domingo, 29 de dezembro de 2013

A privataria petista mora nos detalhes - ELIO GASPARI


O GLOBO - 29/12

Durante o tucanato converteram-se papéis podres de dívidas da União em moeda corrente, juntaram-se financiamentos do BNDES, dinheiro dos fundos de pensão estatais e torrou-se a patrimônio do Viúva na festa da privataria. O comissariado petista diz que não faz isso, pois não vende o que é da Boa Senhora. Tomando-se o caso dos leilão dos aeroportos, resulta que fazem diferente, e pior.

Em novembro a Odebrecht, associada a uma operadora de aeroporto de Cingapura, arrematou a concessão do Galeão por R$ 19 bilhões. Quem ouve uma coisa dessas acredita que o futuro chegou. As vítimas da Infraero pensam que se livrarão do dinossauro e que o novo dono investirá seu dinheiro no aeroporto para torná-lo uma vitrine da cidade. Não é bem assim. A Infraero continua com 49% do negócio, e o velho e bom BNDES, mais um fundo de investimentos estatal, botaram R$ 1,4 bilhão na operadora de transportes da Odebrecht. Somando-se essa participação à da Infraero, a Viúva fica com mais de 50% do Galeão.

Pode-se argumentar que a gestão ganhará a eficácia da iniciativa privada, mas ganha uma passagem de ida a Davos quem sabe onde terminam os braços das empreiteiras e onde começa o Estado dos comissários. Ganha a passagem de volta quem sabe onde termina a máquina de administração de serviços do Estado e onde começa a das empreiteiras.

Até aí, ainda haveria lógica, mas, conforme o repórter Daniel Rittner revelou, as empreiteiras que arremataram as concessões dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos querem fazer uma pequena mudança nos contratos assinados em 2012. Pelo que se acertou, as concessionárias podem construir hotéis, centros de convenções e torres de escritórios nas áreas arrendadas, explorando-os por períodos de 20 a 30 anos. Agora, uma associação de concessionários cabala a prorrogação da posse dessas melhorias. Nesse caso, o negócio não é administrar aeroporto, mas explorar empreendimentos imobiliários. Parece a piada do chinês de Nova York: "Meu negócio é a tinturaria, venda de cocaína é disfarce".

A privataria tucana patrocinava grandes tacadas iniciais, a petista move-se suavemente nas mudanças dos contratos. Cada mudança, um negócio. Para quem quer desmoralizar o país como destino de investimentos estrangeiros, nada melhor. Nem a criatividade dos advogados da bancada da Papuda seria suficiente para explicar a uma empresa que entrou no leilão de um aeroporto e teve seu lance superado que devia ter previsto a possibilidade da extensão do período de exploração dos empreendimentos imobiliários.

A doutora Dilma deve botar sobre sua mesa um talonário do jogo do bicho carioca: "Casa Lotérica São Jorge, vale o que está escrito".

PRIVATARIA NO RIO

A Prefeitura do Rio e o Instituto do Patrimônio Histórico continuam apanhando dos aproveitadores que privatizaram o espaço público e tombado do Aterro do Flamengo.

O Iphan embargou a construção do Cirque do Soleil na Marina da Glória, a empresa que explora o espetáculo recorreu, e o próprio instituto voltou atrás. Jogo jogado. Ninguém está aqui para cortar a alegria de quem quer ir ao circo nem para atrapalhar os negócios de quem oferece festas ao povo.

A área do Aterro foi tombada pelo Iphan nos anos 60. Ali não podem ser montados circos nem mafuás. Quando Eike Batista tinha os poderes da kriptonita que faziam dele um super-homem, tentou transformar a Marina num centro de convenções anexo ao Hotel Glória. Para isso, contou com o estímulo da Prefeitura do Rio e com a distração do Iphan. Deu no que deu.

Tudo o que se pede é que o Iphan e a prefeitura anunciem que, com o fim da temporada do circo, o Aterro estará blindado, como manda a lei.

GUIDO VANDERBILT

Diante do avanço do Imposto de Renda sobre o andar de baixo, o ministro Guido Mantega recusou-se a discutir o assunto.

É o modelo Alice Vanderbilt. Um dia ela chegou atrasada a um jantar porque seu motorista não lembrava direito o endereço. Ela lembrava, mas não dirigia a palavra a criados.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo transferirá seu domicílio eleitoral para o Estado do Paraná. Quer votar em Gleisi Hoffmann. Graças a ela, aprendeu que "não temos como evitar chuvas".

O cretino acreditava que o PT cuidaria disso, mas viu-se gratificado com a demonstração de modéstia da comissária.

