domingo, 29 de setembro de 2019

Produtores de laranja do Brasil entram na Justiça inglesa contra maiores fabricantes de suco do mundo, FSP


Cutrale, Citrosuco e Dreyfuss podem ter que pagar US$ 3 bi por prática de cartel


Bruna Narcizo
SÃO PAULO
Produtores de laranja no Brasil ingressaram com uma ação internacional contra as três maiores indústrias de suco por formação de cartel sobre o preço de compra da fruta.
Atualmente, a indústria exportadora nacional é composta por três grandes companhias: Cutrale, Citrosuco e Louis Dreyfus. O grupo é representado desde 2009 pela associação CitrusBR.

Colheita da laranja no interior de SP; há duas décadas o setor reclama de cartelização da indústria 
Colheita da laranja no interior de SP; há duas décadas o setor reclama de cartelização da indústria  - Márcia Ribeiro/Folhapress
O Brasil é o maior exportador global de laranja e as três empresas detêm 50% da produção da fruta, processam 90% do suco e dominam 80% do mercado nacional.
A expectativa da Associtrus (Associação Brasileira de Citricultores), que está coordenando o caso, é que a indenização possa chegar a US$ 3 bilhões (R$ 12 bilhões). O processo já teve a adesão de cerca de 180 produtores.
Segundo o presidente da associação, Flávio Viegas, o produtor brasileiro recebe em torno de R$ 20 por caixa da laranja. Ele compara com o valor pago aos americanos, que recebem R$ 60 pela venda de frutas com a mesma qualidade e quantidade.
O preço baixo que vem sendo praticado no mercado nacional, afirma Viegas, foi um dos principais motivos para a diminuição drástica no número de produtores no país. Segundo ele, dois terços dos produtores de laranja deixaram de plantar a fruta em 20 anos. “No final da década de 1990 havia perto de 30 mil, hoje são cerca de 7 mil.”
A discussão sobre a formação de cartel não é de agora. A Associtrus já havia feito denúncias sobre o mesmo tema, no Brasil, em 1992, 1994 e 1999.
Em 2017, a Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo) chegou a abrir uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de Cartelização da Citricultura. O relatório feito pelos deputados na época apontou “indícios de insistência do cartel” por parte da indústria processadora e produtora de suco entre 2006 e 2016. 
“São Paulo é o maior produtor mundial de laranja, em um modelo cada vez mais verticalizado e centralizado. O grande desafio do setor é continuar a crescer, distribuindo renda e emprego para o produtor rural”, afirma o deputado estadual Marco Vinholi (PSDB-SP), que foi o relator da CPI na Alesp. 
No ano passado, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) encerrou três processos que foram abertos em 1999. Após a decisão do Cade, os deputados paulistas também encerraram a CPI.
Segundo comunicado divulgado pelo Cade na época, “as partes reconheceram a participação nas condutas investigadas, se comprometeram a cessar a prática, a colaborar com as investigações e a pagar contribuição pecuniária calculada com base no valor total das aquisições de laranjas de terceiros no ano de 1998 (atualizado pela Selic). Ao total, R$ 301 milhões foram recolhidos ao Fundo de Direitos Difusos”.
Para Viegas, o valor da indenização não é o correto, pois teria levado em consideração apenas um ano de prática de cartel. Segundo ele, há indícios de que as empresas estão controlando os preços do setor há décadas.
As provas, no entanto, só vieram após as empresas admitirem ao Cade as condutas anticoncorrenciais.
“O dano desse cartel aumentou depois que as empresas estabeleceram seus próprios pomares [que corresponde a cerca de 50%]. E isso só foi possível graças ao dinheiro que acumularam pelo subfaturamento das exportações após anos de controle abusivo dos preços”, diz Viegas.
A ação foi protocolada nesta sexta-feira (27) no poder judiciário do Reino Unido. Entre os autores estão vários líderes do setor.
“Resolvemos acionar os tribunais internacionais porque a Justiça no Brasil é muito lenta. Tem um grupo de produtores que entrou com uma ação em 2005 e o processo ainda está na primeira instância até hoje”, diz Viegas.
Segundo ele, ainda há prazo para outros produtores prejudicados à época aderirem à ação proposta. Além da Associtrus, a Faesp (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo também apoia a causa.
A CitrusBR, que representa as empresas, não respondeu aos contatos até a conclusão desta edição.

