sexta-feira, 13 de julho de 2012

Inovar para competir, por Arnaldo Jardim




O Brasil enfrenta o risco da desindustrialização e não há como tapar o sol com a peneira! Diminuição relativa da participação da indústria no PIB, desarticulação de vários setores produtores, deterioração da qualidade de nossa pauta de exportações e a perda de competitividade internacional são evidentes. Afora medidas macroeconômicas – juros e câmbio –, há necessidade de ampliar os investimentos (concessões e PPP’s), dar eficácia a ação do Poder Público e concentradamente aumentar a competitividade da indústria nacional.
competitividade industrial, que deverá ser buscada centralmente em setores nos quais temos vantagens comparativas (agroindústria, pré-sal, energias renováveis e assim por diante), se ampara e se viabiliza na capacidade de inovação.
Nas entrelinhas do anúncio da revisão de metas do Plano Estratégico da Petrobras, que reduz a previsão de produção de petróleo de 4,91 milhões para 4,2 milhões de barris até 2020, está embutida a dificuldade de a empresa contratar equipamentos com conteúdo nacional para aumentar a exploração e agregar mão de obra qualificada em quantidade suficiente para seus projetos.
Guardada a devida proporção é o mesmo dilema enfrentado pela indústria nacional que vem perdendo competividade não só pela crise, mas também pela ausência de uma política mais agressiva de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento).
Dados do Banco Central apontam que a maior entrada de importados é no setor de bens duráveis, produtos com maior índice de tecnologia, enquanto nossas exportações são de  baixo valor agregado, em especial as commodities. Entre 2008 e 2011, o aumento da importação de bens de consumo foi de 167%.
Este aumento ocorre, principalmente, porque o Brasil só investe 1,19% do PIB em inovação tecnológica, embora já tenha um arcabouço de leis (Lei da Inovação Tecnológica, Lei do Bem) e de mecanismos (cláusula de P&D prevista no contrato de concessões da ANP e recursos da ordem de R$ 400 milhões/ano da ANEEL etc.) para impulsionar a pesquisa científica e tecnologia.
O governo deveria estimular políticas de inovação, por exemplo, exigindo dos setores beneficiados pelos sucessivos pacotes de incentivo fiscal que invistam em desenvolvimento tecnológico.
Recentemente caímos nove posições no ranking dos países inovadores, segundo dados divulgados pela Organização Mundial de Propriedade Intelectual e Instituto Ensead.
Hoje ocupamos a 52ª colocação e entre os Brics ficamos na lanterna. Na América do Sul quem lidera é o Chile na 39ª posição.
As causas apontadas por especialistas para o fraco desempenho brasileiro em inovação são bem conhecidas. Além do baixo investimento em pesquisa, baixa qualidade do ensino, principalmente no superior tecnológico, temos excessiva burocracia. Na contramão, o governo fez cortes em ciência e tecnologia (R$ 1,48 bilhão) e educação (R$ 1,93 bilhão) este ano.
O programa Ciência sem Fronteiras, anunciado em abril pela presidente Dilma Rousseff, é meritório mas ainda engatinha e seus resultados só serão observados na próxima década.
A educação, a pesquisa e a inovação precisam caminhar juntas, especialmente no ensino tecnológico que apresenta um modelo superado de aprendizagem. Em recente entrevista a revista Veja, o ex-presidente da Apple, John Sculley, disse que se o Brasil quiser se tornar um polo tecnológico será preciso reduzir a burocracia, um dos maiores obstáculos à inovação, segundo ele.
Por isso a integração entre governo, setor produtivo e universidades é fundamental para avançarmos neste setor, que poderá acrescentar um diferencial ao Brasil em termos de vantagem competitiva.
A atividade inovadora tem de ser mais apoiada pelos setores privado e público. É fundamental que se estimulem as articulações entre grupos de pesquisa proeminentes que se destacam nas universidades e empresas. Muitas vezes esses grupos carecem de recursos para transformar os resultados obtidos na bancada em produtos inovadores. Para que um resultado promissor venha a se transformar em produto com valor para a sociedade, é indispensável que as indústrias do setor “adotem” projetos piloto com alguma chance de sucesso.
O governo pode fortalecer os vínculos entre empresas e universidades inspirando-se nos bons resultados obtidos na parceria entre o Cenpes (Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello) da Petrobrás e a UFRJ, ou mesmo entre as indústrias brasileiras de sementes e a Embrapa.
Conclamo, assim, todos para consolidarmos uma política duradoura neste setor vital para o futuro do nosso País!
 
Deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP)
E-mail: arnaldojardim@arnaldojardim.com.br
Site oficial: www.arnaldojardim.com.br

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O talentoso senhor Dirceu


A imprensa rende-se ao julgamento do mensalão. Se você achava que o debate público não podia ficar mais pobre, pense de novo. Futricas do Supremo, dedo em riste da CUT e outras levezas serão nosso pão cotidiano durante as próximas semanas.
Esta coluna ignoraria o tema solenemente, não fossem os efeitos do mensalão sobre a política externa brasileira. A história começa há dez anos, em julho de 2002, quando José Dirceu foi aos Estados Unidos pela primeira vez.
Não falava nem entendia inglês. Não conhecia quase ninguém. Mas Lula crescia nas pesquisas de intenção de voto, Fernando Henrique patinava e o "Financial Times" sentia cheiro de calote no ar.
Não era a primeira crise financeira a coincidir com uma eleição presidencial. Em 1998, um Fernando Henrique acuado pedira socorro ao presidente Bill Clinton. Em 2002, Lula não tinha como fazer o mesmo com George W. Bush porque o PT estava longe dos centros americanos de opinião pública, pensamento e poder.
O "New York Times" tinha lá seu naco de razão: "Um governo esquerdista do PT e um governo conservador republicano podem ser uma combinação explosiva".
Lá foi José Dirceu com a "Carta ao Povo Brasileiro" debaixo do braço. Em Nova York, conversou com gente de JP Morgan, Citigroup, Morgan Stanley, Lehman Brothers, ABN Amro, Bear Stearns, da Alcoa e também da Moody's.
Em Washington, visitou a central sindical americana AFL-CIO, o Banco Interamericano, o Departamento de Estado, o Tesouro, o Conselho Econômico Nacional e o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Tirou foto solene no Ground Zero. WikiLeaks e outros documentos abertos pela lei americana de acesso à informação revelam que ele convenceu.
Em poucos meses, Lula e Bush montariam a aproximação diplomática mais ambiciosa de uma geração. Patrocinaram o primeiro encontro ministerial dos dois países, consultaram um ao outro sistematicamente e a Casa Branca começou a argumentar que o Brasil era "uma potência global em ascensão". Em relações internacionais, reconhecimento é poder.
O mensalão jogou esse trabalho por terra porque era Dirceu quem mantinha o canal de comunicação desimpedido. Mais tarde, o Palácio do Planalto e a Casa Branca iriam às turras a respeito de Iraque, Cuba, Honduras, Irã, comércio internacional, direitos humanos e proliferação nuclear.
Longe de mim colocar azeitona na empada de José Dirceu. O homem não precisa de mais mitificação. Mago dos magos para uns, inimigo público para outros, ele é odiado e reverenciado ao mesmo tempo.
Sua iniciativa deu certo. Não porque ele fosse um grande estadista. Não era. Estava mais para bombeiro apagando incêndio. Teve êxito porque, na época, uma estratégia para lidar com os Estados Unidos era inexistente.
Dez anos mais tarde, pouco mudou. Quando se trata de gerir problemas na relação com os Estados Unidos, o Brasil ainda fica à mercê do talento de um ou outro indivíduo. Sexta economia do mundo, podíamos fazer melhor.
Matias Spektor
Matias Spektor ensina relações internacionais na FGV. É autor de "Kissinger e o Brasil e de Azeredo da Silveira: um depoimento". Trabalhou para as Nações Unidas antes de completar seu doutorado na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Foi pesquisador visitante no Council on Foreign Relations (Estados Unidos) e assina uma coluna no "International Herald Tribune". Escreve às quartas, a cada duas semanas, na versão impressa de "Mundo".

