quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Lula diz ter mais medo do que no 1º mandato, cita revés de Trump e fala em 'lição para o mundo', FSP

Brasília

O presidente Lula (PT) afirmou nesta quinta-feira (5), em live com o deputado federal André Janones (Rede-MG), sentir mais medo de decepcionar o eleitorado neste mandato do que na primeira vez governando o país.

Ele também comentou a vitória do partido Democrata nos Estados Unidos, em derrota para Donald Trump. Afirmou que a eleição dele, a perda de força de Netanyahu em Israel e o pleito americano o deixaram plenamente alegre e deram uma lição para o mundo.

Dois homens sentados em mesa de madeira em estúdio com microfones à frente apertam as mãos. Um veste camisa azul clara e o outro camiseta azul escura. Há copos de água e utensílios ao fundo.
O deputado André Janones (Rede-MG) e o presidente Lula (PT) durante live nesta quinta-feira (22) - Divulgação Lula Oficial

"Agora to com mais medo do que no primeiro mandato. Na primeira vez eu olhava pro teto e pensava 'será que eu vou dar conta?'", disse Lula. "A minha obsessão na época era 'eu não posso errar'. E agora eu penso 'eu não posso trair o imaginário desse povo. Tenho que fazer tudo que prometemos e fazer muito mais, sobretudo tratá-los com respeito, dignidade porque foram eles que foram para rua defender nossa bandeira, nossa cultura, nossas mulheres'."

"Na mesma semana que ganhei, [Binyamin] Netanyahu perdeu em Israel e me parece que meu amigo Trump está perdendo nos Estados Unidos. Foi uma lição extraordinária do povo brasileiro, foi uma lição ao mundo. Povo acordou para dizer que o Brasil não aceita ser quintal de ninguém. Minha alegria é plena", disse.

A live estava prevista para a semana passada, mas não pôde ser gravada pela falta de voz dos dois. Depois de vencer as eleições, Lula passou a enviar áudios e vídeos no "Exército do Lula", canal de WhatsApp criado pelo deputado para mobilizar o eleitorado durante a campanha.

O grupo de mensagens se tornou uma das principais estratégias digitais da campanha, turbinada após o petista ter ficado atrás de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno. Janones era o único responsável por enviar mensagens no canal, com ordens de ações para os apoiadores nas redes, como subir tags no X (ex-Twitter), comentar em publicações e fazer pesquisas específicas que aumentassem engajamento.

Com o sucesso das ações do canal e a capacidade de mobilização de Janones na segunda fase da eleição, o deputado ganhou destaque na equipe de campanha e foi agradecido nominalmente por Lula nos discursos de vitória, após a virada histórica no segundo turno.

Os dois fizeram a última live juntos nas vésperas do segundo turno, por cerca de 1h30. Na conversa entre os dois, houve críticas a Flávio, participação de artistas e a defesa da regulação das redes sociais. "A gente vai derrubar o império digital. A Meta vai ter que ser reinventada", disse Lula.

Por volta das 22h, a transmissão já marcava mais de 5 milhões visualizações no YouTube, recorde do canal do petista ao longo da campanha. Até então os maiores números eram da retransmissão da entrevista ao Flow Podcast, no início de outubro, com 2,1 milhões de visualizações, e o vídeo com a fala de Lula após o primeiro turno, com 1,4 milhão.

Após acordo eleitoral, Tarcísio deve dar secretaria a Ricardo Salles, FSP

 Bruno Ribeiro

São Paulo

O deputado federal Ricardo Salles (Novo) deve assumir a Secretaria da Justiça da equipe de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em São Paulo no ano que vem.

A negociação para que o ex-ministro entre no governo paulista teve início logo após o primeiro turno das eleições, que terminaram com a vitória de Tarcísio, e avançou nesta quarta-feira (4), em uma reunião no Palácio dos Bandeirantes, segundo interlocutores de Salles.

O deputado se candidatou ao Senado neste ano e disputou os votos do eleitorado de direita contra André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP), nomes apoiados por Tarcísio. Uma semana antes da eleição, contudo, Salles retirou a candidatura, após pedido do governador, e declarou apoio à dupla, que terminou eleita.

Homem de cabelo curto e camisa verde está sentado próximo a uma janela de vidro com moldura preta. A janela reflete plantas e luz natural, e ao fundo há uma parede branca com quadro colorido e uma luminária.
O deputado federal Ricardo Salles (Novo-SP), durante entrevista à Folha, em sua casa, em São Paulo - Karime Xavier - 8.jul.26/Folhapress

Salles foi ministro do Meio Ambiente no governo Jair Bolsonaro (PL) e é réu em processo que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal) por supostamente ter facilitado o comércio ilegal de madeira. Ele nega irregularidades.

