quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O fim da propriedade

Comportamento

Ter carro e casa é coisa do passado. A prioridade agora entre os jovens no mundo desenvolvido é a diversão. Veja como isso está mudando o mundo - e abrindo as portas para uma nova, e promissora, economia

por Edição: Alexandre Versignassi Reportagem: Maurício Horta
Na canção I Get Around, os Beach Boys iam de cidade em cidade arrasando brotinhos a bordo de seu carango que nunca fora batido. Onde houvesse música jovem nos anos 60 e 70, lá estaria o carro, símbolo máximo de independência. Beatles com Drive My Car, Deep Purple com Highway Star. Mas algo mudou. Desde 1990, jovens de países desenvolvidos como Reino Unido, Alemanha e Japão têm dirigido cada vez menos. O fenômeno até ganhou um nome japonês - kuruma banare, ou desmotorização. Uma década depois, veio o impensável: o kuruma banare americano. De 2001 a 2009, os jovens dirigiram 23% menos, andaram 24% mais de bicicleta, 16% a pé e 40% de transporte público nos EUA. Mesmo aqueles com renda familiar acima de US$ 70 mil anuais dobraram seu gasto com transporte público de 2001 a 2009.

É verdade que a crise econômica global tem seu papel aí - sem grana, jovens deixam para depois o casamento, os filhos e o financiamento da casa própria. Em vez disso, alugam um apartamento perto do transporte público, do trabalho, das compras e da diversão - ou simplesmente ficam na casa dos pais e continuam a pegar o carro do velho, como faziam aos 18 anos. Talvez eles voltem ao subúrbio quando a economia melhorar. Ou talvez não. Isso porque, junto com a economia, as aspirações de consumo entre os jovens urbanos de classe média também mudaram.

"O automóvel passou a ser identificado como um produto antigo - afinal, seus avós e pais já tinham um carro na garagem", diz Adriana Marotti, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP e pesquisadora de novas tecnologias na indústria automotiva. "Além disso, não tem o mesmo apelo tecnológico de smartphones e tablets, e é considerado vilão em questões ambientais." Isso, somado aos custos de propriedade do veículo - impostos, combustível, estacionamento - e à grande disponibilidade de transporte público, faz o automóvel perder o apelo para os jovens em países desenvolvidos.

Algo parecido acontece com a casa própria. Nos EUA, três em cada dez adultos entre 25 e 34 anos moram com os pais, o número mais alto desde a década de 1950, segundo um relatório do Pew Research Center. E isso é pouco perto do que acontece na Itália, onde um em cada quatro adultos entre 30 e 44 anos vive com a "mamma". Com o financiamento da faculdade, o salário inicial baixo no início de carreira e a vida de solteiro alargada, voltar para a casa dos pais depois da faculdade virou o caminho natural. Mesmo entre os que saem do ninho, o aluguel passa a ser mais atraente do que a casa própria. Novamente, a culpa não é apenas da crise econômica - o fenômeno, que pode ser observado em outros países desenvolvidos, começou já nos anos 80, embora tenha se acentuado depois de 2008.

E quais são os desejos dessa geração? Investir não em coisas, mas em si. O dinheiro que seria gasto com carro e casa é repartido em cursos (o principal motivo para americanos não saírem de casa é que estão pagando o financiamento da universidade), viagens (jovens fazem 190 milhões de viagens internacionais e, segundo a ONU, isso vai subir para 300 milhões em 2020), shows de música (de 1999 a 2009, a venda de ingressos nos EUA subiu de US$ 1,5 bilhão para US$ 4,6 bilhões), jantares, espetáculos bacanas, saltos de paraquedas... O jovem urbanita não precisa necessariamente de um carro para sair azarando, mas de um smartphone para saber onde se dará bem e de um táxi ou transporte público para chegar até lá. Voltemos ao pesadelo do carro. Se somarmos IPVA, seguro e depreciação de um carro popular, teremos algo por volta de R$ 6 mil em um ano - sem contar manutenção e combustível. Com esse dinheiro, dá para comprar uma passagem de ida e volta para a Alemanha (R$ 2 mil), cinco noites num hotel simples (R$ 500), ter fundos para comer e se divertir (R$ 1 mil) e, de quebra, mais dois dias de aluguel de um Porsche para dirigir sem limite de velocidade pelas Autobahnen (R$ 2 500). Agora, qual foto renderá mais "curtir" no Facebook - você lavando o carro 1.0 na frente de casa ou você ao volante do Porsche alugado? Pois é, o que conta na hora de compartilhar não é o "eu tenho", mas contar: "Vim, vi e vivi".

