domingo, 29 de julho de 2012

Mamãe Poderosa



22 de julho de 2012 | 3h 11 Aliás

Marcelo Medeiros - O Estado de S.Paulo

No início da semana o Yahoo contratou Marissa Mayer, de 37 anos, para dirigir suas operações. O fato ganhou destaque não tanto por ela ser mulher, afinal a segunda executiva mais importante do Facebook também é, mas porque Marissa está no sexto mês de gravidez.
Há cada vez mais mulheres ocupando postos-chave nos negócios e na política, o que ocorre porque barreiras no reconhecimento da capacidade de liderança delas vêm sendo rompidas. Chefes de Estado, diretoras de empresa e generais de exército mulheres ainda são minoria, mas não causam mais o assombro que causariam há três décadas.
Entre o fim do assombro e a igualdade há uma grande distância. A notícia de um homem assumindo um cargo importante a poucos meses de ter um filho passaria despercebida. Isso porque a emancipação do trabalho feminino não foi acompanhada de mudanças na divisão do trabalho dentro das famílias, nem no que se considera responsabilidades familiares. Ainda recai sobre as mães a maior parte do cuidado dos filhos e são elas que precisam fazer escolhas entre carreira e família. Ninguém se preocuparia seriamente com o risco de um homem ter seu trabalho afetado por causa de um filho. Nesse aspecto, o mundo mudou bem pouco: a ideia de ser apenas dono de casa para cuidar de uma criança, ainda que por poucos meses, provoca arrepios em qualquer homem, mas é considerada natural entre as mulheres.
Marissa deverá voltar ao trabalho logo após o parto - não apenas porque quer, mas porque pode. É uma mulher rica e poderosa, casada com um executivo igualmente rico e poderoso, e receberá US$ 12 milhões anuais, mais que suficientes para contratar quem cuide de sua família em tempo integral. Marissa não assume cargo tão importante porque as barreiras à maternidade deixaram de existir, mas porque consegue se comportar como um homem: transferindo aos outros boa parte do trabalho de cuidar de crianças.
Esse é um luxo impensável para as mulheres comuns em trabalhos comuns. Para elas, a escolha é entre uma segunda jornada ao chegar em casa e abandonar o emprego. A ideia de que a responsabilidade pelo cuidado das crianças é das mulheres, e de elas devem estar disponíveis para isso, é tão arraigada que poucas de nossas instituições transferem para o espaço público aquilo que se julga dever privado. Basta notar que são poucas as creches gratuitas, não temos escolas em tempo integral, com anos letivos longos, nem horários de trabalho compatíveis com o transporte de crianças da casa à escola.
Em um mundo que aceita bem presidentas, mas tem aversão a donos de casa, o trabalho doméstico ainda é tabu do machismo. Seria ingênuo achar que os homens, em um lampejo de generosidade, passarão a dividir esse trabalho com as companheiras. Seria mais realista entender que a família não é a única instituição capaz de cuidar de crianças e que essa é uma responsabilidade coletiva.
Creches, pré-escolas e escolas em tempo integral podem soar como utopia. Mas talvez ajude a reduzir resistências lembrar que o ensino básico gratuito também já foi considerado utópico. Como qualquer outra, a responsabilidade de cuidar de crianças tem seus custos. Até o momento, temos sido capazes de arcar com eles. Mais exatamente, as mulheres têm sido, e vêm pagando com seu tempo. A questão fundamental é se estamos dispostos a transferir esses custos da esfera privada para a esfera pública, como fazemos com vacinas e segurança.
Tempo livre é algo muito importante. Não à toa uma das exigências de Marissa Meyer em seu contrato é terminar o expediente rigorosamente às 5h30, para que possa todos os dias jantar com a família. Adianta muito pouco ter dinheiro sem ter tempo livre para usufruir o que esse dinheiro pode comprar, assim como aproveitar as coisas que dinheiro algum pode comprar. Um reflexo disso é a preocupação crescente em vários países em conciliar trabalho, lazer e família.
Nossa divisão do tempo, no entanto, é tremendamente injusta. Pesquisas brasileiras de uso do tempo mostram que, depois da entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho, quando o tempo de trabalho pago é somado ao tempo de trabalho doméstico, a disponibilidade feminina de tempo livre é muito inferior à masculina, marcadamente entre as classes sociais mais baixas.
A emancipação profissional das mulheres caminha no sentido inverso da liberdade de tempo porque a igualdade obtida no mundo do trabalho não tem contrapartida nem no mundo doméstico, nem nos serviços públicos. Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, a privação de tempo livre e a dificuldade em conciliar o trabalho com o resto da vida não são problemas das grandes executivas, mas das mulheres comuns. 
MARCELO MEDEIROS É SOCIÓLOGO, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLI
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Maior parte dos estados e municípios carece de plano de resíduos sólidos




A partir de 2 de agosto, a cidade que não tiver o planejamento fica impedida de solicitar recursos federais para limpeza urbana. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, até o momento houve apenas 47 pedidos de verba para construção dos planos, entre solicitações de administrações municipais e estaduais. Verba disponível escassa e falta de capacitação técnica são apontadas como principais causas do problema.



