domingo, 25 de outubro de 2015

Estrondo na selva, Aliás OESP


Há 85 anos, pedaços de cometa tingiam de vermelho o céu da Amazônia e atemorizavam pescadores e seringueiros

O fim do mundo surgiu de repente. Em plena manhã, o sol ganhou tom vermelho-sangue e uma poeira espessa cobriu de escuridão a floresta amazônica na região do Rio Curuçá, afluente do Javari. Cinzas finas se espalharam sobre árvores e cursos d’água e grandes bolas de fogo despencaram do céu, em meio a sibilos e trovões. Três diferentes explosões, uma mais forte que a outra, fizeram a terra tremer e estrondos alcançaram centenas de quilômetros. Apavorados, seringueiros largaram o que faziam para um último abraço na família enquanto pescadores caíam de joelhos nas margens de rios para encomendar a alma a Deus. Em Remate dos Males (atual Benjamin Constant) – onde a população não chegou a ver as bolas de fogo, mas ouviu explosões –, muitos pensaram que o Exército testava novos canhões no Forte de Tabatinga. Eram quase 8 horas de 13 de agosto de 1930.
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Quando o frade franciscano Fidelis D’Alviano chegou à região do Amazonas, cinco dias após o fenômeno, a população continuava aterrorizada. Se não fora o fim dos tempos, o que havia acontecido então? Não adiantou o religioso entendido em ciências cogitar que as bolas de fogo poderiam ser bólidos vindos do espaço, que, ao entrarem na atmosfera terrestre, provocam brilho intenso seguido por estrondo. A tese de bombas e gases venenosos despejados por aviões de uma inexistente guerra de brasileiros e peruanos era mais aceita.
O pesquisador Ramiro visitou a região em 1997: feras e 'caceteiros'
O pesquisador Ramiro visitou a região em 1997: feras e 'caceteiros'
Etnógrafo e linguista, frei Fidelis refutou explicações místicas para se concentrar em pesquisas in loco. Visitou comunidades ao longo do rio, entrevistou quase uma centena de pessoas e produziu um relatório objetivo do caso. Por mero acaso, o religioso responsável pela catequese de índios ticunas se tornaria o único emissário para o mundo de um dos mais importantes impactos do século 20, que agora, oito décadas depois, ganha sua descrição científica mais completa e detalhada. Escrito pelos pesquisadores Ramiro de la Reza, Henrique Lins de Barros e Paulo Roberto Martini, o artigo O Evento do Curuçá: A Queda de Bólidos em 13 de agosto de 1930 faz parte do primeiro de dois volumes da obra História da Astronomia no Brasil (Companhia Editora de Pernambuco – Cepe), organizada por Oscar Matsuura. Uma tradução para o inglês será publicada em revista internacional.
O relato de frei Fidelis foi reproduzido em 1931 pela agência Fides emL’Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano. Logo abaixo do título – A queda de três bólidos no Amazonas: estranho e aterrador fenômeno –, aparecia o local de origem do texto: “São Paulo de Olivença (Amazonas, Brasil)”. O material serviu de base para uma notícia do jornal inglês The Daily Telegraph, que, em tom sensacionalista, falou do perigo que a civilização correra. O caso, porém, acabou esquecido e permaneceu inédito no Brasil até 1995, quando Ramiro, hoje professor emérito do Observatório Nacional, encontrou um artigo do astrônomo britânico Mark Bailey sobre o “evento do Curuçá”. Nele, o especialista inglês mencionava texto de cientistas russos sobre o caso acontecido em 1930 na Amazônia que lembrava o fenômeno do Tunguska, ocorrido 22 anos antes do outro lado do mundo, na Sibéria. Lá, um imenso objeto, com diâmetro entre 60 a 100 metros, explodiu na atmosfera causando violenta onda de choque que devastou 2 mil quilômetros quadrados de mata. Em 1923, o geofísico Leonid Kulik organizou uma expedição até o ponto de queda e descobriu que a população transformara a área em local sagrado. 
