terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A porta de saída do Bolsa família - MAÍLSON DA NÓBREGA


REVISTA VEJA

O Bolsa Família, título que Lula deu ao conjunto de programas sociais herdados do governo FHC, completou dez anos de êxito. Na realidade, ao longo de mais de duas décadas, os programas de transferência condicionada de renda têm sido uma experiência vitoriosa em todo o mundo, embora sujeita a erros de interpretação. Um deles é rotulá-los de assistencialistas; outro é achar que criar empregos é a porta de saída para eliminar a dependência do benefício.

Tais programas começaram a ser pensados nos anos 1970, quando se provou a correlação positiva entre educação, produtividade e crescimento econômico. Este é maior quanto menor for a pobreza. Depois, a neurociência constatou que existe um período crítico durante o qual a criança se prepara para o continuado avanço no conhecimento. É aí que ela deve estar na escola.

A ideia inicial era assegurar uma renda mínima às famílias pobres. O pioneiro foi o economista americano Milton Friedman (1912-2006). um conservador. Mais tarde, evoluiu-se para condicionar a concessão do benefício à obrigação de pôr os filhos na escola e de levá-los aos postos de saúde para vacinação e outros cuidados. No Brasil, o programa surgiu em 1995, em Campinas e no Distrito Federal. Depois se espalhou por outros locais. No período FHC, recebeu o apoio federal. Ficou conhecido como Bolsa Escola.

A área acadêmica se interessou pelo assunto. Foi o caso do economista José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio. Ele mostrou que as famílias pobres dependiam do trabalho dos filhos para sua própria sustentação. As crianças não iam para a escola e por isso seriam os pobres de amanhã. E assim sucessivamente. José Márcio defendeu uma versão ampliada do Bolsa Escola, o que permitiria reduzir drasticamente a pobreza e a desigualdade. O círculo vicioso se interromperia. As famílias "receberiam" para retirar os filhos do trabalho e colocá-los na escola. José Márcio escreveu um texto com Francisco H.G. Ferreira que propunha a unificação dos programas existentes (o Bolsa Escola e outros como o Vale-Gás). O estudo, que deve ter inspirado o Bolsa Família, está no endereço http://www. econ.puc-rio.br/pdf/td443.pdf.

Além de ideias para evitar fraudes e desperdícios, o estudo abordava formas de assegurar a oferta de serviços públicos de saúde e educação. Lula tinha outra proposta, a do inviável Fome Zero, mas, a exemplo do que fizera em relação à gestão macroeconômica de FHC, resolveu manter os programas herdados e ampliá-los. Sábia decisão. Infelizmente, ainda não foi possível prover educação de qualidade às crianças abrangidas pelo programa.

O Bolsa Família atende 13,8 milhões de famílias ao custo relativamente baixo de 0,5% do PIB. Contribuiu para reduzir a pobreza e a desigualdade. Se receberem educação de qualidade, as crianças beneficiadas pelo programa se tornarão adultos capazes de chefiar famílias livres da pobreza. Por isso, esse é o único programa social autofágico.

Uma das consequências positivas do programa é permitir às mães abandonar o mercado de trabalho e dedicar-se aos seus filhos. Elas recebem os pagamentos mensais e gerenciam as despesas familiares. Assim, caiu a oferta de empregadas domésticas, o que é um bom sinal. Erra quem pensa que isso é ruim. O programa acelerou a transição natural observada em outros países, nos quais o acesso à educação permitiu às mulheres disputar melhores postos de trabalho, diminuindo o universo das que buscavam o emprego doméstico. A menor oferta provocou o aumento dos respectivos salários.

O Bolsa Família não é assistencialista. Seu objetivo é assegurar que as próximas gerações das famílias assistidas não sejam pobres. Quanto à saída, esta não é o emprego, pois os pais não têm habilitações para preencher as respectivas vagas. Tenderão a permanecer em trabalho de menor remuneração. A saída é preparar as crianças para futuramente disputarem o mercado de trabalho, o que exige o cumprimento da condicionalidade básica do programa, isto é, mantê-las na escola. Sem isso, a pobreza continuará a reproduzir-se e se terá garantido apenas uma renda mínima sem ascensão social das famílias. O desafio é a educação de qualidade.

