domingo, 22 de dezembro de 2013

Vitória contra o insulto


Para escritor, a surra eleitoral de Michelle Bachelet em Evelyn Matthei foi plebiscito sobre o futuro do Chile e marcou o fim da sombra pinochetista

21 de dezembro de 2013 | 16h 01

Ariel Dorfman
A surra que Michelle Bachelet deu em Evelyn Matthei no segundo turno das eleições presidenciais no Chile, domingo passado, foi motivo de grande alívio para o país e, evidentemente, também para mim. Os 25 pontos de vantagem de Bachelet sobre a adversária conservadora (62% para míseros 37%) não representam apenas um plebiscito sobre o rumo futuro que o Chile seguirá depois de quatro anos de governo direitista de Sebastián Piñera. É ao mesmo tempo uma maneira de fazer com que o Chile avance na difícil epopeia de enterrar o passado ditatorial.
Cara a cara com Evelyn:'Espantou-me a cloaca de impropérios que brotaram de sua boca' - Eliseo Fernandez/Reuters
Eliseo Fernandez/Reuters
Cara a cara com Evelyn:'Espantou-me a cloaca de impropérios que brotaram de sua boca'
A alegria que me proporciona a enorme humilhação sofrida por Evelyn Matthei tem raiz pessoal. Numa certa ocasião passei pela desagradável experiência de ver em ação, de perto, a candidata que acaba de ser derrotada. O encontro - se é que posso chamá-lo assim - aconteceu casualmente no dia 8 de outubro de 1999, em Londres. Um ano antes, os ingleses haviam posto na prisão o general Augusto Pinochet, por crimes contra a humanidade, e naquele dia se esperava que o juiz britânico Ronald Bartle decidisse se havia razões para extraditar o ex-ditador chileno para a Espanha. Como estava em Londres de passagem para assistir com minha mulher, Angélica, a um festival literário, decidi ir caminhando de manhã cedo até o Tribunal de Bow Street.
Fui recebido por um barulho ensurdecedor. Separados por um forte contingente policial, dois grupos de chilenos se enfrentavam com fúria. No lado mais numeroso, homens e mulheres que haviam sido torturados pela polícia secreta de Pinochet antes de serem expulsos do país queriam calar aos gritos o outro lado vociferante, que acabava de chegar de avião a Londres para dar apoio a seu herói preso. Segundo os boatos, as passagens desse grupo de Santiago para Londres e, evidentemente, a estadia, corriam por conta da Fundação Pinochet, organizadora dos "pinotours", como eram jocosamente chamados.
Imediatamente, das entranhas raivosas da multidão pinochetista surgiu uma figura que eu vira apenas em fotos e na televisão. Era Evelyn Matthei, na época senadora, recém-chegada de Santiago, famosa pela vulgaridade com que tratava os adversários. Mas nada me preparara para a cloaca de impropérios que brotaram de sua boca. Ela insultava os exilados com uma série de xingamentos chulos que, por discrição, prefiro não reproduzir, mas desmereciam a mãe ou a orientação sexual dos que, a poucos passos dela, clamavam por justiça.
A grosseria da senadora era ainda mais chocante por provir de uma mulher elegantemente vestida, cujas mãos levantadas como garras haviam tocado delicadamente piano, uma vocação que, para cúmulo da ironia, perseguira precisamente nessa mesma Londres, décadas antes. Mais inquietante foi a lenta percepção de que aqueles aos quais ela dirigia seu ataque verbal ouviam as mesmas palavras contundentes que haviam acompanhado a tortura sofrida nos porões da ditadura. A inflamada pinochetista reproduzia, suponho que inconscientemente, uma situação traumática, fazendo com que as vítimas voltassem ao momento de sua mais brutal humilhação.
Lembrando a vileza daquele momento 14 anos mais tarde, me dou conta de algo que, na ocasião nem eu nem ninguém poderia ter previsto: Michelle Bachelet ouvira uma enxurrada de ofensas semelhantes enquanto a ameaçavam e espancavam ao ser presa, com a mãe, Ángela Jería, em janeiro de 1975. Sua culpa foi ser um membro da família do general Alberto Bachelet, que aceitara um cargo ministerial no governo socialista e democrático de Salvador Allende. Quando Allende foi derrotado, no dia 11 de setembro de 1973, o general Bachelet foi preso como tantos outros, e pagou com a vida a lealdade à Constituição. Em março de 1974, morreu de enfarte em consequência das torturas sofridas.
