domingo, 10 de maio de 2026

Conheça estimativas do custo real do petróleo e guerra no Irã, Marcelo Leite, FSP (definitivo)

 Ninguém suporta mais notícias sobre desequilíbrio fiscal, gastança do Executivo, pautas bomba no Congresso, penduricalhos do Judiciário —dinheiro público que sai pelo ralo à vazão de bilhões de reais. Mas por que se fala tão pouco do custo real do petróleo e da guerra no Irã?

É trivial: mais fácil defender cortes em despesas sociais (salário mínimo, aposentadorias, transferências de renda) do que cogitar reformas em subsídios e outras despesas fiscais com combustíveis fósseis na casa do trilhão —de dólares!— mundialmente. Sem contar o custo da agressão dos Estados Unidos e de Israel ao Irã.

Navio grande com casco enferrujado e fumaça saindo da parte superior flutua no mar. Homem de costas usa boné azul com amarelo e observa a embarcação.
Navio petroleiro danificado após ataque não identificado em águas territoriais do Iraque - Mohammed Aty/Reuters

Não dá para entender por que se gasta tanto com um insumo energético condenado a desaparecer neste século, se for para evitar a pior mudança do clima. O dado portentoso parte da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), não do Observatório do Clima nem do Greenpeace: para apoiar fósseis em 2024, o planeta arcou com custo fiscal de US$ 916,3 bilhões (um terço do PIB do Brasil).

O FMI (Fundo Monetário Internacional) calcula ônus fiscal um pouco mais baixo, US$ 725 bilhões de subsídios explícitos. Computados os subsídios ocultos, como despesas com poluição do ar e eventos climáticos extremos, acrescentam-se outros US$ 6,7 trilhões. Tudo somado, quase três PIBs do Brasil.

Comparada com isso, a despesa determinada pelo presidente Lula (PT) para subsidiar o diesel de caminhoneiros bolsonaristas parece dinheiro de pinga: R$ 30 bilhões (US$ 6,1 bilhões). Claro, todo gasto conta num país remediado com déficit nominal (incluindo juros da dívida) saltando a R$ 1,2 trilhão (R$ 244 bilhões) em 12 meses.

Não é sustentável, estão roucos de gritar os coletes da Faria Lima. Verdade que um único operador da vizinhança, o Banco Master, abriu um rombo no Fundo Garantidor de Crédito da ordem de um terço do Bolsa Família... dinheiro de pinga, metido aos milhões no bolso do senador que apoia seu candidato preferido.

Mas me desvio do assunto cabível numa coluna de ciência e ambiente, combustíveis fósseis na fornalha do clima.

Ninguém negaria em sã consciência que o Irã constitui ameaça à estabilidade no Oriente Médio (assim como Israel) e que os aiatolás massacram os iranianos, sobretudo mulheres, mas seria ingênuo supor que o negacionista climático Trump cairia na armadilha de Netanyahu não fosse pelo petróleo e pelo controle do estreito de Hormuz.

Esse conflito vai reverter até a tendência de recuo nos subsídios a fósseis, que caíram de US$ 1,031 trilhão em 2023 para os US$ 916,3 bilhões já mencionados (redução de 11%). Só a operação militar Fúria Épica já torrou US$ 25 bilhões para tentar manter Hormuz aberto a petroleiros, segundo o próprio governo Trump; análises independentes põem o gasto em mais de US$ 70 bilhões.

Custo direto, entenda-se, com navios, aeronaves e mísseis. Para a economia americana, calcula-se muito mais. O setor de Defesa pediu orçamento de US$ 1,5 trilhão para 2027, US$ 600 bilhões adicionais. A Goldman Sachs estima queda de 0,5% no PIB dos EUA (US$ 400 bilhões a menos). O laureado do Nobel Joseph Stiglitz calcula US$ 3 trilhões de perdas com a aventura errática de Trump.

Agora imagine todo esse dinheiro aplicado na transição energética para longe dos combustíveis fósseis, de que tanto se fala e tão pouco se fez de 1992 para cá.

Marcus André Melo Dilema do STF, Marcus André Melo, FSP

 A crise do Supremo opera em dois níveis distintos. O primeiro envolve indivíduos: conflito de interesses, violações de decoro, suspeitas de corrupção. Há aqui um contínuo que vai de "pecadillos" antirrepublicanos a denúncias graves. O segundo nível é mais profundo: diz respeito à instituição enquanto tal. Aqui já não se trata apenas de condutas pessoais, mas de seu padrão de atuação e relação com os demais Poderes.

Hoje é possível identificar três grandes classes de problemas associadas à degradação desse padrão. A primeira é o excepcionalismo processual (erosão de garantias tradicionais do devido processo, por exemplo no inquérito das fake news). A segunda diz respeito a desvios na defesa da democracia (punitivismo político, liberdade de expressão). A terceira envolve o hiperprotagonismo político do Judiciário.

Alexandre de Moraes, homem careca, veste terno preto com camisa branca e gravata azul, sentado em cadeira de tom caramelo, olhando para o lado direito da imagem.
O ministro Alexandre de Moraes durante sessão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) para julgar deputados do Partido Liberal (PL) acusados de desviar recursos de emendas parlamentares - Gabriela Biló - 17.mar.26/Folhapress

O PL da Dosimetria respondeu parcialmente a uma dessas dimensões: a questão do punitivismo (penas excessivas). De certo modo, parte do sistema político procurou reduzir a intensidade do conflito. Sim, ministros do próprio Supremo reconheceram publicamente possíveis exageros na cumulatividade de tipos penais e na severidade de determinadas punições. Moraes está dobrando a aposta?

