terça-feira, 7 de abril de 2026

O papel das commodities na economia, Bernardo Guimarães, FSP

 A Guerra no Irã afetou os preços de recursos minerais. Desde o início do conflito, o preço do petróleo subiu mais de 50%, refletindo temores de interrupções na oferta global. Metais como ferro e alumínio registraram altas próximas a 10%, ainda que os preços de outros metais, como o cobre e o ouro, tenham recuado.

Petróleo e minério de ferro são alguns dos principais produtos de exportação do Brasil. Assim, esses aumentos de preço têm um efeito direto positivo na nossa economia e uma série de outros efeitos indiretos. Quão importantes são esses efeitos?

De modo geral, quão importantes são os movimentos nos preços de commodities para a economia brasileira?

Máquina industrial laranja transporta carvão em mina a céu aberto sob céu azul claro. Pilha grande de carvão aparece ao fundo, com trabalhadores usando capacetes verdes visíveis à direita.
Mina em Canaã dos Carajás (PA), onde a Vale explora minério de ferro - Felipe Borges - 24.jul.24/Folhapress

Uma rápida olhada nos dados mostra uma relação relativamente forte e positiva entre a economia de países latino-americanos e os preços internacionais de commodities.

Isso, porém, não nos fornece uma boa medida da importância das commodities para essas economias.

Preços de commodities podem estar altos por diversos motivos. A alta do petróleo do momento reflete um choque negativo na oferta. Navios não passam pelo estreito de Hormuz, portanto o petróleo não chega a seu destino.

Em outros momentos, preços de commodities são puxados por um aumento na demanda por commodities. Isso se dá, por exemplo, quando a economia mundial está crescendo muito e as condições financeiras globais são favoráveis. Observamos nesses momentos um bom desempenho das economias de países emergentes, mas qual é a causa: o aumento nos preços das commodities ou o crescimento forte da economia mundial?

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Em trabalho publicado no início deste ano, Alisson Curátola-Melo e eu buscamos estimar o efeito puro do preço das commodities, excluindo o impacto dos fatores que geram esses aumentos na demanda e no preço de commodities. Para isso, nós utilizamos notícias sobre estoques de grãos que afetam preços pelo canal da oferta e técnicas estatísticas apropriadas.

Nossa conclusão é que preços de commodities de fato impactam economias latino-americanas, mas esse efeito é menor que a metade do efeito total, que inclui os fatores que geram a maior demanda por commodities (como o crescimento da economia global e as condições financeiras internacionais).

Por exemplo, no início deste século, até 2007, preços de commodities subiram e economias emergentes tiveram bom desempenho. Nossos resultados sugerem que a causa principal desse bom desempenho não foi o aumento no preço das commodities: foram os fatores que geraram esse aumento nos preços, como o forte crescimento da economia mundial, que afetaram a demanda por todo tipo de produto exportado, os fluxos de investimento direto e tudo mais.

Isso tem implicações para o momento presente. Algumas commodities que exportamos estão mais caras, mas por restrições na oferta, não por alta demanda. O efeito positivo nas economias exportadoras nesses casos é bem menor.

Os outros efeitos principais da guerra na economia brasileira são negativos. As projeções para o crescimento da economia mundial foram reduzidas. Estima-se que o PIB do mundo deva crescer em 2026 um pouco menos do que vinha crescendo nos últimos anos. Além disso, o petróleo caro pressiona a inflação e, consequentemente, as taxas de juros.

Pré-candidato à reeleição em SP, Tarcísio diz apoiar Flávio Bolsonaro contra reeleição presidencial, FSP

 

São Paulo

O governador e pré-candidato à reeleição Tarcísio de Freitas (Republicanos) se disse favorável à proposta para acabar com a reeleição à Presidência da República, protocolada pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no mês passado.

"Eu, hoje, acho que a reeleição está fazendo mal para o Brasil", afirmou Tarcísio nesta terça-feira (7), durante a entrega de um piscinão em Franco da Rocha, na Grande São Paulo.