Sinto-me intimamente satisfeito, portanto, pelo fato de Michelle Bachelet ter vencido precisamente a mulher que, em Londres, maltratou seus companheiros de infortúnio. A vitória torna-se ainda mais significativa quando examinamos a história pessoal das duas concorrentes. Ambas se conhecem desde pequenas, quando brincavam juntas num bairro de Antofagasta, onde seus pais, oficiais das Forças Armadas, estavam destacados. Muito se escreveu - eu, inclusive - sobre a circunstância extraordinária de que Fernando Matthei, pai de Evelyn, fosse o melhor amigo de Alberto Bachelet. E que, meses depois do golpe de Estado, Matthei fosse nomeado diretor da Academia da Força Aérea e, embora tendo escritório nas proximidades do porão onde maltratavam seu camarada de armas, não o visitasse nem levantasse a voz para ajudá-lo. Se o fizesse, não chegaria a ser ministro da Saúde de Pinochet nem, pouco depois, membro da junta militar por 13 anos.
Os filhos não são responsáveis pela covardia dos pais, nem tampouco por seus crimes. Mas vale ressaltar que Evelyn, enquanto os sicários de Pinochet chutavam e interrogavam sua companheira de infância, estudava economia na Universidade Católica do Chile, onde imperavam os Chicago boys, seguidores fanáticos de Milton Friedman, guru do extremo liberalismo dos mercados. Suas políticas neoliberais de capitalismo selvagem e repressão dos direitos dos trabalhadores converteram-se na ideologia dominante da ditadura - medidas cruéis que Evelyn Matthei continuaria defendendo como deputada e senadora, com a restauração da democracia, em 1990.
É difícil avaliar até que ponto influiu nos eleitores a genealogia que unia e dividia as duas candidatas, considerando que durante a recente campanha nenhuma delas se referiu a esse contrastante e coincidente passado. Ao contrário, enfatizou-se, e com razão, o futuro, debatendo qual das duas poderia resolver os urgentes problemas que afligem o país, sua vergonhosa desigualdade, seu sistema educacional degradado pela avareza, e a necessidade de mudar a Constituição autoritária, fraudulentamente instaurada por Pinochet em 1980 e ainda hoje carregada de resíduos indignos.
Os chilenos declararam, com toda a clareza, que aspiram a um país mais justo e digno. Mas é inevitável que a decisão da cidadania seja vista também, devido aos sobrenomes e às trajetórias das concorrentes, como um plebiscito sobre o sujo legado da ditadura. Os chilenos não desejaram ser governados pela mulher que fora a Londres para defender o tirano responsável pela morte de tantos compatriotas. Eles optaram, antes, por uma mulher que também foi vítima daquele terror e conseguiu sobrepor-se ao assassinato do pai, a seu passado e a suas tristezas para tornar-se símbolo de um Chile no qual ninguém será submetido a tais ultrajes.
A única coisa inquietante da disputa de 15 de dezembro foi a enorme abstenção, que chegou a inusitados 58% do eleitorado. Por que tantos cidadãos não se deram o trabalho de votar? Por apatia e comodidade? Pela certeza do triunfo de Bachelet? Ou porque sentem que os políticos e os partidos tradicionais não representam os interesses da maioria? Será que os jovens, os que mais se abstiveram, acreditam que a solução dos dilemas do Chile se encontra na crescente e maciça mobilização de vastos setores da sociedade, constantemente menosprezados pelos poderosos de um e de outro lado?
Conheceremos a resposta nos próximos anos. Enquanto isso, a simbólica surra levada por Evelyn Matthei é também, embora não o saibam ou não se importem, uma vitória para os que deixaram de votar. O país inteiro abriga hoje a esperança de que, por fim, teremos vencido, de uma vez por todas, a sombra ofensiva de uma ditadura que nos devora há mais de 40 anos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
ARIEL DORFMAN É UM ESCRITOR CHILENO. SEU LIVRO MAIS RECENTE É ENTRE SUEÑOS Y TRAIDORES: UN STRIPTEASE DEL EXILIO (SEIX BARRAL) 

