terça-feira, 3 de março de 2026

O que os homens mais invejam nas mulheres?, Mirian Goldenberg- FSP

 Fiquei muito feliz quando recebi o convite para participar de duas mesas no Festival Fronteiras no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Na primeira, o debate será sobre "O sonho da finitude: como lidar com a passagem do tempo". A segunda será um bate-papo sobre "A liberdade de ser quem se é", com a querida Camila Appel que acabou de publicar o impactante livro "Enquanto Você Está Aqui".

Estou me preparando para apresentar no Festival Fronteiras os resultados das pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade que venho realizando há mais de três décadas. A partir das respostas dos meus pesquisados, pretendo debater as diferenças de gênero no olhar e na experiência de envelhecer em uma cultura velhofóbica em que o corpo jovem é um verdadeiro capital.

Por exemplo, quando perguntei às mulheres o que elas mais invejam em outras mulheres, as principais respostas foram: "corpo, beleza, magreza, juventude e sensualidade". Quando perguntei o que mais invejam nos homens, elas responderam categoricamente: "liberdade" e, logo em seguida, "fazer xixi em pé". Elas também invejam a liberdade sexual, a liberdade com o corpo, a liberdade de rir e de brincar, a liberdade de envelhecer em paz entre muitas outras liberdades masculinas.

Claudia Liz

Quando perguntei aos homens o que mais invejam nas mulheres, eles responderam simplesmente: "nada". Pouquíssimos disseram: "maternidade", "sensibilidade" e "orgasmos múltiplos".

Quando perguntei: "Quem vai cuidar de você na velhice?", as mulheres responderam, em primeiro lugar: "eu mesma" e, em seguida, "minhas amigas". O que mais me chamou a atenção é que as mulheres, inclusive as que são casadas e têm filhas, responderam "eu mesma" e "minhas amigas". Já os homens responderam: "minha esposa" e "minha filha". Alguns disseram: "minha neta".

Na pergunta: "Quem envelhece melhor: o homem ou a mulher?", a maioria respondeu: "o homem". Em todas as faixas etárias, homens e mulheres concordaram que eles envelhecem melhor do que elas. Somente um grupo discordou: as mulheres de mais de 60 anos. Elas disseram que, apesar do olhar social sobre a velhice masculina ser mais generoso do que é com a feminina, as mulheres envelhecem melhor porque cuidam mais da saúde e da aparência, vão mais a médicos e a dentistas, têm mais amigas e, na maturidade, passam a ter a coragem de "dizer não" e de "ligar o botão do foda-se".

Na minha pesquisa, uma mulher apareceu como a melhor representante da "bela velhice": Fernanda Montenegro. Por quê? De acordo com as respostas dos meus pesquisados, porque Fernanda Montenegro, aos 96 anos, continua produtiva, ativa, autônoma, autêntica, inteligente, lúcida, discreta, elegante, talentosa e, também, porque "ela não se aposentou da vida", "aceita o envelhecimento", "não tenta parecer mais jovem", "não se deformou com plásticas", "tem dignidade e coragem de ser ela mesma".

O que encontrei foi comprovado pelos resultados de uma pesquisa realizada, desde 2019, pelo Instituto QualiBest. Fernanda Montenegro está, em todos os anos, no topo da lista da personalidade mais admirada do Brasil.

Por que será que, apesar de apontarem Fernanda Montenegro como exemplo de "bela velhice" e como a personalidade mais admirada do Brasil, as mulheres continuam invejando a liberdade masculina e a juventude feminina? E por que será que os homens continuam dizendo que não enxergam nada de invejável nas mulheres?

segunda-feira, 2 de março de 2026

A democracia não está em risco nesta eleição, Joel Pinheiro da Fonseca - FSP

 Em seu artigo de 28 de fevereiro ("Flávie dará golpe de estade"), Celso Rocha de Barros defende que, caso eleito, Flávio Bolsonaro dará um golpe. Ou seja, mais uma vez, a democracia estaria em risco na eleição presidencial. A esquerda brasileira tem sido pródiga na acusação de "golpe" desde o impeachment de 2016. Em 2026, Celso também estica seu significado.

Pelas evidências que temos, Flávio foi contrário ao golpe tentado por Bolsonaro. Mauro Cid, em sua delação, colocou Flávio no grupo dos que se opunham ao golpe. Ele aconselhava Jair a mandar os acampados para casa, deixar o poder pacificamente e virar o líder da oposição. Se tivesse sido ouvido, Jair e Eduardo estariam livres.

O pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL), durante manifestação na avenida Paulista - Jorge Silva - 1.mar.26/Reuters

Roubar eleições bloqueando eleitores ou negando o resultado das urnas; sentar-se com generais para impedir a transição de poder; planos para sequestrar e matar autoridades. Isso tudo é golpe. Querer impeachment de ministros do Supremo —que é a acusação de Celso—, não.

