domingo, 22 de março de 2026

'Filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro', diz CEO de construtora para público de altíssimo padrão, FSp

 

São Paulo

Luciano Amaral, CEO da Benx, ecoa uma queixa recorrente na construção civil. O setor afirma que não há mão de obra suficiente para sustentar o boom do setor imobiliário nas capitais.

O problema estaria afetando o lançamento dos prédios e o prazo das obras, segundo o executivo.

A companhia que ele comanda investe no altíssimo luxo para desviar da competição acirrada nas faixas econômicas aquecidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida e do impacto conjuntural na classe média.

Homem de terno azul escuro e camisa clara está em pé com as mãos nos bolsos diante de um prédio moderno com fachada de vidro e estrutura branca com padrão geométrico.
Luciano Amaral, CEO da Benx Incorporadora - Divulgação Benx Incorporadora

Qual problema é maior para o setor? Juros ou mão de obra? A falta de mão de obra é muito preocupante. Ainda não conseguimos desenvolver tecnologias em massa que substituam essa mão de obra. O filho do pedreiro não quer mais ser pedreiro, o filho do mestre não quer mais ser mestre. Tenho feito reuniões para buscar soluções. Fizemos uma incursão recente com dez pessoas na China, visitando obras, para tentar trazer alguma tecnologia de lá em parceria com fornecedores.

A que o sr. atribui essa falta de mão de obra? É bem claro que as pessoas não querem mais. O mundo mudou. É um trabalho muito pesado, de muito esforço físico. Hoje, em vez disso, é possível fazer um curso técnico. Podem ser Uber, há muitas opções que não existiam. Outro fator é o boom imobiliário. Não formamos profissionais e aumentamos a produção. Como é que faz? Falta mão de obra.

E o possível fim da escala 6x1? Com que olhos o sr. enxerga? O governo não pode tomar uma medida assim, de repente. Precisa pensar e tratar as consequências. O que eu mais ouço é que o país não investe em educação e não investe em produtividade, que está caindo no Brasil. Se a produtividade está caindo e você ainda diminui o tempo de trabalho, é preciso pensar como isso influencia na vida das pessoas, nos custos, na inflação.

A Benx se afastou da classe média. O movimento é uma guinada permanente ou é um porto temporário? Nada é permanente. O mercado imobiliário é muito cíclico. Estamos num momento de explosão imobiliária, baseada no Minha Casa, Minha Vida, mas a classe média é sempre muito forte no consumo. Uma empresa do tamanho da nossa tem que revisitar o planejamento estratégico todos os anos. Até porque o Brasil é país no qual os juros vão de 2% a 15%, de 15% a 10%, não dá para ter uma estabilidade com essas taxas.

Vocês esperam que as unidades do 280 Art, projeto no Itaim, cheguem a até R$ 180 milhões. O aumento de preços no mercado se deve a um aumento real da riqueza e da demanda ou vivemos uma bolha especulativa em regiões específicas? Não é uma bolha. Há riqueza em São Paulo. No agro há riqueza, mas é setorizado. Se pegamos dez ou 15 indústrias brasileiras, vemos quantos executivos elas geraram. Cada prédio de altíssimo padrão tem 20, 25 apartamentos, 30 é o máximo. Não é como se fizéssemos 200 unidades. Basta olhar o mercado financeiro, que têm crescido uns 500 mil executivos ganhando dinheiro. Para dar vazão, você precisa de vários prédios.

O Parque Global demorou 21 anos para sair do papel, em grande parte devido a imbróglios judiciais. Ainda pensa em investir no modelo bairro planejado? O Parque Global é um "case" sob todos os ângulos. A insegurança jurídica é o problema mais grave do país. Essa á uma opinião compartilhada por muita gente. O modelo de bairro, no entanto, é tão forte, que saiu vencedor depois desse problema de insegurança jurídica.

A marca Arbórea é aposta para o segmento de luxo. Há espaço para empresa nativa brasileira? Não tenho nada contra o brand residence, acho que é mercado importante, mas depende do local e do público para funcionar. Nem todo brand residence vai atingir altíssimo padrão. Nós decidimos criar essa marca agora e temos três projetos direcionados para esse cliente.

.


Raio-X

Luciano Amaral, 62
1963, Salvador.. É engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da UFBA (Universidade Federal da Bahia). Trabalha com empreendimentos de grande porte desde o início da carreira. Foi diretor da JHSF Incorporações, onde participou do desenvolvimento do Cidade Jardim, empreendimento de luxo em São Paulo. Está à frente da Benx Incorporadora desde 2013, braço imobiliário da holding Bueno Netto.

O bom aviso da transparência, Muniz Sodré ,FSp

 Foi-se o pensador alemão Jürgen Habermas. Muito antes do fato, já havia morrido a sua ideia utópica de democracia deliberativa, sustentada por uma esfera pública onde cidadãos discutiriam racionalmente assuntos de interesse comum. Igualmente, desaparecido o seu anseio de um federalismo soberano da União Europeia. A razão cultuada pelo filósofo não resiste ao digitalismo da internet e das redes sociais, apropriado por empresas neoliberais cujo único interesse é a compressão do espaço-tempo para acelerar transações de mercado. A transparência comunicativa por ele teorizada submergiu em algoritmos e plataformas privadas, dispositivos de pura mobilização emocional.