No governo paulista, ele também foi encarregado da pasta do Meio Ambiente, durante o governo Geraldo Alckmin, na época no PSDB e hoje do PSB.

Não há data prevista ainda para o anúncio da nomeação. Um integrante da equipe do governador, contudo, avalia que tende a ser já na semana que vem.

PUBLICIDADE

A chegada de Salles ao governo, caso confirmada, trará ruído entre outros aliados de Tarcísio. O deputado federal não tem boa relação com o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), um dos principais aliados do governador. Salles já chamou Nunes de "ícone do centrão".

Além disso, aliados do prefeito consideram que Salles tem pretensões de disputar a Prefeitura de São Paulo em 2028, o que o colocaria em rota de colisão com Nunes, que pretende emplacar um sucessor de seu grupo.

Interlocutores do prefeito disseram à Folha que Nunes não acredita que Tarcísio siga com a nomeação e lembraram que o deputado também fez críticas públicas a Tarcísio, em especial durante as discussões da reforma tributária, projeto do governo Lula (PT) votado com apoio do governador.

A Secretaria da Justiça é a pasta encarregada da articulação do governo com entidades do direito e coordena as ações da Fundação Casa e do Procon. Não tem relação com a representação do governo em ações judiciais, atribuição da Procuradoria-Geral do Estado.

O posto é ocupado atualmente por Arthur Lima, advogado que serviu no Exército com Tarcísio e é seu amigo de infância. Antes da Justiça, Lima comandou a Casa Civil de Tarcísio, mas teve a atuação criticada, nos bastidores, por deputados da base do governador.

Conforme a Folha publicou, Lima, já como secretário, montou uma offshore no paraíso fiscal das Bahamas que passou a controlar uma rede de empresas em Brasília e Goiás com registro de lucros milionários. Seu futuro no governo não foi decidido.

A reportagem procurou Salles e o Palácio dos Bandeirantes para comentar a nomeação, mas não obteve resposta.

Tarcísio reorganiza secretariado de olho na sucessão na capital e em 2030, FSP

 

São Paulo

A equipe que Tarcísio de Freitas (Republicanos) está montando para seu segundo mandato mira criar condições para que ele chegue a 2030 capaz de disputar a Presidência e de fazer um sucessor no governo paulista, além de garantir que seu grupo político fique à frente da prefeitura da capital paulista, segundo alguns de seus principais aliados e auxiliares.

Para isso, ele deve reformular o núcleo da gestão do estado, dar espaço para aliados que o ajudaram na eleição e reforçar o apoio a Ricardo Nunes (MDB) na cidade de São Paulo.

Tarcísio foi reeleito em primeiro turno, com quase 63% dos votos válidos. Contudo, teve problemas que agora pretende resolver nas duas secretarias mais importantes do governo: a da Casa Civil, responsável por coordenar a execução de políticas públicas, e a de Governo, encarregada da articulação política, em especial com os deputados estaduais.

Homem com camisa amarela da seleção brasileira fala ao microfone, apontando com a mão direita. Ao fundo, pessoas desfocadas e faixa azul com texto parcialmente visível.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), em Guarulhos, na Grande São Paulo, durante evento de campanha de Flávio Bolsonaro - Zanone Fraissat - 21.out.26/Folhapress

No primeiro mandato, o governador havia nomeado Gilberto Kassab, presidente do PSD, para a Secretaria de Governo, e Arthur Lima, seu amigo de infância, para a Casa Civil. Ao longo dos anos, o arranjo mostrou limites e desagradou a Tarcísio.

Em meio à expansão de filiações do PSD tocada por Kassab, Tarcísio dizia a interlocutores que o secretário usava o cargo para reforçar o próprio prestígio político. Ao mesmo tempo, ouvia reclamações de deputados sobre o trabalho de Lima. Ambos deixaram os cargos antes do período eleitoral. Kassab afirmou que a saída seria para se dedicar às eleições.

Os dois postos-chave devem ser tocados agora por secretários que chegam prestigiados por Tarcísio. A articulação política será feita na Secretaria de Governo pelo presidente do Republicanos em São Paulo, Roberto Carneiro —nome cuja capacidade de diálogo é elogiada pelos deputados estaduais. A gestão da máquina deve ficar com a atual secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, que migrará para a Casa Civil.

