quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Songdo, a cidade global do futuro


RODRIGO BRANCATELLI - O Estado de S.Paulo
O que faz uma metrópole ser... uma metrópole? Suas ruas, avenidas e vielinhas? Os bancos, o comércio, as igrejas? Os prédios? Va lá, o trânsito? Mais importante ainda, as pessoas, seus moradores? São justamente essas conexões sem muita explicação aparente entre cidadãos e construções, entre dinheiro e oportunidades, entre forma, função e sensação, que fizeram lugares como Londres, Nova York, Tóquio, Sydney, São Paulo e tantos outros florescerem de pequenas vilas em cidades globais - um processo de centenas de anos, que no fundo nunca tem fim.
Será que, além de definir os conceitos de uma metrópole ideal, é possível construir uma do zero, de uma hora para outra, no meio do nada?
Com um investimento de quase R$ 80 bilhões, o governo coreano está tentando responder a todas essas perguntas em um terreno de seis quilômetros quadrados à beira do Mar Amarelo. Ali, a 65 quilômetros de Seul, está sendo erguida a cidade global do futuro, uma metrópole com o que há de mais moderno em tecnologia e noções de urbanismo, onde tudo é planejado para facilitar a vida do cidadão. Trata-se do maior investimento imobiliário privado já realizado. A ideia é criar um novo centro financeiro da Ásia, uma mistura de Paris, Nova York e Dubai, que deve ficar pronta em 2015 com 80 mil apartamentos residenciais, 4,6 km² de escritórios e um parque com 41 hectares.
Songdo quer ser pioneira em absolutamente todos os aspectos. Será uma cidade "verde", com 40% de sua área destinada a parques e praças. Será a cidade sem trânsito, com todo o sistema viário planejado para aumentar a fluidez, além de altos investimentos em metrô, bondes elétricos e até táxis aquáticos elétricos. As ruas têm sensores no asfalto, que ajudam a entender em tempo real os deslocamentos, aumentar o tempo dos sinais em caso de congestionamentos e até diminuir a iluminação das vias quando ninguém estiver passando, para economizar energia.
Também será uma cidade "wireless", totalmente conectada - para se ter ideia, até as garrafas de refrigerante vendidas no supermercado terão uma etiqueta eletrônica; depois de usadas, se as garrafas forem jogadas no cesto de lixo correto para reciclagem, o morador ganhará descontos nos impostos.
Mimos. Outras inovações são invisíveis, mas igualmente surpreendentes. A água das residências, por exemplo, será reutilizada na irrigação. Já o lixo, tanto o orgânico quanto o reciclável, será transportado por meio de canos pressurizados, dispensando a necessidade de coleta. A nova metrópole ainda terá outros "mimos", como uma universidade totalmente tecnológica onde as aulas serão em inglês; uma ponte de 21 quilômetros que liga o centro ao aeroporto; um prédio de 68 andares, o mais alto da Coreia do Sul; um centro de artes que inclui salas de concerto, museus e uma escola de design; um dos maiores clubes de golfe do mundo; e até um hospital que teve o planejamento de empresas como 3M e Microsoft.
Songdianos. "A ideia é ter uma metrópole digital, com o que há de melhor nas outras cidades como Nova York, Dubai ou Londres, mas juntando com o que a tecnologia oferece hoje", diz o inglês David Moore, um dos diretores de incorporação do projeto. "Songdo será uma cidade global da Ásia, a poucas horas da grandes cidades da região, e não apenas um parque de diversões."
Apesar da megalomania do projeto, ele já está saindo do papel - algo em torno de 40% da estrutura da cidade de Songdo está pronta e operante. Cem prédios já foram erguidos, ao custo de R$ 10 bilhões. E interessados em virar "songdianos" não faltam: no início da venda dos primeiros 2.600 apartamentos, apareceram quase 21 mil compradores. Já na segunda leva de apartamentos, 25 mil unidades, que somavam R$ 2 bilhões, foram vendidas em apenas um dia.
Resta saber, no entanto, se todas essas inovações e construções vão de fato se conectar para transformar Songdo de uma ótima ideia em uma metrópole de verdade.
ARQUITETURA MODERNA
Seul, capital da Coreia do Sul, é um dos principais polos da arquitetura moderna no Sudeste Asiático. O Museu Leeum Samsung, projetado pelo holandês Rem Koolhaas em 2004, é um exemplo.

