terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Brás, Liberdade e Bom Retiro, FSP

 Marcos Nogueira

SÃO PAULO

Todo estudante de São Paulo, em algum ponto da vida escolar, topa com "Brás, Bexiga e Barra Funda" –uma coleção de crônicas sobre a vida dos imigrantes italianos, lançada em 1927 por Antônio de Alcântara Machado.

É um livro que o autor insiste em dizer que não é um livro, mas um jornal. Iconoclastia e idiossincrasia típicas dos modernistas paulistanos, um tanto tontas para nossos dias, mas tá valendo.

De qualquer modo, Alcântara Machado era um Voltaire de Souza de cem anos atrás. Com frases curtas e diálogos meio cinematográficos, descreve o cotidiano daqueles estrangeiros que transformavam profundamente a cidade de São Paulo, em especial nos três bairros operários que dão título à obra.

Lula apimentada em bar coreano do Bom Retiro - Keiky Andrade/Folhapress

A São Paulo dos anos 20 do século 20 ainda mora entranhada na maçaroca que é a cidade dos anos 20 do século 21. Eu arrisco afirmar que a nossa essepê, apesar de mais escassa em esperança, é mais interessante do que a Pauliceia da semana modernista. É outro 22, e haverá muitos outros.

No começo do século passado, São Paulo apenas engatinhava na diversidade cultural –e, por tabela, gastronômica. Tínhamos muitos italianos, alguns outros europeus e um grande contingente de japoneses, que ainda causavam estranheza e reações da mais escandalosa xenofobia.

O que temos agora é um painel de culturas e comidas imensamente mais variado –de estrangeiros e dos migrantes domésticos que vieram no decorrer de todos esses anos.

Legal é que o miolo dessa diversidade cultural e gastronômica continua nas áreas ao redor do centro da cidade. Os bairros mais bacanas para mergulhar nesse caleidoscópio paulistano são Brás (de novo), Bom Retiro e Liberdade.

Sim, eu escrevi "mergulhar nesse caleidoscópio paulistano". Aceite.

O Brás, velho reduto de italianos, se expande para o Pari e o Canindé com sírios, palestinos, chineses e, principalmente, bolivianos. A feira da praça Kantuta, com espetinhos de coração de boi e saltenhas flamejantes, é o melhor programa pouco óbvio para quem não se importa com ar-condicionado.

O Bom Retiro, que já foi italiano e judeu, hoje é predominantemente coreano. A comunidade, antes bem fechada, está o que há de mais moderno e pop. No Bonra, você come churrasco coreano feito com um braseiro no meio da mesa. Sai andando na rua com o tal de corn dog, um picolé de salsicha. Vai a um bar de jovens engomados que ouvem K-Pop –e lá pode pedir, sem causar espanto, uma sopa de larvas de bicho-da-seda.

O Bom Retiro também é muito chinês e paraguaio. Segue sendo judaico e grego –lá ainda existe o lendário Acrópoles, onde o freguês escolhe a comida na cozinha.

A Liberdade, bairro mais central de todos, colado no traseiro da catedral da Sé, é uma arapuca turística que não para de surpreender.

Toda visita à Liberdade tem um lugar novo, uma portinha suspeita pedindo para ser explorada. Tem chineses de todos os cantos (inclusive do Cantão) e japoneses que não vendem sushi: vendem lámen, udon, tempurá, comida de Okinawa, comida de Hokkaido.

Tem restaurante filipino, restaurante afegão, restaurante indiano, tailandês. Se você desce a rua dos Estudantes até o Glicério, topa com portinhas que vendem comida haitiana.

São Paulo não é a capital mundial da gastronomia, como sonha ser. Mas é um lugar em que a mistureba –não vou escrever "caldeirão de culturas"... acho que escrevi– meio que compensa a feiura. Acho.

Odeio amar esta cidade. E vice-versa. Quem vive nesta delícia de inferno sabe bem do que estou falando.

Pedro Hallal A impunidade é o problema, FSP

 A coluna de hoje utiliza, apenas a título de exemplo, um fato ocorrido nos últimos dias: o Ministério da Saúde publicou um documento oficial afirmando que há evidências científicas em favor da cloroquina contra Covid-19 e que não há evidências científicas em favor da vacina contra Covid-19. Ressalto que o caso serve apenas como exemplo, porque no meio científico, não há qualquer dúvida que são duas mentiras. Por essa razão, não vou gastar espaço da coluna repetindo para os leitores que cloroquina não ajuda em nada contra Covid-19 e que a vacina já salvou milhões de vida ao redor do mundo.

A coluna de hoje é sobre as razões pelas quais essas mentiras foram incluídas no documento.

