sexta-feira, 2 de outubro de 2026

TV Globo cancela debate após desistência de Flávio Bolsonaro e ausência de Lula- FSP

 A TV Globo cancelou o debate presidencial que ocorreria nesta quinta-feira (1º) depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL) desistir de participar da sabatina. O presidente Lula (PT) já havia comunicado a emissora que não iria ao debate e daria entrevista ao Flow Podcast.

A decisão da Globo foi tomada após decisões do Judiciário que interferiram na logística inicial do debate. A ministra do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio de candidatos.

Já o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Gilmar Mendes autorizou a participação de Renan Santos (Missão), que não participaria da sabatina porque seu partido não conta com o mínimo de cinco parlamentares exigido para comparecer. Antes, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, decidiu incluir Zema entre os integrantes do confronto.

À esquerda, homem de pele clara, barba grisalha, usando chapéu de palha e camisa vermelha, fala ao microfone com gesto de mão direita levantada. À direita, homem de pele clara, cabelo curto e escuro, veste camisa verde clara e segura microfone com a mão direita, gesticulando com a esquerda; usa adesivos de campanha eleitoral no peito. Fundo desfocado com iluminação e balões coloridos.
Montagem mostra o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) em eventos de campanha - Douglas Magno e Gledston Tavares - 21.ago.26 e 17.ago.26/AFP

Pouco depois, Flávio anunciou a desistência. "Acabo de tomar a decisão de não ir ao debate da Globo em função da censura imposta ao evento pelo TSE. A imprensa tem que ser livre e as eleições limpas", escreveu o congressista em rede social.

Em nota, a TV Globo afirmou que a decisão de Estela Aranha sobre os púlpitos vazios torna inválido item das regras da emissora para o programa, "assinada por todos os partidos, inclusive o PT". Também cita a decisão de Gilmar para autorizar a participação de Renan Santos, afirmando ser contrária à lei estabelecida para convite a debates televisionados.

Para a emissora, as decisões interferem nas regras previamente acordadas, o que levou ao cancelamento do evento. Conforme a nota, foram impetrados recursos contra as duas decisões, mas a direção da Globo considerou não haver tempo hábil para revertê-las.

"Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais", afirmou a emissora.

A Globo transmitiu a novela "Quem Ama Cuida" no lugar do debate entre os candidatos.

Em nota, a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) e a ANJ (Associação Nacional de Jornais) disseram se solidarizar com a Globo e manifestaram indignação com o que chamaram de invervenção judicial nas regras do evento.

Afirmaram que "os excessos judiciais atropelaram o direito de os cidadãos terem acesso às propostas dos candidatos que, conforme prevê a lei eleitoral, já tinham sido convidados e se dispuseram a participar do debate".

"As entidades entendem que a interferência não se trata apenas de uma imposição de obrigações, sem previsões em lei, contra uma emissora privada. É, sobretudo, uma agressão à liberdade de imprensa ao forçar a condução do debate em desrespeito a regras acordadas há meses entre a emissora e os partidos", concluíram as associações.

Os candidatos à Presidência da República que foram à TV Globo nesta quinta atribuíram a Lula o cancelamento do debate. "Nós estamos vendo a Justiça a serviço do Lula", afirmou Romeu Zema (Novo).

A assessoria do ex-governador de Minas Gerais ainda afirmou em nota lamentar o cancelamento do debate, e disse as decisões da Suprema Corte são "um desrespeito a milhões de brasileiros que esperavam a oportunidade de conhecer e comparar as propostas dos candidatos".

Ronaldo Caiado (PSD) chamou as decisões da Suprema de "uma afronta à democracia brasileira". "O Lula provocou tudo isso. Ele foi provocado pelo Flávio na minha cidade, em Goiânia, dizendo ‘vai lá que eu vou lhe enfrentar’. E bateu em retirada", disse o ex-governador goiano.

Púlpito para entrevista coletiva nos estúdios da TV Globo, no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli/Folhapress

Em nota, também afirmou lamentar a falta de debate, chamou o cancelamento de "atentado à democracia" e disse que "o que a Justiça fez hoje representa, nada mais, nada menos, que a destruição do processo eleitoral no país".

"O catalisador desse atentado foi, lamentavelmente, aquele que mais deveria mostrar apreço pelo nosso povo: O atual presidente da República. Luiz Inácio Lula da Silva atuou desde o começo da campanha para interditar o debate e evitar que o Brasil discutisse seu desgoverno", concluiu o ex-governador.

Augusto Cury (Avante) questionou se "o teatro da política precisa de um psiquiatra" assim que chegou à sala de imprensa após o cancelamento do evento.

Renan Santos se uniu a apoiadores em ato em frente à sede do jornalismo da Globo, e fez críticas a Lula e a Flávio. Simpatizantes do candidato do Missão já se reuniam no local desde cedo, e chamaram o senador de "fujão" e "frouxo".

Renan convidou Flávio para participar de debate e prometeu declarar voto ao adversário, se derrotado. "Flávio, tô aqui no Rio perto da tua casa. Bora parar num bar e fazer um debate de boa. Eu não falo de escândalos, tratamos apenas de propostas, xingamos juntos o PT. Se me derrotar eu tiro minha candidatura e declaro apoio a você", disse.

Mais adiante, o candidato chamou Flávio de Judas e Lula, de capeta. "Primeiro a gente tira o traidor, o Judas. Depois, a gente tira o capeta."

Ele criticou a decisão da emissora de não convidá-lo para o debate e disse que, até então, vinha sendo tratado com decência pela TV Globo.

"Eu fui o único a ser excluído do debate. Seria um debate de comadre. O Zema nunca faria uma pergunta difícil ao Flávio. Eles iriam todos, juntos, ficarem falando seus nadas ao redor de nada", afirmou.

Já o petista criticou o formato de debate das televisões para justificar a ausência. A afirmação foi feita em entrevista ao Flow Podcast. A transmissão teve pico de audiência em torno de 1,5 milhão de espectadores.

"Eu há tempos tenho questionado os debates da Globo", declarou o petista, que disse não gostar do tipo do debate promovido pela emissora. "Você não pode levar uma pessoa que tem 49% a debater com o que tem 1%", destacou, citando o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o chamando de "desqualificado".

A eleição presidencial de 2026 terá o primeiro turno com menos debates na televisão desde 1998, quando não houve confronto entre candidatos na TV.

Como mostrou a Folha, Lula chegou a considerar a possibilidade de participar do debate na Globo, mas depois prevaleceu a leitura de que ele seria o alvo de todos os demais candidatos, tendo tempo limitado de resposta.

Por que é tão difícil escolher deputados nas eleições?- Mauro Calliari - FSP

 A Folha conta que apenas 27% dos eleitores já escolheram seus candidatos a deputado federal e estadual. A dois dias das eleições que mobilizam o país, 3 em cada 4 brasileiros não conseguiram pensar em dois nomes. O que pode explicar esse aparente descaso?

Uma explicação é a gravidade em torno dos cargos majoritários. A preocupação com presidente, governadores e senadores é tão grande que parece tirar o peso de todas as outras escolhas. Outra é que a propaganda eleitoral, mesmo irrigada pelas verbas públicas, pouco ajuda a escolher alguém.

Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo com fileiras de cadeiras e mesas vazias. No fundo, painel eletrônico exibe lista de nomes e votos. Três pessoas estão na área da presidência, e outras quatro estão nas laterais do salão.
Plenário da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo - Rubens Cavallari - 16.set.26/Folhapress

Nos últimos dias, passei horas assistindo ao horário eleitoral e pensei em como seria difícil escolher alguém diante da evidente falta de tempo para se apresentar. Alguns martelam seu nome e seu número, com música e bordões extemporâneos (mesmo assim, para ser justo, acho que há menos candidatos exóticos que no passado).

Outros se colocam a serviço de uma causa genérica, como a educação, ou a segurança. Alguns gritam, muitos aparentam ter certezas invencíveis. Num mundo histriônico, sinto simpatia pelos que falam com tranquilidade e expõem problemas com clareza. Outros tentam ocupar um segmento, como o sociodemográfico (professores, delegados, mulheres) ou geográfico —"prometo defender a minha região". Quase todos se colam nos candidatos majoritários.

O problema maior talvez seja o próprio sistema eleitoral, que não adota o voto distrital, mas faz com que candidatos de várias regiões compitam entre si para representar seus estados. Apenas no Estado de São Paulo são 1.430 candidatos a deputado estadual. Como administrar isso?

No sistema distrital ou distrital misto, esse número seria dividido de tal forma que o eleitor pudesse escolher entre um punhado de candidatos, que poderiam se apresentar devidamente e que provavelmente já seriam conhecidos em seus distritos.

Mesmo no sistema atual, a maior parte das propostas parece pequena para a grandeza dos cargos. A promessa de brigar por mais verbas para sua região parece apenas perpetuar a sede por mais emendas parlamentares ou favores.

O pior é que há votações pendentes que vão impactar nossas cidades e nosso futuro, que exigiriam o oposto dessas propaladas virtudes de combatividade e gritaria: as notas do nosso estado na educação, os planos de segurança, o detalhamento de riscos e caveats contratuais com empresas nas privatizações, a concessão de espaços públicos para entes privados, o marco regulatório que pode financiar mais subsídio ao transporte público, a qualidade do atendimento no SUS, a falta de integração de fluxos nas nove regiões metropolitanas do estado, os imperativos energéticos diante da crise climática e o maior de todos, o risco de falta d’água. Não falta assunto complexo pela frente.

Nas grandes votações, vemos a floresta de braços levantados com o celular filmando suas narrativas para a base de eleitores. Essa visão algo teatral esconde a realidade do trabalho bem feito. Não é só lançar projetos de lei, é também e principalmente avaliar projetos do Executivo e de colegas, que exigem análises, uso de dados, consultas, tudo o que dá trabalho e não dá visibilidade.

Enquanto não temos voto distrital, que aproximaria eleitores de parlamentares, dá tempo de vasculhar a lista de candidatos para encontrar pessoas que pareçam dispostas a abraçar a complexidade e não se tornarem super-heróis das redes sociais.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rainer Maria Rilke – Torso arcaico de Apolo

 Não conhecemos sua cabeça inaudita

Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: Precisas mudar de vida.

Trad.: Mário Faustino