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Lixões devem ser extintos no Brasil até 2014, segundo a nova lei. Na foto acima, o Lixão da Estrutural, em BrasíliaFoto: Wilson Dias/ABr
A maior parte dos estados e municípios brasileiros ainda não elaborou seu Plano de Gestão de Resíduos Sólidos, apesar do prazo para concluir o projeto, que deve indicar como será feito o manejo do lixo em cada localidade, estar próximo do fim. A partir de 2 de agosto, a cidade que não tiver o planejamento fica impedida de solicitar recursos federais para limpeza urbana. Segundo o Ministério do Meio Ambiente, até o momento houve apenas 47 pedidos de verba para construção dos planos, entre solicitações de administrações municipais e estaduais.
Como não é obrigatório pedir auxílio da União para elaborar os planejamentos, pode haver projetos em curso dos quais o ministério não tenha ciência. Mas a avaliação do órgão é a de que o interesse pela criação dos planos de gestão é baixo, mesmo que se leve em conta estados e municípios atuando por conta própria. “O pessoal tinha outras demandas e foi deixando de lado. Agora o prazo está se esgotando e a maioria não elaborou [o projeto]”, afirmou Saburo Takahashi, gerente de projetos da Secretaria de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente.
As cidades e unidades da Federação tiveram dois anos para construir seus planos de manejo de resíduos, cuja criação está prevista na Lei n° 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos. As consequências do pouco comprometimento com a exigência federal poderão ser sentidas cedo por estados e municípios. “De acordo com a legislação, até 2014 devem ser eliminados todos os lixões do Brasil. Para isso, será preciso implantar aterros sanitários, o que não se faz da noite para o dia. As cidades e estados que não tiverem plano de gestão não vão poder solicitar recursos para fazer isso”, destacou Takahashi.


Alguns [Não criaram o plano] por ignorância, outros por desconhecimento técnico"

Elaine Nolasco,pesquisadora em meio ambiente da UnB
O representante do ministério reconheceu, porém, que a verba disponível para ajudar municípios e unidades da Federação a elaborar os planos é escassa. Em 2011, houve destinação de R$ 42 milhões para essa finalidade, dos quais R$ 36 milhões foram usados. Em 2012 não foi disponibilizado dinheiro, e o governo federal limitou-se a liberar os R$ 6 milhões que não haviam sido executados no ano passado.
Capacitação e conscientização
Saburo Takahashi ressaltou, no entanto, que o ministério redigiu um manual de orientação para ajudar prefeitos e governadores na elaboração do plano, disponível no site do órgão. Além disso, a pasta firmou convênio com a e-Clay, instituição de educação a distância que pode treinar gratuitamente gestores para a criação do plano de manejo. Os interessados devem entrar em contato pelo telefone (11) 5084 3079.
A pesquisadora em meio ambiente Elaine Nolasco, professora da Universidade de Brasília (UnB), considerou positiva a capacitação a distância, mas acredita que para tornar a gestão de resíduos uma realidade é preciso mais divulgação desse instrumento, além da conscientização sobre a importância do manejo do lixo. “Tem que haver propaganda, um incentivo para as pessoas fazerem isso [o curso]”, defendeu. Elaine observa que a dificuldade para introdução de políticas de manejo (como reciclagem e criação de aterros sanitários) atinge sobretudo os municípios pequenos, com até 20 mil habitantes. “Faltam recursos e contingente técnico nas pequenas prefeituras”, pontuou.
O vice-presidente da Associação Brasileira de Resíduos Sólidos e Limpeza Pública (ABLP), João Zianesi Netto, também avalia que faltou capacitação e conscientização. “Alguns [Não criaram o plano] por ignorância, outros por desconhecimento técnico. Em muitos municípios de pequeno e médio porte, a destinação dos resíduos é gerenciada por pessoas que não têm a formação adequada. Além disso, há uma preocupação de que quando você começa a melhorar a questão ambiental você aumenta os custos”, enfatizou.
O presidente da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Paulo Ziluldoski, reclamou da falta de auxílio financeiro para que as prefeituras cumpram as determinações da Lei n°12.305. Segundo ele, são necessários R$ 70 bilhões para transformar todos os lixões em aterro sanitário, até 2014. “Isso equivale à arrecadação conjunta de todos os municípios do país. Quando acabar o prazo, os prefeitos estarão sujeitos a serem processados pelo Ministério Público por não terem cumprido a lei”, lembrou. De acordo com ele, a estimativa da CNM é que mais de 50% das cidades brasileiras ainda não elaboraram os planos de gestão de resíduos.

