segunda-feira, 3 de agosto de 2015

‘Não me puna com brutalidade’, Alias


Revolta com morte de Sandra Bland é sinal do mais poderoso movimento social dos últimos 50 anos nos EUA


Os Estados Unidos têm infinitas distrações, mas neste momento a atenção do país está concentrada na morte de Sandra Bland. Bland era uma mulher negra de 28 anos, moradora de Chicago, que recentemente conseguiu emprego na faculdade texana onde um dia estudou. Enquanto guiava por uma autoestrada no Texas, um policial estatal do mesmo Texas a obrigou a encostar o carro por ela não ter acionado a seta ao mudar de pista. Quando o policial pediu que Bland se livrasse do cigarro, ela o desafiou e xingou. Ele então a ameaçou com uma arma imobilizadora, ordenou que ela saísse do carro, a empurrou para o chão e apoiou o joelho nas suas costas enquanto a algemava. O policial a deteve e a prendeu na cadeia local. Três dias depois, Bland foi encontrada enforcada com um saco de lixo de plástico em volta do pescoço.
Alguns imediatamente acusaram a Polícia Estadual do Texas de assassinato, mas a questão se ela foi morta ou se matou, como a polícia alega, é basicamente irrelevante. Minha teoria, considerando o que ela havia escrito meses antes em sua página do Facebook - que estava muito deprimida -, é que a polícia a isolou numa cela de prisão, a humilhou e ameaçou, e que ela se matou de terror e desespero. A questão não é se ela foi assassinada. É, antes de tudo, que ela jamais deveria ter sido detida e encarcerada por uma infração menor de trânsito. E não devia ter sido aterrorizada. Os policiais que a detiveram e atormentaram é que deveriam ser presos e encarcerados.

Quem explica? Joelho nas costas, algema nos pulsos e uma morte suspeita: tudo por mudar de pista sem sinalizar
Quem explica? Joelho nas costas, algema nos pulsos e uma morte suspeita: tudo por mudar de pista sem sinalizar

