segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Hélio Schwartsman - O ônus da fraude cabe ao fraudador, FSP

 Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, procurador regional da República, e Vera Lúcia Taberti, promotora de Justiça, escreveram na edição desta segunda (24/1) artigo em que contestam minha coluna "Dizimando a justiça" (15/1).

Agradeço o tom civilizado da crítica, o que não é uma constante nos dias que correm, e os oportunos esclarecimentos. Receio, porém, que eles não tenham mudado minha avaliação sobre as resoluções do TSE que permitem cassar toda a chapa proporcional de candidatos quando houver prova da fraude de candidaturas femininas fictícias. A meu ver, essa é uma punição desproporcional quando aplicada a candidatos que não participaram da fraude e que ainda pode frustrar a vontade do eleitor.

Gonçalves e Taberti justificam a cassação coletiva como a resposta normal da Justiça a irregularidades que afetem toda a chapa. Seria como uma convenção feita fora do prazo, por exemplo. Complicado. Não estamos, afinal, falando de uma burrada coletiva, mas de fraude. Não se pode excluir que os dirigentes partidários que a perpetraram tenham feito isso para se apropriar das verbas, hipótese em que os membros não comprometidos da legenda deveriam ser descritos como vítimas.

E vale notar que o TSE não oferece resposta consistente sobre o tratamento a ser dado a fraudes. Produziu essas resoluções que autorizam punições coletivas, mas, no recente julgamento da chapa Bolsonaro-Mourão, sinalizou que a fraude só justifica a cassação se tiver ocorrido em escala capaz de mudar o resultado da eleição.

Adoraria ver Bolsonaro destituído, mas creio que tal interpretação é mesmo a melhor. Afinal, a missão precípua da Justiça Eleitoral é assegurar que a vontade do eleitor se materialize. É sob essa lógica que leis e regulamentos devem ser aplicados.

Se os eleitores escolheram um candidato que disputou o pleito de boa-fé, não faz sentido cassar-lhe o mandato por falcatruas de terceiros.


Alvaro Costa e Silva Amigo de Deus e de Bolsonaro, FSP

 Enquanto na semana passada o governador Cláudio Castro encenava um blockbuster —1.300 policiais, helicópteros e blindados em ação nas comunidades do Jacarezinho e Muzema— para inaugurar o programa Cidade Integrada, o repórter Matheus Rocha revelava como moradores de outras duas favelas, Salgueiro e Vidigal, têm de se virar, sozinhos, para receber uma simples carta.

Como os Correios só fazem entregas a partir de regras internas de segurança, as lideranças comunitárias organizaram um serviço alternativo, empregando os próprios moradores. O favelado se sente cidadão se pode receber e pagar uma conta em dia. Cláudio Castro sabe disso, e pouco se importa. O que ele quer é ganhar a reeleição, e, para conseguir o objetivo, nada melhor que prometer acabar com a violência. Um expediente mais velho que Cabral, não o ex-governador das UPPs, mas o navegador português.

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Político inexperiente que recebeu o cargo de bandeja com o impeachment de Wilson Witzel —aquele que se elegeu dizendo que mandaria atirar na cabecinha—, Castro está em plena campanha. Outro dia exibiu seus dotes de cantor de sacristia para uma multidão de evangélicos, a maioria sem máscara, no Parque Olímpico. "É muito bom ser amigo de Deus", escreveu ele no Twitter. Poderia ter completado: "E da ômicron também".

Para compensar o estilo desarticulado, embora cantante, Castro abusa da máquina estatal. Seguindo os passos de Bolsonaro, a quem deve fidelidade canina, deu aumento a bombeiros e policiais militares —o benefício terá impacto anual de quase R$ 300 milhões nos cofres públicos. E só nesta primeira fase do Cidade Integrada estão previstos investimentos de R$ 500 milhões.

Falta combinar com o Tesouro Nacional, que reprovou o reingresso do Rio de Janeiro no Regime de Recuperação Fiscal. Entre outros, o motivo foi a promessa de aumentos, bonificações e benesses ao funcionalismo em ano eleitoral.