terça-feira, 2 de junho de 2026

O elo perdido da educação, OESP

 Por Hubert Alquéres e Rose Neubauer

Os resultados divulgados pelo Ministério da Educação sobre a Prova Nacional Docente, criada para avaliar a qualidade da formação dos futuros professores brasileiros, talvez estejam entre os diagnósticos mais graves já produzidos recentemente sobre a educação nacional.

Formar professores é formar profissionais capazes de lidar com a complexidade cada vez maior da sala de aula, escrevem autores
Formar professores é formar profissionais capazes de lidar com a complexidade cada vez maior da sala de aula, escrevem autores Foto: Tiago Queiroz/Estadão

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Mais de um terço dos participantes não alcançou sequer o nível básico de proficiência considerado mínimo para o exercício da docência. Em matemática, a situação é ainda mais dramática: mais da metade ficou abaixo do patamar esperado. Nas licenciaturas a distância de letras e matemática, apenas um terço dos concluintes atingiu desempenho satisfatório.

Não se trata de um acidente estatístico. Os números revelam um problema estrutural: o Brasil universalizou o acesso à escola sem construir simultaneamente uma política consistente de formação de professores capaz de sustentar qualidade e aprendizagem.

Durante décadas, o País concentrou seus esforços na expansão do acesso à educação. Houve avanços importantes. O ensino básico praticamente se universalizou. O ensino superior expandiu-se rapidamente. Universidades e faculdades interiorizaram-se. Programas como Fies e Prouni ampliaram o acesso ao diploma universitário. O número de licenciaturas explodiu, sobretudo no setor privado.

Tudo isso teve importância histórica e representou avanço social real. Mas a expansão quantitativa não foi acompanhada da construção de um modelo robusto de formação docente. Em muitos casos, criou-se um sistema de certificação em massa sem densidade acadêmica e pedagógica compatível com a complexidade da profissão.

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Esse talvez seja hoje o elo perdido da educação brasileira.

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Países que conseguiram elevar consistentemente a qualidade de seus sistemas educacionais compreenderam algo elementar: não há ensino de qualidade sem formação docente sólida. Nações que deram saltos consistentes na educação – como Finlândia, Coreia do Sul, Singapura ou Irlanda – compreenderam que valorização docente não depende apenas de salário. Exige seleção rigorosa, forte domínio de conteúdo, sólida preparação didática, intensa prática supervisionada e elevado prestígio social.

O Brasil caminhou em outra direção. A carreira docente perdeu atratividade. As licenciaturas transformaram-se, em muitos casos, em cursos de baixo prestígio e reduzida exigência acadêmica. O problema agravou-se com a expansão acelerada de cursos a distância extremamente massificados, frequentemente organizados em modelos padronizados e de baixíssimo custo operacional.

A questão não está em demonizar o ensino a distância. Em um país continental como o Brasil, ele pode cumprir papel relevante. O problema é outro: formação docente não se reduz à transmissão de conteúdo. Exige convivência escolar, observação pedagógica, prática supervisionada, experiência concreta de sala de aula, residência pedagógica anterior ao ingresso na carreira e acompanhamento formativo contínuo.

Formar professores é formar profissionais capazes de lidar com a complexidade cada vez maior da sala de aula.

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Hoje, as licenciaturas EAD já concentram cerca de 70% das vagas ofertadas no País. Os próprios dados do MEC mostram a gravidade do problema. Mais da metade dos cursos avaliados recebeu conceitos insuficientes. Em várias áreas, o desempenho dos concluintes presenciais supera amplamente o dos estudantes formados a distância. Mas talvez o aspecto mais profundo da crise esteja além do debate entre presencial e EAD. O problema brasileiro também é conceitual. Há anos a formação docente vem sendo conduzida por uma concepção pedagógica que, embora tenha trazido contribuições importantes em temas como inclusão, diversidade e interdisciplinaridade, acabou muitas vezes enfraquecendo o núcleo duro da profissão docente: ensinar o professor a ensinar.

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Em muitos cursos, o futuro professor é formado como mediador de experiências, articulador de competências ou facilitador de aprendizagens. Tudo isso possui importância. Mas frequentemente aparecem em segundo plano elementos centrais da docência: domínio do conhecimento a ser ensinado, didática, alfabetização, avaliação e progressão cognitiva.