Eu, urutau


E a história do guajajara que ficou quase 27 horas na árvore

21 de dezembro de 2013 | 16h 01

Juliana Sayuri
RIO - Cá do alto vi a cidade dormir mais uma vez. Gosto da noite, da brisa sul-americana, das estrelas e da lua cheia brilhando no céu. Diz minha lenda que, como bom urutau solitário sob o luar, trino uma melodia similar a uma lamentação humana, bela e triste. Mas, nessa segunda-feira fresca de lua cheia no Rio de Janeiro, o lamento era outro. Era outro urutau: José Wilhame Pinto Araújo, vulgo José Urutau Guajajara, vulgo Zé. Cá no alto estava ele, no último galho de uma árvore fincada no quintal da Aldeia Maracanã, no antigo Museu do Índio.
Índio quer Aldeia. José Urutau Guajajara, em protesto no antigo museu no Maracanã  - Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão
Índio quer Aldeia. José Urutau Guajajara, em protesto no antigo museu no Maracanã
Pássaro fantasma, dizem-me. Passo discreto por essas selvas urbanas, tão discreto que são raríssimos os caras-pálidas que já me notaram. Zé, não. Zé marca território, mostra o rosto, não arreda o pé. Foi assim nesses dias, durante uma tal reintegração de posse do antigo Museu do Índio, idealizado por Darcy Ribeiro num casarão no Maracanã na década de 1950. Era ainda manhãzinha quando uns 150 policiais militares da Tropa de Choque arrombaram as portas, revistaram o pessoal a torto e a direito, trotaram pelas escadas de madeira e zarparam com manifestantes, uns 50 no momento, uns 25 presos. Zé não foi.
Passava das 10 horas da manhã. Zé viu a balbúrdia, sentiu que já não sobraria lugar para se abrigar na construção, subiu no telhado e na escadaria, driblou os fardados em tempo de escalar uma árvore de 5 metros de altura. A princípio, queria se esconder. Ao ver que outros indígenas no telhado foram algemados, queria resistir. Aí não teve jeito: como tirar o homem de lá?
José Urutau Guajajara é um pouco como eu. Um bicho perspicaz, dizem-me, esperto a ponto de me camuflar para me proteger dos perigos, principalmente entre troncos e galhos de árvores. Zé ficou ali escondido como eu ficaria, para escapar dos predadores. Mas foi logo descoberto, e aí já é história de bicho-homem.
As horas de segunda-feira passaram. "O sr. precisa descer. Vamos conversar", disse um coronel. Mas Zé não ia ceder, estava lá desde 2006, oras, na primeira ocupação da Aldeia Maracanã. "Se o sr. descer, voltará à Aldeia Maracanã, sem erro, prometo." Mas Zé não é bobo, estava esperando o papel assinado por um juiz, dizendo que a tal reintegração era ilegal.
Sete da noite e nada desse papel. Zé, sem camisa e sem nada na barriga desde domingo à noite, só pescou uma garrafinha d’água. Nove da noite e nada. Zé, vestindo apenas bermuda de losangos azuis e colar branco, continuava firme. E o fuzuê sob seus pés: imprensa, bombeiros, Bope e uma tribo de manifestantes solidários. Uns ralharam, "porra, índio, vamos descer, tua mulher e teus filhos tão te esperando". Outros sussurraram nos bastidores, "poxa, índio, o show já foi, desce logo pra terminar essa história". Mas os manifestantes apoiaram, "fica, Zé". E Zé ficou. Mais de 11 da noite no relógio e nada.
A essa altura, Zé já tinha experimentado as folhas da árvore majestosa, para garantir que não eram tóxicas e tal. Comeu. Na garrafinha, já tinha feito xixi e, desidratado que estava, sabia que logo precisaria desse líquido amarelo não muito nobre. Bebeu.
Veio o terror noturno. "Amigo, se você não descer, vamos derrubar a árvore." Foi um pulo daí para o ultimato de disparos de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo, além do revólver de choque elétrico. Era blefe. E Zé não se intimidou. Tinha amarrado uma corda no corpo, para não cair caso caísse no sono. Enquanto os policiais faziam vigília, os bombeiros ficaram deitados num colchão improvisado para impedir a fatalidade d’um índio urbano quebrar o pescoço ao cair da árvore. Veio a pressão psicológica, com provocações, luzes altas miradas no rosto do homem e chistes infames sobre os indígenas. Aí Zé não só não se intimidou como entornou a garrafinha, generosamente cheia de urina, nos bombeiros e nos policiais que o esperavam e espezinhavam sob a árvore. Eu, urutau perdido nessa cidade "maravilhosa", ri. Silêncio, enfim.
