quinta-feira, 9 de março de 2023

Com plano Lula, vaca leiteira da Petrobras rende menos para o governo, VTF , FSP

 


Os planos de Lula 3 para a Petrobras vão fazer com que a empresa renda menos para o governo. Isto é, que pague menos impostos e dividendos (parte do lucro). No ano passado, a petroleira rendeu o equivalente a quase 10% da receita bruta do governo federal. É uma enormidade.

O governo pretende conter o preço dos combustíveis e diminuir a distribuição de lucros a fim de aumentar o investimento da empresa em expansão e em novos negócios (como em energia mais limpa). Terá de pensar bem no caso. Já está com as contas no vermelho profundo. Sem o leite da Petrobras, o rombo aumenta.

Sabe-se apenas das linhas gerais do plano de Lula para a petroleira. Os combustíveis não seriam mais vendidos segundo a cotação internacional. Para que essa medida tenha algum sentido político, os preços ficariam por bom tempo abaixo do valor de mercado (internacional) e raramente acima. Tudo mais constante, a empresa se torna menos rentável.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante evento no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) - Adriano Machado - 7.mar.2023/Reuters

Deve haver mudança na distribuição de lucros (dividendos), em favor de investimentos. Pode ser razoável, em certa medida. A Petrobras é uma vaca leiteira, mas, sem capim e outras comodidades, sem investimentos em volume adequado, pode acabar muito magra e render cada vez menos.

Difícil é decidir quanto mais investir e no quê. Ou seja, determinar se a despesa de capital vai dar retorno. É fácil lembrar de casos em que governos determinaram a realização de investimentos entre ruins e desastrosos, como na petroquímica e no refino dos anos petistas. Também é preciso saber se é possível tomar essas decisões de preços e investimentos sem atropelar leis e normas de governança da Petrobras.

No curto e no médio prazos, pelo menos, essas mudanças vão tornar a empresa menos rentável para o cofre do Tesouro Nacional, em termos recorrentes (habituais). O rendimento da empresa para o governo também depende, claro, do preço do petróleo, por exemplo.

Além de impostos e dividendos, a Petrobras paga "participações governamentais". São royalties, participações especiais (valor devido pela exploração de campos de petróleo de rendimento excepcional) ou bônus de assinatura (pagamento pela concessão, pelo direito de explorar petróleo em uma área).

No ano passado, a empresa pagou R$ 232,1 bilhões em impostos e participações (para os governos federal, estaduais e municipais, excluídos impostos recolhidos em nome de terceiros), conforme Relatório Fiscal da Petrobras, divulgado nesta quinta-feira.

Para o governo federal, foram quase R$ 230 bilhões (somados impostos, participações e dividendos). Em 2022, A receita bruta do governo federal foi de R$ 2,313 trilhões (todos os valores são nominais: sem descontar a inflação).

Pelo valor de dividendos totais lançado no balanço anual da Petrobras, o governo federal deve ter recebido (ou vai receber) cerca de R$ 56 bilhões relativos a 2022. Se o critério de distribuição de lucro fosse o de pagamento mínimo de dividendos, o governo teria levado apenas R$ 13,5 bilhões no ano passado.

É uma diferença de quase R$ 43 bilhões. Decerto há um meio do caminho razoável entre a festa e a retenção excessivas de lucro. Além do mais, 2022 foi um ano de ganhos excepcionais para a petroleira, de petróleo e combustível caros, entre outras bonanças. Ainda assim, a conta dá o que pensar: R$ 43 bilhões é quase o valor de todo o investimento federal em obras, equipamentos e similares em 2022.

O governo quer fazer política industrial por meio da Petrobras (investimentos que julga estratégicos). Quer intervir em preços. Para tanto, terá de sacrificar o Orçamento (ter mais déficit ou investir diretamente menos, por exemplo). Mesmo sem fazer besteira, é uma decisão difícil.

Orçamento de Biden propõe novos programas sociais e impostos mais altos sobre os ricos, NYT FSP

 

Jim Tankersley
WASHINGTON | THE NEW YORK TIMES

presidente americanoJoe Biden, propôs na quinta-feira (9) um orçamento de US$ 6,8 trilhões, que busca aumentar os gastos com as Forças Armadas e uma vasta gama de novos programas sociais.

Ao mesmo tempo, o plano prevê reduzir os futuros déficits orçamentários, desafiando os apelos dos republicanos pela redução do tamanho do governo, antes da campanha democrata de reeleição.

O orçamento incorpora cerca de US$ 5 trilhões em propostas de aumento de impostos sobre os mais ricos e empresas, ao longo dos próximos dez anos, em boa parte para compensar novos gastos destinados a beneficiar a classe média e os mais pobres.

A proposta também procura reduzir os déficits orçamentários em quase US$ 3 trilhões, ao longo desse período, em comparação com a trajetória atual.

