segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Para frente Brasil, salve a seleção - LUIZ CARLOS AZEDO


CORREIO BRAZILIENSE - 09/12


De certa forma, uma insatisfação difusa está instalada e se traduz de forma bem-humorada no jargão "padrão Fifa", que passou a ser adotado, ironicamente, nas críticas populares a tudo o que há de errado nos serviços públicos

A Seleção Brasileira de futebol, como diria Nelson Rodrigues, é a pátria de chuteiras. Gera uma corrente de esperança e paixão entre os brasileiros praticamente inquebrantável, mesmo para os mais desencantados e revoltados com a situação do país, como nos relata Cid Queiroz Benjamin em sua recém lançada e excelente biografia, intitulada Gracias a la vida (Editora José Olímpio). Mesmo nas prisões e no exílio, militantes radicais da oposição decididos a torcer pela derrota do Brasil acabaram comemorando, como os demais brasileiros, a espetacular vitória da nossa Seleção canarinho nos gramados do México, na Copa do Mundo de 1970.

Como se sabe, a gloriosa campanha do Brasil no México despertou muito patriotismo. Marcou o momento de maior apoio popular ao regime militar, então presidido pelo general Emílio Garrastazu Médici, que era um torcedor gremista fervoroso e chegou a frequentar o estádio do Maracanã de radinho de pilha ao ouvido, sob aplausos da torcida. Era a época do milagre econômico e a oposição, representada pelo MDB, sofreria nas urnas a sua maior derrota para a Arena. Nunca, até então, o futebol e o marketing político estiveram tão juntos.

Eis por que, como não poderia deixar de ser, a presidente Dilma Rousseff aposta suas fichas na vitória do Brasil na Copa de 2014, uma empreitada que herdou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que tem uma certa dose de risco político. É que há muita contestação à realização do evento no Brasil, mais por causa do valor proibitivo dos ingressos para os jogos e das passagens aéreas para acompanhar o escrete nacional, pelas suspeitas de superfaturamento dos custos das obras de alguns estádios e não realização da maior parte dos projetos de mobilidade urbana, do que em razão de uma atitude antipatriótica dos que se opõem à realização dos jogos nos termos previstos pela Fifa.

Há muitas controvérsias sobre essa relação entre a política e o futebol, haja vista que uma coisa não está necessariamente ligada a outra, apesar de os cartolas e governantes fazerem o maior esforço possível para isso. A vitória de 1958, na Suécia, por exemplo, fez parte do ambiente de franco otimismo que pautou a vida nacional durante os anos do governo de Juscelino Kubitschek. Já a vitória de 1962, no Chile, não impediu o naufrágio econômico do governo Jango e o golpe militar que o apeou do poder.

Do ponto de vista da Copa de 2014, portanto, antes de mais nada, é necessário dizer que os principais candidatos de oposição, o senador Aécio Neves (PSDB), ex-governador de Minas, e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), são sócios da empreitada, pois ambos estão comprometidos, respectivamente, com a realização dos jogos em Belo Horizonte (MG) e no Recife (PE) e com o sucesso do Brasil, consequentemente. Isso, porém, não quer dizer que sejam solidários com o governo Dilma no caso de um eventual fracasso brasileiro na realização dos jogos. Eis a grande questão política posta pelo desempenho da Seleção para a reeleição da atual presidente da República.

Já nos assombra o fantasma da derrota da Seleção Brasileira de 1950, por 2 x 1, para a seleção do Uruguai, na final da Copa do Mundo, na qual o Maracanã chorou com aquele inacreditável gol de Ghiggia 11 minutos antes de o jogo acabar. É o responsável por aquele friozinho na espinha que sentimos ao saber que, por sorteio, o Brasil enfrentaria o México, a Croácia e Camarões logo de saída. Há que se considerar também o papel que os protestos contra a Copa das Confederações tiveram nas manifestações de junho passado.

De certa forma, uma insatisfação difusa está instalada e se traduz de forma bem-humorada no jargão “padrão Fifa” , que passou a ser adotado, ironicamente, nas críticas populares a tudo o que há de errado nos serviços públicos. Vamos todos torcer para que o Brasil ganhe a Copa do Mundo de Futebol de 2014. Quem corre mais risco político em caso de derrota, entre os candidatos nas eleições de 2014, porém, indiscutivelmente, é a presidente Dilma Rousseff, que trocou o radinho de pilha pelo Twitter e decidiu fazer dos jogos uma plataforma para a própria reeleição. Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência, diria o mitológico botafoguense Neném Prancha. Mas, para ganhar o jogo, é preciso fazer os gols.

Moral da história - LUIZ FELIPE PONDÉ


FOLHA DE SP - 09/12

No Brasil, muitos juízes acham que devem fazer (in)justiça social com as próprias mãos


Hoje vou contar uns casos para você. Aproximam-se o Natal e o Ano-Novo, e sempre pensamos o que poderia ser diferente no Brasil. Eu, diferentemente daqueles que creem em modas como "consciência política" (para mim isso é uma coisa tão real quanto carma), espero que um dia o Brasil se livre de sua inhaca de ser um país no qual quem dá emprego é visto como bandido. Porque, ao contrário do que diz a moçada da "justiça social" (carma...), quem dá emprego é quem faz verdadeira justiça social.

