segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Homens perfeitos são artigo raro, João Pereira Coutinho, FSP

 Chega uma idade em que temos de ser honestos conosco mesmos. Cheguei a essa idade e sou obrigado a perguntar: serei um homem perfeito?

A resposta, temo bem, é "sim". Sou perfeito em matéria conjugal. Essa, pelo menos, é a teoria de Eve Simmons, uma autora inglesa que publicou recentemente o relato da sua triste experiência matrimonial. Para os interessados, o título é "What She Did Next" (Dialogue Books, 304 págs.). Não li, não tenciono, mas o resumo dos jornais é bibliografia suficiente.

Conta a autora que o ex-marido era um príncipe —apaixonado, solícito, companheiro, sensível. Seis meses depois, sumiu de casa sem aviso prévio. Queria o divórcio.

Eve Simmons sentiu-se enganada e perdida. Como era possível ter vivido nove anos de namoro com um estranho?

Homem vestindo roupão, com caneca em uma mão e um livro na outra e cigarro na boca, lê tranquilamente sentado em um salto alto gigante, como se fosse sua poltrona.
João Pereireia Coutinho/Folhapress

Mas depois, quando conversou com outras mulheres que passaram por traumas idênticos, rebobinou o filme da vida em conjunto e encontrou os cinco sinais problemáticos que toda mulher deve vigiar com ferocidade leonina. Que sinais são esses? Little Couto explica –e desmistifica:

1º "Ele ganha menos do que você —e isso o incomoda" – É uma praga entre os machos inseguros, afirma Eve Simmons: eles se sentem diminuídos com a carreira de sucesso da mulher.

Eu, pelo contrário, me sentiria aliviado. Sonho há vários anos viver às custas de uma. Ser, em poucas palavras, um elfo do lar: ficar em casa, com meus livros e filmes, acenando em roupão da janela para a patroa que sai cedo para trabalhar. Serei o único homem que vê o salário da mulher como uma prova de amor?

Se Eve me tivesse conhecido nos tempos de solteiro, eu jamais teria abandonado o casamento só porque a conta bancária dela era superior à minha. Abraçaria essa conta bancária com o amor e o carinho que ela merece.

2º "Ele nunca reclama" – O marido de Eve vivia sorrindo enquanto executava as tarefas domésticas mais variadas. Nunca reclamava. Um dia, por por uma questão banal, explodiu de raiva e disse à mulher o que Maomé não disse do toucinho.

Pobre Eve. Reclamar? É o meu nome do meio. Acordo reclamando do estado do corpo. Sigo reclamando do estado do mundo. Reclamo de coisas reais e irreais. E, se não tenho do que reclamar, até disso reclamo.

O ex-marido de Eve era um caso clássico de silêncio passivo-agressivo. Eu sou um caso raro de ruído ativo-agressivo. Só quando meu humor não está ao nível de Schopenhauer é que a família estranha e se preocupa. "Estará doente?", perguntam uns. "Ele me incluiu no testamento?", perguntam outros.

Capa do livro 'What She Did Next'
Capa do livro 'What She Did Next' - Reprodução

3º "Vocês tiveram um noivado longo… e um casamento grandioso" – Aconteceu com Eve. Nunca aconteceria comigo: casamentos grandiosos depois de noivados longos são cerimônias de encerramento.

Nessas matérias, sou um orientalista: o ideal era ter casamentos combinados em que noivo e noiva só se conhecem no altar. É um erro dar o nó quando a novidade já acabou há nove anos.

Pode haver surpresas desagradáveis com uma noiva que não escolhemos?

Pode. Mas prefiro o choque inicial à erosão lenta.

Casamentos grandiosos são uma contradição nos termos: a ideia da festa é receber dinheiro dos convidados, não é gastar dinheiro com eles. Além disso, nada é mais suspeito do que um amor que precisa de bufê, banda e drone para convencer os outros –e a si próprio.

4º "As mensagens de texto começam a mudar" – No início, as mensagens amorosas pingavam com frequência. Os enjoativos emojis também. Subitamente, tudo muda: a frequência, as palavras, o tom.

Não sofro desse mal. Minhas mensagens são sempre lacônicas, de preferência monossilábicas, para não alimentar expectativas. É melhor decepcionar cedo do que desaparecer tarde. O amor passa, mas um "ok" é para sempre.

5º "Vocês estão a tentar ter filhos (mas sem grande empenho)" – Eve queria ter filhos; ele se retraía; a intimidade se esvaziou.

Já eu adoro crianças. Sempre achei que o número certo fosse "mais uma". Por vontade própria, a minha casa seria uma creche: crianças por todo o lado, cuidando da logística, enquanto a minha senhora, munida de mais um cheque gordo, financiaria a experiência.

P.S.: Só mais uma coisa. Informo o leitor romântico que a vida de Eve teve um final feliz. Segundo o jornal "Daily Telegraph", encontrou um novo amor, casou e já foi mãe. Homens perfeitos são artigo raro, mas alguns de nós ainda andam por aí.

Na novilíngua da extrema direita, matar é 'neutralizar', Alvaro Costa e SIlva, FSP

As romarias ao presídio de El Salvador —custeadas com dinheiro público, a última contagem estava em R$ 400 mil— são a principal diversão de deputados, senadores e governadores da extrema direita. Com encarcerados no segundo plano, o registro fotográfico é indispensável à lacração nas redes. Alguns deles aparecem de braços cruzados e camisetas justas no melhor estilo "mamãe, sou forte".