Homem de camisa azul clara segura microfone na mão direita e gesticula com a esquerda durante discurso. Ao fundo, imagem ampliada de viaduto com carros em movimento e pessoas assistindo.
O governador Tarcísio de Freitas, durante visita às intervenções do Complexo Viário do Alto Tietê - Zanone Fraissat - 15.jan.26/Folhapress

Tarcísio, que buscará um segundo mandato ao governo estadual no segundo semestre, chamou a PEC (proposta de emenda à Constituição) de Flávio de "acerto para o Brasil". O texto determina que o presidente é inelegível para a mesma função na eleição seguinte, proibição que não se aplica a outros cargos políticos.

Como mostrou a Folha, a PEC é vista pelo entorno de Flávio como um aceno a potenciais aliados, incluindo o próprio Tarcísio, de que o caminho para o Palácio do Planalto estaria livre em 2030. Além disso, atrairia o apoio de governadores, deputados e senadores que buscam a reeleição.

A proposta também não excluiria o pai dele, Jair Bolsonaro (PL), de tentar novamente a Presidência caso saia da prisão, já que o veto seria apenas para dois mandatos consecutivos.

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"A gente tem que se questionar, neste momento, em que medida a reeleição está ajudando ou não o país. Em que medida uma pessoa que entra consegue estabelecer uma visão de longo prazo ou fica muito refém da possibilidade de reeleição, deixando ou perdendo tempo, deixando de fazer aquilo que precisa de fato ser feito", declarou Tarcísio.

O governador também afirmou que é necessário discutir uma reforma política no país e sinalizou apoio ao voto distrital, que altera a forma de eleição para as cadeiras do Legislativo. "Em que medida as pessoas estão sendo representadas, os territórios estão sendo representados? E aí vem a discussão do voto distrital", disse.

Há uma discussão no Congresso Nacional, capitaneada por líderes do centrão, sobre a adoção do voto distrital misto, que deixaria metade das vagas para o sistema proporcional da forma como ele funciona atualmente, e a outra metade destinada a votos por distritos, de modo semelhante ao aplicado nos Estados Unidos. Na prática, a proposta reduziria o impacto dos puxadores de votos.

Um dos defensores do voto distrital misto é o secretário de Projetos Estratégicos do governo Tarcísio, Guilherme Afif Domingos.

CONVERSA COM BOLSONARO

Tarcísio também declarou que discutirá com Bolsonaro sobre a composição da chapa em São Paulo, que deve ter um quadro do PL concorrendo a uma das duas vagas ao Senado –a outra deve ser disputada pelo ex-secretário de Segurança Pública estadual, Guilherme Derrite (PP).

"Eu pretendo ter uma conversa com o próprio [ex-]presidente Bolsonaro a respeito disso, com o Eduardo [Bolsonaro]. Era uma vaga que, naturalmente seria do Eduardo, caso ele estivesse no Brasil. Mas, não estando, a gente vai procurar o melhor nome que possa representar esse grupo", disse o governador.

Ele acrescentou que "não tem grande divergência" sobre quem será o candidato. Hoje, os nomes mais citados por integrantes do PL são o do deputado federal Mario Frias, o do vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo, e o do deputado André do Prado, presidente da Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo).

Antonio Carlos e Jocafi voltam com som analógico e alma afro-soul em novo disco, fsp

 Davi Maia

Rio de Janeiro

Autores de sucessos consagrados em trilhas sonoras, festivais e estações de rádio na década de 1970, tais como "Desacato" e "Você Abusou", Antonio Carlos e Jocafi se juntam aos músicos e produtores Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad para apresentar a um público novo faixas inéditas em um álbum que celebra a inventividade da dupla soteropolitana. Em colaboração com o selo Jazz Is Dead, o disco revela nove composições criativas que remetem à origem baiana da dupla, em linguagem musical analógica de afro-soul.

Imagem da produção do novo álbum de Antonio Carlos e Jocafi em parceria com Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad
Imagem da produção do novo álbum de Antonio Carlos e Jocafi em parceria com Adrian Younge e Ali Shaheed Muhammad - Divulgação

As músicas foram gravadas em 2022 durante um período de dez dias na Califórnia, quando também fizeram sua estreia ao vivo nos Estados Unidos. Diferente do processo de produção habitual de Antonio Carlos e Jocafi, que compõem melodia e letras de sua discografia, o novo álbum traz direção instrumental dos produtores. Nos últimos anos, Adrian e Ali lançaram projetos ao lado de figuras como Marcos Valle e Carlos Dafé, tendo como ponto de partida sonoridades funk, soul e jazz.