Logo após desenterrar a história do Curuçá, Bailey publicou artigo no jornal inglêsThe Observatory em que propõe a hipótese de que um cometa conhecido desde os tempos de Cristo, o Swift-Tuttle, teria sido o responsável pela sensação de fim do mundo no “Tunguska Brasileiro”. Entre 11 e 13 de agosto, quando na jornada em volta do Sol a Terra passa pela órbita desse cometa, ocorre no Hemisfério Norte a chamada Chuva de Perseidas, em que partículas cometárias que parecem vir da direção da constelação de mesmo nome caem na Terra como estrelas cadentes. Para alguns historiadores, esse fenômeno ajudou a popularizar a astronomia nos séculos 19 e 20. “Eu trabalhava em outra área, de pesquisa estelar, mas vi um paper escrito por esse inglês perguntando se alguém do Brasil sabia do assunto. Foi quando resolvi me dedicar a ele”, conta Ramiro.
Para começar, ele falou com Henrique, pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, que na época dirigia o Museu de Astronomia e Ciências Afins. Com ajuda do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), os dois conseguiram fotos de satélite da área onde teria ocorrido a queda, mas não viram nada que chamasse a atenção. “Penduramos as imagens na minha sala e, após semanas, notei pelo canto do olho uma pequena mudança numa delas”, conta Henrique. “Disse ao Ramiro que podia ser delírio, mas tinha enxergado um novo detalhe. Tiramos foto da foto, mudamos o contraste, determinamos os componentes e achamos o local do que seria a cratera.”
Ramiro então apurou no Observatório Sismológico de San Calixto, em La Paz, Bolívia, que às 7 horas de 13 de agosto de 1930, a 1,3 mil quilômetros de distância do ponto de impacto, foi registrado um tremor de 4,7 graus na escala Richter. O intervalo de uma hora deve-se à diferença de fuso entre os países. Ainda foram consultados especialistas em Botânica, que determinaram que a cobertura vegetal indicada pelas imagens de satélite era esperada porque a floresta ali leva em média 30 anos para se recompor e já haviam se passado 65. Em 1997, a tarefa mais difícil: Ramiro e outros pesquisadores, como Paulo Roberto, gerente do Projeto Pan-Amazônia do Inpe, fizeram uma expedição até o Vale do Javari e encontraram a cratera a 25 quilômetros do Rio Curuçá, na latitude 5.18 S, longitude 71.65 O.
Em companhia do sertanista Sidney Possuelo e de equipes de televisão da Austrália e do Brasil, o grupo saiu de Tabatinga, no Amazonas, e viajou dois dias e meio de barco pelos Rios Javari e Curuçá até a boca do Igarapé Esperança. Depois, com apoio de GPS, encarou 20 quilômetros de caminhada na floresta virgem até chegar ao astroblema – estrutura circular no solo terrestre causada pelo impacto. A região é terra dos temidos índios corubos, conhecidos como “caceteiros”, e dos não menos assustadores índios “flecheiros”. “Foi lindo, mas nunca mais volto lá. É um lugar onde homem branco não entra. Só tem animais e indígenas isolados e você pode morrer a qualquer momento”, conta Ramiro, rindo. 
A aventura durou 18 dias e possibilitou a coleta de algumas pedras redondas, enviadas para análise na Austrália. Elas são consideradas anormais para a região, na qual predominam argila e arenito. Segundo Paulo Roberto, ainda não foi feita análise do irídio, elemento químico que não existe na Terra e só aparece onde houve impacto. Mesmo assim, o Curuçá passou a integrar o seleto trio dos maiores eventos do século 20 – menor que o Tunguska e maior que outro fenômeno ocorrido em 1935 na Guiana Inglesa, do qual os cientistas têm poucas informações. “Fenômenos como o Curuçá são muito raros e registros desse tipo permitem estabelecer uma hipótese do que pode ocorrer nos próximos cem anos, por exemplo, além de esmerar o modelo com que se trabalha”, explica Henrique. “Também mostram que a ciência brasileira está ativa.”