Outra distração é copiar terminologias e cometer análises geopolíticas. Desde a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, a mais letal da história, não existem mais traficantes nem milicianos no Brasil. Todos são chamados de "narcoterroristas", denominação adotada por Donald Trump e Nayib Bukele, o presidente salvadorenho que governa em regime de exceção.

Nayib Bukele e Trump em encontro na Casa Branca, em 2025 - Brendan Smialowski - 14.abr.25/AFP

Tema que mais preocupa a sociedade, o combate a facções criminosas não é mais considerado uma atribuição dos governos estaduais ou do Planalto, mas equiparado a uma guerra sem quartel —daí surgindo a proposta servil de uma intervenção trumpista no país.

Na novilíngua, matar é "neutralizar". O verbo está no projeto de lei aprovado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —e questionado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF— que prevê bônus de 10% a 150% do salário para policiais civis envolvidos em confrontos com mortes. A gratificação faroeste, que remete aos cartazes de "procurado vivo ou morto", já vigorou entre 1995 e 1998, durante o governo Marcello Alencar. A média de mortes em ações policiais dobrou, e a criminalidade não deixou de crescer.

Num jogo de cena, Cláudio Castro alegou falta de verbas e vetou a proposta —veto derrubado no plenário. No entanto, anunciou a compra de fuzis, metralhadoras, drones, robôs táticos e até um helicóptero Black Hawk, com preço estimado em R$ 72 milhões.

O governador —que só agora apresentou um plano para recuperar áreas dominadas, aliás um plano bastante tímido— parece não se conformar de o Rio perder para São Paulo no campeonato de número de mortes causadas pela polícia. 

O bullying da palavra final, Muniz Sodré _FSP

 Quando presidente dos EUA, Harry Truman exibia na mesa uma plaquinha com os dizeres "here stops the buck". A expressão, originária do jogo do pôquer, sinaliza o ponto de parada das questões públicas, o mandatário assume todas as responsabilidades sem repassar decisão. Era afirmação de poder, não de sono tranquilo: ele, mais ninguém, ordenou despejar duas bombas atômicas sobre o Japão.

Nenhuma placa dessas no STF, mas todo cidadão brasileiro sabe que ali se dá a palavra final em questões de Direito. Esse "pretório excelso" conheceu momentos de alta institucionalidade, como quando Ribeiro da Costa, presidente da corte à época do golpe de 64, ameaçou "entregar as chaves" ao marechal Castelo Branco. Após o AI-5, o governo militar aposentou, cassando, Victor Nunes, Evandro Lins e Silva e Hermes Lima, que resistiam à supressão de habeas-corpus e à interferência no Judiciário. Em solidariedade aos colegas, Aliomar Baleeiro e Gonçalves de Oliveira também deixaram a corte.

O episódio é conhecido, mas vale a reiteração para cotejá-lo com a resistência do STF à tentativa de golpe conduzida pela cúpula bolsonarista, em que a centralidade do ministro Alexandre de Moraes evoca difusamente a de Ribeiro da Costa. Goste-se ou não da pessoa, o processo democrático tem de nele reconhecer uma "vontade" de sentido constitucional. Mesmo transformando por vezes ato jurídico em fato, quando o parâmetro de julgamento é o fato posto nos termos da lei. Em resumo, atropelos do procedimento legal.

Fachada moderna do Banco Master com colunas brancas e vidro escuro. Tapume metálico cinza bloqueia a entrada, com vegetação baixa na calçada e poste com fiação elétrica à esquerda.
A sede do Banco Master na rua Elvira Ferraz, em São Paulo, protegida por tapumes antes de um protesto convocado pelo MBL (Movimento Brasil Livre)

Numa instituição se pensa como indivíduo e como sociedade. Se prevalece a vontade individual num órgão máximo de Justiça, periga o juiz assumir posição de parte litigiosa, usando os instrumentos da jurisprudência. Vão por água abaixo o recato da prudência e a imparcialidade da Justiça. E flutua a baixa institucionalidade, que aconteceu quando, individualmente, a soberba do mando de um ministro do STF cruzou a linha vermelha dos desmandos. Uma modalidade sorrateira de quebra da democracia, já pressentida por Ruy Barbosa: "A pior ditadura é a do Poder Judiciário. Contra ela, não há a quem recorrer".

Esbatido contra um fundo global de circo de horrores, rebaixamento institucional assusta. Razão para se levantar a suspeição do ministro que avocou a si, mal se sabe por quê, o processo do Banco Master, "a maior fraude bancária da história" (Fernando Haddad), uma teia de aranha que envolve os três Poderes. Mas teia não pega bicho grande.

Machado de Assis fala dos pequenos deslizes que passariam "não fosse a vaidade e a adulação. Oh, a adulação!" ("Dom Casmurro"). Tanto que o infausto ministro extrapolou em destemperos, verdadeiros bullyings, e favores do céu. Na língua do poeta satírico romano Juvenal, que faz "ciência" nessa área: "Hoc volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas" ("quero, ordeno, que a minha vontade substitua a razão"). Que desalento para o espírito democrático. Mas que vergonha para o espírito de corpo dos supremos, chancelando destrambelhos de colega, como reles cuscuzeiro, panela que cozinha a fogo baixo, abafando o que faz.