quarta-feira, 4 de novembro de 2026

A ‘vergonha diferente’ do general Tomás, que o expôs ao risco da vingança, e a sucessão no Exército, Marcelo Godoy, OESP

 Por Marcelo Godoy

Atualização:

A resposta do general Tomás que o bolsonarismo não perdoou

Capa do video - A resposta do general Tomás que o bolsonarismo não perdoou

Sessão da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa da Câmara no qual o comandante do Exército defendeu o general Gustavo Dutra, difamado pela turma de Miami. Crédito: Reprodução / Câmara dos Deputados

A cena aconteceu em 17 de abril de 2024, no plenário da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. Ali estavam os comandantes das três Forças e o ministro José Múcio para apresentar aos deputados suas prioridades para ano. Dois meses antes, a Polícia Federal deflagrara a Operação Tempus Veritatis, que teve como alvos de buscas Jair Bolsonaro e o general Walter Braga Netto.

O general Tomás Miguel Ribeiro de Paiva, comandante do Exército, durante a cerimônia do Dia do Soldado: a vida segue normal nos quartéis durante a crise apesar do desânimo
O general Tomás Miguel Ribeiro de Paiva, comandante do Exército, durante a cerimônia do Dia do Soldado: a vida segue normal nos quartéis durante a crise apesar do desânimo Foto: Exército Brasileiro

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O bolsonarismo raiz, aquele homiziado em Miami, embora diga o contrário, nunca esqueceu o que se passou ali: a resposta do comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, às diatribes lançadas por um expoente da tropa de choque bolsonarista. O então deputado e agora senador eleito Marcel van Hattem (Novo-RS) disse ter vergonha da atuação do Exército em relação ao destino dos presos por participação na tentativa de golpe de Bolsonaro.

Van Hattem dizia acreditar na inocência dos oficiais investigados e afirmava até a inocência do tenente-coronel Mauro Cid, que pouco depois firmaria um acordo de delação premiada, entregando os colegas. Pode-se discutir até hoje a verdadeira conduta de cada réu, mas não se nega mais nos quartéis a existência dos documentos, de mensagens e de depoimentos de chefes militares sobre a existência da operação psicológica contra o Alto Comando e do Plano Punhal Verde e Amarelo.

A resposta de Tomás naquele dia é dessas que entram para a história de uma instituição. Ele começou afirmando: “A gente tem vergonhas diferentes. A minha vergonha, por exemplo, é (quando) alguém não cumpre a ética militar. Estou aqui de cara lavada para falar para o senhor da ética militar: eu nunca falei uma mentira para minha tropa, meus soldados, meu pessoal, nunca falei. Nunca mudei de opinião.”

Bolsonaro foi condenado por um Conselho de Justificação do Exército justamente por mentir a respeito do plano de pôr bombas em quartéis, nos anos 1980. Foi quando Tomás chegou ao ponto alto da fala: a defesa do general Gustavo Henrique Dutra, alvo de uma operação infame. Com a ajuda do coronel Gerson Gomes, a ação buscava acusar Dutra de perfídia, como se ele tivesse entregado à PF os “patriotas” acampados em frente do QG do Exército, na noite do dia 8 para a madrugada de 9 de janeiro de 2023.

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General Gustavo Henrique Dutra de Menezes
General Gustavo Henrique Dutra de Menezes Foto: Reprodução/Exército Brasileiro

Para lá refluíra a turma que arrasara horas antes as sedes dos Três Poderes na esperança de que o Exército viesse ao seu socorro para depor Luiz Inácio Lula da Silva e permitir a volta de Bolsonaro, então em Miami. Dutra era o comandante militar do Planalto. Nome certo para receber a quarta estrela, o general tomou a frente do dispositivo em frente ao quartel e impediu que a operação da PM para prender os “patriotas” fosse feita à noite. Evitou um banho de sangue. Os fatos daqueles dias encurtaram a carreira de Dutra, um oficial considerado brilhante pelos colegas.

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E não só dele: outros pagaram o preço da ação bolsonarista, como o general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel, então chefe do Comando de Operações Especiais, o COpEsp. Pimentel foi traído por subordinados que usaram viaturas e estrutura do comando para ações clandestinas do Plano Punhal Verde e Amarelo. Como um comandante é responsável por tudo o que acontece em sua unidade – pelo que sabe e pelo que não sabe –, Pimentel, outro oficial respeitado por todos – e amigo do governador Tarcísio de Freitas, que conhece essa história –, teve a carreira interrompida.

