sexta-feira, 8 de maio de 2026

Mario Sergio Conti - Eterno retorno ao dia enguiçado, FSP

 Ainda bem que o tempo existe, senão tudo aconteceria de uma vez só. Seria um deus nos acuda, não daria para ficar na maciota. Palmas para o tempo, pois. Outra coisa boa da conexão de passado, presente e futuro é "Sobre o Cálculo do Volume", romance de sete volumes em que o tempo enguiça e, insondável, empaca num dia de outono.

Sua protagonista é Tara Selter, comerciante de livros antigos que mora no norte da França com o marido, Thomas. Num 18 de novembro, viaja a Paris. Vai a um leilão, a sebos e antiquários, visita o amigo Philip e dorme num hotel. Desce para o café no dia seguinte e percebe horrorizada que não é o dia seguinte, mas 18 de novembro de novo.

Está encarcerada no tempo. Quatro meses depois começa um diário: "Todas as noites, quando deito para dormir, é dia 18 de novembro, e todas as manhãs, quando acordo, é dia 18 de novembro. Não espero mais acordar no dia 19 de novembro, e já não lembro mais do 17 de novembro como se fosse ontem". Tara entrou no looping do eterno retorno.

A ilustração é toda ocupada por uma grande ampulheta deitada. Ao centro, no gargalo da ampulheta uma pequena mulher estar engatinhando. O fundo total é escuto como um céu noturno.
Bruna Barros/Folhapress

Como se acha presa num período e não num espaço, numa cela de 24 horas e não nos bulevares de Paris, pega o trem num dos 18 de novembro e volta a Clairon-sous-Bois. Seu marido toma um susto: por que está ali e não alhures, já que voltaria amanhã? Ela conta que o tempo se nega a ir em frente, ao inverno, o novo ano, fevereiro e enfim à primavera.

Enamorado, Thomas acredita nela. Cogita razões para ter entrado areia na engrenagem do tempo e opções para o recall do 18 de novembro. Passeiam, papeiam, comem, dormem juntos. Ao abrir os olhos, espanta-se outra vez. Não notara que Tara voltou na madrugada e aconchegou-se a ele.

Uma vez mais, informa-o da fenda sem fundo aberta na ordem do tempo. É inútil, no dia seguinte terá esquecido o que ela lhe explicou. Até quando terá pachorra para recontar o que se lhe passou? Não espera para saber. Muda-se para o quarto de hóspedes e some da vista de Thomas.

Todo dia ele faz tudo sempre igual. Tara sabe que hora vai ao correio e sai em seguida para comprar o que comer. Ouve quando ele volta, abre a porta e vai à cozinha. Vive na mesma casa do homem que ama e dele se apartou. Sozinha no mundo, não é quem foi antes nem sabe quem agora é.

A escritora dinamarquesa Solvej Balle - Justin Tallis - 20.mai.25/AFP

A dinamarquesa Solvej Balle levou mais da metade de seus 62 anos na estiva de "Sobre o Cálculo do Volume" e ainda não o terminou. A edição original está no penúltimo volume, o sexto. A em inglês, no quarto. A da Todavia, traduzida por Guilherme da Silva Braga, no terceiro. É sucesso de público e crítica nos 30 países em que saiu, mas no Brasil não.

Ela trabalhava no romance havia seis anos quando estreou "O Feitiço do Tempo", filme de 1993 com Bill Murray. Nele, um repórter de TV revive ad nauseam um 2 de fevereiro, dia em que uma marmota sai da toca num grotão da Pensilvânia. Solvej Balle não achou que o filme bloqueava o romance, mas deixou passar uma década antes de voltar a escrevê-lo.

"O Feitiço do Tempo" é uma comediazinha que usa a clonagem do tempo como rebimboca da parafuseta de uma narrativa com superação de autoajuda e final feliz. "Cálculo do Volume" dá forma à substância fugidia do tempo: o tempo individual, o coletivo, o histórico, o social, o filosófico, o metafísico. Ao contrário do filme, a recorrência de um dia não funciona como chamariz para um enredo chocho. É para valer.