As horas de terça-feira passaram. Zé, ressabiado com os fardados, não quis conversa. Voltaram os manifestantes, os jornalistas e os fotógrafos, e aí já corria a notícia: "Nesta terça, dia 17 de dezembro, o índio José Urutau Guajajara amanheceu em cima de uma árvore, nas proximidades da Aldeia Maracanã, zona norte do Rio, em protesto contra a ação de reintegração de posse realizada pelo Batalhão de Choque da Polícia Militar". Por volta das 11 da manhã, vi de longe, fizeram o índio descer na marra. Um bombeiro encostou uma escada simples na árvore, outro usou uma escada magirus, outro tentou içá-lo pelo telhado do prédio. No alto, um bombeiro conseguiu se aproximar e amarrou uma corda no corpo de Zé, sem notar a outra corda, amarrada à árvore. Puxou, o índio não foi, puxou mais, o índio quase foi, puxou mais uma vez, a corda subiu e, sem querer, estava quase enforcando Zé, que saiu com escoriações nos braços e marcas no pescoço.
Após quase 27 horas, Zé pôs os pés no chão. Era tanta algazarra que uns policiais sacaram sprays de pimenta para afastar os manifestantes, uns 20. De lá, direto para a ambulância, rumo ao Hospital Souza Aguiar. Zé passou, mas não foi atendido, apesar de pedir para fazer o tal exame de corpo de delito para registrar os ferimentos. De lá, direto para o camburão, rumo ao 18º DP, na Praça da Bandeira. O índio responde agora a processos por resistência, desobediência e desacato.
José Urutau Guajajara, um passarinho me disse, é uma das principais e mais antigas lideranças do movimento indígena na Aldeia Maracanã. Aos 54 anos, Zé tem pele morena, marcas expressivas ao redor dos olhos negros e levemente puxados, fios grisalhos e longos, barba feita. Tem voz rápida, mas branda. É da tribo guajajara, guerreira, muito presente no Maranhão. Ali, Zé nasceu na aldeia Lagoa Comprida num 22 de outubro, o sexto de dez irmãos. Aos 14, começou a estudar em Barra do Corda, cidadezinha vizinha, época em que aprendeu o português - antes só versava o tenetehara, da família do tupi-guarani. Aos 20, decidiu se aventurar no Rio, para trabalhar e ajudar a família maranhense. Mais tarde, na década de 1990, decidiu estudar mais, queria se expressar melhor e descobrir um jeito de preservar sua língua nativa. Foi dito e feito: fez-se educador, com pós na UFF e na UFRJ, atualmente faz mestrado em linguística na UERJ. "Ei, você é índio!", gritou e riu um menino loirinho, 4 anos talvez, que passava pelo Flamengo. "Sim, e de verdade", Zé respondeu, tranquilamente.
Zé passa uma temporada na aldeia, outra na cidade. No Rio, mora no pé do Morro do Alemão, passa a Avenida Brasil, a Martin Luther King, a estação Tomás Coelho e lá está o galpão com porta de ferro vermelho. É uma casa simples, tijolo à vista e cimento bruto, com quintal cheio de quinquilharias, entre micro-ondas e radinhos velhos, varal colorido, mais de dez gatos, três bicicletas e dois espelhos. Vive com Potyra Krikati, três filhos e uns sobrinhos. Artesã, vestido de oncinha, pinturas de jenipapo nos braços e balangandãs, Potyra se mudou para o Rio aos 18, também para trabalhar e ajudar a mãe maranhense, viúva com dez filhos. Ficou na Rocinha e depois no Alemão. Nunca tinha visto tanta casa uma em cima da outra. Tampouco tinha visto hostilidade assim: "Ô, índia, que você tá fazendo no Rio, vá voltar pro Amazonas!". Mas Potyra nem pisca: "Sou do Maranhão, vá estudar nossa cultura antes de dizer besteira". Após muitos anos juntos, Zé e Potyra decidiram se casar na Aldeia. Espiei, uma festa de três dias com dois pajés (um da tribo guajajara, um da krikati). Ali eles ensinam estudantes a escrever nas línguas nativas, fazer grafismos e assar peixe na folha de bananeira, além de oficinas de artesanato e de agricultura.
Desde 2006 no antigo Museu do Índio, a Aldeia Maracanã reuniu umas 17 etnias. A ideia era transformar a construção art nouveau numa aldeia urbana símbolo. Pousava lá às vezes, nos lados do casarão, esquecido desde 1977, com grafites coloridos e janelas quebradas, onde os indígenas geminaram casas de alvenaria, já derrubadas. Diz Michael Oliveira, o Baré, que esse é um lugar de memória para os índios no Rio: foi cedido por um tal príncipe Ludwig August de Saxe-Coburgo-Gotha, o duque de Saxe, para o Império do Brasil, em 1865. Da história nova, o casarão ainda abrigou o SPI, idealizado pelo marechal Rondon, em 1910. Baré, historiador arauaque, foi a Brasília para encontrar a ministra Maria do Rosário dias desses para conversar sobre o projeto da Universidade Intercultural Indígena Aldeia Maracanã. "‘Tá de parabéns. A educação é o único caminho para a emancipação dos povos.’ Foi o que a ministra me disse, mirando meus olhos com aqueles olhões azuis dela."