Tomás mostrou que era em respeito a Dutra e a Pimentel que se devia ter vergonha do que aconteceu. O comandante prosseguiu: “Sempre falei o que achava – e da maneira como achava – correto. Olhando nos olhos, eu teria vergonha de não defender o subordinado meu. Aqui, agora, foi ofendido um subordinado meu, que é o general Dutra. Parece que o general Dutra não tinha comandante; parece que ele não cumpria ordens?”

O general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel recebe o cumprimento do general Costa neves, comandante da Amazônia, ao deixar, em 9 de dezembro de 2024, a  chefia do Centro de Coordenação de Operações (CCOp) do Comando Militar da Amazônia
O general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel recebe o cumprimento do general Costa neves, comandante da Amazônia, ao deixar, em 9 de dezembro de 2024, a chefia do Centro de Coordenação de Operações (CCOp) do Comando Militar da Amazônia Foto: Exército Brasileiro

As diatribes bolsonaristas sempre pouparam de críticas o homem que, então, comandava o Exército naquele noite e madrugada, o general Julio César de Arruda, que chefiava Dutra e foi destituído do comando 20 dias depois por se recusar a afastar o tenente-coronel Mauro Cid. Tomás reafirmou que não sacrificaria um subordinado:

“General Dutra é um grande oficial. Agora ele tem comandante! Então, eu defendo ele, porque ele é um grande oficial, que cumpria ordens. Cumpriu a ordem: ele evitou que fosse derramado sangue naquela noite. Foi isso o que aconteceu. Eu teria vergonha de não defender o meu general”, desabafou.

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Por fim, o comandante reafirmou a defesa da legalidade, da disciplina e da ordem. “Eu tenho vergonha de, buscando popularidade, não cumprir a lei. Disso eu tenho vergonha, de não cumprir decisão. Então, o senhor pode ficar tranquilo que, mesmo que seja impopular, mesmo que não seja o que o pessoal acha que deve ser feito, a gente vai fazer o que a gente acha que é o correto. O certo pelo certo.”

Eduardo Bolsonaro postou em sua rede social imagem com o irmão Flávio Bolsonaro com a seguinte mesangem: "Foto de hoje, após reecontrar meu irmão @flaviobolsonaro . Ontem foi um dia longo, talvez o mais longo da minha vida. Mas prevalecemos. Mesmo aqui de fora não desistiremos do Brasil. Como diria o Professor Olavo: não parar, não precipitar, não retroceder."
Eduardo Bolsonaro postou em sua rede social imagem com o irmão Flávio Bolsonaro com a seguinte mesangem: "Foto de hoje, após reecontrar meu irmão @flaviobolsonaro . Ontem foi um dia longo, talvez o mais longo da minha vida. Mas prevalecemos. Mesmo aqui de fora não desistiremos do Brasil. Como diria o Professor Olavo: não parar, não precipitar, não retroceder."  Foto: Reprodução/@bolsonarosp via Instagram

Aqui está o centro do debate. Van Hattem defendia os interesses de seu público, o bolsonarismo raiz. Seu partido é um dos dois únicos a não reconhecer o resultado da eleição que deu a Lula um quarto mandato. Eis a raiz do golpismo. Tomás defende não apenas o seu público, mas também a instituição. E, assim, sua fala é republicana, coloca todos sob o império da lei. Ser amigo de um líder político não dá imunidade a ninguém. Nem ser juiz, lição que o País espera que seja aprendida também pelo Supremo.

E como o debate daquele dia não saiu da memória da turma de Miami, Tomás foi procurado, recentemente, por um colega próximo que lhe fez um alerta: se Flávio Bolsonaro vencesse ia haver faxina no Exército. O amigo general tinha certeza de que os homiziados na Flórida não se esqueceram da vergonha que Tomás os fez passar. E ia fazer na Força Terrestre o mesmo que Eduardo Bolsonaro prometera fazer no Itamaraty, uma caça às bruxas, no estilo da promovida por Pete Hegseth nas forças americanas.

