domingo, 22 de dezembro de 2013

Com o suor do rosto


Em novo livro, o filósofo húngaro István Mészáros descreve a ‘produção destrutiva’ de nossos dias

21 de dezembro de 2013 | 16h 01

Ricardo Antunes
Um olhar cuidadoso neste século, que também inaugurou um novo milênio, mostra um cenário tenso, turbulento, atormentado, em que os levantes, as revoltas e as rebeliões, mais ou menos contingentes ou duradouros, estão em todos os quadrantes do mundo.
Lukács: Pensador marxista ressurge para decifrar o ser social na vida cotidiana - John-lowther.blogspot.com
John-lowther.blogspot.com
Lukács: Pensador marxista ressurge para decifrar o ser social na vida cotidiana
A destruição da vida cotidiana, o desmonte do que é público, a "comoditização (palavra que está sendo dicionarizada em muitos cantos) de tudo que pode virar mercadoria, pouco importando se é material ou imaterial, desde que seja lucrativo, tudo isso tem constituído o solo social onde florescem as manifestações multitudinárias e plebiscitárias que povoam as praças públicas.
O trabalho, por exemplo, que nasceu com a humanidade para possibilitar a reprodução societal, evapora-se. Num movimento em que até o reino da irracionalidade fica embasbacado, muitos trabalham como loucos, sem serem capazes de distinguir onde está o espaço público e o privado. Os que continuam no labor diário não têm hora para começar e nunca sabem se vão findar o dia com trabalho garantido amanhã. Para não parecer exagero, basta olhar a Europa de nossos dias, Grécia, Espanha, Portugal, Itália, puxando o trem da tragédia. Somam-se, então, às centenas de milhões que perambulam como catadores de qualquer trabalho, lutando para não engrossar as fileiras dos desempregados globais.
A destruição monumental da natureza, o aquecimento global, amplificado pelo pré-sal, tudo é muito diferente do que Schumpeter chamou de destruição produtiva, assemelhando-se ao que o filósofo István Mészáros (cujo livro O Conceito de Dialética em Lukács acaba de ser publicado pela Boitempo2) rebatizou, há décadas, como produção destrutiva.
No universo da reprodução societal, onde se desenvolvem as possibilidades mais intersubjetivas, próprias do convencimento, da interação (como a educação, a comunicação, o direito, entre tantos outros momentos da esfera reprodutiva), essas se tornam cada vez mais vilipendiadas. O que era - ou deveria ser - comum, de uso livre das comunidades, privatiza-se.
Dizem também que as ideologias desapareceram, mas uma análise com um mínimo de atenção demonstra que a denominada tese do fim das ideologias é a expressão mais viva de como o verossímil é capaz de se tornar escandalosamente falso.
E se isso já não bastasse, acrescentaram que o mundo maquínico, da era informacional-digital com seu "admirável mundo do não trabalho, da plenitude e da felicidade", faria evaporar as alienações e os estranhamentos originados no mundo industrial.