Para ter acesso às coisas sem precisar possuí-las, jovens começam a substituir a propriedade por serviços ou trocas. Isso deu espaço para um novo tipo de mercado, que teve seu embrião no fim da década de 1990, com o compartilhamento de músicas nos tempos do Napster, encontrou o meio ideal em meados dos anos 2000, com o Ebay e as redes sociais, e teve finalmente uma motivação econômica com a crise de 2008 - a economia do compartilhamento. Com a ajuda de sites e apps, é possível pegar emprestado desde uma serra tico-tico até um apartamento em Ipanema a preços módicos. O site Airbnb, por exemplo, permite que pessoas ofereçam para aluguel um imóvel durante a temporada em que não forem usá-lo - por exemplo, quando estiverem em férias. Fundada em 2008, a empresa já funciona com mais de 200 mil imóveis em 26 mil cidades de 192 países.

Camaro amarelo
O funkeiro paulista MC Danado não parece concordar. Para ele, "vida é ter um Hyundai". Já a dupla sertaneja universitária Munhoz e Mariano ficou doce igual caramelo tirando onda de Camaro amarelo comprado com a herança do véio. "Tá sobrando mulher", conclui a letra da dupla. A verdade é que, enquanto as economias avançadas veem o declínio da posse, em mercados emergentes como o brasileiro jovens recém-ascendidos à classe média estão dispostos a viver seu momento Beach Boys, com atraso de meio século. Eles acabam de ingressar no mercado de consumo e, pela primeira vez na vida deles e de sua família, podem comprar bens relativamente caros.

O resultado é que, com 405 mil emplacamentos, o Brasil superou o Japão em outubro de 2012 como o 3º maior mercado automobilístico do mundo, atrás de China e EUA. No top 10 estão ainda Rússia, Índia e Tailândia. É uma indústria que representa 22,5% da indústria brasileira e 5,2% do PIB, segundo a Associação Nacional de Fabricantes de Automotores. Não é então de espantar que uma das medidas do governo federal para evitar um impacto maior da crise no País tenha sido facilitar o crédito e diminuir o IPI. A economia brasileira é movida a quatro rodas, e brasileiros gostam disso. Com pouca disponibilidade e baixa qualidade do transporte público, o desejo de ter um carro se transforma em necessidade. Já em cidades onde o transporte público leva o passageiro rapidamente a muitos lugares, sem a dor de cabeça de enfrentar o trânsito e gastar com estacionamento, ele se torna uma alternativa mais atraente do que o carro. E com o dinheiro que sobra ao deixar de comprar um carro, pode-se gastar com outras aspirações: em vez de levar a moça de Camaro amarelo à lanchonete, ir com ela de metrô ao restaurante com estrela Michelin.

Uma nova economia
Tudo isso também representa um desafio para os países desenvolvidos. E que desafio: mudar as bases de suas economias. A indústria automobilística, por exemplo, sempre foi o pilar econômico da Alemanha, orgulhosa de seus Audis, Mercedes, BMWs, Porsches e Volkswagens. Com menos gente dirigindo, esse pilar pode acabar fraco demais para sustentar todo o resto. A construção de novas casas, apartamentos e prédios de escritório criou booms imobiliários nos EUA, no Japão, na Espanha. Booms que mais tarde dariam em bolhas, mas que mesmo assim foram fundamentais para enriquecer esses países. Com menos gente comprando casa na praia (e preferindo alugar imóveis que, obviamente, já estão construídos), e menos gente saindo da casa dos pais, a demanda por casas e prédios novos também diminui. A construção civil sofre. E mais um pilar tradicional das economias perde força. E agora?

