terça-feira, 24 de março de 2026

Comissão do STF identifica R$ 9,8 bi em penduricalhos acima do teto para juízes, e R$ 7,2 bi ao Ministério Público, FSP

 

Brasília

A comissão criada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Luiz Edson Fachin, para fazer propostas sobre a regulação dos penduricalhos identificou que o gasto total com penduricalhos acima do teto, apenas para a magistratura, está próximo de R$ 9,8 bilhões.

Há ainda dados do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), que indicam que o valor total de gastos com parcelas que excedem o valor do subsídio é de R$ 7,2 bilhões.

Como meio de frear novos gastos do tipo, uma das sugestões do grupo é vincular essas despesas à legislação do imposto de renda.

Ministros sentados em semicírculo no plenário do Supremo Tribunal Federal, com público e advogados na plateia. Parede de pedra com cruz e brasão ao fundo.
Sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 12.fev.26/Folhapress

A remuneração média bruta dos magistrados em 2025, calculada a partir de dados do CNJ, foi de R$ 95.968,21. Já o teto remuneratório constitucional, anualizado e considerando férias e 13°, corresponde a R$ 52.805,94.

O documento foi compartilhado com os ministros da corte nesta segunda-feira (23) para subsidiar o julgamento sobre o tema previsto para a sessão de quarta (25).

"Embora os dados de toda a magistratura não sejam tão precisos quanto os auditados pelo Tribunal de Contas, a partir do sistema do CNJ é possível estimar que o gasto total com verbas acima do teto esteja em torno de R$ 9,8 bilhões", diz a comissão.

Composto por 20 integrantes, o grupo contou com representantes do Judiciário, Legislativo, da AGU (Advocacia-Geral da União), do Ministério Público, da Defensoria Pública e do TCU (Tribunal de Contas da União).

"É possível defender que os servidores tenham direito à proteção contra a inflação, mas também é possível dizer que, quando o país não enriquece tanto quanto se almeja, a proteção contra a inflação passa a ter um custo distributivo. A ausência de um critério claro e previamente definido para a atualização do teto dificulta o ajuste de expectativas e alimenta ciclos recorrentes de conflito distributivo entre o Estado e seus servidores."

A conclusão do grupo é a de que qualquer regra de transição criada para o tema gera mais bilhões em gastos. "Noutras palavras, cada ponto percentual acima do teto representa um desembolso a mais de R$ 97,9 milhões", afirma, em relação à magistratura.

De acordo com a comissão, um dos pontos centrais do problema é a diferenciação entre verbas indenizatórias e remuneratórias. Apenas sobre essas últimas incide imposto de renda. Mas há, segundo a nota técnica, jurisprudência no sentido de que, quando há acréscimo patrimonial, a incidência do imposto de renda é reconhecida.

"A adoção desse mesmo critério para fins de submissão ao teto remuneratório apresenta dupla vantagem: ancora-se em definição já consagrada pela jurisprudência, conferindo estabilidade e previsibilidade, e evita a proliferação de interpretações legislativas locais que, ao qualificar como indenizatórias verbas de natureza remuneratória, desnaturem o teto constitucional", diz o texto.

Em outro ponto, a comissão trata da defasagem dos salários. O grupo reconhece o argumento das entidades associativas, mas pondera que o índice e o marco escolhidos alteram o cálculo.

O teto remuneratório do serviço público federal está em R$ 46.366,19. Caso seja adotada a emenda constitucional de 2003 que trata do teto de vencimentos do serviço público (EC nº 41/2003) como marco e o IPCA como índice de correção, o valor atualizado corresponderia a R$ 63.469,1.

Isso significa uma defasagem de aproximadamente 37% em relação ao valor nominal vigente.

A correção a partir de 2006, data das Resoluções CNJ nº 13 e 14, que tratam do teto para a magistratura e o Poder Judiciário, resultaria em valor de R$ 71.532,30.

"A avaliação da defasagem, porém, não pode ser dissociada da capacidade econômica do Estado de absorver eventual correção. [...] O contexto fiscal não comporta a correção integral pelo IPCA sem afetar outras prioridades do orçamento público", diz a comissão.

No último mês, decisões dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes que suspenderam os chamados penduricalhos reacenderam o debate sobre os limites do teto constitucional e a proliferação de verbas que elevam pagamentos no serviço público para acima do previsto na Constituição.