O presidente dos EUA Joe Biden apresenta o orçamento federal para 2024 - Saul Loeb - 9.mar.2023/AFP

O orçamento reafirma os argumentos de Biden de que ele será capaz de evitar que o crescente peso da dívida pese sobre a economia, ao mesmo tempo em que expande gastos e protege os programas de proteção aos mais pobres – tudo isso quase inteiramente bancado por aumentos de impostos sobre os mais ricos e as empresas.

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"Este presidente claramente acredita que a forma de fazer crescer a economia é investir na classe média e nas famílias trabalhadoras", disse Shalanda Young, a diretora do serviço de orçamento da Casa Branca, a jornalistas, na quinta-feira. "Não importa quais sejam as circunstâncias, nosso plano sempre respeitará a responsabilidade fiscal".

Mas depois de reivindicar crédito por uma queda de US$ 1,7 trilhão no déficit anual durante o ano passado, Biden agora está prevendo um novo aumento do déficit no ano fiscal de 2024, para US$ 1,8 trilhão. O salto é maior do que o previsto por outros analistas, como o Serviço de Orçamento do Congresso. É impulsionado pelo aumento dos custos de serviço da dívida nacional, agora que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, está aumentando as taxas de juro para conter a inflação, e por novos programas que o presidente está propondo e cujos custos não serão inteiramente cobertos por aumentos de impostos em seu primeiro ano.

O plano inevitavelmente atrairia críticas imediata da parte dos republicanos, que estão empacados em um debate economicamente perigoso com Biden sobre o limite da dívida nacional, que os conservadores da Câmara se recusam a aumentar a menos que o presidente aceite cortes acentuados nas despesas. As propostas têm pouca probabilidade de aprovação porque os republicanos conquistaram o controle da Câmara em novembro.

Em vez disso, a proposta orçamentária de Biden é uma afirmação política de valores destinada a conquistar a opinião pública, em meio à briga quanto a expandir o limite da dívida e aos primeiros passos da campanha presidencial de 2024. Biden anunciaria a proposta em um discurso em Filadélfia na tarde de quinta-feira – a metrópole de um estado cujo controle político estará em disputa no ano que vem.

"O orçamento reflete os nossos valores como nação - uma nação de boas pessoas, crescendo em uma nova era de possibilidades, e se posicionando como um farol para o mundo", escreveu Biden na introdução do documento. "Vamos, juntos, colocar esses valores em prática e provar que a democracia dá resultado, à medida que continuamos a construir uma economia mais forte e mais justa, que não deixe pessoa alguma para trás".

As propostas demonstram o sucesso inicial de Biden na expansão do papel do governo federal na economia, e reafirmam a sua determinação de fazer mais. No relógio de Biden, os números mostram que os gastos internos em áreas como pesquisa e o apoio à indústria cresceram significativamente mais, como proporção da economia, do que foi previsto nas propostas orçamentárias do governo democrata anterior, o de Barack Obama, de quem Biden foi vice-presidente.

Nos seus dois primeiros anos como presidente, Biden assinou leis para expandir e reconstruir elementos essenciais da infraestrutura, como aquedutos e rodovias, reforçar a fabricação de semicondutores e outros bens de alta tecnologia nos Estados Unidos, e acelerar a transição dos combustíveis fósseis para fontes de energia com baixas emissões de poluentes, a fim de combater a mudança no clima. Ele prestou assistência militar à Ucrânia na sua guerra contra a Rússia e assinou uma lei bipartidária que ampliaria o atendimento médico federal para os veteranos das forças armadas expostos queimaduras tóxicas.

Mas o presidente teve de deixar boa parte de sua agenda econômica inacabada, um fato refletido em seu orçamento, que renovou os apelos por programas que não foram aprovados quando seu partido controlava o Congresso.

O orçamento do presidente propôs US$ 400 bilhões para a oferta de serviços infantis a preços acessíveis para as famílias, US$ 150 bilhões para assistência em domicílio aos americanos mais idosos e deficientes e quase US$ 400 bilhões tornar permanente a cobertura de saúde expandida oferecida pela Lei de Acesso à Saúde. Ele reservaria US$ 325 bilhões para garantir licenças remuneradas aos trabalhadores e cerca de US$ 300 bilhões combinados para bancar cursos superiores gratuitos e ensino pré-escolar gratuito. Ele propõe US$ 100 bilhões em assistência adicional para reduzir os custos da habitação, para compradores e inquilinos de imóveis residenciais.

Biden restabeleceria por três anos adicionais o crédito fiscal expandido para as famílias com filhos pequenos, que era parte da lei de assistência econômica que ele assinou em 2021 mas expirou no ano passado, como forma de reduzir a pobreza infantil. Ele tornaria permanente uma mudança no crédito que permitiria às pessoas se beneficiarem dele na íntegra mesmo que não tenham rendimento suficiente para ficarem sujeitas ao imposto de renda federal. Em conjunto, as mudanças custariam mais de US$ 400 bilhões.

