quinta-feira, 26 de março de 2026

Cláudio Marques - Cinema brasileiro está em crise porque não sabe pensar no público, FSP

 Cláudio Marques

Cineasta e diretor do Cine Glauber Rocha, em Salvador

Falar em crise do cinema brasileiro deve soar estranho à maioria, pois poucos dias atrás estávamos celebrando a carreira de "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho.

Um filme autoral que levou quase 3 milhões de espectadores às salas de cinema e teve quatro indicações ao Oscar. E, pouco mais de um ano atrás, "Ainda Estou Aqui", de Walter Salles, levou perto de 6 milhões de espectadores aos cinemas, além de ter ganhado um Oscar.

Poltronas do Cinesesc, em São Paulo - Adriano Vizoni/Folhapress

Tanto "O Agente Secreto" quanto "Ainda Estou Aqui" são exceções à regra em uma cinematografia desequilibrada e com forte crise de público.

No Brasil, uma quantidade considerável de filmes é produzida anualmente. Dados levantados pelo FilmeB apontam que, em 2025, 203 longas foram lançados no circuito comercial. Cerca de 55% dos longas que entraram no circuito comercial não foram vistos nem por mil pessoas em salas de cinema.

A maior parte dos filmes produzidos e lançados no país não foi apreciada. Trata-se de um mercado de cerca de R$ 3 bilhões, que acaba sendo desprezado pelo cinema brasileiro.

Para piorar, dada a grande quantidade de filmes produzidos —mais de 400 em 2025, ainda como resultado direto da Lei Paulo Gustavo e também do Plano Nacional Aldir Blanc—, muitos deles não se encaixam nem mesmo em festivais de cinema. Ou seja, muitos longas não são vistos por absolutamente ninguém.

Em tese, o dinheiro investido pelo poder público na produção dos filmes, via Fundo Setorial do Audiovisual, o FSA, deveria ser devolvido. Mas poucos conseguem ser rentáveis e o valor investido não retorna como deveria ao fundo.

São números ruins e que fragilizam o nosso desenvolvimento econômico e cinematográfico. Cineastas, produtores e distribuidores ficam frustrados com tais números do nosso cinema, mas não amargam prejuízo, pois a maioria dos filmes é 100% subsidiada.

Quem paga a conta das salas vazias para o filme nacional são os exibidores que, historicamente, foram negligenciados com relação às políticas estruturais do audiovisual nacional. Já fragilizadas, as salas de cinema não se recuperaram após a pandemia.

Caso as políticas públicas para a exibição tivessem sido pensadas junto à criação do FSA, nós estaríamos, neste momento, lutando em pé de igualdade com os streamings.

Algo foi desenhado nas gestões anteriores: um tímido PAR - Programa Adicional de Renda, o Recine e o Cinema Perto de Você, mas nada que pensasse e combatesse, de forma eficaz, os vazios nas salas para o cinema nacional. Reitero: existe um mercado, mesmo que pequeno, mas que não é desprezível.

No Brasil, não faltam bons filmes, cineastas, produtores, distribuidores e as salas de cinema estão espalhadas pelo país. Temos as condições de fortalecimento e mesmo criação de uma rede voltada ao cinema brasileiro com as salas já existentes. Falta seduzir o espectador, levá-lo ao cinema. O Ministério da Cultura, infelizmente, mesmo com bons nomes à frente, não vem demonstrando sensibilidade para atuar com relação ao tema. Não existem propostas ou pensamentos para um maior equilíbrio e ocupação do setor.

A política pública do audiovisual nacional está concentrada na produção e não na audiência (exibição). Falta um pensamento que organize todos os setores, criando uma política de desenvolvimento equilibrado para a indústria.

Fazer filmes sem pensar no público é um verdadeiro tiro no pé.

Sou favorável ao investimento público em cinema. Sou a favor de financiamento a filmes autorais que não necessariamente serão apreciados por públicos grandes. Sou a favor de que alguns filmes possam ter carreira em festivais, apenas, e não sejam necessariamente rentáveis no circuito comercial. Mas não dá mais para produzir tantos filmes para poucas pessoas verem.

É necessário que produtoras e distribuidoras participem do risco do negócio junto com os exibidores. Acredito ser importante que alguém —não o exibidor— pague a conta das salas vazias quando existe a obrigação de exibir filmes nacionais —cota de tela. Nesse sentido, o retorno do PAR para a exibição é urgente.

É preciso criar metas e definir onde queremos estar daqui a cinco, dez anos. Produzir, produzir, produzir sem uma lógica estruturada não nos levará a lugar algum. É importante criar um pensamento de crescimento sustentado para que os investimentos do estado façam sentido.

Países distintos desenvolveram modelos diferentes e bem-sucedidos. Na Coreia do Sul e na França, há um misto de investimento público e privado. Índia e Indonésia possuem modelos predominantemente privados de investimento. Em todos esses países, existe uma força do cinema local com uma participação significativa no market share.