O levantamento dos três especialistas traz, além de relato do frei Fidelis e da reportagem traduzida do jornal do Vaticano, um estudo dos diferentes aspectos físicos e sociológicos do Curuçá. Com explicações para o que os homens da floresta amazônica viram, ouviram e sentiram em 1930, como bolas de fogo no céu, queda de cinzas antes e depois dos estrondos e tremor de terra, bem como a ausência de menção a incêndio ou ondas de calor. Também diferencia os dois tipos de bólidos que podem atingir a Terra e, em tese, acabar com a humanidade dependendo do tamanho e da velocidade, como ocorreu com os dinossauros há muitos e muitos séculos. O primeiro são os cometas – compostos de gelo sujo e poeira vindos de regiões mais afastadas do centro do Sistema Solar e de órbitas mais conhecidas. O segundo são os asteroides – formados por rochas ou metais, provenientes em sua maioria de um cinturão entre Marte e Júpiter e potencialmente mais perigosos por não terem hora nem local para cair.
Mas o que frei Fidelis certamente teria gostado de saber está nas páginas finais: o motivo de terror de seringueiros e pescadores há 85 anos foi provavelmente um fragmento de cerca de 340 metros de um bólido extraterrestre formado por gelo e poeira que teria se separado do corpo principal do cometa Swift-Tuttle e caído na Terra no sentido Norte-Sul, compatível com o que se espera de um objeto vindo da direção de Perseidas. A uma altura entre 102 e 111 quilômetros do solo, ele se desintegrou com a pressão da atmosfera e partes mais densas que ainda resistiram atingiram a floresta a uma velocidade de 1,2 km/s, distribuindo-se por uma área de 5,5 quilômetros por 2,2. A maior delas formou a cratera de 400 metros de diâmetro e 50 de profundidade na área do Javari, hoje completamente coberta pela mata e só habitada por animais selvagens e índios “caceteiros” e “flecheiros”.

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Ronaldo Cesar
Ronaldo Cesar
Observação a redatora. A Latitude e Longitude está errada, se epsquisar verá que não é o local citado na reportagem, digite as reais coordenadas e encontrará o sinal do impacto na vale CURUÇÁ.  5º 04’ 28” S e 71º 49’ 10” O), no Google digite Evento curuçá e leia a material completo. abraços.

Contemplar o capim, Aliás, OESP


Lúcia Guimarães
12 Setembro 2015 | 16h 00
Folgo e convido minha alma, 
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deito-me e folgo à vontade vendo 
uma lança de capim no estio. 
(CANÇÃO DE MIM MESMO, POEMA DE FOLHAS DE RELVA, DE WALT WHITMAN)
Quem tem tempo de se espalhar na grama e admirar a lança de capim em vez de conferir a tela do smartphone? Em 1855, o poeta Walt Whitman não sabia nem precisava saber o que era ser multitarefas, mas já ensinava, em seu poema clássico, que a mente precisa vadiar. Vivemos uma era de aceleração de fontes de informação como nenhuma outra na história da humanidade. Mas o nosso cérebro tem a mesma capacidade fisiológica de enfrentar esse ataque de dados que tinha o cérebro do poeta. Em um livro best-seller escrito para você e para mim, não para cientistas, o celebrado autor Daniel Levitin oferece recursos para impedir que o leitor seja soterrado pela avalanche diária de informação. A Mente Organizadacombina a apresentação das descobertas recentes em estudos sobre o cérebro e sugere rotinas para assumir o controle do ecossistema de informação, e não ser controlado por ele. Levitin é um neurocientista, especialista em psicologia cognitiva e músico, autor de outro best-seller, A Música no Seu Cérebro.
Evolução do cérebro não acompanha o bombardeio de informações. Por isso, é preciso descanso
Evolução do cérebro não acompanha o bombardeio de informações. Por isso, é preciso descanso
Ele dirige um laboratório de percepção musical na McGill University, em Montreal, e é cofundador e diretor do programa de Ciências Sociais do Projeto Minerva, universidade fundada em 2012 em San Francisco. O Minerva é um programa de graduação com 120 alunos que visa a reformar a educação superior do século 21 para enfrentar as rápidas mudanças em vários campos de conhecimento. “Não achamos honesto cobrar altas anuidades de estudantes que, ao se formar em certos campos profissionais, não podem mais usar o que aprenderam porque seu conhecimento já está superado”, diz Levitin, em entrevista exclusiva ao Aliás. “Temos foco em pensamento crítico, solução de problemas e 25% do currículo é concentrado em promover a comunicação efetiva.” Engraçado: na era dos nerds esquisitões da tecnologia, uma escola de vanguarda privilegia o diálogo.