A Aldeia, "embaixada" indígena vizinha ao Estádio do Maracanã, entrou na mira imobiliária a partir de 2012. Cidade anfitriã de Copa e de Olimpíada, já viu... Tornou-se templo antigo para o culto de ambições modernas. Os caras-pálidas não gostaram dessa ideia de universidade de índio, não. Tiveram outra: por que não demolir o velho museu que tá atrapalhando o caminho? Assim, no dia 22 de março, os indígenas foram não mui gentilmente retirados da Aldeia, numa ação militar quase ritualística - bala de borracha, gás lacrimogêneo e spray de pimenta. No dia 5 de agosto, os indígenas voltaram à Aldeia e, sete dias depois, o casarão foi tombado.
Mas outro passarinho me contou que o movimento rachou em três lados. Um, indígenas que saíram do Maraca e se refugiaram na colônia Curupaiti, dialogaram com o Estado, pensando em revitalizar o casarão para construir um centro cultural - "Os outros se uniram com punks, tá loco? Tem militante aí do PSOL e PSTU, sei não. Tem infiltrado de diferentes ideologias, contra tudo e contra todos. Melhor seria se fosse um movimento ‘puramente’ indígena." Dois, indígenas que se recusaram a negociar com o Estado, brigando para construir a Universidade Indígena Aldeia Maracanã, recusando um centro cultural "folclorizado" - "Os outros são uns curupaitianos traidores. Nosso terreno é de 14 mil m², não os 1,5 mil m² que Sérgio Cabral nos deu como esmola. A gente não quer mais espelho. Se movimentos urbanos e políticos quiseram se unir, bem-vindos. Às vezes esses jovens são mais índios que muito índio." Três, indígenas que não se encontram nem cá nem lá - "Os outros estão agindo por interesses particulares. Uns fugiram para Curupaiti, uns dissidentes. Outros ficaram no Maracanã, mas por motivos políticos, quase mafiosos." Mas nessa colmeia de contradições e conflitos interétnicos, inevitáveis num universo de 270 línguas, 300 etnias e 817 mil cabeças, prefiro nem meter o bico.
Noves fora, muitos índios encontram simpatizantes entre diversos tipos urbanos. O jovem líder Ash Ashaninka se relaciona bem com a galera universitária, entre estudante punk, gótica magrela, nerd grunge, ninja com relógio dourado, muitas tattoos, urucum e jenipapo, moicanos, brincos e alargadores, Hollywood e Marlboro, cigarrinho da paz e rapé. "A publicidade agora é a alma do indígena. A gente precisa mostrar o rosto e dizer o que pensa para defender nossos direitos."
Pois volto a piar sobre domingo passado. Enquanto uns 300 amigos da FIP se reuniam, os indígenas presentes decidiram reocupar a Aldeia Maracanã, pois viram escombros demolidos doutras construções ao lado do casarão. Bope entrou, Zé subiu na árvore. Virou herói para uns, vilão para outros. No dia seguinte, indígenas e ativistas se movimentavam de um lado para outro no Rio, caçando o encontro de lideranças indígenas que discutiria o destino da Aldeia Maracanã - e Zé e seus companheiros não foram convidados. Passaram por câmpus, metrô, praça. Depois da orla do Flamengo, pararam no hotel Novo Mundo. Zé surgiu. Ao seu lado, o irmão Arão Araújo, advogado, terno e camisa estilo Tommy, um tanto puto. "Se quer entrar no terreiro do outro, você precisa conversar com os mais velhos, o pajé e o cacique. Senão, é deselegante. Nada contra os parentes, eles são bem-vindos no Rio. Mas por que foram convidados para discutir a Aldeia Maracanã se muitos nunca moraram lá? Por que não fomos convidados?" A certo ponto, Zé, Arão, Ash e companhia foram convidados a se retirar do hotel. Do lado de fora, Zé sussurrou: "Queria voltar na Aldeia pra pegar meus panos de bunda. É pedir muito?"
Muito, não sei. Mas Zé sabe: 18 de dezembro lembrou 23 de março, o choque após a Choque. No passado, Zé reuniu a tribo e partiu para Botafogo, no novo Museu do Índio, o "outro lar", e foram acusados de invadir a casa amarela. "Na época, ficamos sem rumo. É assim que estamos agora, sem rumo. Não sei o que vamos fazer. Só sei que quero voltar pra Aldeia Maracanã, pode escrever." Escrito está, mas se eles vão voltar é outra história e, como dizia o poeta, eles passarão, eu passarinho. 