Há 10 anos apenas, um incidente como a prisão injustificada e a morte de Sandra Bland nas mãos da polícia provavelmente nem teria chegado aos jornais locais, que dirá à mídia nacional. O fato de ter chamado a atenção e causado a indignação que causou é testemunho de um desenvolvimento recente notável que não se via igual desde os protestos contra a guerra e pelos direitos civis dos anos 1960. Ocorre neste país um movimento por reforma judicial que é o movimento social mais poderoso e bem-sucedido em 50 anos.
Há muito que pessoas vêm tentando reformar o sistema de justiça criminal - “Não me puna com brutalidade”, cantou Marvin Gaye há quase 45 anos -, mas esse esforço só se transformou num movimento no ano passado, quando Michael Brown foi baleado e morto por um policial em Ferguson, Missouri. A morte de Brown atiçou o ódio que já fora sentido na morte de Eric Garner, um mês antes, nas mãos da polícia da Cidade de Nova York. Muitos exemplos gritantes de brutalidade policial se seguiram: o tiro nas costas de Walter Scott por um policial na Carolina do Sul, o assassinato pela polícia de um garoto negro que brincava num balanço em Cleveland; a morte de um suspeito chamado Freddie Gray dentro de uma viatura policial. Todas essas vítimas eram negras. Nenhuma delas havia cometido um crime.
À medida que esses incidentes eram conhecidos, outros foram revelados, e cada um causava mais indignação e protestos. Foi nessa atmosfera que prosperou o impulso por uma reforma judicial. Os EUA encarceram mais pessoas per capita do que qualquer outro país no mundo. Atualmente, 2,4 milhões de americanos estão presos. A maioria deles são negros.
Parte da razão para essas punições absurdamente duras para crimes não violentos é, como alguns têm apontado, a chamada Guerra às Drogas, que transformou a posse e/ou venda de drogas numa forma de terrorismo doméstico.
Entretanto, uma razão mais geral é o fato de que o sistema judicial não se modernizou ao longo do tempo. As penas de prisão draconianas começaram com Reagan e atingiram seu auge com Clinton. Naquela época, os índices de criminalidade estavam muito altos. Atirar um garoto na prisão por três a cinco anos por furto numa loja não perturbava a consciência de ninguém - embora devesse. Agora, os índices estão atingindo níveis baixos recordes. As pessoas já não se sentem ameaçadas como se sentiam. Elas estão abertas a mudanças.
Estão abertas também a ver os fatos sociais feios que levaram à explosão da população prisional - 700% em 40 anos. Um desses fatos é que a sociedade não dá a mínima para os pobres e, em especial, para os negros pobres. É mais fácil guardá-los em prisões do que nutri-los e encaminhá-los para universidade e emprego. A sociedade quer sentenças de prisão longas. Caso contrário, ela teria de investir em saúde e educação para os pobres. Por dispendioso que seja manter pessoas presas, é mais barato do que cuidar delas e protegê-las como cidadãs livres.
Agora, porém, a reforma judicial está ganhando fôlego. Quase todo dia o New York Times traz uma matéria sobre comissões de liberdade condicional incompetentes, a falta de programas de reabilitação de drogados em prisões, a crueldade de fianças exageradas para pobres acusados de um crime e à espera de julgamento, o uso excessivo do confinamento solitário, condições prisionais que lembram campos de concentração, pessoas inocentes enviadas à prisão que ali apodrecem por serem pobres demais para ter acesso a um bom advogado ou mesmo a amigos com formação superior que saibam como interceder ou junto a quem interceder. Um jovem negro chamado Kalief Browder foi mandado para a notória prisão de Rikers Island, em Nova York, quando tinha 16 anos por ter roubado uma mochila, embora ele nunca tivesse sido julgado nem condenado pelo delito. Ele passou quase dois daquele anos em confinamento solitário. Finalmente solto no ano passado, tentou começar vida nova, mas seus anos de sofrimento pesaram demais, e ele se matou.
São histórias como a de Browder que estão impulsionando o movimento pela reforma judicial que, curiosamente, tem o apoio tanto de eminentes liberais como de eminentes conservadores. Os liberais querem mais humanidade nos sistemas judicial e penal, e os conservadores veem no encarceramento em massa um desperdício de recursos públicos, além de um exemplo de governo grande muito ambicioso, e governo grande é seu particular bicho-papão.
Por conta dessa cooperação bipartidária, muita coisa foi conseguida. A Cidade de Nova York relaxou recentemente os requisitos de fiança para delitos menores. As populações prisionais foram reduzidas em muitos Estados, incluindo muitos dos chamados “Estados vermelhos” (com inclinações republicanas), onde os sentimentos de lei e ordem são tradicionalmente fortes. Na Califórnia, alguns crimes menores foram rebaixados à condição de contravenções. Há movimentos para limitar o uso do confinamento solitário e para reformar políticas irracionais de concessão de condicional.
O clímax do movimento por reforma judicial foi a visita que o presidente Obama fez à prisão federal El Reno em Oklahoma, há cerca de duas semanas. Foi a primeira vez que um presidente americano visitou uma prisão. Num discurso apaixonado e eloquente - um de seus melhores - Obama denunciou a dureza punitiva do sistema judicial e penal existente (e declarou, referindo-se aos prisioneiros da prisão, “Não fosse pela graça de Deus, seria eu”). Pouco depois, ele instruiu o Departamento de Justiça a rever a prática do confinamento solitário que é, seguramente, o aspecto mais sinistro do sistema penal americano.
Boa parte do ímpeto por trás dessas notáveis mudanças e tentativas de mudança veio do Marshall Project, uma organização sem fins lucrativos dedicada a usar o jornalismo para mudar os sistemas judicial e penal. O Marshall Project - nomeado depois de Thurgood Marshall, o grande magistrado da Suprema Corte americana, que era negro - faz parcerias com várias organizações noticiosas que veiculam matérias expondo a maneira desumana como as pessoas são punidas por violar a lei nos EUA.
Ajuda o fato de o editor-chefe do Marshall Project ser Bill Keller. Keller, que ganhou um Prêmio Pulitzer pela cobertura do colapso do comunismo na União Soviética e cobriu também o desmantelamento do apartheid na África do Sul, é ex-editor executivo do New York Times. Ele deixou um emprego de colunista no jornal para chefiar o Marshall Project. Eu o conheço um pouco e o visitei em seu escritório outro dia desses. Homem requintadamente centrado, com modos corteses, ele é animado também por fortes paixões e convicções. Tem alma de jornalista, uma simpatia instintiva para os desprovidos de poder e uma aversão instintiva pelo poder impositivo e autoritário. Embora possa ser espirituoso e mordaz sobre algumas concessões que dominam o jornalismo hoje em dia, ele fala das metas do Marshall Project com a tenacidade de um repórter. Ele se referiu a um artigo poderoso que o Marshall Project publicou recentemente sobre um homem a quem fora prometida liberdade condicional após 10 anos se ele aceitasse a prisão perpétua, mas que ficou 37 anos preso. Keller disse que o artigo fora selecionado pelo Washington Post, que o estampou na primeira página. Com isso, disse Keller, o homem agora está em liberdade condicional. “É muito gratificante publicar um artigo que muda coisas”, disse ele, os olhos azuis faiscando.
Embora esta seja apenas a aurora do movimento pela reforma judicial, e tudo possa acontecer - editores se cansarem de matérias sobre reforma prisional; a política mudar quando a Casa Branca mudar de mãos; a questão de quem pagará pelas alternativas ao sistema existente desencorajar possíveis apoiadores; a classe média branca não conseguir perceber como seus interesses se cruzam com o destino dos pobres e encarcerados -, o sentimento de gratificação de Keller foi, no atual contexto desse extraordinário movimento social, mais que plenamente justificado.
/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Ontem é hoje, por GILLES LAPOUGE - O ESTADO DE S. PAULO


