segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Golpes do impeachment, Helio Schwartsman, FSP

 Há dez anos, em 31 de agosto de 2016, Dilma Rousseff (PT) era definitivamente afastada da Presidência da República, depois de ser julgada culpada de crime de responsabilidade pelo Senado. O evento deixou marcas na história do país, algumas das quais ainda se fazem sentir.

Para o PT, o impeachment foi um golpe. A palavra "golpe" é suficientemente polissêmica para permitir essa interpretação. Um de seus múltiplos significados é o de "revés", como na expressão "golpe do destino". E não há muita dúvida de que o afastamento representou um revés para a petista. Já a tentativa de imprimir ao termo "golpe" o sentido mais técnico de "ruptura constitucional ilícita" é mais problemática.

Dilma Rousseff (PT) durante declaração à imprensa após o Senado aprovar o seu impeachment - Pedro Ladeira - 31.ago.16/Folhapress

Dilma, afinal, havia perpetrado as pedaladas, que se encaixam na definição legal de crime de responsabilidade, e foi julgada pelos senadores em processo regular nos termos da Constituição.

Pode-se perfeitamente contestar a oportunidade política de o país ter procedido ao impeachment, mas não sua licitude. O processo, vale lembrar, foi conduzido sob a batuta do então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, justamente para garantir que não houvesse ilegalidades. Se elas ocorreram, então Lula (PT) pôs um golpista no centro de seu governo quando convidou Lewandowski para ser ministro da Justiça em 2024.

Politicamente, o afastamento de Dilma serviu para acirrar a polarização afetiva, facilitando a instrumentalização da Lava Jato pelos que a conduziam e abrindo as portas para Jair Bolsonaro (PL). É verdade que o movimento de radicalização já estava em curso, como se verifica pela eleição de líderes da direita radical em outros países.

E o advento do extremismo não foi o único revés. Também involuímos no combate à corrupção. Uma das explicações para o centrão ter defenestrado Dilma foi a percepção de que o governo não conseguiria protegê-lo da Lava Jato. Se a aposta fracassou num primeiro momento, ela deu totalmente certo no segundo tempo. Como vaticinou Romero Jucá, a sangria acabou estancada, com Supremo e com tudo.


Judeus reagem a anúncio de Lottenberg como ministro de Flávio Bolsonaro e divulgam manifesto pró-Lula -FSP

 Mônica Bergamo

Um grupo de judias e judeus divulgou um manifesto no sábado (29) em apoio à reeleição de Lula.

A petição pública já alcançou 1.120 assinaturas até a manhã desta segunda (31).

O médico Cláudio Lottenberg, presidente da Conib, em jantar de confraternização do grupo Prerrogativas - Mathilde Missioneiro/Folhapress

Ela estava sendo discutida há algumas semanas no grupo Judias e Judeus Pela Democracia e ainda não tinha prazo para se tornar pública.

O coletivo decidiu, no entanto, antecipar o lançamento da carta de apoio em reação ao anúncio de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em entrevista à TV Globo na semana passada, de que o oftalmologista Cláudio Lottenberg será seu ministro da Saúde caso ele seja eleito presidente em outubro.

Presidente do conselho deliberativo da entidade que administra o Hospital Israelita Albert Einstein, Lottenberg é também presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil).

O grupo que agora assina a carta quer deixar claro que Lottenberg não representa a comunidade judaica em seu apoio ao bolsonarismo.

Apoiadores do médico, por seu lado, afirmaram à coluna que a escolha de Flávio Bolsonaro não tem relação com a religião, mas sim com a capacidade técnica do presidente do Einstein.

No texto em que pedem assinaturas para o apoio a Lula, o grupo afirma que "depois de Flávio Bolsonaro anunciar Cláudio Lottenberg como ministro da Saúde — e nós já conhecemos bem essa história —, resolvemos adiantar e tornar pública a posição de muitos judeus e judias de esquerda: não estamos associados ao bolsonarismo".

O manifesto afirma que "diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas".