Homem idoso com cabelos brancos e óculos transparentes fala em microfone. Ele veste terno escuro e camisa clara, com fundo preto.
O filósofo alemão Jürgen Habermas. - Juan Estevs/Folhapress

Mas a liberdade pessoal defendida pelo mercado neoliberal, onde cada um é responsável por suas ações e por seu próprio bem-estar, gera outro tipo de transparência, o falatório alucinante, em que tudo acaba por se evidenciar e ser dito, sem peso cívico nem verdades consensuais. Às vezes, de uma notícia protocolar nas redes, o que transparece aos olhares atentos é o temor de uma grande armação antidemocrática.

É bem o caso da negação do visto de entrada no país de um supremacista branco, assessor de Trump, que pretendia visitar o ex-presidente na prisão. O motivo anunciado da viagem e que justificou inicialmente uma autorização brasileira era a participação num seminário. Depois se ampliou para a visita ao detento e, mais, para uma conversa programada com o ministro Nunes Marques, do STF. Teria soado um sininho de advertência na cabeça de alguém, o governo proibiu a viagem.

Tudo isso transparecia nas redes, à revelia oficial. Era um "no brainer" (vernáculo americano para algo que está na cara), especular que Nunes Marques será o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, com vice-presidência do ministro André Mendonça, nas próximas eleições. Por sinal, um rito do calendário democrático, a que Trump se refere em seus discursos como "troca de comando".

"Honni soit qui mal y pense" ("maldito seja quem disso pense mal") é a divisa da famosa Ordem da Jarreteira na aristocracia britânica, honraria que foi recentemente retirada do ex-príncipe Andrews. Vale reiterá-la aqui, mas, como haverá dois ministros terrivelmente bolsonaristas na condução do pleito, circulam nas redes pensamentos enviesados. Em princípio, injustificados, pois ao TSE, órgão máximo da justiça eleitoral, cabem basicamente atribuições de coordenar eleições em conjunto com tribunais regionais. Aliás, algo que falta ao confuso sistema eleitoral dos EUA.

A que visaria então o inusitado encontro do supremacista branco com o apenas preclaro ministro do STF? Pode-se descartar qualquer diálogo racional ao modo de Habermas, porque o tempo trumpista não é de razão, mas de canhões e tentativas de "trocas de comando" em terras alheias. É viável a hipótese de que a liderança do neofascismo mundial pretenda estender a sua já concreta ingerência no sul do Caribe para mais perto de nós, influenciando, para início de conversa, as eleições brasileiras. Tudo isso pode ser mera conjetura, claro. Mas é de bom alvitre evitar conversas não-habermasianas com os beleguins do império.


A Nova Lei de Gérson, Ruy Castro, FSP

 Em 1976, Gérson, meia da seleção brasileira tricampeã do mundo, marcou época na TV com um comercial do cigarro Vila Rica, em que dizia: "Por que pagar mais caro se o Vila Rica me dá tudo que eu quero de um bom cigarro? Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também. Leve Vila Rica". O Vila Rica, fabricado pela Reynolds, era barato mesmo: custava Cr$ 5 o maço contra os Cr$ 13 do Hollywood, da Souza Cruz. Mas a única pessoa que levou vantagem em fumar Vila Rica e está viva para contar é o próprio Gérson, 85 anos, tranquilo em Niterói e sem fumar desde 1999.

Gérson no comercial do cigarro Vila Rica, que gerou a chamada "lei de Gérson". - Divulgação/Divulgação

Mas foi uma dúbia vantagem. O bordão "levar vantagem" tornou-se sinônimo de malandragem, falta de ética, passar para trás. Criou-se a Lei de Gérson para definir esse comportamento. Mas Gérson, coitado, era apenas o garoto-propaganda do comercial. A frase pertencia à Salles Interamericana, agência que detinha a conta da Reynolds, e seu autor era o publicitário Jacques Lewkowicz. A Salles nem existe mais, mas Gérson nunca se livrou da frase.

Pois isso agora pode mudar —porque temos um novo Gérson e uma nova lei na praça. Trata-se de Gerson, ex-meia do Flamengo, vendido no ano passado ao Zenit, da Rússia, e já de volta ao Brasil, agora no Cruzeiro. Há tão pouco tempo, Gerson era o capitão do Flamengo, ídolo da torcida, o maior salário do clube e titular da seleção. Mas seu pai e empresário, o impopular Marcão, adora vendê-lo para a Europa. E, mais uma vez, Gerson foi, viu e não venceu. Na primeira, o Flamengo o quis de volta. Desta vez, nem pensar —mesmo porque ganhou tudo em 2025, Brasileiro e Libertadores, sem ele.

Jogador do Flamengo com camisa preta e vermelha listrada corre em campo. Ele usa braçadeira de capitão amarela no braço esquerdo e está focado no jogo. Fundo desfocado mostra torcida no estádio.
Gerson, em campo pelo Flamengo, durante a partida das oitavas de final do Mundial de Clubes contra o Bayern München - Michael Reaves - 29.jun.25/Getty Images via AFP

Flamengo e Cruzeiro se enfrentaram outro dia no Maracanã. Gerson foi vaiado por 60 mil pessoas que o amavam. Perdeu o jogo, seu clube está na lanterna e ele saiu da seleção. Ao ser substituído, podia-se vê-lo no banco de reservas, olhando para as arquibancadas e talvez se perguntando se levara alguma vantagem no que fizera.

É a Nova Lei de Gerson: "Como levar desvantagem em tudo". Certo?