Bom, talvez a resposta esteja embutida na própria crise da economia tradicional. Se algumas áreas definham, outras crescem e aparecem. É o caso dos "serviços conectados", como o do Airbnb. "Conectados" porque não teriam como existir sem a internet onipresente de hoje. O que esses serviços novos fazem é transformar essa onipresença em onipotência - o acesso à rede (e a posse de um cartão de crédito) já garante casa e carro prét-à-porter em qualquer grande centro. Mas o fato é que ainda há muito o que expandir nessa área. Muito a criar. E é nesse terreno fértil e ainda pouco explorado que podem estar os alicerces de uma nova economia.

MENOS É MAIS
A posse de bens diminui no exterior. E o dinheiro vai para restaurantes, viagens, shows...

MAIS É MENOS
No Brasil, a tendência ainda é gastar com carrões. E não sobrar muito para o resto.

Inquérito Siemens deverá mudar de mãos se Supremo devolver a São Paulo


procurador Rodrigo de Grandis, que já cuida do caso Alstom, pode assumir investigação
por Fausto Macedo
O inquérito sobre o cartel dos trens deverá mudar de mãos se retornar a São Paulo, parcial ou integralmente.
O procurador da República Rodrigo de Grandis, que atua perante a 6.ª Vara Criminal Federal em São Paulo, já cuida do caso Alstom – investigação sobre cartel na área de energia – e poderá assumir a investigação também do caso Siemens.
Três procuradores da República atuam perante a 6.ª Vara Criminal Federal – além de Rodrigo de Grandis, Silvio Luís Martins de Oliveira e Andrey Mendonça.
A 6.ª Vara Criminal Federal cuida exclusivamente de ações sobre crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
O caso Siemens é acompanhado pela procuradora Karen Louise Kahn desde o início. Ela foi designada para o caso. Todas as investigações da Polícia Federal, inclusive depoimentos, foram acompanhados por Karen. Ela se manifestou contra a remessa dos autos para o Supremo Tribunal Federal (STF) alegando que a medida é prematura.
Karen avalia que a citação aos nomes de políticos detentores de foro privilegiado – como consta do depoimento do engenheiro Everton Rheinheimer, ex-diretor da multinacional alemã – não basta para justificar a transferência do inquérito para a Corte máxima.
Desde segunda feira, 9, o inquérito Siemens está no Supremo. A ministra Rosa Weber vai decidir o destino da investigação.
O STF poderá ficar com o caso em sua totalidade. Mas poderá devolver a investigação a São Paulo se entender que não há indícios que justifiquem investigação contra parlamentares mencionados no caso.
O Supremo também pode desmembrar o inquérito, ou seja, fica com a responsabilidade sobre a parte que cita autoridades com foro especial e devolve a São Paulo o trecho da investigação sobre empresários e diretores de estatais que respondem perante a Justiça de primeiro grau.
Caso seja devolvido a São Paulo o inquérito deverá sair do gabinete da procuradora Karen porque sua atuação ocorre perante a 2.ª Vara Criminal Federal, também especializada em ações sobre crimes financeiros e lavagem de dinheiro  – o inquérito Siemens está afeto à 6.ª Vara.

Poderosa e competente? Mas, peraí, é gata?