Hegseth, secretário da Guerra nomeado por Donald Trump, não passa um mês sem demitir um general, um almirante ou um brigadeiro. Submeteu os militares à humilhação de fazer testes de testosterona, afastou mulheres de postos de comando, mas foi incapaz de garantir o fornecimento de munições na guerra com o Irã. Tudo porque o general Mark Milley se recusou a não reconhecer a eleição de Joe Biden em 2020. Em nome de uma suposta ordem, desrespeita-se a lei; cria-se desordem.

Depois da derrota de Flávio, de sua fuga para os EUA e da carta em que se autoproclamou presidente eleito, o general que alertou Tomás não teve mais nenhuma dúvida sobre as perseguições futuras a militares. Em risco estariam pessoas como Richard Nunes, André Luiz Novaes, Guido Amin e Valério Stumpf. E Tomás seria afetado. Se Flávio, derrotado, foi capaz de assinar a carta que assinou, imagina – questiona o general –, se tivesse a caneta presidencial na mão?

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Trecho do inquérito da PF no qual coronéis defendem a exoneração e a prisão de generais do Alto Comando do Exército a quem chamavam de 'melancias' por se operem ao golpe bolsonarista
Trecho do inquérito da PF no qual coronéis defendem a exoneração e a prisão de generais do Alto Comando do Exército a quem chamavam de 'melancias' por se operem ao golpe bolsonarista Foto: Reprodução / Estadão

O moço que se dizia moderado e aceitaria assessoramento, que, segundo o senador Hamilton Mourão disse à jornalista Bela Megale, não faria nenhuma vingança, despiu-se de qualquer moderação nas horas seguintes ao voto. Como se comportaria, então, diante da primeira crise de seu governo, após uma derrota no Congresso ou no STF? Ou como iria tratar o brigadeiro Carlos Baptista Junior ou o general Marco Antonio Freire Gomes, comandantes da Força Aérea e do Exército que se negaram a dar o golpe e prestaram depoimentos fundamentais para a condenação de Jair, o pai do candidato?

A imensa maioria dos generais apostava que não haveria vingança. Acreditava na “moderação” de Flávio, assim como Tarcísio. Minutos antes de Flávio divulgar sua carta, o governador foi questionado pelo Estadão: E se Flávio se autoproclamar presidente eleito? Sua resposta foi: “Isso não vai acontecer”. Aconteceu. Flávio lhe havia prometido que não questionaria o resultado das eleições. Questionou. Disse que não fugiria do país. Fugiu. Disse que Eduardo não mandaria no governo. E agora está abraçado ao 03.

A sucessão na Força

Passada a eleição, Tomás deve ser ouvido por Lula sobre sua sucessão. É o que contam dois integrantes do Alto Comando. O general adquiriu a confiança do presidente. Não está nem mesmo descartada a sua permanência no cargo, ainda que não seja por todo o quarto mandato de Lula.

Caso Tomás entenda que a sua missão – a de superar a crise que Bolsonaro criou para o Exército – foi cumprida, dois nomes despontam, nesse momento, como os principais candidatos para assumir o bastão: os generais Hertz Pires do Nascimento e Francisco Humberto Montenegro Júnior, a quem Tomás fez seu chefe do Estado-Maior mesmo não sendo o mais antigo entre os generais.

Há ainda quem lembre de Kleber Vasconcelos e de outros dois oficiais, que correm por fora. O que é certo mesmo é que todos os que se ligaram com Bolsonaro foram parar na prisão. Lá estão Augusto Heleno, Paulo Sérgio, Braga Netto e Almir Garnier. Eles não enxergaram os riscos que o “Cavalão” representava para a instituição e para si mesmos, riscos renovados pelo comportamento da turma, que vive, confortavelmente, em Miami, após receber milhões de dólares de Daniel Vorcaro, supostamente, para um filme.

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Nesses dias, dirigentes petistas afirmaram à coluna que a vitória de Flávio seria pior do que a derrota de 1964, pois, desta vez, os “golpistas venceriam pelo voto”. Na noite de sábado, em São Paulo, dois bolsonaristas conversavam em alta voz em um supermercado, em Higienópolis, e afirmavam que “sabiam” que a “eleição foi roubada”. Inútil pedir provas... Este é o cenário de um País dividido. Tomás, permanecendo ou não, será lembrado pela defesa que fez do Exército e de seus homens em um momento difícil.

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