Pois bem, essa nossa digressão inicial vem a propósito da recente publicação do segundo volume de Para uma Ontologia do Ser Social (Boitempo), obra de maturidade do filósofo marxista György Lukács. Depois de exercitar sua crítica lógico-ontológica ao neopositivismo, ao existencialismo e de apresentar sua verdadeira (re)descoberta da ontologia materialista de Marx (presentes no primeiro volume), Lukács parece ressurgir das cinzas, ajudando a decifrar os complexos categoriais decisivos do ser social em sua vida cotidiana: o trabalho, a reprodução, o momento ideal (e a ideologia) e o estranhamento. Se a elaboração tem a marca do filósofo, sua lupa filosófica olha o mundo real, descortinando seus pontos cardeais.
O filósofo húngaro recuperou a dialética do trabalho, contra as unilateralizações que reduziram o trabalho estritamente a sua dimensão alienada, típica do capitalismo; mostrou, entretanto, que a atividade humana efetivada pelo trabalho está presente na gênese do ser social, no seu ir-sendo e no vir-a-ser. O reino eurocêntrico de uma sociedade sem trabalho fica reduzido a um conto da carochinha.
Na primorosa linhagem aberta por Marx - junto com Hegel e distante de Weber, com quem Lukács conviveu intelectualmente em sua juventude - Lukács pode demonstrar que, mesmo quando assume a forma alienada, o trabalho não consegue eliminar cabalmente sua dimensão de atividade vital, uma vez que o trabalho abstrato subordina o trabalho concreto, mas não pode extingui-lo. Mas nosso filósofo nunca deixou de assinalar que um trabalho autônomo e livre, dotado de sentido humano-societal, é ontologicamente incompatível com a vigência do capital.
Depois de oferecer um desenho analítico denso para uma melhor compreensão do fenômeno social da reprodução e da ideologia, Lukács volta suas baterias para compreender o intrincado fenômeno social do estranhamento e da alienação. Com a vigência do mundo da mercadoria em sua espectral objetividade, as alienações se complexificam, apresentando-se ora como coisificações inocentes, ora como coisificações estranhadas: aquelas sendo anteriores à vigência da forma-mercadoria e essas vigorando na fase em que domina o fetichismo da mercadoria. Para se pensar as alienações e os estranhamentos de nossos dias, as pistas não poderiam ser mais seminais.
Não foi por poucos motivos, então, que István Mészáros caracterizou Para Uma Ontologia do Ser Social como a "última obra magistral de Lukács". E, no livro acima indicado - O Conceito de Dialética em Lukács, acrescentou, referindo-se ao mestre: "Independente dos limites de adaptabilidade do filósofo individual, o fato é que ele não aprende nos livros as questões importantes de sua época, mas as vive (...) se for um homem significativo. As influências, portanto, devem ser tratadas com o maior cuidado. Pois o filósofo significativo segue o conselho de Molière, colhendo "seu bem onde o encontra", e molda tudo que colheu - e não apenas encontrou - em um todo coerente que lhe é próprio". Síntese primorosa, válida para os dois mestres.
RICARDO ANTUNES É PROFESSOR TITULAR DE SOCIOLOGIA DO IFCH/UNICAMP, AUTOR DE OS SENTIDOS DO TRABALHO E COORGANIZADOR DE LUKÁCS: UM GALILEU NO SÉCULO 20 (AMBOS DA BOITEMPO) 