Em A Mente Organizada, Levitin observa o que têm em comum as pessoas bem-sucedidas e produtivas. Sugere estratégias de organizar a memória – esvaziá-la com exercício e instrumentos que chama de extensões do cérebro, como calendários eletrônicos, smartphones e cadernos de anotação. Curiosamente, ele notou, entre seus mais ocupados interlocutores, um apego físico a objetos analógicos, pequenos cadernos de anotação, fichas, canetas e lápis. E especula sobre as vantagens de manter esse hábito.
O cérebro precisa de resets neurais. São esses resets que nos tiram de situações como a de um carro atolado na lama. É frequente, depois de uma pausa de repouso, encontrar a solução para um problema que parecia fora de alcance. A neurociência, conta Levitin, comprova que contemplar a natureza oferece um poderoso reset – até mesmo olhar imagens da natureza. 
A eficiência em organizar a informação nos torna mais do que produtivos. É um instrumento de libertação para o ócio, para os momentos em que podemos contemplar a grama e ter grandes ideias. Como ter inspiração para escrever o maior clássico da poesia norte-americana.
Por que falamos em sobrecarga de informações?
Para os cientistas, a sobrecarga é a diferença entre a quantidade de informação com que somos bombardeados e a capacidade do nosso cérebro de lidar com ela.
O que é a obsolescência evolucionária, que o senhor aponta como parte do obstáculo para lidar com o excesso de informação?
Todos os organismos vivos estão constantemente se adaptando ao meio ambiente. A seleção natural exerce influência sobre essa adaptação. Por exemplo, nós nos adaptamos à erosão da camada de ozônio e pessoas que adquirirem maior resistência aos raios ultravioleta transmitirão aos descendentes o gene de sobrevivência a eles. Mas é um longo e lento processo. Nosso cérebro evoluiu para lidar com um ambiente que existia há 10, 20 mil anos. O genoma humano precisa de tempo para se adaptar. Para você ter uma ideia, em 30 anos quintuplicou a quantidade de informação que recebemos a cada dia. Pense nisso como o equivalente a ler 175 jornais de ponta a ponta diariamente. Outro número extraordinário: em 1976, nos Estados Unidos, havia cerca de 9 mil produtos únicos à venda num supermercado. Hoje, há cerca de 40 mil. O consumidor americano, que compra uma média de 150 produtos, tem que navegar entre uma quantidade muito maior de escolhas.
Embora a evolução do cérebro esteja “atrasada”, há duas gerações essa obsolescência era muito menos sentida, certo?
Vamos considerar um aprendizado que foi necessário para nossos avós. Eles tiveram que aprender a usar o telefone uma ou duas vezes – tiveram que fazer chamadas com ajuda de telefonistas e depois aprenderam a discar. Hoje, os smartphones não param de mudar. Você troca de modelo e tem que aprender inúmeras funções, que daqui a poucos anos serão trocadas.
Há um site chamado “Deixe eu googlar isto pra você” inspirado na exasperação que muitos sentem quando alguém faz uma pergunta que pode ser respondida online. Qual a importância de ter tanta informação disponível em poucos segundos?
Quando eu cursava a Universidade Stanford, na Califórnia, gostava de estudar dentro da enorme biblioteca principal. Havia ali respostas para tudo o que eu queria saber. Mesmo se eu me distraísse e quisesse conferir algo que não tinha ligação direta com o trabalho em questão, era preciso levantar, localizar um livro ou publicação num sistema de classificação. Hoje, a nossa atenção é desviada o tempo todo para novas fontes e isso afeta a possibilidade de recuperar o foco inicial. Há enorme variação na nossa capacidade de virar a chave da atenção. Mulheres e jovens tendem a ser mais rápidos do que homens e idosos. Mas varia muito. Se me distraio de algo, demoro uns cinco minutos para retomar a concentração.
A palavra multitarefas, executar várias tarefas ao mesmo tempo, é indissociável da rotina do século 21. Mas o senhor diz que multitarefas não passam de ficção.