O aniversário das grandes batalhas entrelaça o tempo cíclico das estações com o "never more" de nossas vidas


A Europa é um continente que recorda. Adora comemorações, aniversários e celebrações. Todo verão, de julho a setembro, mas também no outono e mesmo no inverno, ela reedita as grandes batalhas que marcaram sua tumultuada história.
Se passarem pela Áustria, poderão assistir à Batalha de Wagram, travada por Napoleão em 1809. Ou então, se chegarem até as Ardenas, verão milhares de soldados americanos, ingleses e alemães recomeçarem sem fim as batalhas de 1944, quando Hitler viveu seu derradeiro furor. A guerra mundial de 1914-18 também é um fantástico catálogo de batalhas, como Verdun, o Marne ou Les Éparges, que costumam ser reeditadas.
Às vezes, remontamos no passado longínquo. Reproduzimos até mesmo a Batalha de Bouvines, na qual, em julho de 1214 (isto é, há mil anos), o rei da França, Felipe Augusto, enfrentou três poderosas monarquias europeias - Otão IV de Brunsvique, o inglês João Sem-Terra e o português Fernando.

Saudades de uma peleja. Europeus encenam a Batalha de Ardenas, que marcou vitória contra os nazistas
Saudades de uma peleja. Europeus encenam a Batalha de Ardenas, que marcou vitória contra os nazistas