Papéis de gênero


Primeira-ministra, presidenta, CEO de empresa, não importa: a beleza da mulher tem que vir em primeiro lugar
por Nádia Lapa — publicado 11/12/2013 16:36, última modificação 11/12/2013 17:10
 
Helle Thorning-Schmidt/Flickr
Helle Thorning-Schmidt
A primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning-Schmidt, que virou "meme" ao ser fotografada ao lado de Barack Obama e foi chamada no Brasil de "louraça"
"A louraça primeira-ministra da Dinamarca provoca saia justa entre o casal Obama", diz o título da coluna de um site. Louraça, assim, sem nome. Quem se importa? O importante é que Helle Thorning-Schmidt seja "bela, alta e loura", além de ter "celebrados olhos azul-turquesa" e andar de saltos altíssimos.
O que ela faz, como chegou ao poder, qual o trabalho dela como primeira-ministra? Não faz a menor diferença. Nas palavras de Naomi Wolf, em "O Mito da Beleza: "As trabalhadoras mais emblemáticas do Ocidente continuavam visíveis se fossem 'lindas', portanto visíveis, mas sem receber nenhum crédito pela competência. Ou poderiam, ainda, ser 'competentes' e 'sem beleza', portanto invisíveis, de tal forma que a competência de nada lhes valia".
Os comentários sobre a aparência de Thorning-Schmidt não são novidade. Atingiram, inclusive, a outra mulher envolvida na "polêmica" de ontem: Michelle Obama, mesmo adotando um penteado liso (aproximando-se do ideal de beleza ocidental, mesmo sendo negra), foi criticada duramente quando resolveu usar franjas. Por outro lado, os braços da primeira-dama são invejados, copiados em cirurgias plásticas e revistas fazem até passo-a-passo de como conseguir a musculatura de Michelle. Os braços de Michelle Obama, como se estivessem totalmente descolados da pessoa que ela é, ganharam até um Tumblr.
Embeleze o mundo: esta é a mensagem. Posso até te dar um poderzinho aqui, mas não há negociação, seja bonita, Enfeite a festa, o velório, o jogo de futebol, a reunião de negócios, o que for. Mas esteja maquiada, de salto alto e, se rolar, um decote sexy sem ser vulgar.
Todos param para prestar atenção quando é uma mulher bonita falando. Vejam até o Femen, grupo não feminista (importante frisar isso). Sempre que havia manifestações do grupo, os jornais repercutiam o fato, sempre com muitas fotos e quase nenhum texto. Com sorte, alguma legenda. Porque são mulheres brancas, magras, loiras, e com "os seios no lugar".
O mesmo não acontece com os homens. Eles podem envelhecer; as rugas, inclusive, são até consideradas sinal de maturidade. Cabelos grisalhos? Charmosérrimos. Também ninguém pergunta de qual estilista é o terno, a gravata ou o sapato, como fizeram com Hillary Clinton há alguns anos, em uma entrevista que ficou famosa pela resposta da ex-Secretária de Estado:
Entrevistador: Quais são seus designers favoritos?
Hillary Clinton: O quê? Designers de roupas?
Entrevistador: Sim.
Hillary Clinton: Você perguntaria isso a um homem?
Entrevistador: Provavelmente não. Provavelmente não.

Nossa presidenta também passa por questionamentos parecidos. Antes das eleições, o rejuvenescimento de Dilma Roussef foi visto com clareza - plásticas, tratamentos, corte de cabelo especiais. As roupas que ela usa geram até slideshow com os looks usados pela presidenta.
Quando se quer desmerecer o trabalho de uma mulher - por mais poderosa e competente que ela seja - o primeiro "xingamento" utilizado é o da aparência. Naomi Wolf, mais uma vez, mostra que esta é uma batalha quase invencível (mas continuaremos lutando): "Pela forma como a beleza e o trabalho ao mesmo tempo recompensam e punem as mulheres, elas nunca esperam por coerência - mas pode ter certeza que elas continuarão tentando. Buscar a beleza e a qualificação de beleza no local de trabalho agem em conjunto para mostrar às mulheres que, no que lhes diz respeito, a justiça não existe. Que a injustiça é apresentada a uma mulher como imutável, eterna, apropriada e com origem em si mesmas, como se fosse uma parte delas, assim como sua altura, cor do cabelo, gênero e o formato dos seus rostos".
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