terça-feira, 24 de dezembro de 2013

‘Pagamento de verba atrasada é legítimo', diz novo presidente do TJ-SP


José Renato Nalini afirma que benefícios recebidos por magistrados não são extraordinários

23 de dezembro de 2013 | 22h 19

Fausto Macedo - O Estado de S. Paulo
São Paulo - Corregedor-geral do Tribunal de Justiça paulista, o desembargador José Renato Nalini assumirá no dia 2 de janeiro o comando da mais alta corte do Estado com um discurso que mescla combate "sem tréguas" à corrupção e defesa dos benefícios pagos aos magistrados. Para ele, extras recebidos por colegas são legítimos. "O pagamento de verbas atrasadas e legítimas não deveria ser considerado extraordinário", diz o novo presidente do TJ.
Novopresidente do TJ-SP toma posse em 2 de janeiro - Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão
Novopresidente do TJ-SP toma posse em 2 de janeiro
Entre 2006 e 2010, um bloco de 41 magistrados recebeu quantias superiores a R$ 100 mil em benefícios. Foram depositados R$ 7,13 milhões nas contas de juízes e desembargadores por férias e licenças-prêmio não tiradas a seu tempo. Alguns tiveram seus contracheques turbinados em mais de R$ 1 milhão. Eles receberam antecipadamente, à frente de outros credores, procedimento que abriu forte crise na instituição.
"Na medida do possível pretendo continuar a saldar débitos para que o público interno, satisfeito com a administração, invista no desempenho da função primordial da Justiça: solucionar os conflitos", afirma Nalini, que critica a atual situação de parte do Judiciário paulista, analisada por ele de perto nesse período de dois anos em que ocupou o cargo de corregedor. "Vi uma estrutura carcomida."
Confira a entrevista:
O sr. pretende implementar uma agenda de transparência no tribunal?Sim. A transparência é valor republicano que precisa ser levado a sério. Sigilo é a exceção, publicidade, a regra. Afinal, um serviço mantido com dinheiro do povo precisa ser aberto a verificações, disponibilizar as informações para que todos tenham a certeza de que o dispêndio é conveniente e oportuno, além de legítimo.
A gestão que o sr. vai suceder ficou marcada por pagamentos extraordinários a magistrados e servidores. O sr. vai dar sequência a esse modelo?O pagamento de verbas atrasadas e legítimas não deveria ser considerado extraordinário. A minha intenção seria ‘zerar’ o passivo de atrasados, que gera insatisfação nos credores e representa razoável parcela do tempo subtraído à atividade-fim do Judiciário: resolver problemas. Na medida do possível, pretendo continuar a saldar débitos para que o público interno, satisfeito com a administração, invista no desempenho da função primordial da Justiça: solucionar os conflitos.
Como alcançar a autonomia orçamentária?A autonomia financeira, embora assegurada na Constituição desde 1988, ainda não foi implementada. Em outros Estados o total dos emolumentos, remuneração do setor extrajudicial, os antigos ‘cartórios’, é todo destinado ao funcionamento do Judiciário. Em São Paulo ainda não. É um passo inadiável. Mas é preciso convencer os demais Poderes de que o ‘custo Brasil’ também resulta de um Judiciário que não consegue vencer sua insuperável carga de trabalho. É urgente convencer a sociedade de que a Justiça está a serviço dela e que todos têm responsabilidade por aparelhá-la e provê-la dos recursos necessários.
Como vai proceder se o Conselho Nacional de Justiça fizer inspeção no TJ?Não pode ser outra a postura senão abrir as portas do TJ ao CNJ, com o qual pretendo ter boas relações, como já ocorreu na Corregedoria.
Por que a Justiça tem déficit tão grande?Após a Constituição Cidadã de 1988, a população redescobriu a Justiça. Hoje todos litigam. São 93 milhões de processos para uma população de 200 milhões de pessoas. É como se todos estivessem em litígio. Há um excesso que precisa ser administrado, sob pena de se converter o Brasil num imenso tribunal, pois todas as questões foram judicializadas. Várias frentes devem ser simultaneamente atacadas: conferir eficiência ao serviço, adotar gestão estratégica mais proativa, estimular a conciliação, a mediação e todas as demais alternativas de solução de conflitos que prescindam do sofisticado equipamento judicial. É também urgente desjudicializar tudo o que não é conflituoso. O exemplo mais escancarado é a cobrança de dívida do governo: as execuções fiscais representam 60% do serviço em São Paulo. Não constituem controvérsia, senão atuação administrativa. O juiz existe para decidir conflito, não para cobrar dívida do Estado e dos municípios.