Profissional de saúde com embalagens de sulfato de hidroxicloroquina, azitromicina e difosfato de cloroquina
Profissional de saúde com embalagens de sulfato de hidroxicloroquina, azitromicina e difosfato de cloroquina - Ueslei Marcelino - 5.jun.20/Reuters

Rios de dinheiro público foram usados para produzir cloroquina. Isso mesmo: os impostos que foram recolhidos como resultado do seu suor, do meu suor, foram usados para produzir um medicamento que não serve para nada no combate ao coronavírus. Se esse mesmo dinheiro tivesse sido usado para distribuir máscaras para a população carente, para comprar testes e criar uma política decente de testagem, ou para pagar mais aos profissionais de saúde que estão na linha de frente, alguns dos seus familiares e amigos que perderam a vida para a Covid-19 ainda estariam aqui conosco.

O presidente é o grande líder do movimento anti-vacina no Brasil, desde os primeiros meses da pandemia. Foi o presidente que chamou as vacinas de experimentais, discriminou a vacina produzida pela Butantan, insinuou que os vacinados poderiam virar jacarés, atrasou a compra de vacinas e agora posicionou-se contra a vacinação de crianças.

Em ambos os casos, o governo federal escolheu o lado errado e perdeu. Com poucos meses de pandemia, os estudos experimentais já confirmaram que a cloroquina não serve para nada no tratamento da Covid-19. A seguir, centenas de estudos confirmaram que as vacinas, desenvolvidas em tempo recorde, reduzem infecções, hospitalizações e mortes.

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Ainda havia uma saída menos vexatória para o governo. Nunca mais falar em cloroquina e se aproveitar da cultura vacinal do país para tentar assumir parte dos méritos pelo sucesso da campanha de vacinação.

Mas o governo resolveu dobrar a aposta, seguir mentindo sobre cloroquina e seguir contrário à vacinação.

Isso só acontece pela certeza da impunidade.

Em qualquer país sério, o documento oficial publicado pelo Ministério da Saúde na semana passada geraria pelo menos uma dezena de demissões e, depois de uma investigação, algumas prisões.

É pela certeza de que nada disso vai acontecer que o Ministério da Saúde tem a coragem de publicar aquela tabela.

É pela certeza de que nós, brasileiros e brasileiras pagadores de impostos, já estamos tão acostumados com corrupção e crimes cometidos diariamente por nossos representantes, que não colocaremos a pressão necessária para que as instituições façam a sua parte.

É pela certeza de que as instituições, ou estão corrompidas, ou estão cansadas de investigarem os crimes e serem desmoralizadas por decisões políticas posteriores.

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia os responsáveis pelos experimentos macabros com medicamentos descobertos na CPI da Covid-19...

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia os empresários e políticos que negociaram propina na compra de vacinas e modificaram a legislação para viabilizar a corrupção...

Enquanto o Brasil não colocar na cadeia quem, ao negar à ciência, é responsável por milhares de mortes por Covid-19...

Seguiremos vendo bizarrices como o tal documento do Ministério da Saúde.

A impunidade gera uma sensação de invencibilidade nos criminosos.


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

STJ convoca sessão extraordinária sobre trabalho presencial, Frederico Vasconcelos, FSP

 O Superior Tribunal de Justiça (STJ) publicou convocação para uma sessão extraordinária do Pleno, às 16h do dia 1º de fevereiro, para discutir o retorno das atividades presenciais no tribunal.

A sessão será realizada de forma híbrida e terá início logo após a sessão da Corte Especial que marca o início do ano judiciário no STJ. O ato foi assinado pelo vice-presidente, ministro Jorge Mussi, no exercício da presidência, após diálogo com o presidente Humberto Martins, que está em férias.

Sessão extraordinária do STJ sobre trabalho presencial
Edital de convocação para sessão extraordinária sobre atividades presenciais no STJ. No destaque, ministros Jorge Mussi, no exercício da presidência, e Humberto Martins, presidente em gozo de férias - Sérgio Amaral e Gustavo Lima/STJ

Como este Blog antecipou, ministros do STJ estão preocupados com o aumento de novos casos de Covid e dificilmente será retomado o trabalho presencial no início de fevereiro.

Algumas turmas já decidiram que continuarão a fazer as sessões remotas, como é o caso das Terceira e Sexta Turmas. Outras estão fazendo reuniões para deliberar a respeito. Os gabinetes estão se adequando e prorrogando o atendimento remoto.

Jorge Mussi esclareceu que os presidentes de colegiados do STJ – Turmas e Seções - possuem autonomia para determinar medidas de contenção à Covid-19 na organização das sessões de julgamento.

O retorno das atividades presenciais na corte – entre elas, as sessões de julgamento –, foi definido pelo Pleno do STJ no dia 21 de outubro. Na ocasião, os ministros citaram a queda do número de infectados e mortos pela Covid-19 como fatores que permitiriam a medida. Após a decisão, o tribunal publicou a Resolução STJ/GP 33/2021.

Após diálogo com Humberto Martins e demais ministros, Jorge Mussi considerou adequada a convocação da sessão extraordinária para nova deliberação sobre o assunto.

Uma das consequências da eventual manutenção do trabalho remoto será o adiamento da votação das listas com candidatos a duas vagas de ministros no STJ, e dos nomes indicados para as vagas do novo Tribunal Regional Federal, em Minas Gerais, o TRF-6.

O STJ já havia decidido que as votações dessas listas deveriam ocorrer presencialmente.