segunda-feira, 1 de junho de 2020

'Mundo alarmado' começa a questionar 'soft power' dos EUA, FSP

Antes mesmo das 'cenas de guerra civil', Berlim já havia começado a se afastar de Washington

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Sob o título "Mundo alarmado pela violência nos EUA", Drudge ReportNew York Times e outros, com Associated Press, reportaram como diferentes jornais, do chinês Global Times ao italiano Corriere della Sera, vêm reagindo às cenas dos últimos dias.

"Nações ao redor do mundo assistem em horror", começa o texto, que destaca o alemão Bild. Abrindo foto na capa de domingo, com a manchete "Este é o policial assassino que incendiou a América", o tabloide de Berlim vê "cenas de guerra civil".

A conflagração já ecoa na disputa geopolítica, a começar da África, como mostra a Foreign Policy. O South China Morning Post, ao manchetar o plano de Trump de criar "um bloco anti-China" a partir do G7, destacou que "o soft power e a liderança dos EUA foram danificados".

TRUMP VS. MERKEL

O próprio encontro do G7 nos EUA foi "adiado após Angela Merkel dizer que não atenderia", noticiou o NYT na home. O site Politico havia antecipado a informação, detalhando que a chanceler alemã e Trump, em conversa, "discordaram acaloradamente" sobre temas como a China.

O serviço de notícias da Alemanha, Deutsche Welle, reportou que, antes mesmo da violência, "Coronavírus torna alemães mais críticos dos EUA". Segundo pesquisa Kantar, "73% dizem que sua opinião dos EUA deteriorou" e "só 37% querem laços mais próximos", contra 50% em setembro.

DOS EUA À CHINA

O Wall Street Journal cobre de perto, nas últimas duas semanas, o afastamento entre Alemanha e EUA —e a aproximação da primeira com a China.

Destacou que Pequim "mantém montadoras alemãs em alta velocidade", com recuperação nas vendas, que VW e outras vão investir bilhões no país e até que dois aviões cheios de executivos alemães partiram para a China.

Por outro lado, "Embaixador dos EUA na Alemanha vai sair" após dois anos de confrontos com Merkel.

GUERRA FINANCEIRA

Com chamada na home, coluna no Financial Times alerta que "Nós podemos estar entrando num mundo pós-dólar".

Em suma, "China e outros emergentes, assim como alguns países ricos como a Alemanha, adorariam se afastar do domínio do dólar, desejo acentuado pelo uso cada vez maior das finanças como armamento", referência às sanções. Destaca movimentos não só da China, mas da União Europeia.

POLÍCIA LÁ E CÁ

Jair Bolsonaro tentou faturar via Twitter a ameaça de Trump contra os "terroristas" nos EUA, mas foi João Dória quem enfiou o país no noticiário da revolta. Por Washington Post, com AP, a polícia paulista correu mundo "mirando o grupo anti-Bolsonaro" —e ganhou apoio do governador também via Twitter.

Nelson de Sá

Jornalista, cobre mídia e política na Folha desde a eleição de 1989.

Daniel Martins de Barros Riscos dos riscos, OESP

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2020 | 05h00

Responda rápido: quais pensamentos lhe vêm à sua cabeça quando recebe a notícia de uma morte – ou uma centena delas – por covid-19? Se não for a primeira, no máximo a segunda pergunta que você se faz é se a pessoa era de algum grupo de risco. Era idoso? Estava com diabetes descontrolado? Tinha qual doença crônica? Praticamente assumimos que a pessoa era de grupo de risco e experimentamos um certo alivio inconfesso quando é isso mesmo: “Ufa! Estou seguro”, pensamos secretamente. Até o lamento é diferente – “Puxa, coitado”, dizemos quando morre um jovem saudável. Como se a morte de quem é velho ou portador de alguma doença crônica fosse menos lamentável.

Coronavírus
Profissionais cuidam de paciente internado na enfermaria do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Não é de propósito. São alguns efeitos colaterais do conhecimento que acontecem em toda epidemia. Os epidemiologistas correm atrás dos dados para deles extrair informações e encontrar informações sobre o funcionamento daquela doença. Onde estão a maioria dos casos, quem são as pessoas mais afetadas, quais os meios de transmissão mais importantes – tudo isso é fundamental para tentar controlar o avanço da doença. 

A partir disso alguns padrões são descobertos. E surge então a ideia dos grupos de risco. Na epidemia de H1N1, por exemplo, eram as grávidas. Na de zika vírus, os fetos das grávidas – principalmente as de condição mais pobre. Na AIDS, os homens que tinha relações sexuais com homens. Na MERS, os tratadores de camelos.