Não por acaso, matemática tornou-se o retrato mais dramático dessa crise. A dificuldade de formar bons professores nessa área revela um problema muito maior do que uma deficiência disciplinar específica. Matemática exige raciocínio estruturado, abstração e domínio conceitual consistente. Este quadro indica limitações do sistema educacional na formação do pensamento analítico e científico.

O impacto disso ultrapassa a escola. Afeta produtividade, inovação tecnológica, competitividade econômica e capacidade de inserção internacional do país. Em um mundo impactado pela inteligência artificial e por transformações tecnológicas aceleradas, o déficit de formação docente torna-se também um problema de desenvolvimento nacional.

Há ainda um círculo vicioso particularmente perverso. Professores mal formados tendem a produzir estudantes com baixa aprendizagem, muitos dos quais ingressarão posteriormente em licenciaturas frágeis, reproduzindo o ciclo de precariedade educacional.

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É importante reconhecer que a responsabilidade por esse quadro não pertence a um único governo. Trata-se de um problema acumulado. Ainda assim, é impossível ignorar que, desde 2003, o país viveu longos ciclos de governos federais que ampliaram significativamente o acesso ao ensino superior sem enfrentar de maneira estrutural a questão da qualidade da formação docente.

Houve programas relevantes e expansão de oportunidades, mas não se consolidou uma política nacional contínua e consistente capaz de reorganizar profundamente a formação de professores. O resultado é um cenário fragmentado, marcado por forte desigualdade institucional, excesso de improvisação e baixa capacidade de regulação efetiva.

Durante muito tempo, qualquer tentativa de elevar exigências acadêmicas nas licenciaturas era imediatamente tratada como elitismo ou restrição de acesso. Agora os próprios indicadores começam a impor uma revisão radical desse modelo.

Isso não significa defender soluções simplistas ou nostalgias autoritárias. Tampouco implica desvalorizar agendas contemporâneas importantes, como inclusão ou inovação pedagógica. O problema é de equilíbrio. Nenhum sistema educacional consegue funcionar adequadamente quando o conhecimento a ser ensinado perde prioridade na formação docente.

A própria criação da Prova Nacional Docente indica mudança importante de mentalidade: o reconhecimento de que não basta expandir matrículas; é preciso garantir padrões mínimos de qualidade profissional. Mas avaliações, sozinhas, não resolverão o problema. Será necessário reconstruir a atratividade da carreira, fortalecer a formação presencial, ampliar residências pedagógicas, elevar o rigor acadêmico das licenciaturas e criar mecanismos mais eficazes de acompanhamento da qualidade dos cursos.

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Sobretudo, será preciso recolocar o professor no centro do projeto educacional brasileiro. Nenhuma plataforma digital, reforma curricular ou tecnologia educacional conseguirá compensar estruturalmente a fragilidade da formação docente.

Talvez o verdadeiro desafio da educação brasileira no século 21 seja justamente este: compreender que não haverá transformação educacional profunda sem uma revolução estrutural na formação de seus professores.

O futuro da distribuição começa pelo fim das perdas de eletricidade, Joisa Dutra, FSP

 O Brasil perde anualmente cerca de 40 TWh de energia elétrica para furtos e fraudes —em 2024, foram desperdiçados 40,2 TWh. Em relatório recente, o Tribunal de Contas da União (TCU) destaca que esse volume é maior do que toda a geração anual da usina de Belo Monte.

Em um momento em que o país discute como atender ao crescimento da demanda dos data centers, eletrificar transportes e acelerar a transição energética, continuamos desperdiçando uma quantidade de energia equivalente a quase cinco vezes o consumo de todos os data centers brasileiros, estimado em 8,2 TWh. A dimensão do desperdício impressiona.

Poste de concreto com grande quantidade de fios elétricos e de telecomunicações entrelaçados e desorganizados, conectados a equipamentos e caixas instaladas no poste. Edifícios residenciais ao redor e céu parcialmente nublado ao fundo.
Poste com "gatos" de energia elétrica em uma comunidade da zona norte do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 17.mai.23/Folhapress

O debate energético costuma concentrar-se na expansão da oferta. Mas talvez a pergunta mais urgente seja outra: estamos usando bem a energia que já produzimos?