Imaginem uma jovem empresária cheia de vida e fé no seu negócio. Isso aconteceu alguns anos atrás, hoje ela se transformou numa cética com relação ao valor da atividade do pequeno e médio empresário brasileiro, porque acha que só ingênuo e mal informado dá emprego no Brasil.

Um dia sua loja de produtos finos foi assaltada em plena luz do dia. Ela e sua sócia tiveram suas vidas ameaçadas. Vários talões de cheques da empresa roubados do cofre. Não tinha muito dinheiro em "cash", por sorte.

Na sequência, se inicia a via crúcis para cancelar os talões e fazer o BO. Horas em delegacias com funcionários que complicavam as coisas com clara intenção de, quem sabe, garantir um "extra".

Alguns dias depois, a dona de um pequeno restaurante fora de São Paulo liga para elas dizendo que um grupo grande de homens havia passado um cheque de sua empresa como pagamento de uma festa que eles tinham dado no restaurante dela. Nossa jovem empresária, prontamente, informa à mulher que a loja tinha sido assaltada, que esses talões estavam cancelados e que tinha a documentação necessária para comprovar o relato, e, portanto, sentia muito, mas o cheque não tinha qualquer valor.

Claro que a dona do pequeno restaurante não quis saber e "pôs elas no pau". Foram obrigadas a depositar em juízo. Quando da audiência, após apresentar toda a documentação, o juiz decidiu que sim, elas deveriam pagar o cheque.

Quando questionado em sua decisão (já que elas tinham sido vítimas de um assalto!), o juiz as ameaçou dizendo que, caso não aceitassem a decisão, o processo se alongaria e sairia mais caro para elas. Ao ser indagado acerca da injustiça que ele cometia ao obrigá-las a pagar por um gasto que não fizeram, o juiz soltou a pérola de costume: "As senhoras são ricas, podem pagar por isso".

Eis o juiz fazendo caridade com a grana alheia. Comunista gosta de distribuir o dinheiro dos outros. No Brasil, muitos juízes acham que devem fazer (in)justiça social com as próprias mãos.

Moral da história: as empresárias foram roubadas duas vezes, uma pelos ladrões, outra pelo Estado.

Outro caso. Funcionário rouba o patrão. Ele demite o funcionário por justa causa. Abre processo na Justiça comum contra o funcionário. O juiz do trabalho decide que o patrão deve pagar "todos os direitos trabalhistas" do funcionário sob alegação de que uma coisa é roubar, outra é ser demitido. Risadas? Claro, o juiz do trabalho argumentou que as duas Justiças "não se comunicam" e que os direitos trabalhistas são inquestionáveis.

A questão é: afinal, roubar não seria causa suficiente para você demitir alguém? O problema é que cá nestas terras demitir é crime. O Brasil é mesmo o fim da picada.

Moral da história: o empresário foi roubado duas vezes, uma pelo funcionário ladrão, outra pelo Estado.

Mais um. Jovem empresário de uma cidade em outro Estado faz uma reforma na fachada de sua loja. Fica muito bonita. Dias depois, roubam quase tudo dessa fachada.

No Brasil, tudo é roubável. A fachada fica destruída. Passados poucos dias, aparece aquele cara chamado "fiscal da prefeitura". O "amigo" avisa ao empresário que vai lhe passar uma bela multa, a não ser que ele seja razoável. O jovem empresário, munido da fé comum daqueles que creem que escândalos com fiscais é coisa rara, argumenta e apresenta documentação provando a destruição criminosa e o roubo. Não adianta, o "representante do bem público", leia-se, o fiscal, lhe apresenta uma multa enorme.

Moral da história: o jovem empresário foi roubado duas vezes, uma pelo ladrão, outra pelo Estado.

Sucessão nervosa, por Renato Janine Ribeiro


Eleição para a reitoria da USP tomou forma de confronto entre qualidade científica e democracia – polarização com a qual o autor não concorda