Aponte três mudanças que faria na Lei Orgânica da Magistratura.Muito pouco para uma lei que deriva do famigerado ‘pacote de abril’, a Emenda Constitucional 7/77, do autoritarismo. Difícil conceber que o fruto do arbítrio tenha sido recepcionado pela Constituição Cidadã. Excluiria vedações dos incisos II e III do artigo 36, que impedem o juiz de oferecer sua experiência e de se manifestar como qualquer cidadão sobre julgamentos rumorosos. O juiz não pode perder sua cidadania. Essa neutralidade asséptica absoluta simplesmente não existe. É preciso reconhecer que o ser humano juiz leva sua história, suas circunstâncias, formação, experiência e até suas idiossincrasias para todo processo.
O sr. é a favor de 60 dias de férias para juízes?Sou favorável, embora reconheça a polêmica. Juiz que tem por matéria-prima a miséria do convívio humano, absorve boa parte da angústia no seu cotidiano. Outros países têm até previsão do ‘ano sabático’ para o magistrado. Ele pode passar até um ano a estudar, a se fortalecer intelectual e espiritualmente, depois de certo período de atuação. O triste é que as férias não são fruídas, senão convertidas em pecúnia para suprir a defasagem remuneratória. Há quanto tempo a magistratura está sem reajuste compatível com o custo de vida?
O que dizer a quem aguarda longos anos para ter justiça e nunca tem?A população é paciente e resignada. Se formos pensar em 93 milhões de processos e no modelo de quatro instâncias, que leva as lides a perdurar por anos a fio, até que não existem manifestações maiores de irresignação. A situação chegou a um ponto em que não é possível evitar profundas reformas estruturais. Elas estão germinando e outras a caminho.
O que está errado na Justiça?Errado nem seria a palavra adequada. Defeitos que precisam ser enfrentados: o excessivo formalismo, a burocracia, a resistência a se liberar do suporte papel, as inúmeras possibilidades de reapreciação do mesmo tema, sob múltipla convivência de caótico sistema recursal. É muito adequada a atual preocupação com a redução do suporte papel, a otimização de praxes e estratégias, disseminação de uma cultura de compromisso com o resultado. Motivar o quadro pessoal a se convencer de que a Justiça pode ser melhor se cada um de nós oferecer o seu melhor é chave mágica para a mudança de atitudes.
Como combater a corrupção?Atuando sem trégua. Todo conjunto humano tem suas fissuras. Nós falamos sempre em corrupção e contemplamos o corrupto. Mas a prática exige também o corruptor. Este em regra quer permanecer imune. Aliás, é muito difícil conseguir que alguém deponha em desfavor de alguém considerado corrupto. Trazem os boatos, pretendendo que se aja de ofício, sem provocação e sem provas. Isso torna difícil localizar a corrente da contaminação. Conclama-se a responsabilidade cidadã de todos para que a corrupção seja ao menos atenuada, já que eliminada é mais difícil.
Como corregedor o que viu nas comarcas e fóruns?Vi uma estrutura carcomida em grande parte. Falta de estrutura, falta de pessoal, falta de perspectivas. Mesmo assim, encontrei gente entusiasmada. Gente que acredita em vocação. Faz justiça como verdadeira missão. O maior patrimônio do Judiciário é seu pessoal. Por isso é que um ponto insuscetível de se transigir é o prestígio e a valorização das pessoas que fazem a Justiça. Um Poder Judiciário é um conjunto de pessoas animadas a resolver problemas alheios. Se essas pessoas se imbuírem dessa consciência, tudo poderá ser diferente sem as profundas reformas estruturais que nunca vieram e que a República ainda está a dever ao povo brasileiro.
A gestão que está de saída entrou em atrito sem precedentes com o Ministério Público porque tentou desalojar os promotores de 58 fóruns. O sr. vai revogar ou manter essa medida?Não tive acesso direto ao problema. Em tese, o interesse do Ministério Público é conseguir autonomia, nem sempre possível se preservada essa situação antiga, dos tempos em que a instituição não ganhara a relevância que o constituinte de 1988 a ela conferiu. Mas não sou inflexível, fui promotor durante quatro anos, respeito o MP e acredito no diálogo. Vamos ver o que encontro quando tomar posse.
Os advogados reclamam do processo judicial eletrônico e das revistas pessoais a que são submetidos para entrar no Palácio da Justiça.O processo eletrônico é irreversível. Não consigo assimilar a necessidade de arquivamento eterno de papéis, os processos findos, se nós mesmos em breve seremos pó. O suporte papel deve ser reduzido ao mínimo e, se possível, desaparecer. Quanto às revistas, prometo que as coisas vão mudar.
A atuação do STF tem sido marcada por um ativismo que, muitas vezes, é taxado de "judicialização da política". O TJ mandou parar a tramitação de um projeto na Assembleia na semana passada. É uma tendência?Não é ativismo judicial, senão a resposta do Judiciário às questões apresentadas por sociedade cada vez mais litigante. A dificuldade na obtenção de consenso parlamentar obriga a Justiça a enfrentar temas que deveriam ser anteriormente solucionados pela vontade da lei. O juiz não age de ofício, não pode deixar de apreciar as demandas, pois existe o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A festa cristã - PAULO GUEDES