A prosa não enfeita a situação romanesca, é avessa a metáforas, alegorias –literatice. Suas referências são sibilinas: 18 de novembro é o dia da morte do escafandrista do tempo cuja opus magnum tem sete tomos, Proust; ecoa "Ulysses", de Joyce, que se passa num dia, 16 de junho, e recria dias da "Odisseia".

"Cálculo do Volume" cerca o presente com sequências temáticas. Ao relatar a relação de Tara e Thomas, faz a crônica do casamento de duas solidões corroído pelo ácido do tempo. Ao falar de uma antiga moeda romana, mergulha e naufraga na história. Ao enjoar do outono eterno de 18 de novembro, vai às neves do norte e depois ao cálido sul: na verdade, trata da crise climática.

No terceiro volume, descobre dois homens e uma mulher também imersos na neurose da repetição. No quarto, já são algumas dezenas as pessoas que, à margem tempo, trocam experiências, se articulam. Uma sociedade se forma a partir de ruínas humanas que vemos todos os dias, não apenas em 18 de novembro.

"Sobre o Cálculo do Volume" é obra em progresso. Sabe-se lá o que o futuro nos reserva nos volumes e dias que faltam antes do fim.

Depois de Ciro, o medo de ser o próximo, Adriana Fernandes, FSP

 O celular de Ciro Nogueira toca. O nome de Daniel Vorcaro aparece na tela iluminada do aparelho e a reportagem da Folha, que entrevistava o presidente do PP, flagra a ligação.

Era abril de 2025, e o senador tinha apresentado, apenas cinco dias após o anúncio da compra do Master pelo BRB, proposta para aumentar a CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) dos bancos.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (gravata vermelha), durante reunião de bancada do partido em que foi formalizado o apoio do partido à candidatura de Hugo Motta à presidência da Câmara. Ao lado, o então presidente da Câmara, Arthur Lira - Pedro Ladeira - 28.out.2024/Folhapress

O aumento valeria exclusivamente para as instituições financeiras com maior lucro, os bancões. A emenda foi apresentada ao projeto do Executivo que isentava o IR para quem ganha até R$ 5.000 —a proposta mais importante para Lula.

O relator era Arthur Lira, aliado de Ciro e ex-presidente da Câmara. O aperto tributário com foco nos grandes bancos chamou atenção de pessoas envolvidas nas negociações em torno de uma saída para a fatia do Master que não seria absorvida pelo BRB e dependia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

A ofensiva foi uma retaliação aos banqueiros, que resistiam ao socorro com uso do fundo, que tem os grandes bancos como os maiores contribuintes.

A cena retrata o modus operandi dos operadores de Vorcaro no Congresso, tendo Ciro, ex-ministro de Jair Bolsonaro, como o grande anfitrião da festa.

Mesmo depois da apresentação da emenda para ampliar o valor do seguro do FGC, Vorcaro continuou usando o senador para colocar pressão total a favor do Master. Foi bem pago.

Na véspera do veto do BC à operação do BRB, líderes de partidos do Centrão, com destaque para o deputado Cláudio Cajado (PP), assinaram requerimento para acelerar a tramitação de um projeto que concedia ao Congresso o poder de destituir o presidente e diretores do BC.

Alvo da operação Compliance Zero da PF, autorizada pelo ministro André Mendonça, Ciro puxou a fila dos políticos no escândalo.

O medo de ser o próximo se instalou. No Senado, o silêncio é quase sepulcral. Ninguém quer se pronunciar e provocar uma guerra contra ele, que controla um partido poderoso. Melhor aguardar.

Se Mendonça, um dos derrotados no veto de Jorge Messias ao STF, mandar o senador usar tornozeleira eletrônica, o cenário muda.

