No meio da quizumba provocada por Flávio Bolsonaro, o presidente da Câmara, Hugo Motta, reuniu líderes para começar a desenhar um projeto de reforma eleitoral. Parece bobagem, mas pode resultar numa tunga parcial do direito de escolha dos parlamentares.
É um assunto complicado e chato, mas mudará a cara da política nacional e, se bobear, realizará o sonho do cacique que quer mandato sem ter voto.
A novidade viria com a criação do voto distrital. O país seria dividido em distritos e os candidatos disputariam as cadeiras no mano a mano. Quem tiver mais votos ganha. É o sistema americano. Simples, antigo e eficaz.
Falta dizer quem vai desenhar os distritos. Tome-se um exemplo grosseiro do Rio de Janeiro. Se o distrito tiver um formato, do Leblon à Barra da Tijuca, a Rocinha pobre nunca elegerá um deputado.
Desenhando-se o distrito em outro sentido, indo de São Conrado e da Gávea até a Cidade de Deus, a banda próspera da cidade nunca elegerá um deputado.
Superada essa questão, já surgiu outro problema. O modelo seria distrital, porém misto. Os partidos teriam candidatos para o mano a mano dos distritos e também uma lista de notáveis que poderiam receber votos em qualquer distrito.
Até aí tudo bem. Contudo, vai aparecer o modelo das listas fechadas, organizadas pelas caciquias dos partidos.
Os afortunados receberiam a cadeira a partir da ordem de uma lista organizada pelos caciques. Sem um só voto. Essa gracinha já circulou duas vezes no Congresso e foi rejeitada.
As conversas de Motta estão no início e o novo sistema entraria em vigor em 2030 para funcionar plenamente em 2034.
Podendo-se replicar o sistema simples dos americanos, vai-se complicar com o único objetivo de eleger maganos que não receberam votos.
Moraes atravessou a rua para escorregar em casca de banana ao dar decisão sobre Flávio
Com sua inesgotável confiança no poder da polícia, o ministro Alexandre de Moraes decidiu mandar apreender os passaportes de Flávio Bolsonaro. É o velho faço-porque-posso.
Deu a Flávio a aura de perseguido e ele, com a família e os passaportes, está nos Estados Unidos. E seu documento italiano continua válido.
Caso clássico de atravessar a rua para escorregar na casca de banana da outra calçada.
Sacrilégio
Flávio Bolsonaro poderia ter poupado o público da sua comparação com o general francês Charles de Gaulle. Em 1940, os alemães entraram em Paris e De Gaulle fugiu para liderar a Resistência a partir de Londres.
Viveu modestamente, com a mulher e a filha, que tinha síndrome de Down. Davam-lhe tão pouca importância que não gravaram seu primeiro apelo aos franceses. O escritor Romain Gary achou que era um pseudônimo. Ele se impôs.
Aquela barra era tão pesada que o general Leclerc, comandante da tropa francesa que entrou em Paris, nem Leclerc se chamava. Em 1940, ele era o capitão Philippe de Hauteclocque, um rico aristocrata. Quando chegou a Londres, virou Leclerc para poupar a família de represálias alemãs.
Diplomacia
Lá se foi o romance do governo Trump com os Bolsonaros que há um ano provocava tempestades e trovoadas.
Os diplomatas prevaleceram. Foram vários os fatores que levaram a isso, o principal é o horror epidérmico que Donald Trump tem aos perdedores.
O diplomata que definiu a vitória de Lula como "definitiva" e "surpreendente" sabia o que estava fazendo.
No pico da ditadura, quando o adido militar americano circulava com desenvoltura junto à tigrada, o cônsul em São Paulo, Frederic Chapin, mandava relatórios sistemáticos para Washington contando prisões, torturas e assassinatos.
Em dezembro de 1976, Chapin mandou um recado ao cardeal Paulo Evaristo Arns avisando que haveria uma operação contra o PCdoB em São Paulo.
Era o massacre da Lapa, onde foram assassinados Pedro Pomar e Ângelo Arroyo.


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