Mas justamente por isso o centro da controvérsia irá se deslocar para o inquérito das fake news e para a expansão da jurisdição criminal da corte sobre o debate público, a contestação política e o novo protagonismo imperial do Supremo. O problema decisivo já não é apenas "quanto punir", mas quais são os limites institucionais da excepcionalidade.

O ponto central, contudo, é que a resolução dos desvios individuais e a da crise institucional da corte encontram-se profundamente entrelaçadas. E esse entrelaçamento não é acidental: ele é permanentemente reivindicado tanto por ministros diretamente atingidos pelas acusações quanto pelos adversários mais radicais do governo atual que apoiaram medidas de ruptura institucional. A Lava Jato e atos e decisões de "Xandão" converteram-se em biombos retóricos.

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O dilema é que a saída da crise exige justamente a separação radical dessas duas dimensões. Problemas ligados à conduta individual de magistrados precisam ser tratados como questões de responsabilização individual. Já os dilemas relativos à defesa da democracia, ao alcance do poder judicial e aos limites da excepcionalidade devem ser enfrentados como questões institucionais e constitucionais. Misturar ambos produz um efeito corrosivo: qualquer crítica institucional é percebida como ataque pessoal; e qualquer investigação envolvendo ministros converte-se em disputa sobre a sobrevivência da democracia. Até a atuação do ministro Fachin é marcada pela ambiguidade autossabotadora: ora é defesa corporativa, ora é defesa individual de ministro.

O problema é que o próprio inquérito das fake news nasceu dessa fusão originária entre as duas ordens de questões. Sua instauração esteve ligada a ameaças contra a corte e a ministros individualmente, num contexto em que denúncias envolvendo nomes do Supremo apareciam associadas a planilhas da Odebrecht. Desde a origem confundiram-se proteção institucional da democracia, graves desvios individuais e uso de instrumentos excepcionais de investigação. Eis o dilema.

Becky S. Korich - A banalização do 'eu te amo', FSP

 O "eu te amo" anda solto demais. Diz-se com uma facilidade que me espanta a cada dia. Não é que as pessoas estejam amando mais; é que o "eu te amo" passou a valer menos.

Gostar é pouco, mesmo que seja muito.

Dizem "eu te amo", mesmo que não seja tanto.

Antes, guardava-se o "eu te amo" para pessoas raras, aquelas que fazem o mundo tremer por dentro e a pele arrepiar por fora. Hoje, diz-se que se ama a todos os que não se odeia.

Quando, no modo adolescente de sentir as coisas, eu me apaixonei loucamente por uma pessoa, demorei meses para dizer "eu te amo". Queria ter certeza —como se isso existisse. Eu venerava meus pais, adorava minhas amigas (amava algumas delas), gostava da minha vizinha de porta, era apaixonada por música, viciada em chocolate, aficionada por cinema, dependente do mar, encantada pelo cachorro. São tantas as formas de gostar. Amar era outro departamento. Era o andar mais alto do edifício, onde cabia pouca gente.

Jogo da velha com corações vermelhos
S. Hermann/F. Richter por Pixabay

Hoje, ama-se tudo isso, junto, misturado, nivelado. O "eu te amo" virou um carimbo afetivo, quase burocrático. Simples, sem esforço. Ama-se uma infinidade de amigos —não sei como a pessoa consegue ter tanto tempo. Ama-se o cabeleireiro que acertou a franja, o sashimi de atum, o novo amigo, o artilheiro do time, a caneca de estimação. Ama-se geral, o tempo todo.

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Se eu amo tanta coisa e tanta gente, como vou dizer "eu te amo" para quem amo de verdade? É tão bom gostar intensamente de alguém sem precisar amar.

A palavra inflacionada perde valor, esgarça-se. O "eu te amo" exauriu o verbo e transformou o amor em algo passivo. Afrouxou até se dissolver na corrente das palavras escorregadias, até caber em qualquer boca, em qualquer mensagem, em qualquer post —da superfície para fora, sem alterar o ritmo cardíaco.

O "eu te amo" deveria continuar tendo algum risco. Carregar uma mínima vertigem. Não ser dito como hábito, ser dito com menos frequência e mais perigo.

Quem ama de verdade não se basta com palavras. E essa pode ser a explicação: pulverizando tantos "eu te amo", nós nos protegemos do que o amor realmente exige. Generalizar o sentimento é um jeito de domar essa ameaça. Dizer o amor em voz alta, em público, é diluí-lo em mil cenários, mil pessoas, mil pretextos, para que ele nunca chegue inteiro, nunca nos encurrale numa única direção.

É bom que se ame mais vezes e mais pessoas. Mas é fundamental que dentro de nós continue viva uma parte do amor que Chico Buarque traduziu. Aquele que rompe o mundo, queima os navios, confunde as pernas, enlaça o paletó no vestido, faz o corpo errar da veia e se perder em outra circulação.

Que não se perca a coragem, nem a fé, nesse amor.

Quantas pessoas se ama, de verdade, na vida? Se resgatássemos o sentido e guardássemos o amor como um objeto sagrado, que se mede na temperatura e não na repetição, saberíamos