Prefeitura e Câmara de SP se recusam a transferir verba de publicidade para a Assistência Social


Pressionados por entidades e lideranças religiosas a aumentarem a verba da área de Assistência Social da Prefeitura para 2014, a Câmara Municipal e a gestão do prefeito Fernando Haddad (PT) se recusam em transferir parte de suas verbas de comunicação para a construção de novos abrigos e em melhorias para os 17 mil moradores de rua de São Paulo. A base aliada discute com a oposição, neste momento, em sessão no Palácio Anchieta, meios de suplementar a área social antes de aprovar o orçamento do Executivo de 2014, em segunda e definitiva votação.
Mas na verba de comunicação dos dois poderes, que totaliza R$ 140 milhões em ano eleitoral, ninguém na cúpula do governo ou na Mesa Diretora da Câmara aceitar mexer. O governo municipal tem R$ 96 milhões para fazer “publicações do interesse do município no ano que vem, enquanto o Legislativo paulistano conta com R$ 44 milhões para manter uma agência de publicidade, a TV Câmara e campanhas na mídia sobre temas variados como a discussão do Plano Diretor.
Voz isolada entre os 55 vereadores, Ricardo Young, líder do PPS, propôs cortar metade da verba de comunicação da Câmara para beneficiar a Assistência Social. “É muita coisa, tem de ser cortada pela metade”, afirma o parlamentar. O presidente José Américo (PT) discorda. “O orçamento é feito por meio de projeções realizadas por técnicos da Casa, e nunca é gasto todo o montante reservado”, defendeu.
Até o oposicionista Andrea Matarazzo (PSDB) discorda do corte na comunicação da Câmara. Mas defende a redução da mesma verba na Prefeitura. “Tem de se cortar das campanhas e eventos do governo e colocar na área da assistência social, que foi esquecida neste primeiro ano de PT”, criticou o tucano.
Por outro lado, o relator do orçamento e governista Paulo Fiorilo (PT) afirma não ser possível cortar verbas de comunicação da Prefeitura. “O governo tem importantes campanhas, como a do Bilhete Único Mensal feita agora. Esse gasto foi estimado pelos técnicos da Prefeitura”, justificou. Alguns vereadores como o líder do PSDB Floriano Pesaro defendem a transferência de recursos do superávit da Prefeitura, hoje em mais de R$ 8 bilhões, para a Assistência.
O governo vai receber emendas com propostas de alteração no orçamento até as 19h de hoje. Por enquanto a maior demanda é pelo aumento de verbas na Assistência Social. “Cada parlamentar poderá indicar até R$ 2 milhões em emendas para o governo executar, seja da base ou da oposição”, acrescentou Fiorilo.
REDUÇÃO
A verba da Assistência Social caiu 14% para 2014, o que tem provocado uma mobilização de entidades do Fórum Municipal de Assistência Social (FAS) na Câmara. Eles pressionam os vereadores a transferirem mais recursos para a área antes da votação final do orçamento. “Os vereadores não podem deixar que essa injustiça seja cometida não só com os moradores de rua, mas com as mulheres e crianças vítimas de violência doméstica que precisam de acolhimento em abrigos municipais que tiveram vagas fechadas ao londo deste ano”, afirmou o padre Ledio Milanês, coordenador do FAS.
Somados os recursos destinados à Secretaria de Assistência Social e ao Fundo Municipal da Assistência Social, a área receberá R$ 967 milhões em 2014. Antes de deixar o governo, o ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), criticado por lideranças comunitárias e pelo PT por adotar uma política higienista em relação aos moradores de rua, deixou um orçamento de R$ 1,1 bilhão para este ano.
“Não houve redução porque o governo vai ter dinheiro do Bolsa Família que vai entrar na pasta depois”, tenta argumentar Fiorilo. O relator do orçamento, porém, admite que a área deve ganhar mais verbas até a segunda votação. “Também temos uma demanda por mais recursos na área de Cultura (acréscimo de R$ 35 milhões solicitado por parlamentares da base).”
O vereador governista Orlando Silva (PCdoB) ao lado do oposicionista Ricardo Young (PPS), em sessão na Câmara de SP: os dois parlamentares negociam com governo uma suplementação para a Secretaria de Assistência Social

Rio Tietê terá plano de despoluição igual ao do Rio Sena


Tecnologia de despoluição é um dos itens de um pacote de cooperação que será assinado na sexta-feira pelo presidente francês François Hollande e pelo governador paulista Geraldo Alckmin

