domingo, 22 de março de 2026

Pedro Bandeira A escola é a melhor formadora de recrutas para o crime, FSp (definitivo)

 Pedro Bandeira

Escritor, é autor, entre outros, de 'A Marca de uma Lágrima', 'A Droga da Obediência' e 'A Droga do Amor'

Suponho que sua primeira língua seja o português. Se sim, agora tome um fôlego e atente para o que está pensando. Você usou palavras para pensar? Em que língua você pensou? Em língua portuguesa? Ótimo.

Agora responda; quando você dá um revisada nos arquivos da memória, encontra em sua esmagadora maioria anotações em palavras da língua portuguesa? Com muitas e diferentes palavras? Só mesmo eventos ocorridos há tempos, quando você era criança, não estão registrados, não é? Porque esses eventos ocorreram quando você ainda não tinha o registro de vocábulos suficientes para que registrasse essa ocorrência em sua memória.

Mãos de estudantes seguram canetas e escrevem em cadernos de espiral sobre carteiras azuis em sala de aula. Alunos vestem uniformes com gola verde e estão alinhados em fileiras.
Alunos em sala de aula na Escola Família Agrícola Rio Peixe, na área rural de Balsas, no Maranhão - Zanone Fraissat - 8.set.25/Folhapress

Isso acontece com a maioria dos adultos brasileiros que são mal letrados. Por quê? Não frequentaram a escola? Frequentaram sim, mas o provável é que grande parte dessas pessoas tenha tido dificuldades de aprendizagem por seus pais serem também mal letrados, ou por não terem recebido estímulos familiares à leitura. E, na maioria dos casos citemos a educadora Miriam Abramovay nesta Folha, são mal letrados por: "Exclusão, sensação de injustiça, falta de perspectivas, isolamento, fragilidade de vínculos familiares ou comunitários e narrativas que oferecem sentido e pertencimento em troca de visões fechadas do mundo".

Desde seu surgimento, nossa educação era privilégio de poucos e nossos professores eram formados para prepararem uma elite, afastando e perseguindo todo aluno que apresentasse dificuldade de aprendizagem. Nesses casos, a culpa era do próprio aluno: "Preguiçoso! Não estuda! Não presta atenção ao professor! Três dias de suspensão! Esse aí não tem jeito! Fora da escola! Que vá trabalhar!" Assim construímos a educação no Brasil.

Vamos então aplicar esses mesmos métodos à medicina. Vamos organizar hospitais que só tratem de pessoas sadias e que seu corpo médico seja severo: "Seu Fagundes, não tem vergonha de vir aqui com esse diabetes? Três dias de suspensão do hospital! E a senhora, dona Clotilde, como aparece aqui com essa broncopneumonia? Vamos ter uma conversinha com seus pais! E você, acabe com essa asma, já já, ou vai pra diretoria! E o senhor, seu Cardoso, vê se para de sangrar e presta atenção no que eu estou dizendo!"

Por sorte, nossos hospitais agem de modo diferente, tratando individualmente os pacientes de acordo com suas necessidades. Não há hospital que trate todo mundo do mesmo modo. Todos, basicamente, oferecem três divisões: no ambulatório tratam de eventos mais simples, como ferimentos leves, engessamentos etc. Possuem também uma grande enfermaria, onde estão internados pacientes no aguardo de alguma cirurgia, em tratamento medicamentoso ou em convalescença de cirurgia. Mas, para os casos mais graves, oferecem um Centro de Terapia Intensiva, onde o paciente conta com uma enfermagem especial, médicos especialistas e aparelhamento de primeira linha.

Por que nossas escolas não podem organizar-se deste modo? Por que, quando a professora de classe localiza algum aluno que está com dificuldade de letramento, já que tem 30 ou mais estudantes para cuidar, não encaminha esta criança para um reforço especial, onde, com carinho e sem severidade, será recebida num CEI, um Centro de Educação Intensiva, a cargo de uma professora especializada que possa tratar individualmente de seu "paciente"? Um caminho como este poderia ser a solução para nossa carência de penitenciárias.

Alunos que foram perseguidos, xingados de preguiçosos e vagabundos, que foram abandonados pela escola, na certa não terão outro caminho senão juntarem-se a outros expulsos e abandonados. E, nessa condição, que respeito terão eles com uma sociedade que o expulsou ou abandonou?

