segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Menos inovação (ou Ideia todo mundo tem. O que faz diferença é a execução.)


08 de dezembro de 2013 | 2h 10

Renato Cruz - O Estado de S.Paulo
O Brasil está menos inovador. Um estudo do IBGE, divulgado semana passada, mostrou queda no porcentual de indústrias que inovam. A taxa de inovação passou de 38,1% no triênio 2006-2008 para 35,7% no período 2009-2011. Na prática, isso significa perda de competitividade.
Uma empresa inova se consegue fazer dinheiro com processos e produtos novos. Normalmente, isso ocorre quando consegue cobrar mais por seu produto, que se diferencia da concorrência, ou, mesmo oferecendo um produto igual aos outros, melhora sua margem, usando a tecnologia para reduzir prazos e custos.
Não é por acaso que os resultados da balança comercial brasileira vêm se deteriorando. O saldo comercial, que havia sido de R$ 46,4 bilhões em 2006, chegou a R$ 19,4 bilhões no ano passado. Neste ano, até outubro, o comércio exterior brasileiro acumulava déficit de R$ 1,8 bilhão. Isso mostra a dificuldade das empresas brasileiras em conquistar mercado, e até mesmo em competir com os produtos importados no próprio mercando nacional.
Você pode dizer que essa falta de competitividade não está relacionada à inovação, mas aos componentes do chamado custo Brasil, como a infraestrutura logística precária. Mas acontece que vários desses componentes também são barreiras à inovação.
Um exemplo é a falta de mão de obra qualificada. A Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec), do IBGE, apresentou, pela primeira vez, essa deficiência como uma das principais barreiras à inovação. A formação inadequada do trabalhador ficou atrás somente dos custos elevados entre as principais preocupações das empresas quando o assunto é inovação.
Outro componente que emperra a inovação brasileira é a burocracia. É muito difícil abrir uma empresa por aqui e ainda mais difícil fechá-la. E não existe inovação sem a possibilidade de fracasso. Não pode ser complicado tentar de novo, porque o empreendedor perde a oportunidade de aprender com os próprios erros.
No Vale do Silício, berço de algumas das principais empresas de tecnologia americanas, se o fracasso não foi motivado por alguma ilegalidade ou comportamento muito estúpido, o empresário costuma ter nova chance.
Se um investidor coloca dinheiro numa startup americana e a empresa quebra, ele perde o que investiu. Aqui, se a startup deixar dívidas, ele é obrigado a assumir os débitos deixados pela empresa. Por causa de diferenças desse tipo, o apetite por risco costuma ser bem menor no Brasil.
Todo mundo já cansou de ouvir que brasileiro é criativo. Talvez esteja na hora de parar com essa conversa condescendente. Se alguém tem uma ideia e não consegue colocá-la em prática, não ganha nada com isso. Ideia todo mundo tem. O que faz diferença é a execução.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Fundação renova contrato para operar TV Assembleia


Operadora manteve contrato 40% mais caro durante três anos em São Paulo
Após pregão, entidade responsável pelo canal diz que é possível fazer o mesmo conteúdo por R$ 5 mi a menos por ano
PAULO GAMA MARINA DIASDE SÃO PAULOA fundação que desde 2011 opera o canal de televisão da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo renovou seu contrato neste ano aceitando cobrar da Assembleia um valor quase 30% menor que o previsto no contrato anterior pelos mesmos serviços.
Ameaçada de perder o negócio, a Fundação para o Desenvolvimento das Artes e da Comunicação (Fundac) diminuiu em R$ 5,2 milhões por ano o valor dos seus serviços.
Se as mesmas condições tivessem sido oferecidas desde o início pela Fundac, a Assembleia teria economizado R$ 11,4 milhões desde 2011.
A Fundac foi contratada primeiramente sem licitação pública, mas em maio participou de uma concorrência aberta pela Assembleia para escolher um novo operador para seu canal de televisão.
A licitação atraiu 14 participantes --seis deles ofereceram valor mais de 20% menor do que o do contrato anterior. A vencedora foi a própria Fundac, com orçamento de R$ 12,9 milhões por ano.
A Assembleia chegou a gastar R$ 18,1 milhões por ano com a Fundac para executar o serviço na primeira fase do contrato. O novo acordo foi homologado pela Casa no fim de novembro.
Apesar do valor mais baixo, a Assembleia diz que o serviço não perderá qualidade. "Nos próximos meses, vamos melhorar a qualidade da programação", diz nota enviada à Folha pela Casa.
De acordo com deputados, a emissora era usada para abrigar funcionários apadrinhados por parlamentares, que interferiam nos processos de admissão e demissão.
Procurado pela Folha, o presidente da Fundac, Manoel Veiga Filho, admitiu que "não tem mudança na prestação de serviço inicialmente". "A única diferença é que também trabalhamos sob demanda, ou seja, vamos prestar serviços de acordo com solicitações. Em um mês faremos a nota de um valor, no outro pode ser outro valor."
A primeira contratação da Fundac aconteceu em fevereiro de 2011, por R$ 15 milhões anuais, em substituição à Fundação Padre Anchieta, que operava a TV legislativa.
Na época, o jornalista Alberto Luchetti era diretor da TV Assembleia e constava como consultor da Fundac, contratada pela Assembleia Legislativa com dispensa de licitação por se tratar de uma fundação. Luchetti disse à Folha na ocasião que era "diretor de conteúdo na área de televisão" na fundação.
O caso chegou a ser investigado pelo Ministério Público Estadual, mas foi arquivado cerca de 40 dias depois. O promotor Airton Grazzioli disse que, apesar da declaração e de o nome de Luchetti aparecer no site da Fundac, "ele não tinha assento algum" na instituição. "Instaurei o procedimento, mas a informação não era procedente."
REDUÇÃO
A diferença entre o contrato antigo e o atual é que o primeiro exigia a atuação de 94 jornalistas, enquanto o segundo contrata a produção de conteúdo. Veiga Filho justifica a redução do preço com a demissão de 20 funcionários. "Eram diretores, os maiores salários. Tinha vencimento de R$ 5 mil, R$ 10 mil e até R$ 15 mil", afirma.
O Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo diz ter tentado impedir os desligamentos, sem sucesso, e que foi informado pela Fundac que a licitação exigiu redução da força de trabalho e da margem de lucro.
Diz também que os jornalistas que permanecerão terão redução de benefícios e que pode haver precarização das condições de trabalho.