Não existem multitarefas, é um mito. O cérebro simplesmente não comporta isso. A pessoa pensa que está lidando com várias coisas ao mesmo tempo quando, de fato, o cérebro está experimentando rápidas mudanças de foco que mal percebemos, o que resulta numa atenção fragmentada a várias coisas e nenhuma atenção sólida a uma que seja. Recentemente ficou provado que conseguimos prestar atenção a, no máximo, três ou quatro coisas de uma vez. O cérebro é eficaz em provocar autoilusão. Achamos que estamos no controle das coisas. Mas executar várias tarefas ao mesmo tempo libera um hormônio de estresse, o cortisol. O cortisol tem um papel evolucionário, mas também provoca ansiedade, nervosismo e afeta a clareza de pensamento. Comparo o ato de fazer várias tarefas ao mesmo tempo com uma espécie de embriaguez. Há trabalhos que exigem essa capacidade, como tradutor simultâneo ou controlador de tráfego aéreo. E não é à toa que, nessas funções, as pessoas são obrigadas a fazer várias pausas de descanso para recuperar a capacidade de se concentrar.
No entanto, há uma noção de que as pessoas bem-sucedidas, e o senhor entrevistou mais de 100 para escrever o livro, são as que têm o poder de acumular mais tarefas do que os outros.
Exato, mas a história e a ciência de laboratório nos provam o contrário. Estudos mostram que o trabalho de quem mantém o foco numa tarefa é mais criativo. Isso vale tanto para grandes empresários, atletas e inovadores como para artistas. Valia para Da Vinci e Michelangelo. Olhe para o alto na Capela Sistina, considere grandes conquistas como o cubismo, a 5ª Sinfonia de Beethoven, a obra de William Shakespeare – tudo é resultado de atenção sustentada ao longo do tempo.
Por que o senhor diz que as crianças devem aprender na escola, já aos 10 anos, a enfrentar a sobrecarga de informação?
Qualquer criança alfabetizada sabe que pode encontrar uma informação em segundos. Mas a maior parte do que está online é desinformação. Ficções mascaradas de fatos. Até estudantes universitários se deixam confundir. Recolhem informações sem perguntar quem está por trás. Como saber que a fonte é confiável? Na escola, os professores devem ensinar, para começo de conversa, que websites não são iguais. Devem incutir um questionamento crítico na pesquisa. À medida que os alunos crescem, vão adquirindo mais nuances para se informar. Por exemplo, se a criança quer um brinquedo, pode-se ensinar a ela que o website do fabricante não é a fonte mais confiável sobre a segurança do brinquedo. Antes, no ecossistema analógico, tínhamos curadores de informação, era mais fácil distinguir a credibilidade de fontes.
O senhor diz que as pessoas mais produtivas são as que melhor estabelecem prioridades.
A maioria de nós chega ao trabalho hoje em dia e é bombardeada com o “por fazer”. É como entrar cambaleando num ambiente em que há muitas exigências e começamos a atacar o que passa pela frente. Não fazemos um esforço consciente e deliberado de evitar que o ambiente em volta nos domine. Isso aumenta o cansaço e diminui a produtividade. Todas as pessoas altamente bem-sucedidas com quem converso têm em comum o fato de que elas anotam o que há por fazer e já começam a trabalhar cientes de prioridades.
O senhor diz que uma ferramenta útil para priorizar são os chamados exercícios de limpeza da mente.
Sim. O David Allen, um guru da produtividade e autor de A Arte de Fazer Acontecer, aponta para a importância de externalizar a informação. Recomenda anotar tudo o que está se passando na sua cabeça, coisas que têm a ver com a tarefa em questão e preocupações que podem distrair a pessoa. É um processo neurológico, porque o cérebro teme esquecer o que é importante. Quando o cérebro sabe que a informação foi arquivada externamente, nas anotações, e o efeito é de nos acalmar, é libertador. Retira o entulho mental que prejudica a atenção. 
A sobrecarga de informação se estende ao excesso de objetos. Por que o senhor defende uma gaveta de bagunça?