07 de dezembro de 2013 | 16h 01

Renato Janine Ribeiro - O Estado de S. Paulo
A USP vive a mais nervosa escolha de um novo reitor em vários anos. O conflito se deve à sucessão. Nas últimas décadas, as universidades públicas de todo o País adotaram formas de eleição pela comunidade. A USP foi a exceção. Inventou um sistema pelo qual, não havendo candidaturas inscritas, esperava-se que espontaneamente os melhores lembrassem outros nomes, melhores ainda, de modo que, sem partidarização, sem política, pesquisadores de alto calibre acabassem sendo escolhidos, por um misto de colégios restritos e de decisão pelo governador, para dirigir a universidade.
Rodas teve êxitos, mas foi criticado por negar-se a dialogar com os estudantes - Nelson Antoine/Fotoarena
Nelson Antoine/Fotoarena
Rodas teve êxitos, mas foi criticado por negar-se a dialogar com os estudantes
O princípio é correto. A melhor universidade se distingue pela qualidade na pesquisa e no ensino graduado e pós-graduado. Daí um teor aristocrático na eleição uspiana: os melhores lembrariam os melhores. Mas, na prática, isso não funcionou. Sempre se soube, desde o começo, quem eram os dois ou três “para valer”. Facções logo dominaram o processo. O que seria aristocracia virou oligarquia, com os poucos (oligoi) substituindo os melhores (aristoi). Daí, os últimos reitores se fecharam no espaço físico da reitoria. Cavou-se uma distância grande, política e cultural, entre dirigentes e dirigidos. Daí, uma crise potencial de legitimidade dos reitores.
Nenhum dos seis reitores eleitos no regime atual tentou mudá-lo. A novidade na eleição de 2009 é que todos os candidatos o prometeram. O reitor João Grandino Rodas convocou duas reuniões do conselho, que debateu o tema de forma exaustiva e, em 2012, conclusiva. Em meados do ano passado, obteve-se um consenso em torno de uma proposta moderada. Era só votar. Mas o reitor foi adiando. A surpresa ocorreu quando, no início deste ano, circulou que a administração queria introduzir a reeleição na USP. Não deu certo. Depois disso, se tentou uma reeleição cruzada, na qual o vice-reitor se tornaria reitor, e o reitor ocuparia a vice-reitoria, mas com poderes fortemente ampliados.
Tal proposta, submetida a vários diretores, foi recusada por três dos quatro pró-reitores – Maria Arminda (Cultura), Marco Zago (Pesquisa) e Vahan Agopyan (Pós-Graduação). Rodas não teve, assim, o apoio da própria equipe. Rompeu com Zago e Vahan, que hoje compõem a chapa com mais condições de se eleger – um cientista ex-presidente do CNPq, um engenheiro ex-presidente do IPT – e a única que fala em democracia no plano de gestão. Então, perto do fim de seu mandato, o reitor Rodas decidiu discutir a democracia na USP.
A reforma foi votada em 1º de outubro. Adotou-se uma medida simples, defendida havia anos, entre outros, por Hernan Chaimovich e por mim: a escolha passa de um colégio de 250 membros, facilmente controlado pelo reitor e pró-reitores, para o conjunto de quase 2 mil membros das congregações, professores em sua maioria. A mudança torna o processo mais aberto e menos controlado. Mas não se avançou rumo à eleição direta, nem se ampliou o colégio. Também se manteve, por ora, a lista tríplice submetida ao governador. Em 20 sucessões reitorais na democracia, na USP, Unesp e Unicamp, sempre o governador respeitou a preferência da universidade, com uma única exceção – justamente, a escolha de Grandino Rodas, em 2009, em vez do mais votado, Glaucius Oliva, hoje presidente do CNPq.
Inscreveram-se quatro candidatos, que têm seus programas e vídeos na internet. O reitor apoia a candidatura do geógrafo Wanderley Messias, da FFLCH, tendo como vice a ex-reitora Suely – curiosamente, Rodas foi nomeado por José Serra, em 2009, justamente porque o governador não queria ninguém que fosse próximo da então reitora. O vice-reitor Helio Nogueira não parece mais ser o preferido do reitor, embora tenha apoio em várias unidades. Dos quatro candidatos, só um não participou da gestão cessante, José Roberto Cardoso, da Poli. É de se esperar que em eleições futuras acabe a tendência de haver como candidatos praticamente só pró-reitores e diretores.
Grandino Rodas teve êxitos. Construiu muitas obras. Formou uma equipe competente. Mas se desgastou mais do que precisava, devido à relutância em votar a reforma na escolha de reitor, à briga desnecessária com sua Faculdade de Direito e, finalmente, ao rompimento com a própria equipe. É raro um reitor da USP ser tão criticado na imprensa: a cada conflito com os estudantes ou funcionários, os jornais apontavam falhas da reitoria. Até o Judiciário lhe negou, recentemente, a pronta reintegração de posse da reitoria invadida – algo antes automático –, afirmando que ele se negara a dialogar com os estudantes.
A invasão foi lastimável, com depredações e furtos, mas de certa forma representou o esgotamento de uma forma de política universitária. A tensão na Universidade de São Paulo tomou a forma de um confronto entre quem defende a qualidade científica e quem quer a democracia, entendendo por ela a eleição do reitor com igual peso para professores, alunos e funcionários. Não concordo com essa polarização. O segredo da USP é a alta qualidade. Ela é a melhor universidade da América Latina porque não transige nesse ponto. Mas qualidade não é oligarquia.
As demandas da qualidade, sem oligarquia, e da participação, sem pôr em risco a qualidade, precisam e podem negociar. Parece-me pouco que, mesmo com a recente e moderada reforma, nem mesmo um terço dos 6 mil professores doutores da USP votem na escolha do reitor; deveriam votar todos, com participação compatível de alunos, funcionários, sobretudo especializados, e talvez ex-alunos. Mas o decisivo na USP deve ser a busca da melhor qualidade.
Renato Janine Ribeiro, professor titular de Ética e Filosofia Política da USP, é autor de "A sociedade contra o social, o alto custo da vida pública no Brasil" (COMPANHIA DAS LETRAS)