    Educação superior se transforma em aposta para mudar de vida


    Casos como o do estudante Michael Cerqueira, morador do Capão Redondo, são cada vez mais comuns

    08 de dezembro de 2013 | 2h 09

    O Estado de S.Paulo
    Educação sempre foi prioridade na casa do estudante Michael Cerqueira, no Capão Redondo, região carente da zona sul de São Paulo. O incentivo para se dedicar aos estudos veio dos pais - ele porteiro e ela cozinheira -, que não completaram o ensino fundamental.
    O empenho da família valeu a pena. Hoje, o jovem de 19 anos cursa administração pública na Fundação Getúlio Vargas (FGV) e, em 2014, embarca para um intercâmbio de seis meses na Regent's University de Londres, Inglaterra.
    Felizmente casos como o de Michael estão se tornando comuns no País: cada vez mais o brasileiro está valorizando o estudo para melhorar o padrão de vida. Uma pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que 95% da população considera a educação essencial ou muito importante para uma pessoa vencer na vida. Entre cinco opções possíveis, a educação superou capacidade, inteligência e talento (94%), trabalho duro (89%), conhecer as pessoas certas (82%) e nascer numa família rica (31%).
    "A educação é ponto número um na agenda de competitividade do País", afirma Renato da Fonseca, gerente de Pesquisa da CNI. "A ideia de que a educação ajuda a mudar de vida faz muito bem ao Brasil porque aumenta a pressão por uma educação de qualidade. As pessoas vão perceber que não basta somente um diploma."
    Os saltos de Michael para chegar à FGV foram ousados. Boa parte da vida escolar foi cursada em escola pública, no colégio estadual Miguel Munhoz Filho. "A escola é até boa na região. Mas, se quisesse dar passos maiores, teria de buscar outas alternativas."
    E ele buscou. Teve a ajuda de duas professoras, que montaram um "cursinho rápido"e o indicaram para projeto bolsa talento do Instituto Social Para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos (Ismart), mantido pelo empresário Marcel Telles, um dos responsáveis pelo fundo 3G ao lado de Jorge Paulo Lemann e Beto Sicupira. Aprovado, passou a frequentar diariamente a Vila Nova Conceição, onde estudou no colégio Lourenço Castanho até ser aprovado na FGV. "Foi o grande momento de mudança na minha vida. Era uma nova escola, com ritmo muito mais forte."
    Movimento. Os números do Ministério da Educação confirmam que a procura pela educação tem crescido no Brasil. Entre 2001 e 2012, o número de matrículas na educação superior subiu de 3,062 milhões para 7,052 milhões. "Não há dúvida de que a variável mais importante para o crescimento social é a educação", afirma o coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes. "As pessoas permanecendo mais tempo na escola aumentam de produtividade e conseguem elevar a das empresas." Hoje, há um consenso entre economistas que o crescimento potencial do Brasil só será maior se a economia brasileira melhorar a produtividade. A relação entre anos de estudo e aumento salarial tem taxa de retorno alta no País, segundo Marcelo Neri, ministro-chefe interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República e presidente do Ipea. Para cada ano de estudo, o salário da pessoa sobe 15%.
    Um levantamento do instituto também apurou a educação no topo da prioridade entre jovens de 15 a 29. A educação foi escolhida por 85,2% dos entrevistados. Na sequência, apareceram melhorias no serviço de saúde (82,7%) e acesso a alimentos de qualidade (70,1%).
    Em outro recorte, levando-se em conta a opinião dos entrevistados com mais de 30 anos, a educação ficou em segundo lugar (80,5%), atrás da melhoria da saúde (86,6%).
    "A classe C sempre foi apontada como sinônimo de consumo, cartão de crédito e carro. Mas eu acho que a letra c da classe c está mais para carteira de trabalho, e forçando até um pouco, para canudo", afirma Neri. / L.G.G.