O enigma das rendições no Araguaia - ELIO GASPARI


FOLHA DE SP - 22/12

O depoimento de general ferido em combate permite novas perguntas sobre o destino dos guerrilheiros


Está na rede um depoimento excepcional. É o áudio de 92 minutos da audiência do general Álvaro Pinheiro à Comissão Nacional da Verdade. No dia 12 de novembro, no Rio, ele respondeu às perguntas de dois assessores da CNV no salão nobre do Arquivo Nacional. Havia uma pequena plateia de militares que permaneceu em silêncio e a sessão esteve livre das teatralidades comuns a esse tipo de eventos.

O general Pinheiro fez sua carreira militar nas forças especiais do Exército. Ainda tenente, em 1972 foi ferido num combate no Araguaia. Retornou à área da guerrilha e esteve 247 dias na floresta. É dele a melhor análise militar da campanha, publicada em 1995.

Pinheiro é um crítico da Comissão da Verdade ("canalhice sem tamanho", por olhar só para a ação do Estado). Usando palavras duras (aquilo não era guerrilha, mas "foco terrorista rural"), deu um depoimento didático, cordial mesmo, exprimindo a opinião de muitos militares que foram mandados para o Araguaia. Não deu nomes, datas ou eventos.

Aos 70 minutos e 10 segundos do depoimento, quando tratava da atuação das forças especiais, ele disse: "Às vezes o cara se rende, às vezes o camarada se entrega. (...) Às vezes o sujeito chegava na base, não quero mais, e tal. Houve casos assim".

Quando um dos assessores perguntou-lhe por que não se conhecem casos de guerrilheiros que se renderam nessa fase, por que nela não houve sobreviventes, respondeu: "Não tenho a menor noção. Não tenho como lhe dizer a esse respeito."

O general nega que tenha havido uma ordem para exterminar os guerrilheiros e argumenta que, se ela tivesse existido, teria sabido.

A relevância do depoimento de Pinheiro está em três de suas palavras: "Houve casos assim". Até outubro de 1973, quando começou a última fase do combate, foram presos uns poucos guerrilheiros. Nenhum se entregou numa base, nem diretamente à tropa de militares. Pelos seus depoimentos, dois foram levados aos militares por moradores da região. Uma, sem dúvida, desejando-o. A partir de outubro a guerrilha foi combatida pelas forças especiais e três meses depois transformou-se numa debandada.

Numa guerrilha que começou com a fuga do chefe político (João Amazonas, em 1972) e terminou com a do chefe militar (Angelo Arroyo, em 1974), haviam sobrado na floresta cerca de 35 jovens militantes do PC do B. Desapareceram todos.