O Brasil viveu um ataque à sua democracia, que não foi para frente pela resistência que encontrou em alguns setores, entre eles o Supremo e as Forças Armadas. Os planejadores e autores dessa tentativa foram julgados, condenados e presos. O fato de o Supremo ter atuado contra os golpistas não o torna um sinônimo da ordem democrática brasileira. Hoje, pelo contrário, ele tem danificado nossa democracia.

Alexandre de Moraes usou o inquérito das fake news para investigar o presidente da Unafisco por ter criticado o Supremo na mídia. Isso vai além da mera proximidade de autoridades com ricos brasileiros. É o uso de instrumentos de exceção para cercear as liberdades individuais. Palavras da ONG Transparência Internacional: "Cada dia mais estarrecedor o autoritarismo que emana do STF e o declínio democrático brasileiro". O poder corrompe: o herói de um dia pode, justamente por seu sucesso, tornar-se a ameaça do dia seguinte.

Celso não se conforma com o protagonismo de Bolsonaro na direita brasileira. Eu também lamento. Ao contrário do que ele parece crer, contudo, isso não se deu por nenhuma estratégia de caciques partidários ou formadores de opinião. A explicação é bem mais simples: Bolsonaro tem voto; as lideranças alternativas, não.

Uma parcela expressiva (20%? 30%?) da população brasileira tem em Jair Bolsonaro sua maior liderança. Pode-se lamentar essa realidade, mas ela não irá embora, e é pura ilusão imaginar que dá para —como diz Celso— "expulsá-los da sala" para que então o debate civilizado sobre o Supremo possa começar. Eles têm direito a voz e voto; são interlocutores do debate democrático. E jamais desaparecerão. A divergência radical veio para ficar. Suspeito, aliás, que a opção de parte da elite cultural por desconsiderá-los apenas reforce sua posição.

A democracia dá poder ao povo, embora o povo não seja sempre como a gente gostaria. A defesa das instituições que garantem nossa democracia passa por reprimir quem age para derrubá-la. Para todos os outros, cabe ouvir, entender e, quem sabe, persuadir.

O Supremo não dá quaisquer mostras de que deixará de colocar o "STF Futebol Clube" acima de tudo. O impeachment de ministros, portanto, seguirá na mesa. Políticos —bolsonaristas como Flávio e não bolsonaristas como Alessandro Vieira— continuarão a martelá-lo. E nem por isso ameaçam nossa democracia.

O alerta feito pelo general alemão e o aniversário da guerra na Ucrânia, OESP

 

Atualização: 

“Precisamos treinar onde e como nós iremos lutar.” A frase do general Carsten Breuer, o inspetor-geral do Bundeswehr, parece banal na boca de um militar. Mas sua gravidade e urgência se tornam evidentes quando se sabe onde e em que circunstância foi dita.

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Breuer estava em um posto de comando em Klaipeda, na Lituânia. Diante dele, cujo cargo equivale ao de chefe do Estado-Maior da Defesa na Alemanha, havia um mapa do país báltico. Ele revisava planos de envio de munições e combustível à brigada blindada alemã estacionada na Lituânia, diante da fronteira com Belarus. A frase foi registrada pelo The Wall Street Journal.

O conflito na Ucrânia entra no quinto ano, e a inteligência alemã estima que, em três anos, a Rússia estará preparada para lançar uma guerra em larga escala na Europa. Breuer tem liderado uma cruzada para convencer os alemães de que eles devem estar preparados para proteger sua liberdade e sua democracia no momento em que os EUA se tornaram um parceiro pouco confiável da União Europeia.

Para você

É aí que entra a importância do preparo e da prontidão. Em seu perfil no Instagram, o general posta vídeos mostrando o desenvolvimento de drones camicases e o treinamento de seus fuzileiros para essa nova guerra. Para ele, a Europa ainda não está em guerra, mas não está mais em paz. Breuer quer ter mais três divisões completas para combate até 2032. E prevê, só neste ano, acrescer 20 mil militares ao efetivo atual de 184 mil. Em 2025, seu país gastou US$ 107 bilhões com a Defesa ante US$ 186 bilhões da Rússia. A França empregou US$ 70 bilhões e a Polônia, US$ 33,2 bilhões, acima dos US$ 24 bilhões do Brasil, segundo dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres.

Mas e o Brasil com isso? Na reunião que teve com os chefes militares em 15 de janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou o que o País precisava fazer para poder enfrentar uma ação estrangeira como a dos EUA na Venezuela. Recebeu das Forças um diagnóstico sobre investimentos para os próximos 15 anos que chegavam a R$ 800 bilhões, dos quais R$ 200 bilhões só para o Exército. Da Marinha, Lula ouviu a necessidade de mais quatro fragatas, submarinos, mísseis mar-ar e drones. Após a reunião, o Exército transformou a artilharia antiaérea em projeto estratégico.

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A guerra da Ucrânia será lembrada, como escreveu o coronel Paulo Filho, na melhor hipótese, como “um momento definidor, que alterou profundamente as relações internacionais nesta segunda década do século”. E, na pior, como um ensaio de uma conflagração maior. Não é mais possível se sentir seguro só porque o Atlântico é mais largo do que o Rio Neman.