A renovação das concessões de distribuição de energia elétrica oferece uma oportunidade rara para enfrentar essa questão. Quatorze contratos já foram renovados ou estão em processo de renovação com base no decreto 12.068/2024. Trata-se de uma das mais importantes reformas institucionais do setor na última década. E ela ocorre em um momento em que as redes elétricas passam a ocupar posição central na competitividade da economia.

O TCU chama atenção para um problema que há muito deixou de ser apenas uma questão operacional. As perdas não técnicas —o nome regulatório para furtos e fraudes de energia— representaram, em 2024, um prejuízo estimado em R$ 10,3 bilhões. Desse total, R$ 7,1 bilhões foram repassados às tarifas dos consumidores que pagam suas contas regularmente.

Quando alguém faz um "gato", o custo não desaparece. Apenas muda de endereço.

O impacto vai além das tarifas. Parte das perdas é absorvida pelas próprias distribuidoras, o que reduz retornos e capacidade de investir, modernizar redes e melhorar a qualidade do serviço. O problema de quem rouba torna-se o problema de todos.

O problema tampouco está distribuído de forma homogênea. Duas distribuidoras concentram mais de um terço das perdas não técnicas do país. A Light responde por aproximadamente 22% do total nacional e a Amazonas Energia, por cerca de 12%. As dez distribuidoras com maiores índices concentram quase três quartos do problema.

A comparação internacional ajuda a colocar esses números em perspectiva. A média de perdas totais nos países da OCDE gira em torno de 6%. O Chile apresenta resultado semelhante. O Brasil opera próximo de 14%. A diferença não decorre de geografia ou clima. Reflete instituições, incentivos e capacidade de enforcement. Se o país convergisse apenas para o padrão chileno, economizaria cerca de 28 TWh por ano.

Nem todas as perdas, contudo, têm a mesma origem. Parte delas está associada à vulnerabilidade social, à precariedade urbana e à ausência de acesso formal à energia. Outra parte decorre do controle territorial exercido por organizações criminosas ou da simples expectativa de impunidade. Tratar realidades tão distintas com uma única política pública produz ineficiência e transfere custos para toda a sociedade.

É justamente nesse ponto que a renovação das concessões abre uma oportunidade relevante. O novo modelo reconhece a existência das chamadas Áreas com Severa Restrição Operativa (ASROs), territórios onde as distribuidoras enfrentam obstáculos extraordinários para atuar. O avanço é importante. Mas o próprio TCU aponta limitações na forma como essas áreas vêm sendo delimitadas.

Hoje, a classificação é baseada principalmente em CEPs, uma unidade geográfica excessivamente agregada para capturar a complexidade dos territórios. Um mesmo CEP pode incluir áreas plenamente acessíveis e localidades sob controle do crime organizado. A consequência é que diferentes problemas acabam recebendo o mesmo tratamento regulatório.

O Brasil já dispõe de instrumentos mais sofisticados. Índices de vulnerabilidade social construídos em nível de setor censitário, como o IVS Ceri, permitem distinguir pobreza estrutural, informalidade e criminalidade organizada com muito mais precisão. O desafio é que parte dos dados necessários para esse tipo de análise continua represada, aguardando a divulgação completa das bases do Censo 2022.

O debate sobre perdas não técnicas deixou de ser apenas uma discussão sobre combate ao furto. Ele passou a ser também uma discussão sobre o futuro do setor elétrico. O Brasil pretende atrair data centers, ampliar a eletrificação da economia e operar redes cada vez mais digitalizadas. Tudo isso exigirá investimentos em infraestrutura, tecnologia e resiliência.

Nesse contexto, recuperar parte da energia que hoje se perde pode ser uma das formas mais rápidas e baratas de preparar o sistema para a nova demanda.

A renovação das concessões oferece uma oportunidade rara para alinhar contratos, incentivos e tecnologia com as necessidades de um setor em transformação. Num país que pretende liderar a economia digital e avançar na transição energética, reduzir perdas não técnicas não é apenas uma questão de justiça tarifária. É uma estratégia de modernização.

O futuro do setor elétrico dependerá não apenas dos novos megawatts que conseguirmos construir, mas também daqueles que deixarmos de perder.