USP forma primeiro centro do país a unir pesquisadores de resíduos sólidos


Thiago Minami, especial para USP Online
Centro mulltidisciplinar envolve especialistas em tecnologia, saúde, direito e meio ambiente, entre outras áreas | Foto: Wikimedia
A produção de lixo no Brasil está aumentando. Em 2010, o país gerou 60,8 milhões de toneladas – 6,8% a mais que em 2009 e seis vezes mais que o crescimento populacional do período. Mais de 40% dessa quantidade vão parar em lixões ou aterros controlados, que causam prejuízos ao meio ambiente e à saúde de trabalhadores do setor.
Recém-criado e primeiro numa universidade brasileira, o Centro Multidisciplinar de Estudos em Resíduos Sólidos (CeRSOL) da USP quer usar a expertise acadêmica para ajudar a reverter a situação. Mais de 50 pesquisadores, incluindo cerca de 20 professores, estão em contato para debater o tema e colaborar em pesquisas, seminários e publicações. O objetivo é ampliar o conhecimento na área e encontrar soluções tecnológicas em consonância com as diretrizes da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).
Cada um contribui com os estudos que realiza sob a perspectiva da área em que atua: engenharia, energia e urbanismo, além de direito, medicina, ciências humanas e economia. Especialistas da Unicamp e da PUC-SP também fazem parte do grupo. “Queremos levar nossos trabalhos a prefeituras, industrias e à sociedade em geral”, planeja Jorge Alberto Soares Tenório, coordenador do grupo e professor da Escola Politécnica (Poli) da USP.
Para compreender de modo abrangente o tema dos catadores de lixo, por exemplo, é preciso passar por diferentes áreas de pesquisa. Primeiro, as ciências humanas e a educação avaliam os mecanismos de inserção social e o exercício da cidadania pelos profissionais. Depois, dentro da área legal, é necessário entender os aspectos legais e como se dá a organização do trabalho. À medicina e à saúde pública, cabe avaliar as condições de saúde dos catadores, que podem ser afetadas pelo trato com resíduos. Já a tecnologia vê o modo como eles podem contribuir para a valorização dos resíduos e, assim, aumentar os ganhos para a sociedade.

Metas

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Os dados expostos no início da reportagem mostram o tamanho do desafio que o país tem pela frente. Eles fazem parte da pesquisa Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil 2011, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). Medidas efetivas e integradas para resolver o problema estão em discussão no momento. O ponto de largada foi a PNRS, elaborado pelo governo federal em 2010.
A Política prevê a eliminação dos lixões e a criação de metas para a reciclagem no Brasil. “Atualmente, a região da grande São Paulo recicla menos de 2% do que é gerado. O ideal seria elevar esse índice para pelos menos 20%”, aponta Tenório. A Suécia, campeã do mundo no assunto, recicla atualmente mais de 70% do lixo.
A elevação das metas é um objetivo mundial. “O interesse sobre o assunto cresce em todo o mundo, e também no Brasil. Mas para a gente, diferentemente de Europa ou Japão, a grande oferta de espaço físico faz a questão não parecer tão urgente. Precisamos reverter isso”, diz Denise Crocce Romano Espinosa, professora da Poli e membro do CeRSOL.
O CeRSOL está organizado em diferentes coordenações: educação ambiental, direito ambiental, políticas públicas, medicina ocupacional, tecnologia e cadeias produtivas.

Interação

Ainda que iniciado recentemente, o CeRSOL já organizou um seminário internacional no último mês de junho na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, com a presença de pesquisadores de sete países europeus para apresentarem as experiências no tema. Foi durante esse evento que o centro foi oficialmente lançado.
A comitiva da USP no Rio+20 e o evento São Paulo Mais Limpa, com a Rede Globo, também contaram com ampla presença de integrantes do CeRSOL.
A necessidade de integração entre diferentes faculdades e as eventuais divergências de opiniões entre especialistas de diferentes áreas são vistas com bons olhos pelos membros. “Elas existem e podem ser muito frutíferas a todos. Assim podemos desenvolver uma visão consistente de todos os aspectos envolvidos na questão”, diz Denise Espinosa.
Mais informações: jtenorio@usp.br