10 de dezembro de 2013 | 16h 19

Cley Scholz
SÃO PAULO - Um acordo inédito de cooperação internacional assinado entre os governos do Estado de São Paulo e a França vai renovar a esperança dos paulistanos de ver despoluído o Rio Tietê, utilizando a mesma tecnologia aplicada em Paris no Rio Sena.
Outros programas de mobilidade urbana, recuperação e urbanização da Serra do Mar e desenvolvimento urbano em municípios do Litoral Norte fazem parte de um pacote de 50 iniciativas conjuntas que serão assinadas na sexta-feira, 13, pelo presidente da França François Hollande e pelo governador paulista Geraldo Alckmin.
O Rio Sena era considerado biologicamente morto no início dos anos 1960, mas foi recuperado com leis de proteção e milhões de euros de investimento em estações de tratamento e recuperação do ecossistema.Em 2009 foi anunciado que o Salmão do Atlântico havia retornado ao rio, juntamente com várias outras espécies.
Acordos. A comitiva do presidente Francês inclui o ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, e Jean-Paul Huchon, presidente da região de Île-de-France.
Île-de-France, principal região administrativa da França, cuja capital é Paris, reúne 1.281 cidades com um PIB total de US$ 812 bilhões. É a região mais populosa do país e a mais rica da Europa.
"O acordo de cooperação será o primeiro assinado entre a Franca e um estado subnacional no hemisfério Sul e formaliza uma relação bilateral para a criação de um grupo de trabalho que tratará de iniciativas que trarão grandes benefícios para São Paulo", afirma Rodrigo Tavares, assessor especial para Assuntos Internacionais do Governo de São Paulo.
Entre as iniciativas estão um projeto piloto de sustentabilidade na Serra do Mar e troca de conhecimentos e tecnologias entre Sabesp e o órgão francês responsável pela despoluição do Rio Sena.
Grupo de trabalho. Os governantes  também vão tratar de projetos de investimentos e financiamentos e de novos instrumentos de cooperação.
O grupo de trabalho vai se concentrar em áreas da competência constitucional interna dos estados, como infraestrutura e mobilidade urbana, educação, desenvolvimento econômico, segurança pública, entre outros.
Um segundo acordo lança a iniciativa "2014: Ano de São Paulo e de Île-de-France para o desenvolvimento urbano sustentável".
O projeto prevê um programa de atividades de cooperação em áreas como transportes, habitação, saneamento, energia ou meio ambiente ao longo do ano que vem.
O acordo entre a França e São Paulo inclui 50 iniciativas conjuntas. Algumas delas são:

Despoluição do Tietê - A Secretaria de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) e a entidade que lidera a gestão das águas em Île-de-France (Siaap), responsável pela despoluição do rio Sena, trocarão conhecimentos e tecnologias contribuindo para o programa de despoluição do rio Tietê;
Serra do Mar - A região de Île-de-France vai desenvolver projeto piloto de sustentabilidade na Serra do Mar no Estado de São Paulo, com aplicação de tecnologias inovadoras e sustentáveis em habitações populares;
Litoral Norte - Île-de-France irá fornecer consultoria à Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa) para exploração sustentável do Litoral Norte, para um maior aproveitamento econômico e turístico da área;
Gestão metropolitana - São Paulo e Île-de-France trocarão peritos e conhecimentos relativos ao planejamento e execução dos planos de gestão metropolitana de Paris (Grand Paris 2030) e São Paulo (PAM 2040, a ser apresentado em breve).
Promoção empresarial - Cooperação entre a Agência Regional de Desenvolvimento de Île-de-France e a Investe São Paulo para partilhar experiências no âmbito da promoção de empresas e incubadoras e da atratividade dos territórios em matéria de investimentos. As agências farão intercâmbio de técnicos e farão campanha publicitária para promover negócios e investimentos no Estado de São Paulo junto ao setor privado de Île-de-France;
Eficiência energética - A Secretaria de Energia e o governo de Île-de-France vão colaborar na área de eficiência energética em três áreas prioritárias: legislação, uso rentável da energia de resíduos sólidos urbanos e energia solar e fotovoltaica.
Mobilidade urbana - A Secretaria de Transportes Metropolitanos fará parceria com a RATP (Régie Autonome des Transports Parisiens) e o STIF (Sindicato dos Transportes de Île-de-France) para troca de informações sobre gestão planejada de transportes e sobre agências reguladoras de transportes.