Ódio dá ibope por causa da lógica de sobrevivência do mais forte, Suzana Herculano-Houzel- FSP

 Há tempos que não entro mais no poço de sujeira mental e ralo de tempo que viraram as tais redes sociais. Tal qual a vida, elas evoluem por auto-organização dentro dos limites do sistema, onde acontece aquilo que pode, não o que é "necessário" ou "melhor". Na vida, são moléculas e células que se auto-organizam, dadas as limitações da física e do que está escrito nos genes, que sempre varia um pouco, então novidades acontecem, e como o mundo é um lugar enorme, tem lugar para todos. Tem sistema nervoso? Tá ótimo. Não tem? Tá bom também. Pôs todas as energias num filho só? Funciona. Dividiu em milhares, dos quais só um punhadinho vai ter condições de seguir adiante? Funciona também.

As plataformas sociais, onde os elementos que se auto-organizam são os usuários, também começaram assim, onde tinha gosto e oportunidade para tudo, e cada um encontrava sua turma. Mas, ao contrário da vida, que não tem agente, os lordes das plataformas meteram o dedo, porque podiam, e, em nome da maximização do lucro, impuseram uma nova limitação: a lógica Darwinista da sobrevivência do mais apto, na forma de algoritmos que empurram para cima tudo o que já estava subindo sozinho.

Pessoa segura placa com desenho de cachorro e texto "Justiça por Orelha e para todos os animais!" em meio a multidão em manifestação urbana durante o dia.
Homem segura cartaz pedindo justiça pelo cão Orelha, que morreu após ser agredido a pauladas na praia Brava em Florianópolis (SC) - Alexandre Meneghini - 1º.fev.26/Reuters

Ao contrário da vida, onde continua existindo lugar para todo mundo justamente porque ninguém precisa ser o mais-mais para ter lugar ao sol e portanto a diversidade prevalece, nas plataformas sociais –que hoje incluem YouTube, cooptado como tal– impera a mesmice porque todo mundo é forçado a ver primeiro o que está dando mais ibope.

As redes poderiam ser um lugar razoável ainda assim, se o que desse ibope fosse bonito, construtivo, edificante, aquele tipo de coisa que vale nosso tempo e esforço de rolar tela. Mas não: o que mais dá ibope e engajamento é o que gera repulsa, indignação e ódio, então as redes, graças aos algoritmos de sobrevivência do mais forte, viraram um poço de sujeira. Por que a sujeira dá tanto ibope?

Tenho minha teoria: porque passar à ação exige motivação, que é aquela sensação gerada pelo cérebro de que o esforço vai valer a pena. Para o cérebro, usar energia mental para manifestar apoio e concordância não vale muito a pena, pois aquilo em que você acredita já está ali, dito na tela. Aos olhos dos circuitos que avaliam qual será sua próxima ação, seu esforço não terá grandes consequências; sua ação não vai mudar grandes coisas.

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Mas quando você discorda, o cérebro entende que o outro lado precisa ser iluminado pela sua sabedoria, e que agir para protestar vale o gasto de energia. E quanto mais ultrajante é o que os algoritmos botam na sua tela, mais motivação o cérebro encontra para agir em resposta, e mais rápido você se manifesta –que é exatamente o que os algoritmos, o "cérebro" do outro lado, usam para decidir o que os outros verão a seguir. O resultado inevitável desta lógica da riqueza-gera-riqueza, em vez da celebração da diversidade, é que o ódio impera nas redes sociais.

Há duas soluções evidentes. Uma é os lordes das plataformas abolirem a sobrevivência do mais apto-a-gerar-engajamento e voltarem a deixar a diversidade reinar.

Enquanto esse dia de São Nunca não chega, a outra solução está ao seu alcance: não dar seus neurônios, digo, ibope, para o ódio. Não há nada que o ódio deteste mais do que ser ignorado...

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