A farra dos desembargadores, Elio Gaspari. FSP

A menos de um quilômetro de distância do pedaço do Vale do Anhangabaú onde as filas de desempregados se formam ao amanhecer, o Tribunal de Justiça de São Paulo quer construir duas torres de 24 andares com seis subsolos para 1.300 vagas de estacionamento. Coisa estimada em R$ 1,2 bilhão.
Imagem de anteprojeto de arquitetura do prédio que o Tribunal de Justiça de SP quer construir
Imagem de anteprojeto de arquitetura do prédio que o Tribunal de Justiça de SP quer construir - Reprodução
Esse assunto rola desde 1975 e por ora o tribunal trata do projeto executivo da obra, que poderá custar até R$ 26 milhões. Deve-se à desembargadora Maria Lúcia Pizzotti o bloqueio da farra. Se ninguém mais puser a boca no mundo, esse negócio vai adiante. Vai aos poucos, mas vai.
Quem ouve falar em duas torres para o Tribunal de Justiça pode até achar que um país rico, em regime de pleno emprego, precisa de uma boa sede para o tribunal de São Paulo. Não é nada disso. Os edifícios destinam-se a abrigar apenas os gabinetes dos 360 desembargadores. Todo mundo pagará pela farra, mas as torres terão 28 elevadores e 12 serão privativos para desembargadores e juízes. Os doutores terão também um andar exclusivo para seu restaurante. Isso e mais um posto bancário só para desembargadores.
Uma das razões dadas pelos faraós seria a economia de R$ 58 milhões/ano que são gastos com aluguéis. Conta outra, doutor, sobretudo porque o Tribunal de Justiça já gastou R$ 141 milhões em projetos e estudos em torno dessa obra.
São Paulo tem 360 desembargadores com carro, motorista, um salário de R$ 35,5 mil, para começar, mais auxílio-moradia. (Um dos doutores recebia o penduricalho mesmo sendo dono de 60 apartamentos.)


Elio Gaspari
Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada".

Ruy Castro País de maus bofes. FSP

Não sei bem o que significa perder as estribeiras, mas, seja o que for, o Brasil parece estar perdendo as suas. Pelo que podemos ver no noticiário e em nós mesmos, tornamo-nos 200 e tal milhões de sujeitos que passam o dia chutando baldes, rosnando ameaças e usando toda espécie de canal para destratar os inimigos, os adversários e até os simples desafetos. Ninguém mais tolera ninguém, ninguém admite um pensamento contrário. A continuar assim, vamos passar a nos esbofetearmos ou cuspir uns nos outros à guisa de bom-dia. 
O exemplo vem de cima. Num país em que o presidente é o primeiro a não perder uma oportunidade de ejacular desaforos e descompor pessoas, inclusive ao microfone da ONU, como esperar moderação de seus chefiados? E, se esse presidente exerce a política da terra arrasada, da desarmonia entre os poderes e do desmantelamento das instituições, por que seus seguidores, dentro e fora do governo, fariam diferente? 
ministro da Educação, por exemplo, mesmo incapaz de tomar um ditado, não abre mão da arrogância. E dá-lhe de corte de verbas, desamparo a órgãos centenários e desprezo por funções que ele nem é capaz de entender, como a de professor universitário. E é contagioso. Uma autoridade escoiceando à solta estimula a que um esbirro do quarto escalão agrida uma heroína da cultura brasileira e fique por isso mesmo.
Da mesma forma, uma pistola à mostra num cinto, mesmo nos ambientes mais impróprios, pode levar o povo a achar que o país só se resolverá à bala. Mas, nesse caso, os valentões no poder que se cuidem —a massa de maus bofes que eles estão gerando pode se voltar contra eles.  
Um dia, de um jeito ou de outro, talvez o Brasil volte à sanidade. Só então saberemos quem serão os mais aptos a contar a história de nosso tempo —se os historiadores propriamente ditos, os apresentadores sensacionalistas da televisão ou os humoristas.
O presidente Jair Bolsonaro com o filho Eduardo, que carrega uma arma na cintura, após cirurgia - Flávio Bolsonaro no Twitter
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.