É preciso encontrar uma forma de conquistarmos o nosso mercado e criarmos um audiovisual independente e fortalecido, sem que se perca o interesse pelo desenvolvimento artístico.

É necessário desenvolver grandes campanhas pelo filme nacional em salas de cinema, além de uma constante formação de público que passa pela alfabetização cinematográfica de professores e alunos. Cinema é uma forma de ver a vida por si só e não deve ser utilizado apenas para dar atenção às demais ciências e saberes.

É preciso encarar nossas fragilidades de frente. Antes que o pior aconteça e mais um ciclo do cinema nacional seja abruptamente encerrado.

Associação de magistrados critica decisão do STF que limita penduricalhos - FSP

 Richard Henrique

São Paulo

A AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) criticou a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que limita o pagamento de penduricalhos a juízes e membros do Ministério Público. Em nota divulgada nesta quinta-feira (26), a AMB cita "profunda discordância e preocupação com o julgamento".

"Não se trata apenas da definição de parâmetros futuros. A decisão altera, com efeitos imediatos, o regime remuneratório incidente sobre toda a magistratura", diz a nota.

Imagem do Supremo Tribunal Federal, um edifício moderno com uma estrutura de concreto e vidro. Na frente, há uma escultura de uma figura feminina e algumas pessoas caminhando. O céu está claro com algumas nuvens.
Fachada da sede do STF (Supremo Tribunal Federal), na Praça dos Três Poderes, em Brasília - Pedro Ladeira - 21.jun.24/Folhapress

A AMB diz que a magistratura já enfrenta uma defasagem remuneratória relevante, superior a 50%, e uma elevada carga de trabalho, com aumento da complexidade das demandas e criação de novos deveres funcionais por via administrativa.

"Causa perplexidade que a via que admite a criação de deveres não seja admitida também para a regulação de direitos. O julgamento tende a intensificar esse contexto de perda", afirma a nota.

Segundo a AMB, o julgamento envolve princípios estruturantes como a irredutibilidade de subsídios, a segurança jurídica e a proteção da confiança legítima. A entidade afirma ainda que não houve mecanismos para limitar os efeitos da decisão, medidas que o STF adotou em casos semelhantes.

A associação também diz que a decisão terá efeitos institucionais relevantes, podendo impactar a atratividade da carreira e a eficiência dos serviços jurídicos.

Na nota, a entidade destaca a licença compensatória, um dos penduricalhos que foram proibidos pelos STF. A AMB afirma que o benefício foi concebido nacionalmente pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça) como mecanismo de compensação por atividades extraordinárias.

De modo geral, as licenças compensatórias previam o direito a um dia de folga a cada três trabalhados em casos de acúmulo de funções, acervo processual ou trabalho extraordinário, em períodos como feriados e fins de semana, podendo ser convertidas em verba indenizatória, se não forem gozadas.

"O tema do enfraquecimento da magistratura transcende interesses corporativos. Diz respeito às condições institucionais necessárias ao adequado funcionamento do Poder Judiciário. É preciso definir o tipo de magistrado que se pretende manter e atrair para a carreira", diz a AMB

Quais penduricalhos estão proibidos?

O STF afirmou que outros penduricalhos, como licenças compensatórias e demais verbas indenizatórias ou auxílios previstos em decisões administrativas, resoluções, leis estaduais e até mesmo em leis dessas carreiras são inconstitucionais, devendo cessar imediatamente.

A título exemplificativo, os ministros elencaram parte dos pagamentos vetados para magistrados e procuradores. A seguir alguns deles:

  • Auxílios natalinos

  • Auxílio-combustível

  • Licença compensatória por acúmulo de acervo

  • Indenização por acervo

  • Gratificação por exercício de localidade

  • Auxílio-moradia

  • Auxílio-alimentação

  • Licença compensatória por funções administrativas e processuais relevantes

  • Licença compensatória de um dia de folga por três trabalhados

Quais penduricalhos estão permitidos?

Os ministros afirmaram que as verbas indenizatórias que a decisão prevê como permitidas estão todas previstas em lei. A soma desses pagamentos não poderia ultrapassar 35% do salário recebido pelo respectivo servidor. São elas:

  • Ajuda de custo em caso de transferência de vara ou comarca

  • Diárias

  • Promoção ou nomeação com alteração do domicílio legal

  • Pagamento por magistério

  • Gratificação pelo exercício em comarca de difícil provimento

  • Férias não gozadas, no máximo de 30 dias

  • Gratificação por exercício cumulativo de jurisdição (quando o juiz, por exemplo, atua em mais de uma vara)

  • Eventuais valores retroativos reconhecidos por decisão judicial ou administrativa anteriores a fevereiro de 2026