (COMPANHIA DAS LETRAS). EM SETEMBRO, PRESTOU DEPOIMENTO NA COMISSÃO DA VERDADE DO ESTADO DE SP 'RUBENS PAIVA'

Bestialidade à vontade - JANIO DE FREITAS


FOLHA DE SP - 29/12

Quatorze decapitados, entre 59 assassinados desde janeiro. O que explica tamanha ferocidade?


Quatorze decapitados, entre 59 assassinados de janeiro às vésperas do Natal. Primeiro, o que explica tamanha ferocidade? Além disso, o que fez com que tais crimes e números pudessem se acumular, com o decorrer do ano, sem alarmar o meio político, social e cultural que os circundaram, ainda hoje não alarmados? Por fim, a localização e a situação onde tamanhas monstruosidades podem ocorrer serão mesmo um país, um regime constitucional democrático, um Estado de Direito?

O horror é ainda mais extenso, sem parecer que pudesse sê-lo. Mulheres e irmãs em visita a presos são obrigadas a deixar-se estuprar, para que seus parentes não sejam assassinados naquele "complexo prisional" de Pedrinhas, São Luís, Maranhão.

A bestialidade como forma de vida em Pedrinhas não se torna conhecida, afinal, porque o sistema administrativo que a mantém -- governo e varas de execuções penais -- decidisse combatê-la. Foi, sim, por força do inesperado. Uma rebelião causou mais quatro mortes, com três decapitações, e representantes do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério Público foram verificar o que houvera. Contra a submissão imposta nas cadeias, e a todo risco, detentos tiveram a hombridade de defender suas mulheres e denunciar as violências sexuais.

Pensava-se ter noção da desumanidade que o nosso pretenso Estado Democrático de Direito e seus Direitos Humanos mantêm nos cárceres do Brasil todo. A decapitação como método e a violação de familiares levam a perguntar menos sobre o sistema carcerário do que sobre quem está fora e acima dele. Nos governos, no Ministério Público e, sobretudo, no Judiciário.

CAUSA PRÓPRIA

Enquanto os honrados do PSDB bloqueiam as investigações de seus feitos contra os cofres públicos de São Paulo, o líder de sua bancada na Câmara, deputado Carlos Sampaio, se ocupa com incriminações também do governo ou do PT. Sua ideia mais recente é uma ação contra Dilma Rousseff, na Justiça Eleitoral, por mandar cartões de Boas Festas aos funcionários. Sampaio, promotor de origem, considera que os cartões são abuso de poder, com finalidade eleitoral.

Então Dilma faz campanha desde o primeiro ano de governo. E Carlos Sampaio, para ser coerente, terá de processar muitos ministros, governadores e secretários de governo, inclusive do PSDB. Mas tem alternativa a esse trabalhão: é ser um pouco mais sério e menos ridículo, já que está pensando na sua própria reeleição.

VIAS DE ROUBO

Os estragos feitos pelas enchentes nas estradas expõem, e as fotos e vídeos mostram, um elemento comum tão importante quanto desprezado: o asfaltamento finíssimo das pistas, diretamente sobre terra instável, contra a necessária técnica de camadas preliminares de sustentação. Daí a curta duração dos asfaltamentos e a péssima qualidade das estradas, com a buraqueira causadora de tantos danos e desastres.

Mas, para as empreiteiras, um modo de aumentar ainda mais os lucros, com a realização apenas parcial do serviço necessário e a repetição dele em futuro muito mais próximo.

Estradas são vias de roubo em muitos sentidos.