Essa prática tem se dado a partir de medidas distintas, como atos normativos de um determinado órgão, assim como leis estaduais e municipais. O movimento dos ministros tem pressionado também o Congresso para aprovar uma lei regulamentando o assunto.

A presidência do Supremo instituiu no início de março a comissão técnica de assessoramento.

O grupo também identificou uma dificuldade prática de avaliar todas as verbas indenizatórias em todos os entes da federação. Diante disso, sugeriu, caso a corte entenda por uma transição, a fixação de limites globais para o pagamento das verbas indenizatórias e para as que são remuneratórias, mas são pagas como indenização.

A sugestão levou em conta, também, a pressão das entidades de classe ouvidas ao longo das reuniões. As associações levantaram a possibilidade de paralisação de atividades e prestação de serviços caso essas verbas fossem interrompidas sem qualquer compensação ou transição.

Nesses casos, a comissão não fixou patamares, mas apresentou cenários de impacto econômico.

Uma piada filosófica: Schmitt, Marcuse e Habermas entram num bar, João Pereira Coutinho, FSP

 Vou contar uma piada filosófica. Não se assuste.

Três filósofos alemães entram num bar lotado e barulhento: Carl Schmitt, Herbert Marcuse e Jürgen Habermas. Qual deles é servido primeiro pelo barman alucinado do século 21?

Resposta: Habermas, é claro.

É essa a piada. Não tem muita graça, eu sei, exceto para nostálgicos que olham para o ruído do debate público com uma espécie de nojo profissional. Little Couto é um deles.

Nunca fui grande fã de Habermas, morto recentemente. Mas é difícil negar que ele tinha uma concepção refinada do debate público e um ideal inspirador sobre a conduta humana.

Ilustração em aquarela mostra três copos de vidro com bebida vermelha, dois canecas e um copo alto, sobre superfície cinza. Ao fundo, torneira de chope desenhada em preto e branco.
Angelo Abu /Folhapress

Era, no fundo, um otimista. Para ele, as democracias se sustentam quando existe comunicação racional entre cidadãos livres e iguais. As pessoas se encontram, interagem, apresentam argumentos, justificam suas posições —e só assim podem chegar a entendimentos razoáveis.

Para que isso funcione, Habermas apostava que somos melhores do que realmente somos: seres dispostos a participar na "esfera pública" sem as sujeiras habituais que definem a espécie.

Eu sou mais pessimista. Ou realista, o que dá no mesmo. A esfera pública, hoje praticamente inabitável, sempre foi um zoológico humano imperfeito, onde se discute pouco e se pensa menos ainda.

Mas as coisas pioraram. O objetivo declarado passou a ser mentir, manipular, vencer debates a qualquer custo —não buscar "entendimentos razoáveis".

Ainda assim, a proposta de Habermas oferece um tipo ideal de comunidade política, forjado sobre as ruínas da Alemanha do pós-Guerra, que nos coloca diante de uma escolha civilizatória: ou aprendemos a conversar e conviver uns com os outros —ou teremos finalmente razão, mas já não teremos país onde provar isso.

Habermas parece hoje ultrapassado pelos outros dois compatriotas.

Marcuse, também da Escola de Frankfurt, virou uma espécie de santo padroeiro da esquerda "woke", mesmo que muitos "wokes" nunca tenham lido uma linha dele. Diálogo? Conversa? Debate aberto e racional? Tudo ilusões das sociedades capitalistas, diria Marcuse.

O "mercado de ideias", expressão cara aos liberais e ridicularizada por ele em "Tolerância Repressiva", nunca foi esse espaço neutro onde diferentes concepções do bem competem entre si e a verdade emerge por seleção natural. Quem domina os meios econômicos e culturais tende a dominar também o espaço público, decidindo quem tem direito de fala.

Combater essa hegemonia pode exigir limites aos discursos dominantes, caso contrário, as vozes oprimidas jamais terão visibilidade.

A cultura de cancelamento, quase sempre embrulhada em bons sentimentos, é em parte filha dessa crítica: a exclusão de uns é vendida como condição necessária para a inclusão de outros.

A nova direita também gosta de filósofos alemães. Mas é Schmitt, não Marcuse nem Habermas, quem hoje brilha no firmamento neorreacionário. Para ele, a política não se define pela busca de consensos nem pelo diálogo racional. Chega de retórica liberal, que no seu entendimento explicava a decadência da democracia parlamentar de Weimar.