Um profissional precisa saber exatamente onde estão seus instrumentos. Pode ser um cirurgião, um dentista, um bombeiro. Este tipo de organização nos libera para pensar e tomar decisões. Mas excesso de organização é contraprodutivo, uma perda de tempo. O importante é deixar visíveis os objetos que utilizamos regularmente. Quantas vezes você encontra um parafuso, uma peça e não se lembra de onde vem? Jogue na gaveta de bagunça, a que tem objetos de utilidades diferentes. Isso é uma forma de fazer economia cognitiva, porque não é preciso classificar tudo.
O senhor aponta a correlação entre eliminar o excesso de informação e de pertences e a felicidade.
Se quiser destilar tudo o que se conhece sobre pessoas que se consideram felizes, a frase é a seguinte: elas se satisfazem com o que têm. E são as que querem conquistar algo, não receber prêmios e elogios. O que é diferente de não ter ambição pessoal ou criativa. O empresário Warren Buffett, o terceiro homem mais rico do mundo, com uma fortuna de mais de US$ 70 bilhões, mora na mesma casa há mais de cinco décadas. Ele inventou o neologismo “satisficing”, sobre as coisas que bastam. Não perde tempo com o que não lhe interessa e tem uma agenda diária de trabalho quase vazia, de poucas reuniões, que o deixa livre para ser produtivo.

Barreiras ao crescimento, por Amir Khair, Estadão


Amir Khair
01 Março 2015 | 02h 05
A atual política econômica passou ao largo da questão do crescimento econômico para pôr o foco na questão fiscal com compromisso em atingir 1,2% do PIB no resultado primário (receitas menos despesas exclusive juros) neste ano e acima de 2% do PIB nos dois anos seguintes.
Este compromisso consta da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2015. Mas a LDO apresenta, também, outras variáveis macroeconômicas que são metas a serem atingidas pelo governo. Entre elas a relativa ao crescimento econômico cujas metas estabelecidas pela nova equipe econômica foram de crescimento de 0,8% neste ano, 2,0% em 2016 e 2,3% em 2017. Assim, nos primeiros três anos da nova política econômica o País teria um crescimento médio anual de 1,7%. É muito pouco se comparado a média para o mesmo período dos países emergentes (4%) e mundo (3%), e também, face ao histórico do País dos últimos 15 anos (2000 a 2014) que foi de 3,1%.
Para este ano, a previsão da LDO de 0,8% de crescimento parece otimista face às previsões de crescimento constante do Boletim Focus do mercado financeiro, que prevê retração de 0,5% e tendência a piorar mais.
Caso nada se faça, o cenário futuro é preocupante. Baixo crescimento é prenúncio de elevação do desemprego e consequente tensão social e política. Mas, o que pode ser feito para retomar o crescimento ocorrido no período 2004/2010 de 4,4% anual? Vejamos.
Barreiras - Ao invés de criar novos estímulos tributários como fez no passado o governo é melhor retirar as barreiras ao crescimento. São tantas e tão potentes que é difícil explicar porque o País já cresceu no passado. Refiro-me às barreiras ao consumo e ao investimento. Ei-las.
Barreiras ao consumo: a) taxas de juros do sistema financeiro; b) má distribuição de renda; c) regressividade tributária; d) alto custo de vida para atividades essenciais; e) baixo valor dos programas de renda.
Barreiras ao investimento: a) baixo crescimento; b) Selic elevada; c) taxas de juros para as empresas; d) alta carga tributária; e) câmbio apreciado; f) excesso burocrático; g) mudanças frequentes de regras e; h) falta de plano estratégico ao País.
Neste artigo vamos analisar e propor medidas para a retirada de barreiras ao consumo e no próximo pretendo tratar das barreiras ao investimento.
Taxa de juros ao consumo - Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), essas taxas nos últimos quatro anos foram em média de 103% ao ano e atualmente estão em 108%, comparada com cerca de 10% na média dos países emergentes e 3% nos países desenvolvidos. Assim, quem compra no crediário paga mais do dobro (!) na aquisição de um bem. Esse é o maior freio ao crescimento.