BARROSO, A ESCOLHA FELIZ DOS COMISSÁRIOS

Se o ministro Luiz Fux foi uma decepção para o comissariado, seu colega Luís Roberto Barroso surge como uma surpresa alentadora. Num caso pode ter ocorrido um erro tático, no outro deu-se um acerto estratégico.

A simpatia dos comissários decorre da antiga militância do doutor Barroso na defesa de uma modalidade de voto de lista e na enfática condenação do atual sistema eleitoral. Ele aceita sistema distrital misto, com lista e voto majoritário, mas nem ele nem ninguém explicou como serão desenhados os distritos, fonte de corrupção na atual política dos Estados Unidos. Num artigo para a revista eletrônica "Consultor Jurídico", Barroso classificou o "atual sistema de voto proporcional e lista aberta" como "antidemocrático e antirrepublicano". Direito dele, mas trata-se de algo decidido pelo competente poder democrático e republicano, que é o Congresso. Ainda não apareceu jurisconsulto palaciano defendendo que essa atribuição seja passada aos tribunais.

Barroso sustenta que, depois das sentenças do mensalão e da ida do povo para a rua, o país precisa de:

1) "A alteração drástica do sistema político, na qual o dinheiro sem procedência é o personagem principal."

2) A reforma do sistema punitivo brasileiro, "seletivo, racial e classista".

Precisa, mas faltou dizer que convém botar mais gente na cadeia, visto que "dinheiro sem procedência" não anda sozinho. É preciso que alguém o ponha no bolso.

Atualmente, o dinheiro rola porque, além das doações legais, há o caixa dois. Quando o Supremo proíbe as doações ilimitadas de empresas, trava apenas o ervanário com procedência. Nenhum tostão do mensalão saiu de doações legais. Para conter o dinheiro ilegal só há um caminho: o medo da Papuda, e povoá-la é função do Judiciário.

Isso tudo pode acabar na realização do sonho petista do financiamento público das campanhas. (Com o PT recebendo a maior fatia desses recursos.) Junto com o voto de lista, resultará no seguinte: o eleitor paga pelas campanhas e ainda por cima perde o direito de dizer que votou no candidato de sua escolha, pois quem fixa a ordem de sagração dos parlamentares é o partido. No atual sistema, houve eleitores que votaram em Delfim Netto e foi para a Câmara Michel Temer. Coisa esquisita, mas o cidadão sempre poderá dizer que votou em Delfim. E o caixa dois? Barroso acredita que ele acaba.

Olhando para trás e para a frente - SAMUEL PESSÔA


FOLHA DE SP - 29/12

A chave para a recuperação da economia do país em ritmo maior é a retomada do setor de serviços


Esta é a última coluna do ano. Bom momento para olhar o que se passou em 2013 e divisar 2014.

O ano de 2013 foi marcado pela recuperação da economia do baixíssimo crescimento de 1% em 2012. A nossa previsão para 2013 na última coluna do ano passado, que apresentou o mesmo título desta, foi que cresceríamos 3%, com inflação na faixa de 5,5% a 6% e in- vestimento crescendo aproximadamente 6%.

A inflação em 2013 fechará em cerca de 5,8% e a alta do investimento será em torno de 6,5%. Ou seja, as projeções do cenário Ibre de dezembro de 2012 para o ano de 2013 foram relativamente bem-sucedidas para a inflação e a para recuperação do investimento. Sabíamos à época que a melhora da economia estava fortemente condicionada à recuperação do investimento, que havia recuado 4% em 2012.

No entanto, o crescimento em 2013 deve ser de 2,4%, pouco mais de meio ponto percentual abaixo do que prevíamos em dezembro de 2012. O que ocorreu de diferente em relação ao projetado?

Não imaginávamos que a demanda externa seria tão ruim. As exportações crescerão somente 2%, para uma expansão das importações de 8%. Parte da recuperação do investimento transformou-se em demanda por importações de máquinas, e não por produção da indústria nacional de bens de capital.

Também contribui para o resultado ruim do PIB o desempenho fraco da indústria extrativa mineral, principalmente devido a problemas da Petrobras. Até outubro, a extrativa havia recuado 2% em comparação com dezembro de 2012.

A surpresa positiva foi a forte recuperação da agricultura, que cresceu 8%, após ter recuado 2,3% no ano passado.

O setor de serviços, que representa mais de 60% da atividade econômica, novamente surpreendeu negativamente: depois de crescer no período Lula ao ritmo de 4% ao ano, reduziu o passo para 2% desde 2011. Em 2013 não foi diferente. Os serviços devem fechar o ano com expansão de 2%.