Evidentemente é importante saber quem são as pessoas mais susceptíveis para direcionar os esforços de prevenção e tratamento. Mas basta ler esses exemplos para entender por que nos sentimos aliviados com as mortes nos grupos de risco: eles são quase sempre vistos como distantes de nós. Quem não está grávida, não acha que é pobre, não tem relações com pessoas do mesmo sexo ou nunca chegou perto de um camelo assume que está seguro. É óbvio: ninguém gosta de viver com medo. 

Nada melhor então do que acreditar que os vulneráveis são diferentes de nós. Isso dá uma sensação de segurança. É uma sensação frágil, contudo, já que qualquer notícia de morte fora do grupo de risco a abala. Daí o alívio quando sabemos de óbitos no time dos outros. “Ufa. Ainda estou a salvo”. Elas nos ajudam a manter o viés de normalidade.

Essa tendência de nossa mente a acreditar que as coisas estão normais, que nada mudou, também chamada de efeito avestruz, nos leva a minimizar ameaças. E nada melhor para reforçar tal crença do que enxergar risco só para os outros. Nos convencemos que de fato nossa vida pode seguir em frente como se nada estivesse acontecendo.

Nem é preciso ser esperto para saber os riscos escondidos aí. Estudos feitos em outras epidemias de influenza mostram que quem acha não ser susceptível a um problema tem probabilidade muito menor de se proteger dele. Não lava a mão, não cobre a boca, mantém-se desapercebido. O que evidentemente a coloca em risco. E por não fazer parte do grupo de risco ela se assume comportamentos arriscados. Ajudando a escalar o contágio.

Outro efeito colateral bastante perigoso é nós culparmos as vítimas. Outro viés cognitivo que não nos abandona é a falácia do mundo justo. A mania de nosso cérebro de interpretar tudo de forma lógica, como se a realidade pudesse ser encaixada numa cadeia de causa e consequência, nos inclina a intuir que tanto as coisas boas como as coisas ruins foram consequência de escolhas. Como se, de alguma forma, elas merecessem o bem ou o mal que lhes acometeu. Quem manda ser gay? Quem manda ser gordo? Quem manda ser velho, pobre, sedentário? Se tivesse cuidado da saúde, se comportado melhor, não fosse bulir com camelos, não teria morrido. Não articulamos conscientemente esses pensamentos (pelo menos não a maioria das pessoas), mas eles estão presentes em muitas situações negativas – a vergonha que acompanha muitas vítimas de adversidades é consequência desse viés.

Não sugiro abrirmos mão do conceito de grupo de risco, como não abandonamos um tratamento eficaz apenas porque ele tem efeitos colaterais. Mas é preciso aprender a lidar com eles, para que o remédio não faça mais mal do que a doença.

É PSIQUIATRA

Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo critica políticos que pregam ‘desrespeito às decisões judiciais’, OESP

Rayssa Motta

01 de junho de 2020 | 09h25

Geraldo Francisco Pinheiro Franco. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Geraldo Francisco Pinheiro Franco, criticou agentes políticos que ‘pregam abertamente o desrespeito às decisões judiciais’. A mensagem veio após ataques recentes aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Poder Judiciário, classificados por ele como ‘injustificáveis’.

Em nota divulgada no domingo, 31, o magistrado repudiou o ‘confronto institucional’ e destacou que a ‘solução de eventuais divergências entre as autoridades’ deve ser buscada através da Constituição. 

“Se o exemplo fornecido por agentes políticos envolve o desrespeito às instituições democráticas, o Poder Judiciário e, em especial, o Supremo Tribunal Federal, o reflexo negativo para a democracia será imensurável”, destacou Pinheiro Franco.

O presidente do Tribunal de Justiça paulista aproveitou para externar solidariedade aos ministros do STF pelas ‘ameaças’ que vem sendo dirigidas à Corte nas últimas semanas e criticar agentes políticos que endossam esses ataques.

“Mensagens que pregam abertamente o desrespeito a decisões judiciais, como se fosse possível dentro de nossa ordem constitucional a desobediência ao Poder Judiciário, ensejam dúvidas quanto ao compromisso de alguns agentes políticos com a democracia. As reiterações desses comportamentos provocam fundadas suspeitas a respeito de ação dinamizada ao caos institucional, indicando-se a tentativa de justificar o injustificável: a ruptura institucional”, afirmou.

Para Pinheiro Franco, ‘alguns perderam o bom senso’ e insistem em uma polarização prejudicial aos brasileiros.“Impressiona que o Brasil, a sofrer as terríveis consequências ligadas à atual pandemia, tenha ainda que passar a todos a ideia de instabilidade institucional”, disparou. O juiz pediu ainda ‘união no combate às crises de saúde pública e econômica’  decorrentes da covid-19. 

Tensão entre os poderes. A nota foi tornada pública após uma crescente de ataques dirigidos por apoiadores bolsonaristas e membros do próprio governo ao Supremo Tribunal Federal. 