Acumulação, por Delfim


A dinâmica do desenvolvimento é produzida pelas inovações na criação de bens, serviços e processos tecnológicos que estimulam a diversificação do consumo e elevam o bem-estar da sociedade.
Seu indicador mais sintético é um aumento do Produto Interno Bruto per capita. Pôr em prática uma "inovação" significa obter crédito para financiá-la e correr os riscos do investimento.
Marx mostrou, muito antes de Keynes (a quem inspirou ainda que não expressamente reconhecido), que o "investimento", isto é, o aumento da capacidade produtiva derivado da inovação, é feito pelo "investidor" na expectativa de obter lucro.
A alta do consumo é um efeito paralelo e indispensável para a continuação do processo capitalista, mas o seu motor é a tendência do investidor de maximizar a acumulação.
O consumo é a parte maior da demanda global. O seu componente mais instável e que produz as maiores variações na renda e no emprego é o nível do investimento. Este depende, por sua vez, da expectativa da demanda e da sua possível taxa de retorno (o lucro esperado).
Quando a expectativa de retorno desaparece, desaparece o investimento. A demanda global entra em colapso, produzindo uma crise que, em geral, começa no mercado financeiro e termina no mercado de trabalho.
Na organização social apoiada nos "mercados", essas crises são ínsitas ao ajuste entre a demanda e a oferta globais ao qual se soma a ciclotimia normal do agente econômico.
A demanda global tende a flutuar com ciclos de períodos e amplitudes aleatórios impossíveis de serem previstos ou controlados pela política econômica.
Os economistas já deveriam ter perdido a inocência revelada pelo Prêmio Nobel, Robert Lucas, que sonhou ter destruído Keynes. Em 2003, ele decretou na "American Economic Review" que a "macroeconomia foi bem-sucedida: seu problema principal, a prevenção da depressão está, para todos os fins práticos, resolvido e, de fato, resolvido por muitas décadas".
A incerteza do mundo que impacta o investimento, agora, não é do tipo que pode ser compensada atuarialmente. Nesta, os riscos têm uma história à qual podemos aplicar, para nos defender, o cálculo de probabilidades.
Trata-se da incerteza essencial a que se referia Keynes: o que será da Eurolândia daqui a cinco anos? É a incerteza produzida pelo fato de que o passado não tem qualquer informação sobre o futuro.
É bom que entendamos que só o investimento público pode superá-la. E a forma mais eficiente de fazê-lo é cooptar o "espírito animal" dos empresários, dando-lhes a expectativa de taxas de retorno adequadas, garantia dos contratos e uma regulação inteligente.
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.

'Minhocões' são rediscutidos no mundo


RODRIGO BURGARELLI - O Estado de S.Paulo
Inaugurado em 1970, o Elevado Costa e Silva é considerado uma das maiores aberrações urbanísticas de São Paulo. Quatro prefeitos já prometeram demoli-lo - Luiza Erundina (em 1993), Marta Suplicy (em 2004), José Serra (em 2006) e Gilberto Kassab (em 2010) - mas nenhum sequer deixou um projeto consistente de demolição. Essa mesma apatia não se repetiu ao redor do mundo. Ao menos 17 cidades na América do Norte, Europa e na Ásia já demoliram minhocões ou estão perto de fazê-lo.
O número foi levantado pelo Institute for Transportation & Development Policy (ITDP), que analisou tanto as causas quanto as consequências das remoções. Os Estados Unidos, onde o culto ao automóvel reinou por décadas e fez surgir os primeiros elevados urbanos para veículos, no fim da década de 1950, são o líder no ranking, com 12 estruturas já derrubadas - ou prestes a serem.
Segundo o ITDP, a remoção dos minhocões não acontece simplesmente porque os governos locais estão percebendo que a cultura do transporte individual é ruim. Os motivos reais são de ordem mais prática. Um deles é o custo de manutenção, como o que ocorreu em Milwaukee, nos Estados Unidos. A demolição do seu elevado de 1,6 km e 30 anos custou cerca de US$ 25 milhões, enquanto o gasto estimado para a reforma da estrutura era de quase US$ 60 milhões a mais que isso.
Outro motivo para a derrubada dessas vias são os projetos de revitalização de áreas urbanas degradadas - algo parecido com o que se planeja para capitais brasileiras.
São Francisco, na Califórnia, fez um projeto parecido com o que hoje está sendo pensado para o Rio: demoliu seu minhocão de 2,6 km na beira do porto e transformou o local em um bulevar. Hoje, o Embarcadero, como é conhecido, é um dos principais pontos turísticos da cidade.
Habitação. Já Seul, na Coreia do Sul, decidiu demolir um minhocão de 9,4 km, erguido na mesma época que o paulistano, para recuperar seu entorno que, em uma área residencial, havia perdido quase metade dos moradores das redondezas.
Ao custo estimado de R$ 511 milhões, o viaduto foi demolido e uma nova via verde foi construída. O valor saiu todo do mercado imobiliário, por meio de títulos, como os que deverão ser usados em São Paulo, caso o projeto prometido por Kassab - a demolição da estrutura, como parte da Operação Urbana Lapa-Brás - saia do papel.
Minhocões também são derrubados quando o poder local percebe simplesmente que, ao contrário de anos atrás, eles já não são a melhor solução para a mobilidade da cidade. Essa lógica começou a ser notada ainda no fim dos anos 1960, quando engenheiros de tráfego americanos e ingleses chegaram à conclusão de que criar novas ruas, avenidas e viadutos nem sempre diminuía os tempos de viagem - em alguns casos, até aumentava, uma vez que obras como essas acabam fazendo com que mais pessoas decidam se locomover de carro.
Helena Orestein, diretora do ITDP Brasil, reconhece que ainda há bastante resistência para a demolição do minhocão de São Paulo, por causa dos 70 mil motoristas que trafegam por ali todos os dias. Mesmo assim, ela acredita que é questão de tempo para que seja demolido. "À medida que a sociedade civil começa a colocar isso na pauta de discussões, isso influencia as decisões do governo. O foco já não está mais nos carros, mas nas pessoas que poderiam usar aquele local", afirma Helena.
NA ÍNDIA ACONTECE O CONTRÁRIO
Enquanto cidades europeias, americanas e brasileiras discutem o fim dos seus minhocões, Bangalore, na Índia, inaugurou um novíssimo, com 9,5 km de extensão, há menos de 2 anos.