Essas batalhas fantasmas, essas batalhas mortas, exumadas do passado, como se exuma uma ossada do paleolítico ou um vaso da antiga Grécia, são executadas com um rigor escrupuloso. Os soldados, milhares, dezenas de milhares de soldados, são voluntários. Eles envergam os uniformes da época com um realismo alucinante, seguram arcabuzes ou fuzis de época. As enfermeiras têm os mesmos uniformes de então. Para as batalhas recentes, são encontrados automóveis de 1916 ou tanques de 1945. Supermercados gigantes de uniformes e de material antigo surgiram principalmente na Bélgica. Um tanque de guerra de 1944 americano ou alemão vale uma fortuna, mesmo se alugado.
Todos os “soldados” conhecem a batalha na ponta dos dedos: passaram o inverno recapitulando a história. O desenrolar do combate foi elaborado por velhos militares eruditos que prefeririam morrer a dar aos seus soldados fuzis de uma outra guerra. Cada gesto é a cópia de um gesto feito há 100, 500, às vezes mil anos. É o realismo! Nada de imaginação, nem de poesia! O embate terá de ser reproduzido - como um falsificador refaz um quadro de Rembrandt ou de Veronese.
Esses simulacros de batalhas inscrevem-se num vasto movimento de ressurreição do tempo perdido. Nostalgia! A Europa e principalmente a França são ávidas de aniversários. Celebram-se sem cessar datas passadas: o nascimento de um rei, sua morte, seu casamento, sua primeira gripe, a invenção do avião, da fotografia, um naufrágio, uma lei, a abertura de um bordel, o desmoronamento de uma igreja.
Neste verão, os organizadores não sabiam como estabelecer uma ordem para tantos aniversários. Era preciso encontrar um espaço para as batalhas de 1945, mas também um lugar para a última batalha de Napoleão, Waterloo, em 1815. Revivemos o momento em que os hussardos de Napoleão surpreenderam o pobre “soldado Ryan”.
Há uma fila de comemorações. Há um verdadeiro congestionamento de memórias. Os anos se misturam, se entrechocam. Cada dia é uma bonequinha russa. Se a abrirmos, encontraremos em seu interior cinco ou seis jornadas antigas. Não se pode arrancar uma folha de calendário sem topar com um domingo antigo, uma segunda-feira desaparecida. A véspera e o amanhã se sobrepõem. Os aniversários dão topadas entre si. A vontade é distribuir senhas, como nas repartições do seguro social. 
O tempo é o combustível comum a todas essas “reproduções de antigas batalhas”, a todos esses aniversários. Há o tempo circular que não morre jamais e retorna a cada ano ou a cada século, e o tempo linear, o tempo da História, que se consome, morre e jamais recomeça.
Algumas festas comemoram o tempo circular, o tempo natural, o tempo sem começo nem fim, um tempo ao mesmo tempo rápido e insubmergível, frágil e no entanto indelével, pois ele retorna no ano ou no século seguinte. É o tempo dos pagãos, mas também o dos filósofos gregos antigos, Parmênides ou Pitágoras, o tempo que percorre o quadrante do relógio e que recomeça a cada doze horas sua ronda eterna. Esse tempo do Eterno Retorno não quer conhecer nada da História, pois o tempo da História, justamente, não retorna jamais.
Ao contrário, outras comemorações, por exemplo as reconstituições de batalhas antigas, consomem o tempo histórico, ou seja, um tempo linear que é o de Heráclito (“Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”). A batalha de Waterloo ou a chegada de Cabral ao Brasil ou o suplício de Tiradentes aconteceram em dado momento e não se reproduzirão jamais. Mas o aniversário, a comemoração ou a reprodução de uma antiga batalha fazem reviver todos os anos acontecimentos que desapareceram irrevogavelmente. Os dois modelos de tempo - o linear e o circular - então se conjugam. Um aniversário realiza esse “tour de force”: ele entrelaça a doce, monótona e repetitiva ciranda das estações com o curso cego e irremediável da História, com o “never more” das nossas vidas.
Embora sejam incompatíveis, os dois modelos de tempo, o histórico e o circular, desempenham a mesma função. Arquimedes traça seus círculos (que procedem do atemporal) na cidade de Siracusa à qual a História acaba de atear fogo.