Para ajudar a compensar os custos, Biden propôs uma série de aumentos de impostos sobre as empresas e os americanos mais ricos. Estes incluem um imposto de 25% dirigido aos bilionários (ele propôs um imposto semelhante no ano passado, mas a uma alíquota mais baixa: 20%). Propôs também quadruplicar o imposto sobre a recompra de ações e renovou o seu apelo pela redução nos cortes de impostos do Presidente Donald Trump em benefício das pessoas de renda alta, e para aumentar a alíquota do imposto de renda empresarial de 21% para 28%.

Biden propôs aumentar e expandir um imposto sobre os americanos com renda superior a US$ 400 mil anuais, como parte dos esforços para manter o programa federal de saúde Medicare solvente por mais um quarto de século. Ele propõe também novos cortes de custos para o governo com base em uma negociação mais agressiva sobre os preços dos medicamentos vendidos sob receita.

Mas pelo terceiro orçamento consecutivo, Biden não propôs quaisquer iniciativas novas para estender a solvência da Previdência Social - ao contrário do que afirmou na campanha de 2020, quando propôs expandir os benefícios e o reforço do fundo fiduciário do programa, aumentando as alíquotas dos impostos salariais sobre as pessoas com renda superior a US$ 400 mil anuais.

Biden prevê que a dívida nacional bruta aumentará em cerca de US$ 18 trilhões até 2033, subindo para pouco mais de US$ 50 trilhões. Mas o seu orçamento sugere que o crescimento da dívida não ameaça a economia.

"O peso econômico da dívida permaneceria baixo e em linha com a experiência histórica recente, durante a próxima década", escreveram representantes do governo na proposta orçamentária.

Grande parte do conteúdo do orçamento consiste de retomadas de propostas anteriores de Biden. Mas ele também inclui algumas novas propostas. Uma delas é um imposto sobre a energia utilizada na criação de novos ativos em moeda digital, uma atividade conhecida como mineração de criptomoedas. Essa prática requer alto consumo de eletricidade e gera emissões que contribuem para a mudança do clima.

Representantes do governo querem desencorajar a prática, que segundo eles dificulta a transição energética do país. Assim, propuseram um imposto de 30% sobre a eletricidade utilizada para esse fim, adotado gradualmente ao longo de três anos, e não importa se a eletricidade vier de uma empresa de energia ou de uma fonte localizada, como um painel solar doméstico, com base na teoria de que a energia envolvida seria mais bem aproveitada em outra utilização.


Ruy Castro -O banal tapa na cara, FSP

Nelson Rodrigues dizia que o pior na bofetada é o som: "Se fosse possível uma bofetada muda, não haveria ofensa nem humilhação, nada". Como não é assim, Nelson observou que "a partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, isso inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação". E decretava, bem à sua maneira: "É melhor ser esbofeteado do que esbofetear".

O cinema é um contínuo festival de bofetadas com fins dramáticos, mas nenhuma mais importante do que a de "No Calor da Noite" (1966): Larry Gates, branco e autoritário, esbofeteia o detetive negro Sidney Poitier. E —surpresa!— Poitier o esbofeteia de volta. Nunca se vira isso num filme. E, na entrega do Oscar em 2022, Will Smith atravessou o auditório para esbofetear o apresentador Chris Rock por uma piada sobre sua mulher. A ideia era humilhá-lo na TV ao vivo, para milhões.

Esta é a palavra: humilhação. Quando um policial mete o pé na porta de um barraco e entra aos gritos e de mão aberta contra o rosto do morador, o objetivo é humilhar, desmoralizar, rebaixar a pessoa ao subumano, para lhe mostrar quem manda. Uma câmera no capacete ou na farda do meganha talvez reduzisse o índice de bofetadas em quem não pode se defender —porque não as vemos aplicadas nos que se defendem com um fuzil ou metralhadora.

Assisti por acaso outro dia, pela televisão, a um novo tipo de luta: o tapa na cara. Um homem imóvel se deixa esbofetear violentamente por outro e, se continuar de pé, é a sua vez de fazer o mesmo. Cada tapa parece quase arrancar a cabeça do estapeado, e eles se alternam até que um desmaie. Seu principal promotor, Dana White, o tubarão do UFC, já conseguiu legalizá-lo nos EUA como um "esporte". Deve ser a próxima atração dos nossos canais de luta.

É a banalização da bofetada —o tapa na cara subitamente instituído como uma nova forma de expressão entre nós, os humanos.

Will Smith dá um tapa em Chris Rock na 94ª entrega do Oscar - Robyn Beck - 27.mar.22/AFP