O GLOBO - 23/12
A Igreja Católica denuncia a amoralidade e o materialismo pelo vazio espiritual da moderna civilização. A decomposição das famílias, a violência, a corrupção, as drogas, a dissolução dos costumes e a falta de solidariedade com os menos afortunados seriam sintomas de um mundo sem fé.
"Ao lado do racionalismo grego, nada influenciou tanto a história do Ocidente quanto o cristianismo", registra o filósofo Karl Popper. "O cristianismo foi o principal ingrediente do pensamento europeu. Mesmo sob ataque, manteve seus críticos em sua órbita. São ainda condenados a esgrimir com a ética e a mentalidade cristã até mesmo os ateus", observa o historiador Fernand Braudel. Humanistas prisioneiros de métodos científicos, desamparados pela fé, celebram também com o Papa Francisco "o Natal como anúncio de alegria, esperança e ternura".

O historiador Paul Johnson argumenta que "a ascensão cristã não foi acidental, mas sim o atendimento de uma ampla, urgente e mal formulada necessidade de um culto monoteísta no mundo greco-romano. As divindades tribais não forneciam mais explicações satisfatórias para uma sociedade cosmopolita em expansão, com crescentes padrões de vida e pretensões intelectuais". Era a versão mediterrânea da globalização derrubando deuses locais.

O mesmo pode ser dito da contaminação viral das ideias socialistas. A "morte" de Deus e o "desencantamento" do mundo exigiram uma nova religião secular e universal. O marxismo e suas pretensas bases científicas revelaram-se não apenas um formidável equívoco intelectual mas também um trágico experimento político, social e econômico. Mas disseminaram-se por seu apelo a nossos ancestrais instintos de solidariedade e altruísmo, heranças da moralidade dos pequenos bandos e das grandes religiões.

Pois, afinal, "a predisposição à crença religiosa é a mais complexa, poderosa e provavelmente irremovível força da natureza humana", considera o biólogo Edward Wilson.

Por outro lado, apesar de criticados por sua impessoalidade e incompreendidos pelas massas, os mercados globais formam uma extensa rede de cooperação social abrangendo bilhões de indivíduos.

"Nossas dificuldades resultam de que precisamos ajustar nossas vidas, pensamentos e emoções a esses dois mundos diferentes", diagnostica o economista Friedrich von Hayek.

Ponto de virada - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 23/12

As palavras não têm culpa do uso que fazemos delas. O ano de 2013 passou uma flanela na palavra que era associada a esquerdismo infantil nos Estados Unidos: desigualdade. Os Estados Unidos hoje têm a mais alta disparidade de renda entre os países desenvolvidos.