O caso de Jesus Cristo esclarece essas sutilezas. Jesus é um atleta do aniversário do aniversário, da comemoração. Está à vontade no tempo humano. No entanto, no início, teve dificuldade em penetrar nele. A própria data do seu nascimento é um segredo. Tácito, que é seu contemporâneo, assinala simplesmente que algo aconteceu no reinado de Tibério, lá, ao lado da Judeia, mas não sabe bem o quê.
Mas, em seguida, Jesus está muito à vontade no tempo circular. Jesus adora os aniversários ou, antes, seus fiéis o adoram. Ele se apodera do tempo redondo das estações, dos solstícios, dos equinócios e dos aniversários. Celebra o retorno regular do seu nascimento, de seu suplício, de sua ressurreição, da Páscoa, da ascensão, de seu reencontro com os peregrinos de Emaús. Cada domingo, há 2 mil anos, as igrejas e os templos reproduzem a subida aos céus de sua mãe, suas atribulações com Judas ou a sua crucificação, exatamente como no ano 2015 soldados voluntários reproduzem a Batalha de Wagram, de Waterloo ou das Ardenas. Há dois mil anos, Jesus Cristo diz todas as manhãs, ou todos os anos, a Lázaro: “Levanta-te e anda”.
Assim, à primeira vista, Cristo parece um especialista deste tempo, sempre recomeçado, que é o tempo das antigas civilizações, por exemplo, dos gregos, o de Parmênides ou de Pitágoras.
Mas Cristo é também um enérgico adepto do tempo irreversível, do tempo da História. Por quê? Sua vinda à terra quebrou o tempo antigo. Graças a Jesus, há um começo da história e haverá um fim, o apocalipse, o Juízo Final e o fim do mundo. A irrupção de Jesus, em certo momento do tempo, foi um acontecimento extraordinário que determinou o ano zero e que desenredou o tempo circular das antigas civilizações, substituindo-as pelo tempo mortal e irreversível da História.
Jorge Luis Borges teve a percepção disso: “Aristóteles nos diz que os pitagóricos professavam a crença, o dogma do Eterno Retorno que Nietzsche descobriria tempos mais tarde, ou seja, a ideia do tempo cíclico refutado por Santo Agostinho na Cidade de Deus. Santo Agostinho disse, empregando uma extraordinária metáfora, que a cruz de Cristo nos salvou do terrível labirinto circular dos estoicos”.
A análise de Borges é correta. No entanto, é incompleta. O grande cego de Buenos Aires se esquece de dizer que, se a Igreja de Jesus pôs em movimento o tempo linear, o tempo histórico, permanece igualmente uma grande produtora do tempo circular. É o que testemunham, sobre o tímpano das catedrais, a Roda da Fortuna assim como o retorno anual das mesmas missas, das mesmas cerimônias, Páscoa e Natal, Pentecostes e Todos os Santos, etc. Combinar os dois registros do tempo é o gênio do cristianismo. Teremos de escolher entre esses dois modelos de duração? Certamente, o tempo circular, o Eterno Retorno, tem seu encanto. É tranquilizador. Ele elimina o inesperado, a surpresa ou o desconhecido, e mesmo a morte, mas é monótono, destila um enfado infinito. Quando aprendeu que Nietzsche havia introduzido na filosofia o modelo do Eterno Retorno, Woody Allen se desmanchou em lágrimas e disse ao professor: “Então, terei de rever eternamente Holiday on Ice?”
O aniversário, a reprodução maníaca das antigas batalhas, são o ponto de articulação desses dois filósofos do tempo. Eles asseguram sua sutura. Combinam as figuras incompatíveis. É ali que floresce o seu gênio. Seu estofo é tecido com lãs e sedas de todas as cores. O que lhes confere seus moirés e suas seduções, suas complexidades, seus paradoxos e suas verdades.
O aniversário decorre de dois modelos de tempo. Ele nos ensina que o presente só existe porque morre, e que ele renasce no momento em que acreditamos que morreu, como de resto fez Jesus Cristo. Nas curiosas cerimônias que o aniversário fomenta, a memória e o esquecimento cessam de ser irreconciliáveis.
Todas as coisas, sempre, morrem e entretanto renascem. Cada instante é sem antecedentes e sem posteridade, mas ele jamais se apaga.
O passado, o presente e o futuro se confundem, tornam-se indiscerníveis uns dos outros. Todas as coisas se vão e todas retornam. Hoje pela manhã o sol nasceu há mil anos e se porá em seguida, em cinco milhões de anos, ou seja, há vinte séculos. O tempo é uma trágica linha reta. E é redondo como uma bola.
“Tudo está no presente, entenda isto”, escreve William Faulkner. “Ontem só acabará amanhã e amanhã começou há dez mil anos.” 
/ TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Plataforma faz a ponte entre MEIs e clientes