Menos-valia


Sociólogo vê ‘regressão à barbárie’ e analisa o acúmulo de funções, a falta de segurança e a ausência de lazer

21 de dezembro de 2013 | 16h 01

Mônica Manir - O Estado de S. Paulo
Elísio Estanque não vai estar dando respostas prontas nesta entrevista. Vindo do Alentejo, ele obviamente não prima pelos gerúndios característicos do infoproletariado, a massa de trabalhadores dos call centers. Mas a questão é mais que gramatical. Esse sociólogo de 61 anos se diz contra seguidismos e alinhamentos cegos. Tem estilo próprio. E vai direto ao ponto: "O que vemos nas duas últimas décadas é uma regressão à autêntica barbárie no mundo do trabalho".
Caso de Mita Diran (foto) chamou atenção para as jornadas excessivas de trabalho - Reprodução
Reprodução
Caso de Mita Diran (foto) chamou atenção para as jornadas excessivas de trabalho
Professor da Universidade de Coimbra, Elísio sentiu a feia crise em seu país. No entanto, quando fala de barbárie, não trata apenas do desemprego brutal entre os jovens portugueses. Quer discutir por que trabalhadores em geral - e não só os infoproletários - se distanciaram dos sindicatos e se trancafiaram num "individualismo negativo", sem direitos sociais básicos. "Ninguém imaginava que, mesmo nas democracias avançadas, iriam surgir fenômenos de degradação humana nesse nível", afirma.
Ele fala de acúmulo de funções, de falta de segurança, de alta rotatividade, de vigilância escamoteada, de ausência de lazer, de exaustão. Opina sobre o paradigma desenvolvimentista do Brasil, onde a taxa de desemprego de novembro, 4,6%, é mínima histórica. Também tem interesse em comparar a classe média portuguesa com a nossa "nova classe média", de que ele desconfia, e faz isso tudo a partir de Campinas, onde está desde janeiro como professor visitante da Unicamp, em companhia da mulher ucraniana.
Causou surpresa, na semana passada, o caso da redatora de uma agência de publicidade da Indonésia que morreu após trabalhar três dias seguidos em frente do computador. O pai dela, diretor executivo de outra agência, disse que a filha passara de seu limite. Como medir esse limite em tempos de infoproletariado?
Ao tomar esse evento apenas como ilustração de muitos milhares de outros que têm acontecido nos últimos tempos, eu diria que essa pressão que faz com que o trabalhador seja levado pra lá do suportável das capacidades humanas depende de um clima geral que está a exaurir a classe. Esse clima tem despojado o trabalhador daquilo que são - ou que foram - alguns direitos de segurança, de inserção social e de recompensas materiais e salariais. Nas últimas duas décadas houve uma inversão na lógica do funcionamento da economia. O mercantilismo se reforçou e está a individualizar mais as relações de trabalho. As pessoas ficam sob um controle ainda maior na medição dos indicadores da produtividade, dependente de serem ou não capazes de alcançar objetivos muitas vezes insuperáveis. Portanto, nesse caso da Indonésia e também em muitos acidentes de trabalho em que questões de segurança são descuradas, tudo representa uma vulnerabilidade muitíssimo grande do trabalhador. E isso acontece tanto em segmentos mais qualificados e de ensino superior como naqueles de menor qualificação e trabalho indiferenciado. Temos na construção civil, por exemplo, vários exemplos de risco que levam os trabalhadores a sofrer acidentes físicos, inclusive.
Nessa semana, aliás, ocorreu a morte de um operário na Arena Amazônia motivada, diz o sindicato da categoria, pela correria dos trabalhadores para entregar o estádio no prazo. Há na história momento semelhante de tamanha vulnerabilidade do trabalhador?