Até hoje os depoimentos de pessoas que viram guerrilheiros capturados a partir de outubro de 1973 vinham de moradores. Essa foi a primeira vez que um militar combatente falou em rendições, com guerrilheiros que iam à "base", que podia ser um acampamento na floresta. Elas eram estimuladas por mensagens transmitidas por alto-falantes colocados em helicópteros e por panfletos que diziam: "Oferecemos a possibilidade de abandonar a aventura com vida, com tratamento digno e julgamento justo. Lembrem-se, o Brasil precisa de todos os seus filhos".

O depoimento do general está no seguinte endereço e merece ser ouvido inteiro:http://www.4shared.com/mp3/6uPTzn8y/Alvaro


VAI PIORAR

O Ministério Público que investiga a rede de propinas da Secretaria de Finanças de São Paulo já dispõe de elementos que indicam sua atividade bem longe no passado.

Outras narrativas informam que, durante a prefeitura de Kassab, era possível anular multas fazendo-se doações para cobrir dívidas de campanha.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e leu o cartapácio programático que o senador Aécio Neves divulgou na semana passada. Por cretino, é incapaz de achar uma ideia num texto. Por isso concordou integralmente com tudo o que escreveram.

Depois, soube que há a possibilidade de o tucanato recorrer aos préstimos do marqueteiro Duda Mendonça. Ocorreu-lhe sugerir um nome para tesoureiro dessa campanha. Precisa de emprego, tem experiência. Chama-se Delúbio Soares e mora na Papuda.

MADAME NATASHA

Madame Natasha encantou-se quando soube que a doutora Dilma disse que na sua gestão da economia prefere "a linha Churchill: sangue, suor e lágrimas".

Natasha lastima que a doutora tenha repetido um mau hábito ao citar frase de sir Winston. Completa, ela é assim: "Não tenho nada a oferecer, senão sangue, suor, lágrimas e trabalho".

As pessoas adoram esquecer da palavra "toil", que em português claro significa "ralação".

ALEGRIA DO ANO

A doutora Dilma acha que em agosto passado recebeu um presente tardio do Natal de 2012 quando nomeou o embaixador Luiz Alberto Figueiredo para o Ministério das Relações Exteriores.


A MÁGICA NOVA E OUTRA, VELHA

Está em curso uma mágica financeira por diversos Estados. O governador quer se endividar, mas prefere não buscar créditos na União. Aparece um banqueiro e oferece-lhe um empréstimo em dólares, desde que o governo federal seja o avalista. Um telefonema para o Planalto, vem a garantia e o empréstimo sai, a juros que parecem camaradas.

Tudo bem, até o dia em que, por alguma razão, o câmbio vier a mudar de direção. Nessa hora o Estado quebra e a Viúva federal terá que honrar a garantia, reabrindo-se assim a fábrica de esqueletos que assombrou o país antes que Fernando Henrique Cardoso consertasse suas contas.

Numa época em que o governo federal permite mágicas desse tipo bem que seu mágicos poderiam olhar para trás. Em 1973 ajeitou-se a taxa de inflação. Depois, criaram-se grande projetos que em algumas operações serviam para inflar as contas de investimentos estrangeiros com fornecimento de máquinas. O governo comprava o que não precisava, bancos financiavam e as fornecedores faturavam. (As locomotivas elétricas compradas pelo governo de São Paulo viraram sucata.)

Em 1983, quando havia poucas mágicas disponíveis, Pindorama estava quebrada e a agência do Banco do Brasil em Nova York não tinha caixa para fechar suas contas ao fim do dia. Inicialmente, esse buraco era coberto por algum grande banco americano com depósitos feitos à ultima hora, sacados na manhã seguinte. Quando nem isso se conseguia, os feiticeiros fizeram o seguinte:

Cobriam o buraco trazendo rapidinho ouro extraído da mina de Serra Pelada. Como a Casa da Moeda não tinha certificação internacional para cunhá-lo, acertou-se um esquema com o banco Morgan. Um funcionário, no Rio, presenciava a decolagem para Nova York do avião com os lingotes. Telefonava para a matriz, informava o valor transportado e ela depositava o equivalente na conta do Banco do Brasil. Depois, ia tratar da cunhagem.

Meses depois o Brasil quebrou de vez. Nessas operações, segundo o banqueiro que coordenava o socorro, o Morgan ganhou US$ 25 milhões para ver ouro voar.