terça-feira, 31 de julho de 2018

Nizan Guanaes - O mundo precisa de irredutíveis - FSP

Há coisas que vão além de cliques, seguidores, likes; são o contrário do instantâneo

As pessoas diziam que no ano 2000 o mundo ia acabar --e ele acabou. Não do jeito que previram. Ele acabou porque começou de novo.
Não dá para seguir fazendo nada como antigamente. Mas algumas coisas permanecem. Lembro sempre o profeta Isaías: "Meus caminhos não são seus caminhos, meus pensamentos não são seus pensamentos".
Há diferentes dimensões a percorrer na vida, e quem vai só de uma moda para outra não vai a lugar nenhum. Hoje tem gente que forma convicção como quem toma um táxi ou um Uber, convencida em instantes e por instantes pela última mensagem nos apps ou nas redes.
Por isso eu gosto de estados como a Bahia e o Rio Grande do Sul —que são daquele jeito e não vão mudar.
O mundo precisa de irredutíveis. Adoro Roberto Carlos, Maria Bethânia e João Gilberto porque eles são irredutíveis.
O cantor Roberto Carlos - Wallace Barbosa/ AgNews
A tradição do mundo é mudar. Mas isso não significa que toda e qualquer mudança seja para melhor nem que devamos demolir tudo para construir qualquer novidade.
Vivemos num mundo em desintermediação. Mas a desintermediação da notícia gerou a epidemia de fake news.
As gerações nativas digitais começam a entrar com mais força na força de trabalho, mudando o próprio conceito de trabalho. Vejo nas agências do meu grupo jovens de talento que têm como pilar da carreira não ter uma carreira, ou ao menos uma como a concebíamos.
Eles podem formar uma carreira abrindo mão da carreira, mas não podem abrir mão da própria identidade porque senão é só botar um software ou aplicativo no lugar.
Não há área mais impactada pelas transformações do que o meu setor, a comunicação. E posso dizer com décadas na estrada que não há momento melhor para atuar na comunicação. As possibilidades de criação e execução são muito maiores e não param de crescer.
Todo o mundo está fazendo diferente, todo o mundo está fazendo novo. Modelos criativos e de negócios estão sendo revistos, mas um fato é claro: as marcas podem se comunicar hoje de formas muito mais efetivas do que antes.
Índices que calculam o valor das marcas têm mostrado ano após ano crescimento vigoroso de geração de valor, num ritmo maior do que antes.
Recente pesquisa sobre o valor das marcas mostrou que foi justamente num dos setores mais transformados pelas mudanças tecnológicas e comportamentais, o varejo, que se registrou o maior crescimento de valor. As gigantes chinesas de varejo eletrônico JD.com e Alibaba, por exemplo, cresceram mais de 90% em valor de marca.
Essas duas empresas e as gigantes de tecnologia americanas como Google, Apple, Amazon, Microsoft e Facebook lideraram a geração de valor de marca do ranking.
Em comum, aproveitam muito bem o que novas tecnologias e sistemas possibilitam, criando conexões entre redes de serviços e produtos capazes de suprir desejos e necessidades de número cada vez maior de consumidores.
Mas as marcas de mais sucesso buscam também manter valores e propósitos indispensáveis para se destacar na multidão e na confusão do mercado em redes digitais.
A queda das ações do Facebook, diante da incapacidade da rede de lidar com temas agudos de privacidade, confiabilidade e políticas públicas, serve justamente para provar o ponto de Isaías: há coisas que vão além de cliques, seguidores, likes. Elas são o contrário do instantâneo. Elas são duradouras e ao mesmo tempo difíceis de obter e de descrever. São impossíveis de empacotar e enviar.
Elas são os valores fundamentais que toda organização precisa para navegar nesse novo mar. E toda pessoa também.
Nizan Guanaes

Desemprego cai, mas total de pessoas que não trabalham nem procuram vaga é recorde, FSP

