domingo, 22 de dezembro de 2013

Qualidade da educação traz crescimento - SAMUEL PESSÔA


FOLHA DE SP - 22/12

Subestimar a importância da educação para o crescimento é uma constante no Brasil, principalmente na esquerda


Esta é a terceira coluna que trata do tema da educação e crescimento. A importância do assunto, para mim, está no fato de que há uma percepção bem estabelecida por diversos pensadores brasileiros de que a educação é mais resultado do crescimento do que causa.

Somente para mencionar o mais influente de todos, esse era certamente o entendimento de Celso Furtado. Na sua obra, em mais de 30 títulos publicados ao longo de mais de quatro décadas sobre o subdesenvolvimento brasileiro e latino-americano, não há nenhuma menção à importância da educação para o crescimento.

Assim, subestimar a importância da educação para o crescimento é uma constante no pensamento econômico brasileiro, em particular para os economistas com uma visão à esquerda.

Na primeira coluna mostrei como a forte associação entre maiores salários e maiores níveis educacionais é causal. Mais educação dota o trabalhador de habilidades que elevam a sua produtividade e, consequentemente, elevam o salário.

Na coluna seguinte abordei as dificuldades de associar, em termos agregados, elevações da escolaridade com crescimento. O motivo é a dificuldade de obter bases de dados amplas, para diversos países e variados pontos no tempo, dos anos de escolaridade da população trabalhadora.

A academia anda. Hoje já temos bases de dados relativamente boas para diferenças de qualidade da educação. Qualidade entendida com o desempenho dos alunos em testes padronizados de matemática, leitura e ciências.

Com essas novas bases de dado de boa qualidade, observa-se uma associação fortíssima entre qualidade do sistema educacional e crescimento econômico.

Finalmente, há inúmeras evidências que sugerem que a relação entre qualidade da educação e crescimento econômico é causal. A melhora da qualidade causa aceleração do crescimento, e não o oposto. Os estudos utilizam diversas técnicas econométricas diferentes, que conseguem superar a grande dificuldade estatística de estabelecer nexos causais.

Em particular, há evidências de que o crescimento econômico e a consequente expansão da renda não são importantes para melhorar significativamente a qualidade da educação.

Recentemente meu colega Marcelo Miterhof, que ocupa este espaço às quintas-feiras, levantou o que seria uma interessante evidência sugerindo causalidade reversa, contrária à evidência no parágrafo anterior.

O recente relatório da OCDE com os resultados do Pisa (Programme for International Student Assessment) mostrou que boa parte do avanço nos resultados dos estudantes brasileiros deve-se à melhora das condições socioeconômicas das famílias. Seria, portanto, segundo Miterhof, evidência de que melhora educacional é mais consequência do que causa do crescimento.

Ao menos dois motivos sugerem que essa argumentação é muito pouco convincente.

Primeiro, um dos elementos que explicam o ganho de renda das famílias e, consequentemente, das condições socioeconômicas é a melhora educacional dos pais. Como mostrei na coluna do dia 1º, há sólida evidência de que maior educação causa ganhos de renda.

O segundo motivo é que uma das variáveis mais importantes para caracterizar condições socioeconômicas é a educação dos pais.

Há sólida evidência de que a educação dos pais, principalmente a da mãe, está associada ao melhor desempenho dos filhos na escola. Sabe-se que pais mais educados conseguem construir ambiente doméstico que favorece o desempenho escolar dos filhos.

Ou seja, o resultado é inverso. Há efeitos positivos adicionais da educação sobre o crescimento além dos impactos diretos da educação sobre a produtividade da pessoa na sua atividade profissional. O esforço educacional de uma sociedade também contribui para que se melhore a qualidade dos pais.

Como o que importa para a relação entre crescimento e educação é a qualidade, esse efeito indireto de difícil mensuração deve ser muitíssimo importante.

Utopias e distopias - LUIS FERNANDO VERISSIMO


O GLOBO - 22/12

O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse tendência à tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam advogados



Todas as utopias imaginadas até hoje acabaram em distopias, ou tinham na sua origem um defeito que as condenava. A primeira, que deu nome às várias fantasias de um mundo perfeito que viriam depois, foi inventada por sir Thomas Morus em 1516. Dizem que ele se inspirou nas descobertas recentes do Novo Mundo, e mais especificamente do Brasil, para descrever sua sociedade ideal, que significaria um renascimento para a humanidade, livre dos vícios do mundo antigo. Na Utopia de Morus o direito à educação e à saúde seria universal, a diversidade religiosa seria tolerada e a propriedade privada, proibida. O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse alguma tendência para a tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam a existência de advogados. Mas para que tudo isto funcionasse Morus prescrevia dois escravos para cada família, recrutados entre criminosos e prisioneiros de guerra. Além disso, o príncipe deveria sempre ser homem e as mulheres teriam menos direitos do que os homens. Morus tirou o nome da sua sociedade perfeita da palavra grega para “lugar nenhum”, o que de saída já significava que ela só poderia existir mesmo na sua imaginação.

Platão imaginou uma república idílica em que os governantes seriam filósofos, ou os filósofos governantes. Nem ele nem os outros filósofos gregos da sua época se importavam muito com o fato de viverem numa sociedade escravocrata. Em “Candide”, Voltaire colocou sua sociedade ideal, onde haveria muitas escolas mas nenhuma prisão, em El Dorado, mas “Candide” é menos uma visão de um mundo perfeito do que uma sátira da ingenuidade humana. Marx e Engels e outros pensadores previram um futuro redentor em que a emancipação da classe trabalhadora traria igualdade e justiça para todos. O sonho acabou no totalitarismo soviético e na sua demolição. Até John Lennon, na canção “Imagine”, propôs sua utopia, na qual não haveria, entre outros atrasos, violência e religião. Ele mesmo foi vítima da violência, enquanto no mundo todo e cada vez mais as pessoas se entregam a religiões e se matam por elas.

Quando surgiu e se popularizou o automóvel anunciou-se uma utopia possível. No futuro previsto os carros ofereceriam transporte rápido e lazer inédito em estradas magnetizadas para guiá-los mesmo sem motorista. Isso se os carros não voassem, ou se não houvesse um helicóptero em cada garagem. Nada disso aconteceu. Foi outra utopia que pifou. Hoje vivemos em meio à sua negação, em engarrafamentos intermináveis, em chacinas nas estradas e num caos que só aumenta, sem solução à vista. Mais uma vez, deu distopia.

O anel que tu me deste - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA - 22/12

Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. É seu. Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas alianças: desde então nossa amizade só cresceu.

Certa vez Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes, mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.

Diante de tanto acúmulo e posse, gestos de desprendimento são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo de que gosta e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas fazem isso por inúmeras razões. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Pelo senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.

Estou falando deste assunto não porque também seja assim desprendida. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. De supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia.

Devo estar me transformando numa sentimentaloide, mas acredito que estes pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos próprios bens é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não estaria aí a fórmula do tal “mundo melhor” que tanto perseguimos?

Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo para testar se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas.

É com esse espírito de compartilhamento que encerro esta crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes – mas no sentido de presença. Que, junto aos seus afetos, você comemore o que lhe for mais tocante: seja o nascimento de Jesus, seja a reunião familiar, seja apenas mais uma noite festiva de dezembro, seja um momento de paz entre tanto barulho, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.