domingo, 8 de dezembro de 2013

O bispo de aço


08 de dezembro de 2013 | 2h 10

Kenneth Serbin* - O Estado de S.Paulo
Entre todos os membros da corajosa geração de bispos católicos que enfrentaram os militares no poder no Brasil, dom Waldyr Calheiros de Novaes destacou-se como o mais valente.
Tive o privilégio de acompanhar e entrevistar esse filho nativo de Alagoas, que faleceu aos 90 anos em 30 de novembro, em várias ocasiões durante o período  em que era bispo da diocese de Barra do Piraí e Volta Redonda.
Tranquilo, mas firme, ponderado, mas muito franco, dom Waldyr era um homem com nervos de aço.
A Igreja fez uma escolha inteligente ao colocar um homem com essas características no coração de um dos principais centros socioeconômicos do Brasil, que sediava a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), um movimento trabalhista importante e  um quartel militar.
Conversei pela primeira vez com dom Waldyr quando   o entrevistei por telefone,  de meu apartamento no Rio de Janeiro, durante a explosiva e trágica greve de trabalhadores na CSN,  em novembro de 1988.
Na época o Brasil corria o sério risco de um retrocesso para o militarismo. A invasão da CSN pelo Exército com o objetivo de pôr fim à greve resultou na morte de três trabalhadores e muitos feridos. O incidente escandalizou a nação, exacerbou as tensões políticas e, apesar de o país ter retornado à democracia em 1985, confirmou que as Forças Armadas ainda estavam de fato no controle do poder.
Observando do alto de um caminhão, o que permitia uma vista panorâmica da praça de Volta Redonda, participei da missa de sétimo dia celebrada sob a chuva por dom Waldyr e quatro outros bispos.  Eles rezaram a missa de outro caminhão,  com milhares de trabalhadores assistindo à cerimônia religiosa.
Pendendo de uma grande cruz, as roupas ensanguentadas dos três trabalhadores mortos se erguia como testemunha da violência do sistema político do Brasil.
Durante todo o tempo da greve, dom Waldyr defendeu os direitos dos trabalhadores e usou sua posição para tentar um fim pacífico da crise.
Anos mais tarde, pesquisando a história das relações entre Estado e Igreja durante o regime militar, descobri inúmeros outros exemplos da determinação do bispo em defender suas posições.
Sua resistência ao militarismo e seus efeitos dolorosos sobre a sociedade brasileira foi firme durante todo esse período.
Dom Waldyr entrou pela primeira vez em conflito com as autoridades em 1967, quando soldados invadiram sua casa para prender um grupo de padres e leigos acusados de subversão. Ele criticou o oficial encarregado da investigação, um tenente-coronel do Primeiro Batalhão de Infantaria Blindada de Barra Mansa (1º BIB), por concentrar-se na luta contra a subversão ao mesmo tempo em que  a política do regime era manter os salários dos trabalhadores muito baixos. Em 1969, declarou-se prisioneiro do 1º BIB, um ato de protesto contra a detenção de dois professores suspeitos de subversão.
Depois que ele e 17 padres denunciaram a prática de tortura no 1º BIB, o Exército abriu o primeiro de diversos inquéritos policiais militares contra ele.  Numa  ocasião, dom Waldyr foi interrogado durante 25 horas. Não se curvou.
Depois de quatro soldados serem torturados até à morte no 1º BIB,  em janeiro de 1971, ele reportou as atrocidades para bispos colegas que participaram da ultrassecreta Comissão Bipartite, criada com o fim de amainar a relação cada vez mais tensa entre Igreja e Estado.
Do lado militar, o chefe do grupo na Comissão Bipartite, general Antônio Carlos da Silva Muricy, recusou-se a aceitar que militares tivessem assassinado os próprios subordinados.
Contudo, depois de consultar o presidente Emilio Garrastazu Médici sobre o assunto, ele admitiu que as acusações feitas pelo bispo eram verdadeiras.
Muricy disse que,  pela primeira vez em sua história, o Exército brasileiro publicaria um documento com críticas a si próprio. Os oficiais "agiram de forma condenável e deformada, provocando a morte dos soldados",  dizia a nota. Subsequentemente, diversos oficiais foram condenados e presos.
Assim, no auge da campanha de torturas do regime contra opositores - que os militares jamais admitiram publicamente -, o governo militar revelou que soldados de fato foram torturados dentro das Forças Armadas.
Entretanto, nenhum outro suspeito de tortura na era militar chegou nem perto de ser processado. A Lei de Anistia impede que isso ocorra e as comissões da verdade que vêm trabalhando atualmente no Brasil não têm poderes para processar e julgar.
A vida de dom Waldyr revelou um fato importante do Brasil do século 20: a relação inextricável entre a Igreja Católica e as Forças Armadas, entre política e religião, entre fé e defesa dos direitos humanos.
Seu falecimento nos lembra que somente alguns líderes episcopais que enfrentaram a ditadura ainda estão vivos. A história do Brasil não pode ser escrita sem que sejam incluídas as suas contribuições. (Tradução de Terezinha Martino)
*Kenneth Serbin é diretor do Departamento de História da Universidade de San Diego, e coorganizador do livro O Bispo de Volta Redonda: Memórias de Dom Waldyr Calheiros (FGV Editora)