Para reduzir essas taxas é necessário estimular a competição bancária. Para isso, torna-se necessário reduzir seus ganhos com operações de tesouraria (aplicações em títulos do governo) posicionando a Selic ao nível da inflação e reduzir e tabelar as tarifas bancárias. Ao restringir esses ganhos anormais, os bancos são obrigados a disputar o mercado de crédito com maior intensidade e, ampliando a competição, caem pela ação do mercado essas taxas de juros. É assim que funciona nas economias dinâmicas.
Má distribuição de renda - A massa de recursos que se dirige ao consumo depende da renda disponível das famílias. Essa renda quando concentrada em mãos de poucos freia o consumo.
Segundo o IBGE, em 1981 a metade da população mais pobre detinha 13,1% da renda e os 10% mais ricos detinham 53 vezes mais renda que os 10% mais pobres. Em 2002 a distribuição piorou um pouco: os indicadores foram respectivamente 13,0% e 60 vezes.
A partir de 2003 começou alguma melhora nessa distribuição e em 2013 esses indicadores passaram respectivamente a 16,4% e 43 vezes. É uma evolução modesta, mas se continuar progredindo, serão milhões de novos consumidores a participar do mercado.
Para mudar isso leva tempo e envolve melhorar a educação e ampliar programas de renda (ver adiante).
Regressividade tributária - O sistema tributário se caracteriza por priorizar a tributação sobre o consumo em contraposição à tributação sobre a renda e patrimônio. Cerca da metade da carga tributária é sobre o consumo, 10% sobre a renda e 3% sobre o patrimônio. Nessa carga sobre o consumo metade é devida ao imposto estadual ICMS, que tem alíquotas elevadas.
Qualquer tentativa de reduzir a regressividade tributária não passa no Congresso ou nas assembleias legislativas por contrariar interesses dos parlamentares. Na União é o caso da alíquota máxima de 27,5% sobre os rendimentos no imposto de renda, talvez a mais baixa do mundo, e a não regulamentação do Imposto sobre as Grandes Fortunas (IGF) previsto na Constituição. No caso dos Estados é a alíquota de 4% sobre a herança, a mais baixa do mundo. A remoção dessa barreira ao crescimento é talvez a mais difícil de ocorrer e pressupõe maior conscientização da sociedade dos males causados pela regressividade. Fato é que essa forte tributação sobre o consumo torna os preços mais caros em cerca de 40%.
Alto custo de vida para atividades essenciais - A maior parte da renda das pessoas é consumida em atividades essenciais como alimentação, transporte, saúde, educação e habitação e, quanto menor a renda, mais peso no orçamento doméstico tem essas atividades. Para cada uma delas existem políticas públicas conhecidas, mas insuficientemente aplicadas que poderiam reduzir os custos dessas atividades. Um exemplo é o abastecimento de gêneros alimentícios, onde as prefeituras podem aproximar o produtor no campo ao consumidor na cidade, o que traz maior ganho ao produtor e menor despesa ao comprador ao reduzir a intermediação onerosa da cadeia de atravessadores. Ao reduzir custos das atividades essenciais, o orçamento doméstico fica mais folgado para uso em consumo, lazer ou poupança. Há muito por fazer removendo parte dessa barreira.
Baixo valor dos programas de renda - A partir do governo Lula foram substancialmente ampliados os programas sociais. Apesar disso, o principal programa do governo, o Bolsa Família, custou no ano passado R$ 25 bilhões, que foi dez vezes menor do que as despesas com juros que atingiram R$ 251 bilhões. O valor transferido à base da pirâmide social volta praticamente todo para o consumo, ativando o comércio e a produção. Ao reduzir as despesas com juros abre-se espaço para aumentar programas de renda, sem afetar o equilíbrio fiscal.
Essas diversas barreiras que atravancam o crescimento podem ser assemelhadas a uma sala onde os móveis estão fora de lugar atrapalhando a circulação. Colocá-los no lugar além de melhorar a circulação cria ambiente agradável de convívio. A retirada das barreiras tem impacto não só no crescimento, mas no bem estar geral da população. E, além de tudo, o governo não precisa de novas leis para isso, podendo trabalhar sem depender de barganhas com o Congresso.
Caso não retire essas barreiras, nem o crescimento medíocre de 1,7% anual nos próximos três anos previstos na LDO irá ocorrer. Portanto, urge retirá-las.