quinta-feira, 26 de março de 2026

Edson S. Moraes- Direito de envelhecer virou privilégio, FSP

 Edson S. Moraes

Doutorando e mestre em ciências do envelhecimento, é consultor de finanças pessoais

Brasil envelheceu. Mas envelheceu mal. A frase pode soar incômoda, sobretudo porque a longevidade costuma ser apresentada como sinal de progresso. "Vive-se mais", repete-se, como se isso bastasse para celebrar. Só que há uma diferença brutal entre viver mais e envelhecer com dignidade. No Brasil, essa dignidade está longe de ser uma conquista universal. Tornou-se privilégio.

Neste país, o tempo raramente suaviza desigualdades. Quase sempre, ele as aprofunda. Ao longo da vida, diferenças de renda, estudo, moradia, alimentação, trabalho e proteção social vão se acumulando até se tornarem incontornáveis na velhice. Quem contou com alguma estabilidade material e rede de apoio chega a essa etapa com mais amparo. Quem atravessou a existência sob o peso da precariedade costuma alcançar a velhice em condição muito mais frágil.

Na imagem, um casal de idosos caminha lado a lado em um espaço ao ar livre. Eles estão vestidos com camisetas de manga curta e shorts. Ao fundo, há uma fonte com água jorrando e uma escultura visível. O ambiente é urbano, com edifícios e árvores ao redor.
Duas senhoras caminham perto de chafariz na orla da praia, em Santos (SP) - Allison Sales -23.jan.24/Folhapress

É preciso dizer com clareza que a velhice não começa aos 60 anos. Ela é construída ao longo de toda a vida. Ou destruída. Quando uma pessoa idosa não consegue pagar remédios, adaptar a casa, circular pela cidade ou sustentar o básico sem angústia, não enfrenta apenas dificuldades individuais. Trata-se do resultado previsível de um país que naturalizou a desigualdade e empurrou para o futuro o custo social dessa omissão.

O país já sabe que a população envelhece rapidamente, mas continua tratando o cuidado como se fosse um problema privado. Na prática, isso significa jogar, sobretudo sobre esposas e filhas, o peso de sustentar a velhice alheia, já que o cuidado ainda é visto como atributo de gênero. O cuidado segue invisível e feminizado.

Ao mesmo tempo, vende-se uma imagem sedutora do envelhecimento. A pessoa idosa ideal aparece ativa, saudável, produtiva, viajando, consumindo, empreendendo, reinventando-se. É uma imagem simpática, mas profundamente excludente, porque transforma uma possibilidade em obrigação simbólica. Como se só merecesse respeito quem conseguisse envelhecer sem depender de ninguém e, de preferência, sorrindo.

Essa fantasia tem efeito perverso. Ela esconde o fato de que a maioria das pessoas envelhece longe desse ideal sedutor e sob condições muito mais duras. Também faz parecer natural que a dignidade na velhice seja privilégio de quem acumulou recursos e alguma dose de sorte. Mas uma sociedade minimamente civilizada não pode reconhecer valor apenas na velhice autônoma. Ela precisa saber acolher e proteger também a velhice frágil. Esquece-se que o verdadeiro avanço civilizatório não está em prolongar a existência, mas em criar condições para que ela permaneça digna.

É nesse ponto que o debate precisa amadurecer. O envelhecimento da população brasileira não pode continuar tratado como pauta lateral. Trata-se de uma questão central para o país. Isso exige do Estado mais do que diagnósticos e promessas ocasionais. Exige políticas consistentes de renda, saúde, moradia, mobilidade, cuidado de longa duração e apoio efetivo a cuidadores. Exige reconhecer que amparar a velhice pobre não é benevolência. É dever republicano.

O Brasil gosta de dizer que está envelhecendo. E está. O que ainda não fez foi assumir a responsabilidade moral por isso. Enquanto a velhice digna puder ser comprada por alguns e improvisada pelos demais, continuaremos reproduzindo um país profundamente injusto. Envelhecer bem seguirá sendo privilégio de poucos. Aos outros restará apenas sobreviver por mais tempo.


Endividamento das famílias virou risco eleitoral - Adriana Fernandes, FSP

 No último ano do seu 3º mandato, o presidente Lula decidiu fazer uma cruzada contra o endividamento recorde das famílias brasileiras porque recebeu o diagnóstico de que as conquistas mais importantes do seu governo na área econômica, como a inflação em queda, o crescimento econômico e a queda recorde no desemprego, não estão sendo sentidas pela população.

A razão é o mal-estar causado pelo peso das dívidas no orçamento familiar. A queda de popularidade do presidente seria resultado da equação perversa do endividamento elevado com o escândalo do Master.

Homem de terno escuro e gravata listrada olha para o lado esquerdo. Ao fundo, tela digital desfocada com padrões abstratos em tons de azul e branco.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. - Danilo Verpa - 30.mai.2025/Folhapress

Lula resolveu até chamar o presidente do Banco CentralGabriel Galípolo, para uma reunião sobre os juros altos, na semana seguinte à decisão do Copom de diminuir a dosagem da queda da taxa Selic devido às incertezas com a guerra no Irã.

Foi uma reunião de pressão em alta. Um constrangimento para Galípolo numa sala em que dez entre dez dos presentes culpam os juros altos pelo endividamento das famílias e querem que o BC reduza os juros em doses maiores para enfrentar os efeitos negativos da guerra no PIB.

O risco eleitoral agora é a prova de que o Desenrola, programa de renegociação de dívidas, prioridade máxima do início do governo, falhou, como também a tentativa de turbinar o crédito a todo custo.

O Brasil segue com os mesmos problemas de quatro anos atrás. De um lado, o choque no petróleo, cuja única saída que aparece é fazer algum tipo de programa de redução de imposto, subvenção ou coisa parecida.

Do outro lado, o endividamento turbinado por taxas elevadíssimas do cartão de crédito, que não são muito diferentes daquelas praticadas quando a Selic estava em 2%.

Foi nesse período que mais cresceu o endividamento, o que reforça a tese de que há uma baixa correlação entre a Selic e as taxas pagas pelas pessoas físicas.

A economia está sofrendo um esgotamento do modelo de crescimento e, ao invés de mudar e atacar a raiz do problema, o país tenta dobrar a aposta esticando um pouco mais a corda.