Os primeiros sinais recentes de insatisfação do Planalto e de seus aliados contra a Corte surgiram após a decisão do ministro Alexandre de Moraes que deu a Estados e municípios autonomia para adotar medidas de isolamento social, independente de orientação federal contrária.

abertura do inquérito para apurar se houve tentativa de interferência política de Jair Bolsonaro na Polícia Federal aumentou a tensão entre os poderes. A investigação implicou na divulgação, a revelia do governo, da íntegra do vídeo da reunião ministerial de 22 de abril – que atingiu ministros do alto escalão do Planalto, incluindo um dos principais remanescentes da ala ideológica bolsonarista, Abraham Weintraub, que deve responder por declarações contra os ministros da Corte.

pedido de devassa no celular do presidente, encaminhado pelo decano Celso de Mello para análise da Procuradoria-Geral da República, como manda o rito do STF, é outro componente que inflamou a militância pró-governo. O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, chegou a dizer que se o pedido for aceito poderá ter ‘consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional’. O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, disse ao Estadão estar ‘extremamente preocupado’ com a tensão entre os Poderes e afirmou que apreender o celular de Bolsonaro seria uma ‘afronta’. 

O ápice para os ataques, no entanto, veio após apreensões de celulares, computadores e documentos de apoiadores bolsonaristas investigados no ‘inquérito das fake news’. 

No mesmo dia, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho mais novo do presidente, chegou a dizer que participa de reuniões em que se discute ‘quando’  acontecerá o ‘momento de ruptura’ no Brasil. Na sequência, uma série de manifestações, virtuais e físicas, passaram a falar em ‘ditadura do STF’ e chegam a pedir intervenção das Forças Armadas para que o presidente aposente compulsoriamente os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal, o que é inconstitucional.

LEIA A ÍNTEGRA DO ALERTA DO DESEMBARGADOR GERALDO PINHEIRO FRANCO

Os sérios ataques dirigidos ao Poder Judiciário e, em particular, aos Ministros do Supremo Tribunal Federal demandam uma repulsa igualmente séria.

O confronto institucional não interessa a ninguém, não interessa ao Brasil. E nunca partirá do Judiciário ou da Corte Suprema. A Constituição Federal de 1988 possui diversos mecanismos jurídicos aptos à solução de eventuais divergências entre as autoridades constituídas, o que torna incompreensíveis e injustificáveis manifestações que atacam integrantes do Poder Judiciário em razão do regular exercício de suas atividades. E mais graves serão os ataques se provenientes de autoridades públicas que devem estrito respeito ao princípio da separação dos poderes.

A solução para os conflitos possui contornos de simplicidade: o oferecimento do adequado meio jurídico de impugnação a uma decisão judicial.

Importante acrescentar que as aleivosias e as ameaças dirigidas a ministros do Supremo Tribunal Federal causam intranquilidade à nação. Mensagens que pregam abertamente o desrespeito a decisões judiciais, como se fosse possível dentro de nossa ordem constitucional a desobediência ao Poder Judiciário, ensejam dúvidas quanto ao compromisso de alguns agentes políticos com a democracia. As reiterações desses comportamentos provocam fundadas suspeitas a respeito de ação dinamizada ao caos institucional, indicando-se a tentativa de justificar o injustificável: a ruptura institucional. Já foi dito em outra ocasião pelo Ministro Cezar Peluso: “só uma nação suicida ingressaria voluntariamente em um processo de degradação do Poder Judiciário”.

Se o exemplo fornecido por agentes políticos envolve o desrespeito às instituições democráticas, o Poder Judiciário e, em especial, o Supremo Tribunal Federal, o reflexo negativo para a democracia será imensurável.

Em algum momento de nossa história recente alguns perderam o bom senso. A polarização candente só nos trouxe danos, só causou dor aos brasileiros. E assim não progrediremos como nação que se busca justa.

Impressiona que o Brasil, a sofrer as terríveis consequências ligadas à atual pandemia, tenha ainda que passar a todos a ideia de instabilidade institucional. O ataque à democracia, por evidente, nunca é oportuno. As posições inequivocamente contrárias ao Estado Democrático de Direito violam regras constitucionais. Precisamos de união no combate às crises de saúde pública e econômica decorrentes do perigoso vírus, e não crises políticas sucessivas que dividem ainda mais a já polarizada sociedade brasileira.

Refutando os ataques ao Poder Judiciário Nacional e ao Pretório Excelso, o Tribunal de Justiça de São Paulo, externa sua solidariedade e respeito ao Supremo Tribunal Federal e aos Eminentes Ministros daquela Corte.

Geraldo Francisco Pinheiro Franco

Presidente do Tribunal de Justiça