sexta-feira, 31 de julho de 2026

IA se parece mais com eletricidade ou redes sociais?, Alvaro Machado Dias FSP

 Quando a eletricidade chegou às cidades, mudou tudo o que era possível fazer num dia, numa fábrica, numa noite. Cem anos depois, a rede social mudou o que era possível fazer com uma câmera, um pleito e uma multidão.

As duas são determinantes e foram parar nas mãos de um punhado de empresas, o que sugere que representem o mesmo poder, em séculos distintos. Não é o caso. A despeito da relevância incomparável da eletricidade, são as plataformas digitais que submetem os usuários aos caprichos de seus proprietários.

Painel de servidor com múltiplos cabos de rede amarelos e brancos conectados a portas, vistos através de uma grade preta perfurada.
Equipamento de data center no entorno de Paris, na França - Benoit Tessier - 4.jun.26/Reuters

Tornou-se um truísmo dizer que a inteligência artificial é a eletricidade do nosso tempo, mas resta saber se o poder irá fluir como na malha da Enel, que pode ser escorraçada de São Paulo pelos serviços tenebrosos que presta, ou na do Instagram, que não precisa combater a proibição do uso por adolescentes, já que estes se encarregam de fazer o impossível para burlá-la.

A diferença é de produto, com uma vendendo commodity e a outra, acesso. Extrapolando, é a dicotomia entre fungibilidade e exclusividade que qualifica o poder tecnológico mais amplo.

O "momento DeepSeek" marcou uma transição do reinado dos donos para um modelo híbrido, em que versões abertas das IAs líderes são disponibilizadas com seis meses de atraso pelos concorrentes asiáticos, permitindo que países como o Brasil possam abandonar as infrutíferas tentativas de construir LLMs totalmente nacionais e investir em estratégias melhores de participação na economia da IA.

Isso reflete a conversão da inteligência em recurso ordinário, algo que ninguém imaginava há dez anos. Igualmente imprevisto é o fato de que a expansão da IA não leva o custo do processamento e a sua oferta a caírem de forma generalizada, mas por vezes faz até o contrário, a despeito dos investimentos massivos em infraestrutura.

Ocorre que o afã de produzir algoritmos cada vez mais poderosos se torna industrial pela necessidade de chips sucessivamente mais rápidos e nichado pela elevação do valor de fontes de dados capazes de ensinar como particularidades do mundo funcionam, incentivando a geração intencional da escassez, como no mercado de diamantes e outros.

O resultado é uma separação cada vez maior entre a IA commoditizada e, portanto, sem controlador, que deve se instalar em praticamente todos os produtos e serviços de adoção ampla, e as IAs que geram valor de forma diretamente competitiva (em que seis meses podem significar uma vida) ou pela extração complexa e refino patenteável de dados sensíveis. Exemplos desse segundo tipo incluem dispositivos médicos e armas autônomas. Aqui, o tempo torna o poder mais vertical e não menos.

A importância inconteste de tais segmentos não ofusca a vitória, no agregado, do modelo de poder das concessões de eletricidade sobre o das redes sociais no horizonte de alguns anos. No entanto, é preciso considerar que o futuro ampliado da IA está na robótica, que também deve perpassar grande parte das atividades humanas, sendo que seu fornecimento é industrial e seu treinamento é baseado em dados altamente seletivos, como dinâmicas fabris e rotinas domésticas.

A única coisa que muda é o equilíbrio de forças entre americanos e chineses, que hoje distribuem LLMs a valor zero porque sabem que o poder de dono, quando toda casa e empresa estiver equipada com suas máquinas inteligentes, será muito maior.

Zanin autoriza PF a investigar ministro do STJ Moura Ribeiro em inquérito sobre venda de decisões, OESP

 BRASÍLIA – O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin autorizou a Polícia Federal a investigar formalmente o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Moura Ribeiro em um dos inquéritos sobre venda de decisões da Corte. Desde o início da Operação Sisamnes, deflagrada em novembro de 2024, é a primeira vez que um magistrado do STJ se torna alvo direto da investigação.

Procurado, o ministro do STJ disse desconhecer a existência de investigação. A defesa do lobista Andreson de Oliveira Gonçalvessuspeito de comprar decisões e corromper assessores do STJ — afirmou que a investigação busca motivos para manter o caso no STF (leia mais abaixo).

STJ: primeiro magistrado se tornou alvo direto da investigação
STJ: primeiro magistrado se tornou alvo direto da investigação Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

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Em um relatório parcial de 22 páginas enviado ao STF, a Polícia Federal apresentou os detalhes dos indícios obtidos até agora envolvendo o gabinete de Moura Ribeiro e apontou suspeitas em dez processos da relatoria do ministro. A PF afirma que o ministro favoreceu, em suas decisões, a advogada Mirian Ribeiro Gonçalves, mulher do lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, investigada sob suspeita de operar em conjunto com ele o esquema de venda de decisões.

Um dos casos, por exemplo, tratava de uma reintegração de posse de uma fazenda de Mato Grosso. A PF afirma que o ministro Moura Ribeiro mudou de posição após uma das partes do processo ter protocolado uma procuração em nome de Mirian.

No final de maio, ao tomar conhecimento do relatório da PF, o ministro Zanin assinou uma decisão sigilosa. O Estadão teve acesso a detalhes do caso.

A PF informou ao Supremo ter encontrado, por exemplo, decisões suspeitas proferidas por Moura Ribeiro envolvendo o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves e até mesmo pagamentos de uma empresa do lobista a um assessor do gabinete. Por isso, os investigadores reforçaram a necessidade de aprofundar a apuração e solicitaram autorização para levantar informações sobre empresas e movimentações bancárias dos parentes do ministro, para tentar rastrear pagamentos de propina.

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“Em razão da linha de fundamentação trazida pelas hipóteses criminais, depreende-se a necessidade de que a instauração de inquérito por mim autorizada em 29 de maio do ano anterior também passe a referenciar o eminente ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça, e não apenas eventuais servidores, efetivos ou não, em exercício no seu gabinete à época dos fatos narrados”, escreveu Zanin.

Prosseguiu na decisão: “Autorizo a instauração de inquérito também no que alude à autoridade mencionada, o eminente Ministro Paulo Dias de Moura Ribeiro, do Superior Tribunal de Justiça. Torna-se imperioso averiguar possível existência de indícios de ilegalidades penais envolvendo a autoridade sujeita à jurisdição desta Suprema Corte. A medida se mostra imprescindível e razoável, digo novamente, diante da ampla gama de requerimentos formulados pela autoridade policial e pela Procuradoria-Geral da República nestes autos”.

PF suspeita que ministro favoreceu mulher de lobista

A nova linha de investigação sobre Moura Ribeiro indica que, após ter investigado servidores de diversos gabinetes, a PF começou a apurar suspeitas sobre a participação dos ministros no esquema de venda de decisões comandado pelo lobista Andreson de Oliveira Gonçalves.

Não basta financiar projetos, é preciso fortalecer quem transforma territórios -FSP

  

Andréa Gomides

Fundadora do Instituto Ekloos, é pós-graduada em gestão estratégica de negócios pela Fundação Getulio Vargas com PMD pelo IESE Business School de Barcelona

Quando uma iniciativa social consegue ampliar o número de crianças atendidas, reduzir a evasão escolar, gerar renda para mulheres ou proteger um território, costumamos olhar para o resultado. Pouco se fala sobre o que tornou aquele impacto possível.

Por trás dessas transformações estão lideranças locais que enfrentam problemas históricos de educação, saúde, emprego e desigualdade. Ainda assim, grande parte do investimento social privado se concentra em projetos de curto prazo e metas pontuais.

Esses recursos são essenciais, mas não bastam para fortalecer quem sustenta as mudanças nos territórios. Fortalecimento institucional significa investir na capacidade das organizações de se desenvolverem.

Andrea Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social
Andréa Gomides, fundadora do Instituto Ekloos, que acelera negócios de impacto social - Divulgação

É oferecer acesso a formação em gestão, planejamento estratégico, comunicação, governança, sustentabilidade financeira, monitoramento de resultados e captação de recursos. É criar condições para que uma organização deixe de apenas responder às demandas do presente e consiga construir uma atuação sólida para os próximos anos.

Levantamento realizado pelo Instituto Ekloos em 2026 mostra que a captação de recursos é o principal desafio para mais de 74% das organizações —e quase 60% delas não têm nenhuma fonte contínua de financiamento.

Sem esse apoio para se estruturarem, muitas iniciativas acabam gerando um impacto social menor do que poderiam. Não por falta de conhecimento sobre os territórios, compromissos ou as boas soluções, mas porque suas lideranças precisam dividir a energia entre atender a população, buscar recursos, administrar equipes, prestar contas e manter a própria organização funcionando.

É nesse cenário que o edital BNDES Periferias Fortes Nordeste estabelece um marco histórico. Com mais de R$ 17 milhões, é o maior investimento social direcionado à região.

Executada pelo BNDES em parceria com o Instituto Ekloos, a iniciativa supera a lógica do simples repasse financeiro ao reconhecer que o impacto duradouro depende também do fortalecimento das organizações que sustentam as ações nos territórios.

Ao selecionar 85 iniciativas em oito estados nordestinos, o programa combina aportes financeiros de até R$ 300 mil com capacitações, mentorias especializadas e apoio à formalização. O diferencial do modelo está justamente no olhar para os diferentes níveis de maturidade institucional.

Afinal, dar dinheiro sem dar estrutura é perpetuar a vulnerabilidade das organizações. Por isso, o edital oferece uma trilha de capacitações e mentorias em gestão, sustentabilidade financeira e outros temas essenciais, além de apoio técnico e jurídico para a formalização de coletivos que ainda não possuem CNPJ.

Essa escolha rompe uma lógica ainda comum no investimento social. Muitas vezes, exigências criadas para garantir segurança, governança e transparência acabam excluindo justamente as iniciativas mais próximas dos territórios.

Organizações pequenas e coletivos comunitários não ficam fora dos grandes investimentos porque produzem menos impacto. Ficam porque não dispõem dos processos e das estruturas exigidos pelos financiadores.

O desafio para as empresas, portanto, não é apenas aumentar o volume de recursos destinados à área social, mas rever como eles chegam aos territórios.

Governança e controle são indispensáveis, porém não podem funcionar como barreiras que concentram investimentos nas organizações já estruturadas. É preciso criar mecanismos que combinem segurança, acompanhamento técnico e acesso para iniciativas em diferentes estágios de maturidade.

O futuro do investimento social depende de reconhecer o fortalecimento institucional como parte da estratégia de impacto.

Quanto mais preparadas estiverem as organizações locais para gerir recursos, formar equipes, construir parcerias e planejar sua continuidade, maior será a capacidade de produzir transformações consistentes.