Nos anos 1990, Ulrich Beck, alemão que estuda essas temáticas, falava da brasileirização do mundo. Pensava na enorme precarização da força de trabalho na qual não há praticamente direitos, e sim uma enorme rotatividade e instabilidade. Só que, na Europa, não se esperava que ela fosse tão brusca, tensa e violenta. É um individualismo negativo que faz lembrar aquele que existia antes da Revolução Francesa, antes de a sociedade industrial moderna estar consolidada. Era o trabalhador colocado como força bruta, como mercadoria, totalmente dependente daquilo que fosse do interesse das entidades empregadoras. O que assistimos nas últimas duas décadas é uma espécie de regressão a esse período de autêntica barbárie. E isso é vivido, no caso dos trabalhadores da Europa, depois de eles terem passado por três décadas da chamada época de ouro do Estado previdente, quando a conquista de direitos repunha o trabalho num estatuto de reconhecimento social. Há sete, oito anos, ninguém imaginava que, mesmo nas democracias mais avançadas, surgiriam fenômenos e situações de tamanha degradação humana.
Isso, de alguma forma, tem a ver com a inovação tecnológica?
A inovação tecnológica tem sempre duas faces: a brilhante e a obscura. Há muito se vinha discutindo que, com a tecnologia, o trabalhador ficaria mais liberto do componente mais duro do trabalho, podendo usufruir de mais tempo livre. Mas a inovação tecnológica não tem acarretado consigo mais liberdade, mais autonomia, mais emancipação. Ao contrário: permite uma vigilância mais apertada. Ela cria uma precariedade que não é apenas objetiva e material, mas também psicológica, o que leva o trabalhador a recriar os instrumentos da própria vulnerabilidade.
Como isso acontece?
O trabalhador é colocado numa situação vulnerável não apenas porque sabe que pode ser deslocado de um momento para outro ou ser facilmente demitido, mas também porque incorpora a ideia de que é preferível aceitar qualquer que seja a condição de trabalho a não ter nenhum. Daí que concorda em ser colocado numa posição de maior dependência. E aceita de certo modo ser explorado até a exaustão, como naquela situação à qual nos referimos no início. Isso acontece na relação assimétrica de poder que ele mantém com a entidade patronal, uma entidade que muitas vezes nem conhece pessoalmente.
O acúmulo de funções seria uma faceta dessa exploração?
Isso se insere no paradigma das empresas enxutas, retórica enfocada a partir dos anos 1980 com o chamado Consenso de Washington, que levou a uma globalização maior dos mercados. Isso intensificou imensos fluxos do capitalismo financeiro e colocou o capitalismo produtivo a sua mercê. Na prática, isso se traduziu na tentativa de espremer ao máximo o trabalhador que fica na empresa, fez com que a polivalência deixasse de ser sinônimo de maior autonomia e margem de opção do trabalhador para torná-lo mais dependente de uma competitividade castigante. Dentro das empresas também há uma condição muito estimulada entre os trabalhadores, os prêmios de produtividade, que muitas vezes são ilusão. Se olharmos de um lado a multiplicação do lucro da atividade financeira e de outro os salários, há uma distância que se foi elevando nas últimas décadas em todos os países, a começar pelos EUA. Resumindo, essa multiplicidade de competências aconteceu por imposição de cima para baixo. A margem de negociação foi desaparecendo porque o próprio campo sindical deixou de negociar as condições de trabalho, entre elas também as horas extras.
No caso das horas extras, seria o momento de resgatar o cartão de ponto?
O cartão de ponto nos remete aos setores mais burocráticos, aos setores dos servidores públicos, nos quais, apesar de tudo, ainda existe alguma previsibilidade. A pessoa sabe que, quando deixar o local de trabalho, estará livre. Mas me parece que essas situações sejam cada vez mais excepcionais porque os servidores públicos - pelo menos na Europa, no Brasil ainda é diferente -, estão sendo igualmente descartados, enquanto os recursos públicos seguem muitas vezes a lógica do privatismo. Eu diria que o cartão de ponto, neste momento, está no bolso de todo mundo. Está no celular, no computador, nos imensos meios técnicos que as empresas possuem para controlar o que cada um está a fazer a cada momento.