Antonio Carlos e Jocafi nunca largaram o violão. Pelo contrário. "Nós nascemos para a música —mesmo quando ela não dava dinheiro", diz Jocafi, aos 81, o mais velho da dupla.

O momento atual, segundo eles, deve muito a um dos responsáveis por esse "renascimento": Russo Passapusso, do BaianaSystem. "Ele foi fundamental para a nossa volta por cima, para mostrar um lado nosso que quase não tinha sido ouvido. Nosso trabalho ficou meio escondido", afirma Antonio Carlos, aos 80 anos.

Próxima de Russo Passapusso desde 2019, a dupla de Salvador colaborou em cinco faixas do BaianaSystem –incluindo o hit "Miçanga"– e se uniu ao artista de Feira de Santana para o álbum "Alto da Maravilha", de 2022. Desde então, circularam por festivais e grandes palcos pelo Brasil, e ganharam indicação ao Grammy Latino pela participação no álbum "O Futuro Não Demora", do Baiana. O novo disco também teve um toque do grupo; foi construído a partir da conexão da dupla de produtores americanos do selo com Roberto Barreto, integrante fundador do BaianaSystem.

Sobre a máxima de ter feito parte da "reinvenção" da carreira da dupla, Russo Passapusso opina. "Não acho que reinventamos a carreira deles! Penso que é mais sobre a sorte que temos de viver no mesmo tempo de Antonio Carlos e Jocafi e suas obras-primas", diz. "Eles não são o passado, eles são justamente o futuro que não esqueceremos nunca. Isso é o legado deles, mas está acontecendo agora."

No novo álbum, a herança "mais oculta" de batuques das religiões de matriz africana é despertada entre "Canarinho da Alemanha" –cantiga tradicional da Capoeira Angola–, "Tá com Medo Por Quê" e "Rala-Bucho", faixas com destaque nas percussões. "Sinto que com o Russo, pude voltar para esse campo que eu e Jocafi conhecíamos. Jocafi conhece muito de samba de roda, e me influenciou nessa área, e eu sabia muito da música negra religiosa", diz Antonio Carlos.

Além das mais percussivas, canções doces do repertório como "Menina do Tororó" se juntam à irreverência de "Quixódo" e à leveza de "Bacaxá". Três temas de maior foco instrumental completam o álbum, dois deles com a participação de Loren Oden, que já colaborou no último trabalho de Céu, "Novela", e soma com vocais nos projetos do Jazz Is Dead com Marcos Valle e João Donato. As gravações em banda também contaram com os brasileiros Gibi dos Santos e Marcelo Bucater.

"Esse disco representa o passado que é visitado hoje com todo carinho pelos jovens", diz Jocafi, fazendo a ponte entre a sonoridade da década de 1960 e a atual. "E recorda a importância que tem aquele primeiro trabalho que a gente fez –que a crítica não acordou porque estava ligada em só um samba", afirma. "Mas até se tivessem ouvido tudo, diriam o que sempre disseram: ‘A gente não entende isso que eles estão fazendo’. Essa música ali, já era o funk", afirma Jocafi.

A chance de dar seguimento ao legado de suas influências da musicalidade baiana para os jovens, no entanto, traz a percepção de que o momento não parece se traduzir entre os mais velhos. Recordando a passagem da dupla em 2024 pelo Altas Horas, da TV Globo, Antonio conta: "Perguntaram para mim: ‘Onde é que vocês andam?’ Pô, todo dia eu tô nas plataformas!"

Imagem da produção do novo álbum de Antonio Carlos e Jocafi
Imagem da produção do novo álbum de Antonio Carlos e Jocafi - Divulgação

Com mais de cinco décadas de carreira, atravessando altos e baixos, a dupla segue dedicada à música — agora impulsionada por novas gerações que redescobrem artistas fundamentais para a cultura do país. Esse movimento ajuda a consolidar a permanência de uma sonoridade que, nos anos 1970, ainda não havia conquistado plenamente o Brasil, mas que se revelou maior do que seu próprio tempo.

"A sensação de ver vocês, meus netos, cantando nossas músicas… isso não tem preço. Tenho o maior orgulho de poder terminar minha vida com o apoio de vocês", diz Antonio Carlos.