quinta-feira, 26 de março de 2026

Lula diz que brasileiros gastam muito com cachorros e que a China 'não deve ter esse problema', FSP

 Caio Spechoto

Brasília

O presidente Lula (PT) disse nesta quinta-feira (26) que brasileiros estão gastando muito com cachorros e que na China "não deve ter esse problema".

A declaração ocorreu durante visita do presidente a uma fábrica de automóveis em Anápolis (GO) onde a produção é uma parceria entre empresas do Brasil e da China –havia chineses no evento.

Cães ainda são consumidos como alimentos em algumas regiões da China, apesar de a prática ser cada vez mais rejeitada no país. Houve risos na plateia quando Lula disse que, no país asiático, não deveria haver problemas com gastos excessivos com cachorros.

O presidente deu a declaração enquanto falava sobre o endividamento da população, fenômeno que ele julga ser uma das barreiras para sua popularidade crescer em ano eleitoral.

Homem branco de cabelos e barba brancos veste terno preto, camisa branca e gravata azul escura com pontos brancos, usando fone de ouvido preto em evento formal.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia no Palácio do Planalto - Adriano Machado - 16.mar.26/Reuters

Ele mencionou diversas despesas, como compras de roupas pela internet, e disse que a soma de pequenos gastos compromete os salários. O presidente também classificou esse aumento de despesas como um costume dos tempos atuais.

"Na China não deve ter esse problema, mas aqui no Brasil nós gostamos muito de cachorro", disse o petista.

"Agora quem tem um cachorrinho tem que levar no dentista para cuidar da boca dele. Ninguém aceita que a gente dê mais resto de comida. Era fácil pegar resto da comida e colocar para o cachorro lá fora. Agora não, agora os cachorrinhos querem dormir com a gente", declarou o presidente da República.

"Tudo isso vai aumentando o sequestro dos nossos salários", afirmou Lula. O presidente disse que solicitou ao ministro da FazendaDario Durigan, a elaboração de propostas para reduzir o endividamento da população.

Folha mostrou na terça-feira (24) que o presidente avalia que o endividamento das famílias está afetando sua popularidade em ano eleitoral e que Lula quer mudanças nos juros do cartão de crédito. Ele disputará a reeleição em outubro e aparece nas pesquisas de intenção de voto tecnicamente empatado com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

No discurso desta quinta, o presidente não deu detalhes sobre qual providência está sendo estudada. Apesar disso, ele mencionou a possibilidade de uma campanha de comunicação para instruir trabalhadores sobre como gerir os próprios salários.

Lula afirmou que a economia do país vai bem, mas que há uma desconfiança na sociedade por causa das dívidas. Comparou a situação com jogos em que o time pelo qual se torce ganha jogando mal. "O time ganhou, mas alguma coisa está errada. Não deu o espetáculo que eu queria", ilustrou o presidente.

O chefe do governo também relacionou o endividamento das pessoas ao uso de celulares, uma vez que esses aparelhos facilitam a disseminação de propagandas e aceleram diversos processos de compra. Lula não tem celular, e frequentemente critica o uso constante desses telefones pela população.

Além disso, o petista mencionou meios de pagamento que substituem o dinheiro físico, como Pix e cartões de crédito.

"Quando tem uma nota de R$ 100, a gente não quer nem trocar, quer ficar com ela na carteira. Mas agora a gente não precisa mais de dinheiro. É tudo no tal do Pix. É tudo no cartão de crédito. A gente não vê. E quando a gente não vê o dinheiro, a gente gasta", disse Lula.

Ratinho Junior diz que desistir da eleição presidencial foi 'muito difícil' e foca sucessor no Paraná, FSP

 Catarina Scortecci

Curitiba

O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), afirmou durante coletiva de imprensa nesta quinta-feira (26) que a decisão que o levou a desistir da corrida à Presidência da República foi muito difícil e que "família e compromisso com os paranaenses" influenciaram o recuo.

"O PSD tinha três nomes que estavam sendo analisados internamente e tomei uma decisão muito difícil, não tenha dúvida. Eu estava muito animado em ser uma opção para o brasileiro", disse Ratinho Junior durante uma agenda oficial em Pato Branco, interior do Paraná.

"Obviamente que a decisão familiar, filhos, compromisso meu também com o estado, com os paranaenses, de ficar até o último dia do meu mandato, tudo isso pesou bastante", afirmou ele.

Homem de terno azul e camisa branca fala ao microfone em púlpito transparente. Flores brancas desfocadas ocupam a parte inferior da imagem. Fundo escuro com placa de saída de emergência visível.
O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), participou nesta quinta-feira (26) da inauguração de uma nova indústria de óleo e farelo de soja em Pato Branco - Geraldo Bubniak/Divulgação Governo do Paraná

O governador admitiu publicamente o interesse em participar das eleições ao Planalto no final de 2024 e, ao longo de 2025, trabalhou para entrar na disputa, inclusive viajando a outros estados para encontros com o empresariado. Ele divulgou à imprensa um comunicado sobre a desistência na segunda-feira (23).

Com a desistência de Ratinho Junior, os governadores Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás) seguem como pré-candidatos do PSD ao Planalto.

Durante a coletiva desta quinta, Ratinho Junior indicou ainda que o foco agora é tentar eleger um sucessor. "A ideia é fazer as entregas nos próximos meses e construir [a candidatura de] alguém que possa dar continuidade a este trabalho. Passar o bastão", disse ele.