Como esse trabalhador pode reagir?
Desde que o capitalismo moderno se consolidou surgiram conflitos, como o movimento ludista, em que os trabalhadores destruíram as máquinas por temer que elas viessem a substituí-los no emprego. Mas eles logo aprenderam que, sozinhos e isolados, não conseguiriam resistir de modo nenhum. A resposta tinha de ser coletiva, por força do movimento sindical, que nos países mais avançados foi sendo institucionalizado e trouxe imensas conquistas para as condições de vida. Mas hoje, num salto histórico para este momento de regressão, os sindicatos estão a ser o principal alvo da força do grande capital internacional. Houve uma viragem de paradigma nas últimas duas ou três décadas. Os sindicatos temem ser agressivos, estão muito enfraquecidos. Em parte porque, seja no infoproletariado ou em outros vínculos laborais, as empresas e o trabalho tendem a ser terceirizados. Note-se por exemplo que, aqui no Brasil, cerca de 1/3 da força de trabalho é terceirizada. Em Portugal, mais de 30% dos trabalhadores estão com contrato a termo certo, ou seja, estão em situação de precariedade. As novas gerações de força de trabalho vão entrando no mercado em condição particularmente precária e dependente, individualizada e com medo.
Esse jovem não procura o sindicato?
Apesar de muitas vezes esse jovem ser sobrequalificado, pelo menos na Europa, já que o desemprego atinge mais aqueles que passaram pela universidade, ele não procura os sindicatos. E por duas razões: uma é a pressão que existe dentro das instituições do mercado de trabalho quanto a isso; outra é o déficit de confiança que as novas gerações têm rotineiramente em relação ao sindicalismo. Ou seja, o próprio sindicalismo também não soube renovar-se e adaptar-se para responder de modo mais eficaz a esses problemas.
Portugal anunciou que gastará € 300 milhões para combater o desemprego jovem. Isso é suficiente?
Esse valor é, com certeza, insuficiente para programas de incentivo ao emprego de jovens que, na faixa abaixo dos 30 anos, ultrapassam os 40% de desempregados em Portugal. Na Espanha, são 50%. É insuficiente sobretudo se não for acompanhado de outras políticas de incentivo à recuperação da economia, o que só pode acontecer se houver, de novo, um investimento e uma alavancagem por parte do poder público e da intervenção estatal. Porque, desastrosamente, esse paradigma neoliberal parte do princípio de que tudo que é privado é eficaz e tudo que é público é custoso. Se a economia não crescer, se não houver mais oferta de emprego e trabalho assalariado, é obvio que esses jovens continuarão a sentir-se sem futuro, em busca de qualquer saída. No caso de Portugal, a saída tem sido migrar para a Alemanha, Holanda, Luxemburgo e França, ou mesmo para o Brasil.
O desemprego no Brasil caiu para 4,6% em novembro, mínima histórica antes do fim do ano. O senhor vê esse cenário com otimismo?
O que tem acontecido no Brasil é um crescimento econômico muito significativo e uma melhoria notória nas condições de trabalho, porém justamente porque a base de partida era extremamente degradante e miserável para muitos setores. E, ainda hoje, apesar das melhoras em termos de formalização do emprego em relação há 15 anos, repara-se nos altíssimos porcentuais de rotatividade. Minha leitura vale para todas as sociedades: quando se avança segundo uma orientação progressista e emancipatória de maior coesão social, maior dignidade para as classes trabalhadoras, maior acesso à saúde, à educação, à cultura, ao descanso da mente, aí estaremos a caminhar no bom sentido. Se o paradigma desenvolvimentista do Brasil sair triunfante dessa encruzilhada em que nos encontramos, é possível que a classe trabalhadora, nas próximas décadas, vá se beneficiar disso. Mas neste momento há uma grande incerteza nesse sentido. Os poderes do capitalismo global são realmente esmagadores. 