PUBLICIDADE

Carneiro havia ido para o governo em janeiro deste ano, em meio a reclamações de deputados nos bastidores sobre o trabalho de Lima, que demoraria para liberar emendas parlamentares. Em março, ele substituiu Kassab na Secretaria de Governo, cargo que deixou temporariamente para atuar na campanha de Tarcísio. Já Natália, que Tarcísio sempre chamou de "supersecretária", foi responsável por coordenar o plano de governo apresentado na campanha eleitoral.

Tarcísio e outros secretários do Palácio dos Bandeirantes, como Laís Vita, da Comunicação, sempre negaram veementemente que o governador tivesse planos políticos para Natália. Aliados do governador no PL, no Republicanos e no MDB, porém, a apontam como uma de suas opções para concorrer ao governo em 2030.

Outra opção de Tarcísio para sua sucessão é o prefeito Nunes, que terá de deixar a prefeitura daqui a dois anos e, até o momento, vem se posicionando como seu principal aliado político. Para se viabilizar, na visão de aliados, ele precisa chegar ao término do mandato bem avaliado e conseguir fazer um sucessor na prefeitura em 2028.

A reportagem procurou o governo para comentar o assunto, mas não teve resposta. Desde o segundo turno das eleições, após gravar um vídeo em que ressalta que a eleição presidencial acabou, Tarcísio tem sido alvo de ataques nas redes sociais por grupos bolsonaristas, iniciados após críticas feitas a ele por Eduardo Bolsonaro.

Interlocutores que conversaram com Tarcísio nesta semana dão como certo que Nunes terá espaço no governo assim que deixar o mandato, mas sem detalhar em qual posto. Dizem ainda que o governador deve tomar medidas para ajudar o aliado.

Uma é dar mais espaço ao MDB, que deve avançar sobre pastas que eram controladas pelo PSD de Kassab, como a Saúde —a sigla, que com Kassab ocupou cinco secretarias, perde também pelo distanciamento na campanha. Outra é manter o delegado da Polícia Civil Osvaldo Nico Gonçalves na Segurança Pública.

Com participação constante em programas de TV policialescos vespertinos enquanto atuava como delegado, "Doutor Nico" chegou a ser opção de aliados para vice de Nunes em 2024, mas terminou preterido porque Jair Bolsonaro (PL) indicou o coronel Mello Araújo (PL) para o posto. Mantido na secretaria no novo mandato, Nico seguiria viável, na visão de aliados do governador, como opção de vice na chapa de um candidato escolhido por Nunes e aprovado por Tarcísio.

Tarcísio e Nunes devem ter a primeira agenda conjunta da nova etapa de governo na próxima semana, em uma cerimônia para marcar as obras do veículo leve elétrico (VLE) do centro, um projeto que, ao lado do novo centro administrativo do estado, deve repaginar o centro velho da cidade. A repaginação da região deverá ser um dos motes da campanha de Nunes para emplacar um sucessor na cidade.

Conforme a Folha publicou, há ainda mudanças que devem ocorrer em pastas menores, como Turismo e Viagens, Esportes e Políticas para a Mulher.

Os arranjos debatidos pelo governo não contemplam, por ora, segundo os relatos colhidos pela Folha, a opção de Tarcísio lançar seu vice, Felicio Ramuth, para o governo em 2030. Ramuth, que era do partido de Kassab, migrou para o MDB de Nunes e ficou com Tarcísio quando sua antiga sigla se afastou. Se Tarcísio conseguir se lançar à Presidência, terá de se afastar do governo até abril de 2030, e Felício será governador.

Nomes fortes do primeiro governo de Tarcísio

Gilberto Kassab, ex-secretário de Governo e Relações Institucionais
Presidente do PSD com fama de ser um articulador político habilidoso, se desgastou em meio a críticas de que priorizou a expansão de seu partido no estado.

Arthur Lima, ex-secretário da Casa Civil
Amigo de infância de Tarcísio, militar reformado e ex-presidente da estatal federal EPL (Empresa de Planejamento e Logística), ficou encarregado de supervisionar a máquina estatal. Críticas de deputados diante de atrasos na execução de contratos, foi transferido para a Secretaria da Justiça.

Nomes fortes do segundo governo Tarcísio

Roberto Carneiro, secretário de Governo e Relações Institucionais
Advogado, foi secretário de governo do Espírito Santo. É ppresidente do Republicanosem São Paulo. Ao chegar no governo paulista, ocupou a Casa Civil.

Natália Resende, possível secretária da Casa Civil
Engenheira civil e advogada, é secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística e apontada como auxiliar de confiança de Tarcísio.