quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Trump virou um chato, e isso o povo não perdoa- Rui Tavares (definitivo)

 Escrevo antes de saber os resultados das eleições nos EUA, mas não é de hoje que estou confiante de que a saturação com o trumpismo vai desencadear uma contrarreação —e, aliás, escrevi na semana passada isso mesmo, dizendo que o início dessa revolta contra a extrema direita foi no Brasil.

Sociólogos, economistas, filósofos e cientistas políticos procuram desde há muito leis gerais para as mudanças na opinião pública: se é a inflação, se é o desemprego, se é a falta de crescimento econômico, se é a sua distribuição.

Ex-presidente dos EUA com terno azul e gravata vermelha, usando boné branco com 'USA', está ao lado de púlpito presidencial. Ao fundo, cartaz mostra imagem aérea do National Mall com texto 'Back, and more beautiful than ever!'.
O presidente dos EUA, Donald Trump, deixa o púlpito após falar com a imprensa sobre a reforma do espelho d'água do Lincoln Memorial, em Washington - Brendan Smialowski/AFP

Mas antes disso tudo, digo eu, há que considerar um fator básico da natureza humana: o aborrecimento. Os humanos detestam estar fartos, de saco cheio, entediados, cansados de sempre o mesmo. E essa é uma lei de ferro da história da humanidade. Chega a um ponto em que o pessoal não aguenta mais.

Isso vale para bons e maus políticos, de esquerda e de direita, mas vale sobretudo para aqueles que, de tanto abusarem da economia da atenção, mais desgastam os nossos recursos cognitivos. A partir daí, é só em ditadura que eles conseguiriam governar. Não havendo essa possibilidade, é inevitável que a certa altura já ninguém os consiga tolerar mais. Esse momento está chegando para Donald Trump e o trumpismo.

Claro, há a guerra no Irã, há a inflação, o preço do combustível e o custo do apoio ao governo de Binyamin Netanyahu (de quem também os israelenses revelaram estar fartos). Mas acima de tudo Trump perdeu a graça. Já faz dez anos que o aturamos. Hoje Trump é um chato. E toda a gente abaixo dele no seu movimento é mais chata ainda, e nem sequer é genuíno.

Presidentes com quatro mandatos e dominando uma era inteira da política do seu país em democracia, como Roosevelt e Lula, têm de saber dominar a arte de aparecer mas também a de não aparecer. Deixar o eleitorado descansar e ter saudades deles. Essa é uma arte para muito poucos, e por isso esta é uma categoria com apenas dois exemplos (fora de microestados): precisamente Roosevelt e Lula, ninguém mais. De resto, vale a dinâmica do encantamento, da saturação e do aborrecimento.

(Sei que é simplório, mas gosto de pensar na derrocada de personagens autoritárias e carismáticas exatamente nestes termos. Sempre me fascinou a maneira como Robespierre dominou a política francesa no tempo do Terror com absoluta preponderância psicológica até ao dia em que alguém na Convenção o confrontou diretamente dizendo aquilo que todos pensavam, mas não tinham coragem de afirmar: que estavam fartos dele. Um dia depois a sua cabeça já estava cortada.)

O problema deste mecanismo básico da política é que as pessoas têm em geral de experimentar primeiro para se fartar depois. As Américas tiveram nesta década uma cura de autoritarismo, de que os seus dois maiores países começam a libertar-se. O resto do continente demorará ainda.

Mas na Europa ainda há quem não tenha passado por isso. E em 2027 teremos eleições na França. Aí os chatos são os outros; e temo que os franceses decidam entrar numa aventura de que toda a União Europeia acabará pagando o preço. Não há país no mundo que mais deteste estar farto.

Empresa que gere plataforma do Smart Sampa foi criada após assinatura de contrato com a prefeitura, FSP

 

São Paulo

A SentinelX, empresa responsável pela plataforma digital do programa Smart Sampa que estava vulnerável a acessos indevidos, foi criada um mês após a assinatura do contrato de prestação de serviço.

O contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o consórcio Smart City SP para a implantação do programa foi assinado em agosto de 2023. A SentinelX foi aberta 29 dias depois, segundo informações da Junta Comercial paulista, e um ano depois substituiu no consórcio outra empresa fornecedora de tecnologia de câmeras de vigilância, a Camerite, de Joinville (SC).

A entrada no grupo de empresas só foi aprovada pela gestão municipal em outubro de 2024, quando o programa já estava oficialmente inaugurado. É o nome da SentinelX que aparece nos sistemas internos do Smart Sampa, quando os agentes de segurança navegam por imagens de câmeras de vigilância e pesquisam dados de suspeitos identificados pela tecnologia de reconhecimento facial.

Informações disponibilizadas pelo site da empresa indicam que o acesso não autorizado a imagens das câmeras de segurança —como mostrou reportagem do colunista Artur Rodrigues, do UOL— ocorreu por meio da plataforma da empresa.