Brasil terá uma das maiores linhas de transmissão do mundo

Brasil terá uma das maiores linhas de transmissão do mundo

Será inaugurado nesta terça, 6, o Linhão do Madeira, que vai de Porto Velho, em Rondônia, até Araraquara, no interior de São Paulo

06 de dezembro de 2013 | 17h 08

Rene Moreira, especial para O Estado de S. Paulo
FRANCA - Cruzando o país, do Norte ao Sudeste, por quase 2,4 mil quilômetros, será inaugurada oficialmente nesta terça-feira, 6, uma das maiores linhas de transmissão de energia do mundo. Ela parte de Porto Velho, em Rondônia, onde acontece a inauguração, até Araraquara, no interior do estado de São Paulo.
Construído pela empresa IE Madeira - Interligação Elétrica do Madeira, o "Linhão do Madeira" teve investimento total de R$ 2,2 bilhões e foi finalizado em 24 meses.
Para sustentar mais de 19 mil quilômetros de cabos condutores, totalizando 63 mil toneladas de alumínio, foram utilizadas mais de mil torres autoportantes e cerca de 4 mil torres estaiadas com alturas de até 87 metros, somando 52 mil toneladas de aço.

Subir na vida é 'mais fácil' hoje para 63%


Pesquisa da CNI mostra que sentimento de prosperidade é maior no Nordeste, onde o porcentual que acredita na mobilidade social é de 73%

08 de dezembro de 2013 | 2h 09

LUIZ GUILHERME GERBELLI - O Estado de S.Paulo
Há um sentimento de prosperidade entre os brasileiros. Hoje, 63% da população acha mais fácil avançar socialmente do que há dez anos, mostra uma pesquisa inédita feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o padrão de vida do brasileiro. O levantamento também revela que esse sentimento positivo é maior no Nordeste, onde 73% da população acha mais fácil melhorar de vida.
Os sinais de prosperidade estão diretamente ligados aos ganhos econômicos que ocorreram nas últimas décadas. Em 1994, o Plano Real trouxe a estabilidade, o fim da inflação e a renda do trabalhador deixou de ser corroída. Nos últimos anos, houve uma grande expansão do emprego formal e a inserção de milhões de brasileiros no mercado de consumo.
"Mais de 30 milhões de pessoas entraram na classe média. E esse movimento foi ajudado pela formalização", afirma Renato da Fonseca, gerente de pesquisa da CNI. "Nos últimos anos, o País cresceu e o desemprego caiu muito, o que fez com que as pessoas conseguissem negociar salários melhores e aumentassem a renda."
A sensação positiva é tão grande que a pesquisa revelou que 77% dos entrevistados consideram o padrão de vida melhor ou muito melhor do que o dos seus pais. Além disso, 84% dos entrevistados projetam que os filhos terão uma condição de vida melhor ou muito melhor.
O levantamento da CNI também apurou que, para o brasileiro, o País se tornou majoritariamente uma nação de renda média: 75% se declaram integrantes da classe média, 21% afirmaram ser da classe baixa, e 2% estão na classe alta - o restante não soube ou não quis responder. "Esse número está até acima do que alguns estudos têm mostrado, que apontam a classe média como aproximadamente 55% da população", afirma Marcelo Neri, ministro-chefe interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República e presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
"O Brasil viveu uma grande transformação nos últimos 20 anos, especialmente nos 10 anos passados", afirma. Durante esse processo de crescimento, diz Neri, houve mais fermento na base da sociedade, especialmente para indivíduos mais pobres e para grupo tradicionalmente excluídos.
Na avaliação dele, a classe média tem se mantido "surpreendentemente" forte no Brasil, mesmo com a desaceleração da economia nos últimos anos. "Eu acho que, de uma maneira surpreendente, a nova classe média passou pelo teste de amortecedor. Na verdade, a gente mede esse grupo não pelo PIB, mas pela renda e consumo", diz ele. Se em 2012 o crescimento foi revisado de 0,9% para apenas 1% na semana passada, o consumo per capita avançou 8,9% no País. "É verdade que os segmentos que mais cresceram foram os extremos da distribuição de renda. Não foi uma mudança tão favorável para a classe C."
Os dados do Ipea mostram que a renda dos 5% mais ricos cresceu 14% em 2012, enquanto a dos 5% mais pobres avançou 21%. "Mas nenhum segmento da população teve um crescimento inferior a 6,5% reais por pessoa", diz Neri.
Apesar dos sinais de prosperidade, há um forte medo entre os brasileiros de regredir. Pelo levantamento da CNI, 77% dos entrevistados estão preocupados em perder o padrão de vida alcançado nos últimos anos, 74% temem não ter dinheiro suficiente para se aposentar e 71% se preocupam em ficar sem trabalho, perder o emprego, ou ter de fechar o negócio próprio nos próximos 12 meses. O levantamento também mostra que 46% acham difícil manter o padrão de vida nos últimos 10 anos. "É interessante que as pessoas digam que é mais fácil subir socialmente, mas exista preocupação em não perder o padrão de vida. Isso pode até refletir um movimento de subida e descida", diz Fonseca.
O estudo da CNI foi feito em parceria com o Ibope. Foram ouvidas 2.002 pessoas em 143 municípios. O intervalo de confiança da pesquisa é de 95%, e a margem de erro máxima é de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos.