domingo, 5 de julho de 2026

Novas linhas de metrô transformam mais bairro de classe média do que periferia de SP, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Casas, comércios baixos e galpões dão lugar a prédios de dezenas de andares. Para além da mobilidade, a chegada do metrô provoca mudança significativa no horizonte e no cotidiano dos bairros da cidade de São Paulo.

Esse fenômeno se repete nas estações inauguradas na última semana, mas de maneira desigual. Dados compilados pela Folha mostram que é mais acentuado em distritos de classe média, valorizados pelo mercado imobiliário nas zonas norte, sul e oeste, por onde passam as novas linhas 6-laranja e 17-ouro.

Área de construção cercada por prédios altos em ambiente urbano. Trabalhadores com coletes laranja atuam próximo a uma estrutura central com cobertura branca. Rua ao lado com carros estacionados e árvores ao fundo sob céu claro.
Vista aérea da recém-inaugurada estação Perdizes, da linha 6-laranja; diversos prédios foram construídos e estão em obras no entorno - Zanone Fraissat/Folhapress

Na linha 6-laranja, a principal mancha de concentração de prédios em obras ou prédios recém-entregues abrange o entorno das estações Sesc Pompeia, Perdizes (av. Sumaré) e PUC-Cardoso de Almeida, na zona oeste. Ao menos 108 empreendimentos tiveram o processo de licenciamento aberto para essa vizinhança desde 2016, a até 700 metros de distância.

Outro destaque da mesma linha está no entorno das estações 14 Bis (av. 9 de Julho) e Bela Vista (av. Brigadeiro Luís Antônio), no centro, com 54 pedidos de novos prédios. Na zona norte, a campeã é a João Paulo 1º, no distrito Freguesia do Ó, que acumula 27 processos abertos na última década.

A concentração maior em alguns bairros se deve em parte à legislação urbanística. O Plano Diretor de 2014 e a Lei de Zoneamento de 2016 incentivam a construção de apartamentos perto de metrô, mas mantêm restrições em algumas vizinhanças.

Essa distinção é evidente na estação Cardoso de Almeida. Nela, o "eixo" de verticalização está repleto de novos empreendimentos em Perdizes, enquanto o lado do Pacaembu segue apenas com imóveis baixos.

A construção de prédios não significa necessariamente aumento populacional, assim como a transformação tão intensa dos bairros é tema controverso, como em relação ao fechamento de parte dos pequenos comércios.

Além disso, nos bairros da várzea do rio Tietê, parte dos incentivos está "congelada" pelo projeto Arco Tietê, que patina há mais de década. Consultor em desenvolvimento urbano, Marcelo Ignatios afirma que construir por lá segue caro mesmo com flexibilizações na lei em 2024. "Ficaram discutindo o que fazer, e a pujança imobiliária passou", aponta.

Sócio-diretor da Embraesp (Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio), Reinaldo Fincatti aponta média de 20% a 30% de valorização de terrenos com a chegada de metrô. Ele explica que o zoneamento como "eixo" é o melhor do mercado, por permitir construir mais e com incentivos.

Periferia e população jovem

A linha 6-laranja abrange basicamente três tipos de território: bairros de periferia e classe média baixa na zona norte; áreas perto do rio Tietê com passado industrial, grandes terrenos e galpões; e distritos da zona oeste e centro com infraestrutura consolidada e maior renda.

Professora de Arquitetura e Urbanismo da USP e coordenadora do LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade), Isadora Guerreiro observa que a transformação é menos evidente na linha 17-ouro por envolver principalmente território regrado pela operação urbana Água Espraiada desde 2001. "Os leilões são rígidos, obsoletos", diz.

Embora com incremento de prédios visível, há indícios de que não houve aumento de população em parte dos eixos. Relatório de área técnica da prefeitura atribuiu essa situação a empreendimentos não prontos em 2022, assim como cogitou impactos do aluguel de curta temporada e concentração de unidades com investidores.

Por outro lado, embora numericamente menor, a mudança não é insignificante na periferia. Isso se torna evidente na comparação com o histórico do lugar, como destaca o pesquisador Jefferson Galvão Chubba.

Com dissertação sobre o tema, o engenheiro exemplifica que a Brasilândia construiu acima do que seria esperado para aquela região. Além disso, parte dos novos apartamentos custa menos do que casas existentes.

As mudanças também vão além dos prédios. Professora de sociologia na PUC-SP e pesquisadora no Observatório das Metrópoles, Mônica de Carvalho diz que investimento em infraestrutura resulta em novas dinâmicas urbanas.

Um exemplo é que a linha 6 tem diversas estações perto de universidades. Nesses locais, há tendência de mudança no perfil da população, para mais jovem.

Ela considera que o entorno do Tietê é uma zona a ser observada, com potencial para a reconversão econômica da antiga indústria para a economia global. Isso vai desde novos galpões logísticos de "última milha" até a economia criativa.

Por outro lado, em outros distritos, há o temor de "gentrificação" com a valorização dos imóveis e aumento do custo de vida. O consultor e pesquisador em planejamento urbano Marcos Kiyoto afirma que o poder público precisa calibrar medidas para evitar a expulsão da população de menor renda.

O especialista cita os incentivos para habitação popular já existentes, que poderiam ter amenizado essa situação. Investigação do Ministério Público e a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal mostraram, contudo, que parte das unidades em áreas valorizadas foi "desvirtuada" para maior renda e locação de curta temporada (como Airbnb).

Levantamento feito pelo Secovi-SP, sindicato do setor imobiliário, para a Folha identificou 82.377 apartamentos lançados a até 1 km da linha 6-laranja, de janeiro de 2016 a abril de 2026. O total foi de 18.652 unidades no caso da 17-ouro.

Entre estações que não têm outra linha de trem ou metrô, as campeãs são Perdizes (9.867), Freguesia do Ó (8.840) e Bela Vista (8.738) na linha 6. No monotrilho, a liderança é do Itaim Bibi (4.348).

Impactos na vizinhança

A mudança começa com desapropriações. Caso emblemático é o da quadra da escola de samba Vai-Vai (com novo endereço incerto), no Bixiga; outro é o da estação Bela Vista, em que casario e sobrado tombados foram derrubados parcialmente com aval dos órgãos de patrimônio.

Moradores têm apontado que a entrega deveria estar associada à requalificação do entorno, com praças, parques e equipamentos sociais, de saúde e educação. "Custo-benefício é a palavra", diz o arquiteto Enio Silva, vizinho da João Paulo 1º.

Há também mobilização para conter parte da verticalização, como pedido protocolado pela Amora Perdizes para tombamento de casas e vilas. "Descaracterizou o bairro", resume o presidente, o arquiteto Antonio Castelo Branco.

Ele diz que o metrô é uma conquista importante. Avalia, contudo, que faltou planejamento e que é necessário acompanhamento de impactos e adoção de medidas, especialmente em drenagem, arborização e infraestrutura.

Em nota, a concessionária Linha Uni respondeu que o paisagismo da linha 6 foi pensado para trazer mais verde. Também destacou compromisso para trazer benefícios à comunidade.

Já o Metrô, ligado à gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), ressaltou que a linha 17 criou ciclovias, equipamentos comunitários e esportivos e áreas ajardinadas sob a sua via elevada, entre outras intervenções. Reiterou buscar a integração entre infraestrutura metroviária e espaço urbano.

Por fim, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que a legislação de uso e ocupação do solo municipal se articula "plenamente com as políticas de mobilidade, drenagem, meio ambiente, habitação, parques e implantação de equipamentos públicos". Além disso, indicou que o projeto do Arco Tietê está em desenvolvimento e que fez obra de drenagem recente no distrito Perdizes, entre outras medidas.

Metodologia

A Folha utilizou dados de outorga onerosa (valor cobrado das incorporadoras) de processos de licenciamento protocolados a partir de 2016. O impacto tende a ser maior, porque pedidos anteriores podem ser alterados para encampar mudanças de zoneamento.

O levantamento inclui empreendimentos de Habitação de Interesse Social (HIS), igualmente incentivados.

Na linha 17, alguns prédios não foram contabilizados porque estão em área em que a outorga é substituída pelo Cepac, vendido em leilão e sem representação georreferenciada.

‘I couldn’t care less’, digo eu, Ruy Castro _FSP

 

Há pouco ("Trump gagá", 18/6), listei uma série de traços recentes da personalidade de Donald Trump —comportamento aloprado, falas sem nexo, cochilar em público e fazer da Casa Branca um puxadinho de Mar-a-Lago—, típicas talvez do stress provocado pelas guerras sem sentido em que ele mete os EUA e das quais não consegue sair. Ou das medidas presidenciais que toma e que, por acaso, multiplicam sua fortuna e a de seus filhos. Enfim, nada de que a própria imprensa americana não fale diariamente.

Meus fiéis leitores trumpo-bolsonaristas se revoltaram. Para eles, tais ofensas a Trump revelam meu ódio pelos EUA e farão com que eu nunca mais consiga um visto de entrada no país. Quanto a essa última afirmação, é verdade. Meu visto caducou e, como disse o próprio Trump outro dia sobre o Brasil, "I couldn’t care less" —em português educado, "Não dou a mínima". Não pretendo renová-lo nem que o consulado americano me implore.

Em 40 anos entrando e saindo de aviões a trabalho ou a lazer, a partir de 1972, fui umas 20 vezes a Nova York. Quase sempre me hospedei no centenário Earl, renomeado Washington Square Hotel, que já abrigou O. Henry, Ernest Hemingway, Mary McCarthy, Edmund Wilson, Dylan Thomas, Bob Dylan e até os Rolling Stones, quando todos eram pobres. Certa vez, dividi o quarto no Earl com um camundongo que morava lá. Mas, a serviço do Reader’s Digest (que jamais contrataria alguém que odiasse os EUA), hospedei-me também no Algonquin, quando ele ainda recendia aos charutos e uísques de James Thurber, Dorothy Parker e Robert Benchley.

De cada ida a Nova York, voltei para o Rio com bateladas de livros, LPs, CDs, VHSs, laser discs e DVDs da grande cultura que os EUA produziram nos séculos 19 e 20. Tenho tudo isso até hoje, transbordando de estantes e gavetas. Esse material já me rendeu N artigos, livros e conferências. Sou mais culto do que Trump a respeito dos próprios EUA.

Talvez por isso não reconheça o país que hoje ele preside. E quer saber? I couldn’t care less em conhecer.

Benjamin Franklin perdeu a vez ,Elio Gaspari, FSP

 Ontem, há 250 anos, o Ocidente começou a percorrer uma de suas maiores mudanças. Reunidos na pequena cidade de Filadélfia (menos de 40 mil habitantes, como o Rio enquanto Beijing tinha 1 milhão), representantes das 13 colônias inglesas da América do Norte assinaram a Declaração da Independência de um país que viria a se chamar Estados Unidos da América. Naqueles dias, não sabiam quantos eram, como ganhavam a vida, nem se poderiam ser autossuficientes. Eram mais ricos, mais altos que os europeus (de 5 a 8 centímetros) e mais férteis.

Hoje esse é um texto sacralizado, mas só começou a ser festejado depois de 1812.

Documento emoldurado da Declaração de Independência dos Estados Unidos exibido em museu com fundo vermelho. Mulher de cabelos ruivos observa o documento à direita da imagem.
Exposição da Declaração de Independência dos EUA, assinada em 4 de julho de 1776 - Brook Mitchell - 22.jun.26/AFP

Anos depois, em 1789, um volume com uma coletânea de documentos dos "americanos ingleses" foi encontrado com o alferes Joaquim José da Silva Xavier e encorpou as provas da militância sediciosa que levaria Tiradentes ao patíbulo.

No Federal Hall, a nove quilômetros do estádio onde a seleção francesa enfrentou a do Paraguai, 56 pessoas discutiam um texto.

Desde o início de junho, perto dali, numa pensão, Thomas Jefferson, o caçula da assembleia, de 33 anos, trabalhava no texto da Declaração. Com ele estava Robert Hemings, seu criado escravizado de 14 anos, filho natural de seu sogro, pai de sua falecida mulher. Era irmão de Sally, com quem mais tarde Jefferson teria quatro filhos.

A ida desse texto para a caneta do caçula teve a mão do acaso. Benjamin Franklin, figura de muito maior relevância, declinou da oferta informando que, por norma, não escrevia textos que viriam a ser discutidos e mudados por plenários. Ademais, padecia de crises de gota. John Adams, outro sedicioso, pressentiu a importância do documento, mas escreveu só o preâmbulo de outra resolução.

No dia 21 de junho, Jefferson mandou seu rascunho a Franklin. Ela dizia que "nós consideramos verdades sagradas e inalienáveis que todos os homens são criados iguais e independentes..." O revisor riscou o "sagradas" porque sentiu um ranço de carolice, pois o sagrado vem de Deus.

Daí saiu o célebre "we hold these truths to be self-evident" ("nós consideramos estas verdades evidentes por si mesmas", ao pé da letra.) Por exemplo: é uma verdade evidente por si mesma que os ângulos internos de um triângulo somam 180 graus.

Jefferson entregou o primeiro projeto no dia 28 de junho e sofreu 85 revisões. Caiu fora, por exemplo, a condenação do tráfico de negros. Assinada no dia 4 de julho, a Declaração foi lida na cidade no dia 8.

John Adams já implicava com Jefferson quando ele ganhou a fama de ter redigido a Declaração. Jefferson sonhava com uma utopia rural e Adams com uma nação mais comercial e industrial. Elegeu-se vice-presidente em 1789 e presidente em 1797. Em 1801, quando seu rival foi eleito, saiu de Washington a la Bolsonaro, para não lhe dar posse.

Numa trapaça da História, Adams e Jefferson morreram no mesmo dia 4 de julho de 1826, o dos 50 anos da Declaração da Independência.

Eleição americana

Por mais que uma parte do mundo acredite que Donald Trump perderá a eleição de novembro, cravar esse resultado pode ser apenas um desejo. Essa análise é de Kyle Kondik, editor da newsletter Sabato’s Crystal Ball.

Olhando pelo retrovisor, a derrota dos republicanos é provável. Nos últimos 58 anos, só dois presidentes aumentaram a bancada na Câmara na eleição da metade do mandato: Clinton em 1998, com duas cadeiras, depois de ter perdido 54 dois anos antes, e Bush filho, em 2002, ganhando oito assentos, para perder 30 dois anos depois.

Em 2018, no seu primeiro mandato, Trump perdeu 40 cadeiras. (Obama perdeu 63 cadeiras em 2014, tomando a maior sova do período).

Depois do ataque ao Irã, a popularidade de Trump entrou num viés de queda. Ele tem 57% contra e 39% a favor. Afinal, a gasolina estava a US$ 3,20 o galão (3,378 litros), chegou a US$ 4,30 e está a US$ 3,85.

Trump já indicou que pretende cavalgar as festas dos 250 anos da assinatura da Declaração da Independência como se ele a tivesse redigido e a estivesse a reescrever. (Esse documento foi a espoleta da revolução que terminou, anos depois, com a independência.)

Em 1976, os marqueteiros do presidente Gerald Ford fizeram-no cavalgar as festas dos 200 anos da independência, supondo que, sentindo-se bem, haveriam de reelegê-lo. As festas foram lindas, mas Jimmy Carter ganhou a eleição.