A distinção política fundamental é entre amigos e inimigos. Os estômagos liberais não aguentam essa verdade? Problema deles. O conflito é inerente à vida política e não há "teorias comunicativas" que o evitem na sua crueza primordial.

Quando está em jogo a sobrevivência da comunidade, o que importa não é o melhor argumento. É a capacidade soberana de decidir, inclusive suspendendo regras e garantias.

A conversa política contemporânea tem oscilado entre o cancelamento de Marcuse e o decisionismo de Schmitt —duas formas diferentes de negar o pluralismo das sociedades democráticas em que (ainda) vivemos.

Habermas tem poucos fãs hoje —e provavelmente seria o último a ser servido no caos barulhento do meu bar imaginário.

Ainda assim, sua mensagem, irrealizada e talvez irrealizável, permanece mais importante do que as seduções perigosas de Marcuse ou Schmitt. Porque capta uma verdade simples e incontornável: se não estamos dispostos a eliminar metade dos nossos compatriotas pela censura ou pela violência, teremos de aprender a viver com eles —a comunicar, a argumentar e, de vez em quando, a chegar a consensos temporários.

Em tempos de crise como o nosso, Marcuse ou Schmitt reaparecem como uma febre, vendendo soluções radicais para espíritos desesperados.

Mas, quando a febre passa e a ruína fica, é com o velho e entediante Habermas que teremos de reconstruir a casa comum. Mais uma vez.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Governo de SP abre consulta pública para proposta de concessão do Complexo do Ibirapuera e da Vila Olímpica Mário Covas-

 

O Governo de São Paulo abriu nesta segunda-feira (23) a consulta pública para a proposta de concessão de uso do Conjunto Desportivo Constâncio Vaz Guimarães, conhecido como Complexo do Ibirapuera, e da Vila Olímpica Mário Covas, localizada na região da Rodovia Raposo Tavares, ambos administrados pela Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo. A consulta pública realizada pela Secretaria de Parcerias em Investimentos (SPI) tem como objetivo receber contribuições da sociedade para o aprimoramento do projeto, assegurando a participação popular.

Vale ressaltar que a iniciativa é acompanhada pelos órgãos de preservação do patrimônio histórico, cultural e ambiental e respeita as diretrizes de proteção do conjunto que abriga o Complexo do Ibirapuera, assim como as diretrizes de uso da área da Vila Olímpica. O modelo proposto é o de concessão de uso.

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Para o Complexo do Ibirapuera, localizado em uma região estratégica da cidade, o projeto considera a oferta de espaços para prática esportiva e realização de atividades culturais, de forma planejada e compatível com as características do local. O complexo abrange uma área de aproximadamente 91,8 mil m² e a proposta em estudo busca qualificar e ampliar seu uso, mantendo sua vocação esportiva e pública, com melhoria da infraestrutura, ampliação do acesso e diversificação de atividades voltadas à população.

Já a Vila Olímpica Mário Covas, situada em uma área de 174 mil m², deve receber investimentos para otimizar a estrutura existente e ampliar a oferta de atividades esportivas para a comunidade local. O projeto ainda prevê, para a unidade, a implementação de um programa de iniciação esportiva, com objetivo de formar e encaminhar atletas para centros de treinamento esportivo de alto desempenho.

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Entre os benefícios esperados, nas duas unidades, estão a recuperação e modernização das estruturas existentes; a ampliação do acesso da população a atividades esportivas e de lazer; a melhoria das condições de manutenção, segurança e sustentabilidade; e a valorização de equipamentos públicos voltados ao esporte.

Como participar

Durante a consulta pública, a sociedade poderá contribuir com sugestões e recomendações para o aprimoramento da proposta. Os documentos e orientações para participação estarão disponíveis a partir de 23 de março de 2026 no site da SPI.

O acesso aos materiais técnicos detalhados será realizado mediante solicitação pelo e-mail concessaocvg@sp.gov.br, com o envio das seguintes informações: nome completo, CPF, e-mail, instituição, telefone e cidade do solicitante.

As contribuições poderão ser encaminhadas entre 23 de março e 24 de abril de 2026, conforme orientações disponíveis na página do projeto.