Conselheiro Aécio


22 de dezembro de 2013 | 2h 06

ROBERTO ROMANO, ROBERTO ROMANO É FILÓSOFO, PROFESSOR DA UNICAMP, AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE , O CALDEIRÃO DE MEDEIA (PERSPECTIVA) - O Estado de S.Paulo
Uma cena marcante do filme Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas), dirigido por Jean-Luc Godard) mostra uma festa de gente rica. Nela, as conversas repetem slogans sobre objetos do desejo. As referências mais constantes são aos carros de luxo. Na época (1965), a paixão de consumo trazia a marca Alfa Romeo. Na sala festiva não existe indivíduo ou grupo cultural distinto e autônomo. As frases se encadeiam nos bonecos falantes que elogiam a etiqueta de seus vestidos, ternos, sapatos. É o delírio da propaganda. O herói (Jean-Paul Belmondo) que se ergue contra tal sistema mata a si mesmo, pois não encontra a quem realmente contestar na sociedade dominante. Ele não conseguiu fugir da armadilha discursiva e prática que cerca sua pretensa missão revolucionária.
O marketing, segundo Sergei Tchakhotine (A Mistificação das Massas pela Propaganda Política) sugestiona mais do que explica. Ele move as pulsões humanas, cria necessidades nas pessoas-alvo. A propaganda política combina todos os impulsos e desejos e usa slogans de maneira automática, o que impede o público-alvo de pensar duas vezes sobre o que é dito, prometido, ameaçado, pelos partidos e candidatos. Sem falar na longa prática brasileira de engodo propagandístico (que vem do DIP, onipotente na ditadura Vargas, até Collor de Mello), só em São Paulo exemplos vistosos mostram o poder do marketing para mistificar eleitores. Bastam dois nomes para ilustrar a coisa: Fura-Fila e Arco do Futuro. A notícia recente mais importante é a ruptura de Aécio Neves com seu marqueteiro. Não por acaso, o principal ministro a serviço da presidente Dilma Rousseff é João Santana. E Duda Mendonça é a noiva cobiçada por vários políticos nacionais.
No PSDB, a guerrilha perene dos dirigentes desencantou: Serra aceita Aécio como candidato. Aceita, mas não canta hinos jubilosos ao vencedor. A memória do Lulécio (a campanha disfarçada de Aécio em favor de Lula, contra o candidato de seu partido) e do Dilmasia (façanha idêntica em favor de Rousseff, contra a candidatura do PSDB) é recente e forte. O partido precisa efetuar uma engenharia política eficaz para diminuir a ferida aberta pela sede de poder que domina o herdeiro de Tancredo Neves.
Mas, pelos sinais emitidos no quartel tucano, a tarefa partidária está longe de ser eficaz. A plataforma lançada na Câmara dos Deputados é cheia de slogans, vazios como as falas dos ricos em Pierrot le Fou. Ela canta as delícias da ética pública em tons de Conselheiro Acácio ("restaurar valores e ideias caros aos brasileiros", "colocar o poder público a serviço da coletividade"). Nela são sugeridas mudanças sem nada mudar no concentracionário Estado brasileiro ("não se trata de Estado mínimo, tampouco de Estado máximo"). A propaganda tucana retoma os mantras gastos na saúde ("aplicar melhor os recursos, investindo na melhor organização, na eficiência e na gestão"). E nem falemos do prometido "ambiente econômico saudável, com bases sólidas que permitam recuperar confiança e credibilidade", ou das "portas de inclusão" para as famílias nos programas sociais. A pérola é a proposta de redução dos impostos "para melhor distribuição de receitas para Estados e municípios".
Nenhuma das medidas indicadas acima é original, nenhuma delas vem com um rol de mudanças estruturais na federação brasileira, nenhuma delas analisa e critica a forma do Estado federal e os poderes desmedidos da Presidência em detrimento dos outros poderes, dos Estados, dos municípios. E nenhuma delas questiona o verdadeiro mensalão, oficializado nas concessões de emendas parlamentares (para aprovar o Orçamento de 2014, R$ 2 milhões serão "cedidos"pelo Executivo aos congressistas), parte apenas do preço pago pela Presidência para manter sua hegemonia.
Dilma Rousseff controla as obras públicas, os recursos financeiros, a propaganda, além de contar com o PT, um partido que domina suas divisões internas. Já a situação dos tucanos é cheia de aporias. Eles não construíram uma agremiação de massa (Fernando Henrique os alerta desde longa data para a urgente busca de apoio popular) nem instalaram diretórios em todas as regiões e municípios, e sempre dependeram de alianças à direita. Os partidos da direita encolheram; o DEM nem é sombra do PFL e a nova direita apoia… Dilma. Eduardo Campos tem o pé em duas canoas: de um lado, os ecologistas, de outro, o setor ruralista. Difícil conciliar tais interesses. Fora o governo paulista, sob o comando de Geraldo Alckmin, as perspectivas do PSDB são pouco alvissareiras. Os tucanos deveriam tudo fazer para atenuar suas diferenças (sem trocos ao Lulécio e ao Dilmasia) e para robustecer a candidatura Alckmin, talvez o último reduto relevante da oposição no próximo quatriênio. Se as fraturas tucanas não forem sanadas, a semelhança com Pierrot le Fou será perfeita: no fim, vítimas da sociedade de consumo e da propaganda, inclusive da sua, como o herói de Godard, eles colocarão explosivos na própria testa e…