Nova York se tornou o laboratório do diálogo, impulsionado pela campanha improvável do homem que toma posse na prefeitura no dia 1o de janeiro. O tabu quebrado por Bill de Blasio está se espalhando, de eleições municipais a discursos presidenciais. A nova prefeita da cidade de Rochester se elegeu plagiando o refrão de campanha do nova-iorquino, o Conto das Duas Cidades, que, por sua vez toma emprestado o título homônimo de Charles Dickens. Progressistas começam a sair do armário e a debater distribuição de renda.

Recebi uma carta-convocação da atriz Cinthia Nixon, de, ó ironia, Sex and the City. Ela não propõe que todos os nova-iorquinos possam comprar sapatos Manolo Blahnik. Está pedindo adesões à iniciativa UPK, a plataforma que ajudou a eleger de Blasio, para estender acesso à educação pré-escolar a todas as crianças de Nova York. O programa precisa ser financiado com um aumento de 4% no imposto de quem ganha mais de meio milhão de dólares por ano e, há uma década, teria sido ridicularizado por estas bandas.

Barack Obama escolheu o tema desigualdade para o seu mais importante discurso de fim de ano. Mas 30 anos de estigma do termo tratado como bastardo ainda se fazem sentir. Dois autores, auto-investidos com a tarefa de manter o Partido Democrata difícil de distinguir da oposição republicana, publicaram um manifesto no Wall Street Journal alertando que o debate sobre a desigualdade será um beco sem saída para o futuro político do partido.

Bill de Blasio é acusado de ingênuo e seus críticos lembram que, na economia globalizada, uma cidade, ainda que seja Nova York, não pode combater a disparidade social. É difícil imaginar que ele seja obtuso a ponto de pensar que pode fazer desta metrópole uma bolha na contramão da economia internacional.

Mas a economia, global ou local, é produto de um conjunto de regras e regulamentos, do salário mínimo regional aos impostos sobre ganhos de capital. Um argumento favorito da direita é de que combater a desigualdade é populismo, promoção de igualdade de resultados. Mas o debate é sobre a diferença de oportunidades. Ninguém há de contestar que uma família americana pobre ou de classe média baixa hoje tem muito mais chances de colocar seus filhos numa dilapidada escola pública e assim selar a sorte deles num futuro radicalmente transformado pela tecnologia.

Um novo documentário, Inequality for All (Desigualdade para Todos), que recomendo e vai estar disponível em DVD no começo de janeiro, traça a marcha da tendência com a clareza típica de seu narrador, o renomado economista Robert Reich, ex-Secretário do Trabalho do governo de Bill Clinton e professor da Universidade da California, em Berkeley. Reich é autor de 13 livros. O título do último, Beyond Outrage (Além da Indignação) não deixa dúvidas sobre o que pensa do fato de que a disparidade de renda nos Estados Unidos chegou ao auge em duas datas historicamente relacionadas: 1928 e 2007, vésperas das duas maiores recessões do último século.

O documentário dirigido por Jacob Kornbluth não é uma cantilena de vítimas e demonização. Argumenta que as duas origens mais citadas da desigualdade, a globalização e a tecnologia, não precisam ser uma sentença de morte para a classe média. Sem classe média, não teria havido a prosperidade americana do pós-guerra da qual o mundo também se beneficiou. Reich diz que a elite americana cruzou os braços e passou a se concentrar em evitar perdas com a globalização, o que facilitou a emergência da indústria financeira fora de controle.

A mídia aqui saiu da torcida incondicional e passou a divulgar com mais frequência fatos como este: nos três anos em que os Estados Unidos começaram a sair da grande recessão, 95% dos ganhos de renda foram para 1% da população.

Se o caro leitor estiver em Manhattan comprando uma camiseta de US $ 5 neste Natal, faça uma pausa para pensar o seguinte: o salário do vendedor, que continua a cair, apesar do aumento de sua produtividade, é subsidiado por esta colunista. O imposto que pagamos é gasto com vales refeição do governo federal e assistência médica na emergência de hospitais sustentados pela prefeitura. As corporações reduziram de tal forma o salário e os benefícios que o governo precisa ajudar a manter os trabalhadores alimentados e de pé para vender a camiseta.

O prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz publicou ontem um artigo no New York Times argumentando que a desigualdade gera desconfiança no sistema, enfraquece a economia e acaba por erodir a democracia.

Vista a sua camiseta mas não deixe de vestir também a ideia de que algo pode mudar.