RIO DE JANEIRO


O número de pessoas que não trabalham e nem procuram emprego bateu recorde no país. Apesar da taxa de ter desacelerado no segundo trimestre do ano, o contingente fora da força de trabalho chegou a 65,6 milhões, alta de 1,2% sobre o período anterior e o mais alto da série histórica do IBGE, informou o órgão nesta terça-feira (31).
A taxa oficial de desemprego do país ficou em 12,4% no segundo trimestre. O resultado representa queda em relação ao verificado no primeiro do ano, quando a taxa foi 13,1%.
Na comparação dos três meses encerrados em junho com igual período do ano passado, o emprego caiu também. Na ocasião, a taxa esteve em 13%. O contingente de desocupados, que são as pessoas que estão sem emprego, mas em busca de oportunidade, somou 12,9 milhões no segundo trimestre deste ano.
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O indicador registrou queda frente ao apurado no trimestre encerrado em março, quando 13,6 milhões estavam nessa condição. No total, 723 mil pessoas deixaram a fila do emprego na passagem do primeiro para o segundo trimestre deste ano.
Já o número de ocupados, que são pessoas que de fato estão em algum emprego, somou 91,2 milhões em junho, alta de 0,7% em relação ao trimestre imediatamente anterior. Na passagem dos trimestres, 675 mil vagas foram geradas no país.
A queda no emprego está baseada em movimento que tem se repedido no mercado de trabalho brasileiro. O aumento de vagas registrado no período esteve baseado principalmente na geração de vagas informais.
O número de empregados no setor privado com carteira de trabalho assinada atingiu o menor nível da série histórica iniciada em 2012, ao registrar contingente de 32,8 milhões de pessoas.
Já o contingente de pessoas no setor privado sem carteira assinada somou 10,9 milhões. Na passagem do trimestre encerrado em março para o trimestre encerrado em junho, 276 mil pessoas passaram a trabalhar sem carteira. No mesmo período, 113 mil pessoas passaram a trabalhar por conta própria. 
O aumento do número de pessoas fora da força de trabalho– que são as pessoas em idade para trabalhar mas que não estão procurando emprego– também fez cair a taxa de desemprego. 
Na passagem dos trimestres, 774 mil pessoas ficaram fora da força, num contingente que somou 65,6 milhões no período. Parte das pessoas fora da força de trabalho estão nessa condição em razão do desalento, que é quando a pessoa desiste de procurar emprego depois de tentar se inserir no mercado sem sucesso. 
O contingente de pessoas fora da força atingiu o maior nível da série histórica, iniciada em 2012.

Descristianização, FSP

Descristianização

À medida que a eleição se aproxima, a raiva tende a decantar e outros fatores ganham mais peso

Quando saí em férias, duas semanas atrás, a leitura do noticiário político passava a impressão de que a candidatura de Geraldo Alckmin(PSDB) estava fadada a repetir o fiasco da de Ulysses Guimarães em 1989, que não obteve nem 5% dos votos, apesar de concorrer por um megapartido como era o PMDB.
Agora, no meu retorno, Alckmin aparece, se não como favorito, ao menos como alguém com grandes chances de chegar ao segundo turno. O problema não está nas inconstâncias da política, mas na afoiteza com que jornalistas, marqueteiros e o próprio eleitorado interpretam os eventos de campanha e as pesquisas, prestando muitas vezes mais atenção aos ruídos do que aos sinais.
Para os que não desistiram de escutar a ciência, sociólogos que trabalham com dados mostram que o comportamento do eleitor é muito mais regular do que se supõe, de modo que mapas de votação do último pleito e indicadores econômicos são um guia mais confiável para o “forecasting” (previsões) do que as impressões do momento. Um segundo escrutínio entre um petista e um tucano sempre foi um cenário de alta probabilidade, especialmente depois que as denúncias de corrupção se generalizaram, atingindo todos os grandes partidos.
Não é que o resultado esteja escrito nas estrelas nem que o eleitor não procure novidades. A persistência de Jair Bolsonaro no alto nas pesquisas é um indicativo disso. Mas a forma pela qual o cidadão compõe sua decisão de voto é um processo com várias fases. Num dado momento ele dá vazão à sua indignação com todos os políticos, escolhendo figuras que se dizem antissistema.
À medida, porém, que o pleito se aproxima, a raiva tende a decantar e outros fatores ganham mais peso. Será que homens mais ricos vão mesmo votar num candidato que não revela com clareza seu programa econômico e ainda por cima teria enorme dificuldade para formar maioria parlamentar? Meu palpite é que Bolsonaro murcha.