No Paraná, o PSD ainda não decidiu quem concorrerá ao Palácio Iguaçu e tem tido dificuldades para encontrar um nome com condições de enfrentar nas urnas o senador Sergio Moro. O ex-juiz tem liderado as pesquisas de intenção de voto e se filiou ao PL nesta semana, ao lado do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), em um ato marcado por críticas ao PT do presidente Lula, pré-candidato à reeleição.

"Eu tenho muito medo que as brigas de Brasília venham a atrapalhar o Paraná. Nós conseguimos proteger o estado durante sete anos desta briga, que traz muito prejuízo para o Brasil. Minha função é fazer o escudo disso, proteger o paranaense", antecipou ele.

Até a filiação de Moro ao PL, a legenda integrava o grupo de Ratinho Junior no Paraná. Agora, lideranças do PL que seguem ao lado do governador articulam um movimento de desfiliação.

Dos 53 prefeitos do PL hoje no Paraná, ao menos 48 estão dispostos a deixar o partido para continuar no grupo de Ratinho Junior, segundo o deputado federal Fernando Giacobo, que se reuniu com os administradores locais nesta quinta, em Curitiba.

Giacobo renunciou à presidência do PL no Paraná logo após a filiação de Moro. Também deixou o partido. Nesta quinta, ele disse à Folha que havia um acordo entre PL e PSD referendado no ano passado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e que o grupo permanecerá unido em torno do nome que será escolhido por Ratinho Junior para disputar o Executivo estadual.

O deputado federal Filipe Barros, que assumiu o comando do partido no lugar de Giacobo, afirmou em nota que ele e Moro vão agora "dialogar com muita responsabilidade e respeito" com todos os prefeitos, vices e parlamentares. Barros é pré-candidato a senador na chapa de Moro.

Além do ex-juiz, outros dois nomes já foram lançados para a corrida ao governo do Paraná, o do ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB) e o do deputado estadual Requião Filho (PDT). O parlamentar é filho do ex-senador e ex-governador do Paraná Roberto Requião, que nesta quinta-feira (26) se lançou pré-candidato a deputado federal pelo PDT.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Só os mortos viram o fim da guerra, Rui Tavares, FSP

 VNo dia 8 de janeiro de 2020, de manhã bem cedinho, a Guarda Revolucionária iraniana disparou dois mísseis contra um avião ucraniano, abatendo-o e provocando a morte de todas as 176 pessoas a bordo.

Durante três dias o regime iraniano não admite o que se passou, alegando que o avião teria sofrido uma falha técnica; quando finalmente assume o que se passou, afirma que se tratou de um erro provocado pelo estado de tensão introduzido pelo assassinato do comandante da Guarda, Qassim Soleimani, cinco dias antes, em Bagdá, tentando assim fugir à sua responsabilidade ou pelo menos partilhá-la com Donald Trump, que ordenara o ataque.

Cratera grande em rua urbana com destroços e carrinho de supermercado tombado. Veículo em chamas ao fundo, com fumaça preta densa. Bombeiros e policiais no local, prédios modernos ao redor.
Local atingido por míssil iraniano em Tel Aviv - Tomer Appelbaum - 24.mar.26/Reuters

Estávamos então no último ano da primeira Presidência de Trump. Agora no segundo ano da sua (oxalá) última Presidência, o ataque de um míssil tomahawk estadunidense atingiu no passado dia 28 de fevereiro uma escola em Minab, no Irãmatando mais de 160 pessoas, a maioria das quais meninas entre os 7 e 12 anos.

Durante praticamente uma semana, Trump evitou falar do assunto; quando o fez, enjeitou responsabilidades: "Com base no que vi, isso foi feito pelo Irã". Nos dias seguintes, continuou a insistir que "outros países também têm tomahawks". Quando uma investigação concluiu que o míssil era dos EUA, Trump recusou-se a comentar o relatório: "Não tenho conhecimento disso".

Do ponto de vista do direito internacional, ambos os casos são inequívocos. Mesmo tendo ambos sido erros, não deixa de haver responsabilidade moral e criminal, uma vez que, ainda que em situação de tensão ou guerra, há obrigação de tomar medidas para minimizar o erro ou garantir que os ataques se limitam a alvos militares ou que não afetam desproporcionadamente civis.

Tanto os responsáveis iranianos como os estadunidenses poderiam acabar julgados pelo Tribunal Penal Internacional, se não se desse o caso de ambos os países se recusarem a assinar o Estatuto de Roma que o rege. O direito existe, mas não pode ser aplicado por quem se nega a aceitar sua jurisdição.

O caso do avião levou a grandes manifestações contra o regime dos aiatolás, que foram severamente reprimidas como de costume. Houve um julgamento nacional que acabou a culpar o elemento mais baixo da escala de comando pela morte das 176 pessoas, das quais uma grande maioria iranianos e canadenses de origem iraniana.

No caso da escola, não há sinais de que nos EUA estejam em preparação grandes manifestações comparáveis às que se realizaram antes da Guerra do Iraque. O histórico de casos semelhantes sugere que o caso acabará com uma investigação interna no Pentágono que, no máximo, determinará que houve um "erro não intencional" e decidirá sanções disciplinares a operacionais intermédios.

Entre a morte de 176 pessoas num avião e a morte de 165 pessoas numa escola, Trump foi reeleito com promessas de ser o "presidente da paz" que não levaria os EUA para novas guerras no Oriente Médio.

Escreveu Erich Maria Remarque: "Sobre a guerra, na verdade, só os mortos deveriam testemunhar; eles é que a fizeram até ao fim. Mas têm de se calar."

Desgraçadamente, sobre a guerra são os vivos que falam sem parar, e pouco dizem que ajude.