Sala de controle com várias telas grandes exibindo imagens de câmeras de segurança e mapas de tráfego. Cinco operadores sentados em estações de trabalho com múltiplos monitores, monitorando a cidade. Relógio digital mostra 14h44min43s e data 2 de abril de 2025.
Antiga central de monitoramento do programa Smart Sampa, na esquina das ruas Quinze de Novembro e Três de Dezembro, no centro histórico da capital; reportagem mostrou brecha de segurança no sistema - Karime Xavier - 3.abr.25/Folhapress

Procurados na última semana por email oficial, telefonemas a sócios e assessores, além de mensagens por aplicativo, a SentinelX e o Consórcio Smart City SP não responderam à reportagem.

A Prefeitura de São Paulo afirmou que "não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa" e que "o que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor da Guarda Civil Metropolitana entre os mais de 7.500 agentes de segurança".

Mudanças na composição de consórcios que contratam com o poder público são vetadas como regra e admitidas apenas em caráter excepcional de acordo com o entendimento do TCU (Tribunal de Contas da União), diz o professor Marcelo Proença, da FGV Law.

Ele chama atenção para a importância de levar em conta o histórico da atividade da empresa, especialmente quando o contrato envolve o tratamento de informações sensíveis, como é o caso do Smart Sampa.

"Se não há um cuidado todo especial sobre quem vai prestar esse serviço para o poder público, pode colocar em risco todo o serviço, e de forma indireta toda a população", diz Proença, que dá aulas de compliance, direito societário e concorrencial. "Pela natureza da operação, me parece que o cuidado em relação a quem serão os prestadores de serviço é indispensável à boa administração pública."

Ele afirma que há possibilidade de que o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) instaure procedimentos para analisar a mudança na composição do consórcio se houver suspeita de limitação à concorrência.

Apesar de não haver necessidade de aprovação prévia do Cade para a formação de consórcios que disputam licitações públicas, Proença diz que o conselho tem adotado o entendimento de que pode agir sobre atos que ocorrem após a licitação.

Credenciais

Até a semana retrasada, a SentinelX apresentava-se em seu site oficial como uma EED (Empresa Estratégica de Defesa) e como parceira da gigante multinacional Microsoft.

No entanto, a empresa não está na lista de empresas credenciadas pelo Ministério da Defesa. Há apenas um produto com o nome SentinelX, registrado em nome da empresa Bembras Integração e Engenharia. Bembras e SentinelX têm um sócio em comum, Jorge Marques Moura, mas não têm participação societária entre si.

Entre os dias 22 e 23 de outubro, após a Folha entrar em contato com o ministério questionando o uso do selo, a SentinelX retirou a marca de seu site oficial. Procurado, o Ministério da Defesa não respondeu.

Procurada, a Microsoft Brasil afirmou que após verificações internas "não identificou a SentinelX como integrante de seu programa de parceiros."

As EEDs foram criadas por lei em 2012 para dar incentivos a um setor estratégico da indústria brasileira. A lei estabelece normas especiais para compras, contratações e desenvolvimento de produtos e de sistemas de defesa. O uso indevido de selos utilizados pela administração pública é crime, punível com pena de até seis anos de reclusão e multa.

À época da abertura da empresa, o dono da SentinelX era Kayan Rodrigues Capelozzi Adaide, um advogado de 33 anos. Três novos sócios novos sócios passaram a ter participação na empresa em maio de 2025, quando ela já integrava o consórcio que administra o maior sistema de vigilância municipal da América Latina.

Sócios investigados

Jorge Marques Moura é sócio da empresa CLD, antes chamada Consladel, que também integra o consórcio Smart City SP. A CLD já foi alvo de denúncias sob acusação de lavagem de dinheiro, pagamento de propina e desvio de verbas públicas.

Em Manaus, ele e a empresa foram acusados de causar um prejuízo de R$ 100 milhões à prefeitura. A Justiça chegou a determinar o bloqueio de bens de Moura em 2015 como desdobramento do caso.

Depois, porém, o caso foi arquivado por causa de uma questão técnica. O Tribunal de Justiça do Amazonas entendeu que a promotoria que ofereceu a denúncia havia feito isso de forma irregular. Neste ano, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que o caso prescreveu.

A CLD também faz parte dos consórcios que administram a iluminação pública e um aplicativo municipal de caronas da capital paulista. A concessão da iluminação pública da cidade vive um imbróglio jurídico desde a fase de licitação.

Segundo promotores do Ministério Público de São Paulo, a licitação foi conduzida de modo a favorecer o consórcio formado pela CLD. Eles afirmam que houve um exclusão irregular de um concorrente de forma a deixá-lo como único competidor.

Em agosto, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 1,02 bilhão em bens de três agentes e ex-agentes públicos e da empresa concessionária. Além disso, determinou que a gestão Ricardo Nunes retome imediatamente a licitação, readmitindo o consórcio concorrente no certame.