Evidentemente, a chave para a recuperação do crescimento da economia brasileira em ritmo mais forte está no retorno do setor de serviços a uma expansão mais robusta. Precisamos entender os motivos que explicam a perda de desempenho dos serviços no período mais recente, em comparação aos oito anos do governo Lula.

Para 2014, o cenário Ibre é de crescimento de 1,8%, com inflação na casa de 6% e investimento em alta de 2,5%. Esse cenário foi construído com Selic (taxa básica de juros, fixada pelo Banco Central) em 10,5%, câmbio médio ao lon- go de 2014 de R$ 2,4 e superavit fiscal primário (que exclui receitas e despesas financeiras) de 0,5% do PIB, excluindo também as recei- tas extraordinárias e as deduções permitidas em lei para o cumprimento da meta.

Penso que o risco de o cenário não se materializar é um desempenho muito melhor do que o esperado da indústria extrativa mineral, com forte recuperação da produção da Petrobras já em 2014. Nesse caso, em vez do deficit externo de 3,4% do PIB que prevemos para 2014, poderemos observar valores mais próximos de 3%.

De qualquer forma, seja um pouco melhor ou pior, parece-me que o cenário para 2014 está dado. Continuará o processo de ajuste do câmbio. Acho que o dólar fechará o ano em torno de R$ 2,5, devido à normalização da política monetária norte-americana.

O destaque da agenda para 2014, além da Copa do Mundo, é a eleição presidencial. O maior risco para a reeleição de Dilma Rousseff será dado pela evolução da inflação. Como afirmei acima, prevemos que a inflação fechará 2014 em 6%, não muito pior do que os 5,8% de 2013.

O risco para a presidente é haver uma aceleração do processo de normalização dos juros internacionais. Com isso, o câmbio poderia se desvalorizar bem mais rapidamente, criando pressões inflacionárias mais intensas. Por enquanto, esse cenário é apenas um risco, e não uma forte probabilidade. Mas é um risco real.

Detalhes, detalhes - LUIS FERNANDO VERISSIMO ( sobre o racismo brasileiro, uma maravilha)


O GLOBO - 29/12

Diferença do status do negro nas sociedades americana e brasileira, uma racista e outra pretensamente não, pode ser encontrada na quantidade de pianistas negros



Há muitas maneiras de se medir progresso, ou pelo menos mudanças históricas, além dos frios números de uma economia ou além da sociologia convencional. Muitas vezes o detalhe que não é notado é o mais revelador. O Marshall McLuhan (lembra dele?) construiu uma tese inteira em cima da importância da invenção do estribo de cavalo na história do Ocidente. O estribo significou que o aristocrata também passasse a participar das batalhas junto com o pobre soldado a pé, com tudo que isso implicava de novo em questões como relações hierárquicas — e de mortandade entre aristocratas. A história das armas de guerra, que no fim é a história da civilização, pode ser medida em detalhes como o aumento da distância possível para se matar um inimigo, começando com o olho no olho e o tacape na mão do tempo das cavernas, passando pela espada, a lança, o arco e flecha, a catapulta, o mosquete, o fuzil, o canhão, o bombardeio aéreo, etc. e culminando no drone teleguiado, o mais longe que se pode chegar do inimigo sem precisar olhar no seu olho.

Ainda não foi tema de nenhum tratado sociológico, que eu saiba, mas a diferença entre o status do negro nas sociedades americana e brasileira, uma evidentemente racista e outra pretensamente não, pode ser encontrada em um detalhe, a quantidade de pianistas negros nos Estados Unidos em contraste com quase nenhum no Brasil. O jazz teve duas vertentes, três se você contar os blues: as bandas de rua, que desfilavam, obviamente, sem pianos, e o ragtime, que era jazz exclusivamente de piano, já tocado, lá nas origens, por músicos negros como Jelly Roll Morton. Pianistas negros pressupõem piano em casa, dinheiro para pagar as aulas, tempo para praticar — ou seja, pressupõem uma classe média. Em Nova Orleans e em outras capitais do Sul dos Estados Unidos, em meio ao apartheid oficial, à discriminação aberta, aos linchamentos e outros horrores, desenvolveu-se uma classe média negra, paralela à branca, com identidade e poder econômico próprios. No Brasil do racismo que não se reconhece como tal, e talvez por causa disto, não aconteceu nada parecido.

Claro, a história econômica dos dois países explica o contraste, mais do que racismo declarado ou disfarçado, mas neste detalhe a diferença fica clara. No Brasil, como nos Estados Unidos, existem grandes músicos saídos de todas as classes sociais. Mas ainda não produzimos pianistas negros em número suficiente para desmentir a nossa hipocrisia racial.