terça-feira, 10 de julho de 2012

O valor da confiança


José Paulo Kupfer - O Estado de S.Paulo
A grande crise econômica em curso tem, como se sabe, uma variante econômica e outra financeira. Elas se combinam de modo simbiótico, de tal forma que o nível de atividades - melhor dizendo, suas perspectivas - influencia o comportamento das finanças. E este, de seu lado, produz impactos decisivos no desempenho dos negócios. Não poderia ser diferente numa economia global financeirizada, como a que foi construída nas últimas quatro décadas.
Ter essa realidade em mente permite entender que, enquanto o sistema bancário financeiro não recuperar a credibilidade perdida em diversos episódios de manipulação de mercado, que vieram à tona na esteira do desmoronamento dos esquemas de investimento em ativos subprime, não haverá hipótese de recuperação econômica sustentável.
É nesse sentido que o caso da manipulação da taxa interbancária de Londres, revelado em fins de junho, engrossa o caldo indigesto das fraudes que ajudaram a tornar esta crise um episódio moral peculiar na alentada história das crises econômicas.
Os observadores mais agudos já se deram conta de que a manipulação da Libor (London inter-bank offered rate), ocorrida pelo menos entre 2005 e 2009, cujo impacto negativo ainda se restringe ao mercado inglês e ao banco inglês Barclays, tem potencial para se espalhar e contaminar outros centros, claro que não na proporção e na intensidade da quebra do Lehman Brothers, mas com efeitos nada desprezíveis.
Não seria por falta de outros assuntos que a famosa The Economist dedicou seis páginas da edição desta semana - um editorial, uma coluna opinativa e a reportagem de abertura da revista - ao Libor scandal.
Taxa de referência mais usada em todo o mundo, a Libor é a base dos juros aplicados aos mais variados contratos financeiros - da mais complexa operação de derivativos às simples taxas cobradas nos cartões de crédito.
Ela estaria presente em instrumentos financeiros que, ao redor do mundo, envolveriam quantias estimadas no mínimo em US$ 500 trilhões. A Libor, em resumo, afeta todo mundo.
Com seus três séculos de existência, o vetusto Barclays é apenas o primeiro entre os bancos sob investigação, mas o número total deles pode chegar a duas dezenas entre os maiores do mundo, não só no Reino Unido, mas também nos Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Suíça e Japão. Gigantes como Citigroup, JP Morgan Chase, UBS, Deutsche Bank e HSBC estão na roda.
O escândalo, que já resultou na renúncia dos três principais dirigentes do Barclays, consistia em manipular a Libor para baixo, com o objetivo de dar a falsa impressão de que o mercado de financiamento interbancário não apresentava problemas de liquidez ou solvência, pouco antes e no período mais agudo da crise financeira. A prática era possível pelo método de cálculo da Libor, mas, como as investigações começam a apontar, não teria êxito sem a participação de outros bancos e a conivência do Banco da Inglaterra e de órgãos reguladores.
Com crescente importância para as finanças internacionais a partir de fins dos anos 60, a Libor é formada, diariamente, com base numa amostra de taxas declaradas que serão pagas em operações relevantes, no dia, por uma dúzia e meia de grandes bancos. Do conjunto enviado a um painel, são eliminadas as 25% taxas mais altas e as 25% mais baixas, calculando-se então a média das 50% restantes.
O problema é que o sistema de cálculo prevê a utilização da taxa declarada pela instituição - não a que efetivamente será paga. A presunção era a de que os bancos diziam a verdade e que, enfim, um fiscalizava o outro. Na fórmula atual, está claro, a Libor é um morto-vivo.
Uma das consequências esperadas para as fraudes com a Libor, além da mudança na fórmula de cálculo, é uma enxurrada de ações de perdas e danos da parte de investidores que se sintam lesados. Já há quem esteja prevendo, como ressalta a Economist, um grave "momento tabaco" para os bancos, referência às milhares de ações de fumantes contra a indústria de tabaco americana, em fins da década de 90. Para os bancos, pode ser muito pior.
Mais importantes do que os custos pecuniários da fraude serão as consequências institucionais. Afetados pelas ações judiciais em sua parte mais sensível - os ganhos do negócio -, os bancos e seus dirigentes talvez possam entender com mais facilidade que sem a confiança de seus clientes eles valem muito pouco.