No momento, nossa providência maior está sendo o investimento em escolas cívico-militares, para que, com a severidade da caserna, possamos oferecer um número maior de recrutas para o crime!

Cármen Lúcia - Ser mulher, FSP

 Cármen Lúcia

Ministra do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral

Resolveram nos matar. Nós, mulheres, resolvemos viver. Decidiram nos matar de várias formas. Nós, mulheres, decidimos viver de todas as formas, de qualquer forma.

Quiseram matar nossa presença. Nós cuidamos de aparecer. Quiseram matar nossa voz. Nós deliberamos falar. Quiseram negar espaços públicos e sociais. Nós resolvemos recriar ambientes nos quais também nos coubessem. Impuseram-nos sapatos apertados e incômodos. Aprendemos a correr com salto alto. E cuidamos de traçar caminhos novos, mesmo nos tropeços e arapucas das sendas afirmadas para um mundo de decisões apenas dos machos.

Mulher idosa com cabelos grisalhos e expressão pensativa, apoiando o rosto na mão esquerda, sentada em cadeira alta com encosto branco e detalhes entalhados em madeira escura, em ambiente interno com decoração clássica.
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, durante palestra na Faculdade de Direito da USP - Zanone Fraissat - 16.out.25/Folhapress

No verbo, todas as pessoas humanas são iguais. Mulheres e homens são iguais em dignidade, respeito e direitos. No verbo. Na Constituição do Brasil. No Brasil da vida diária, mulheres continuam desiguais em direitos, deveres e obrigações. A experiência das mulheres pode ser tida como uma continuada inconstitucionalidade. Numa sociedade machista, misógina e sexista como a brasileira (não apenas, mas para ficar no cenário da minha cidadania), a mulher é discriminada, desvalorizada, permanentemente desrespeitada em sua vida pessoal, social, política, econômica e profissional.

Se todas as pessoas concordam em ser a igualdade direito fundamental da humanidade, por que todos os dias a desumanidade contra a mulher transborda nos atos de discriminação, desrespeito e assassinatos? A matança cruel de mulheres nos mutila, a violência contra a mulher nos amargura, a agressão contra a mulher nos amedronta, a bestialidade criminosa contra a mulher nos açoita em quadro que a cada dia se noticia, se informa, mas não muda.

Se todas as pessoas estão de acordo sobre o igual direito à dignidade de todo ser humano, por que o feminicídio cresce assustadoramente, vozes masculinas somam-se às femininas na proclamação de serem contra o assassinato de mulheres e o quadro de homens matando mulheres de variadas formas aumenta o sangue a escorrer de vidas destruídas pelo ódio à mulher?

Tenho aprendido que a grande maioria dos homens não sabe o que é preconceito e afirma a igualdade apenas como retórica, na qual acho até que eles acreditam. Querem a igualdade desde que a mulher fique apenas por perto em casa, no trabalho, na vida social e política, ou seja, "mantenha-se no seu lugar". Não queira ela opinar com autonomia, não queira ela ocupar chefia, não queira ela participar das grandes discussões... Isso continua "não sendo para mulher".

Soa patético o discurso de tantos "progressistas" afirmando não ter preconceito: "tenho mulher e filha", "sou filha de uma mulher e minha mãe manda em mim", "quando estou em casa ajudo até na cozinha...".

Quantos favores para abonar a própria crença de serem respeitosos ao direito à igualdade! Não são! A fala é apenas autocondescendente e afaga a ideia de não ter de afirmar-se retrógrado e impermeável a novos conceitos.

Preconceito é atraso de vida e avanço de mortes. Passou da hora de inventarmos uma sociedade de humanidades iguais e sem indignidades fatais. Apesar do destempo, sempre é tempo de se garantir que a vida de todas as pessoas seja uma aventura que vale a pena curtir, não um ônus custoso a se aguentar.

Sem nos convidar para o ajuste, trataram que a mulher deveria ser ausência. Sem participar do ajuste, combinamos que devemos ser presença. Trataram que seriamos adjacência. Resolvemos que somos humanamente essência.

Querem continuar a nos matar. Nós decidimos continuar a viver.