Assinam o texto intelectuais, advogados e artistas como Carlos Minc Baumfeld, Fabio Tofic Simantob, Iris Kantor, Jaques Morelenbaum, Lia Vainer Schucman, Lilia Katri Moritz Schwarcz, Diego Lajst, Manuela Ligeti Carneiro da Cunha, Natalia Timerman, Raquel Rolni e Tatiana Salem Levy.

Procurados, Lottenberg e a assessoria de Flávio Bolsonaro não se manifestaram.

Leia, abaixo, a íntegra da petição:

"Diante, mais uma vez, da ameaça à frágil democracia que construímos no Brasil, nós, judias e judeus, nos manifestamos publicamente em apoio à chapa Lula e Alckmin nas eleições de 2026. Fazemos essa escolha face a uma sociedade em que discursos autoritários, inconstitucionais e de ameaça aos direitos humanos voltam a ocupar o espaço público como se fossem propostas políticas legítimas
Não podemos normalizar discursos como "polícia atira para matar", nem propostas de regimes de exceção, perseguição a grupos sociais e retirada de direitos sendo defendidas em rede pública como parte natural do debate democrático. Uma democracia não pode tratar como apenas mais uma opinião aquilo que ameaça a própria democracia, transforma adversários em inimigos e faz da violência um projeto político.

Assinamos este manifesto também em lembrança de nossas histórias. Sabemos o que significa uma sociedade aceitar pouco a pouco o autoritarismo, a perseguição e a construção de grupos humanos como inimigos. Por isso, nossa memória nos convoca à defesa dos direitos humanos, das lutas sociais, do SUS, da igualdade racial, da justiça social e de todas as conquistas democráticas que permitem que diferentes grupos lutem por seus direitos.

Nosso apoio a Lula e Alckmin não significa acreditar que a democracia brasileira esteja pronta, nem que todas as transformações que desejamos estejam representadas nessa chapa. Significa reconhecer que há uma diferença fundamental entre lutar para ampliar direitos dentro de uma democracia e permitir que avancem projetos que ameaçam as próprias condições dessa luta. Defendemos uma sociedade em que nossas diferenças não sejam transformadas em ódio, perseguição ou inimigos a serem eliminados. Em 2026, estamos com Lula e Alckmin em defesa da democracia e da possibilidade de continuarmos lutando por ela."


Alcolumbre quer indicar Pacheco ao TCU sem sabatina e com aprovação em plenário até quarta- FSP

 Gabriela Echenique

Brasília

Com a renúncia do ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Bruno Dantas, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, quer acelerar a indicação de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga e discute enviar o nome do aliado direto ao plenário sem passar por uma sabatina.

Homem de terno preto, camisa branca e gravata azul claro levanta o polegar direito em sinal de positivo, sorrindo levemente. Ao fundo, parede de madeira com letras vermelhas parcialmente visíveis e outra pessoa de terno conversando de perfil.
Cerimônia de filiação do senador Rodrigo Pacheco no PSB, na sede do partido em Brasília - Pedro Ladeira - 01.abr.26/Folhapress

O caminho está pavimentado para que o nome do senador seja aprovado ainda nesta semana pelo Senado Federal.

O presidente do TCU, ministro Vital do Rego, deve formalizar a abertura da vaga ao Senado ainda nesta segunda (31). Enquanto isso, Alcolumbre já articula com senadores para levar a indicação de Pacheco ao plenário na terça (1º) ou, no mais tardar, na quarta-feira (2).

O presidente do Senado quer aproveitar a semana do esforço concentrado para aprovar o nome do amigo ao TCU antes das eleições.

A Constituição Federal obriga a realização de sabatina apenas de indicados pela Presidência da República. Pacheco será indicado pelo Congresso Nacional, inclusive com amplo apoio dos senadores.

A expectativa de aliados de Rodrigo Pacheco é que o nome dele seja aprovado com facilidade, por ampla maioria de votos. Depois, o nome vai para a Câmara dos Deputados para revisão e, em seguida, o resultado é promulgado pelo Congresso.