CRIS OLIVETTE
19 Julho 2015 | 07:53

Projeto piloto iniciado no Rio Grande do Sul vai abranger todo o País; ferramenta também permite emissão de NF e gestão financeira

Juliano Londero (de óculos) com o time que criou e opera a plataforma Acelera MEI, (a partir da esquerda) Rodrigo Rath, Daniel Docki, Pedro Gabriel e Felipe Soares
Juliano Londero (de óculos) com o time que criou e opera a plataforma Acelera MEI, (a partir da esquerda) Rodrigo Rath, Daniel Docki, Pedro Gabriel e Felipe Soares
Em breve, os microempreendedores individuais (MEIs) de todo o Brasil contarão com o apoio da plataforma Acelera MEI, que desde março está em operação no Rio Grandi do Sul. A ferramenta foi criada para auxiliá-los no gerenciamento das atividades e para conectá-los com os consumidores. “Com ela, os MEIs poderão crescer de forma organizada e estruturada”, afirma o idealizador do serviço, Juliano Londero. 
Segundo ele, o lançamento nacional deve ocorrer em agosto. “Temos reunião agendada com o ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, em Brasília, para apresentar o projeto. Em seguida, faremos o lançamento”, diz.
Dono de outro negócio na área de automação empresarial, Londero e seu sócio resolveram criar a spin off – empresa que nasce a partir de outra, com o objetivo de explorar um novo produto ou serviço, com foco nos MEIs. “Esse mercado está em plena expansão. Hoje, no Brasil, temos mais de 5 milhões de microempreendedores, responsáveis por 27% do PIB nacional”, diz.
Ele afirma que a startup participou do edital Inova RS, lançado pelo Sebrae no ano passado, e foi selecionada. “Recebemos R$ 109 mil para desenvolvermos o projeto e colocá-lo em operação”, conta.
O gestor de projetos na área de inovação do Sebrae-RS, Gustavo Moreira, diz que o programa é uma iniciativa do Sebrae Nacional e tem por objetivo fomentar os pequenos negócios. “Nesta edição, tivemos 90 inscritos e selecionamos 42 empresas, entre as quais distribuímos R$ 4 milhões em recursos não reembolsáveis.”
Londero explica que o consumidor que necessita de um prestador de serviço ou produto, lança a demanda na plataforma, que indica os empreendedores que estão mais próximos a ele para executar a demanda.
“Caso não encontre o profissional adequado, a ferramenta direciona a solicitação para nós, e procuramos no mercado os MEIs para aquele serviço. Temos parceria com empresas de classificados que divulgam a demanda, convocando os MEIs a se cadastrarem na plataforma.”
Ele ressalta que a plataforma também fornece sistema de gestão para que o MEI emita nota fiscal eletrônica e faça o controle financeiro de caixa, deixando o fechamento financeiro pronto para o final do ano.
Até o momento, a ferramenta tem 2 mil profissionais cadastrados. “Começamos o projeto piloto aqui no Rio Grande do Sul. Estamos ajustando as variáveis e nos preparando para expandir para o restante do País.” Segundo ele, para o MEI receber as solicitações de serviços não precisam pagar nada. Mas para gerar as notas fiscais de serviços o custo anual é de R$ 99.
Em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, o consultor de informática, Jefferson Cunha, é um dos usuários da plataforma. Segundo ele, o desejo de usar a ferramenta foi um incentivo para se formalizar. “Fiz o cadastro em março e até o momento tive aumento de 30% nas solicitações de serviço”, diz.
Cunha também foi um dos primeiros usuários do Acelera MEI a usufruir da parceria que a plataforma firmou com a Payleven – empresa de tecnologia que oferece meios de pagamentos para micro e pequenos empreendedores. “Hoje, pouco se usa dinheiro físico. Antes, meu pagamento era feito por meio de transferência bancaria. Agora, com a máquina da Payleven, os clientes pagam com cartão de crédito ou débito. Com essa facilidade, eles podem solicitar serviços maiores e parcelar o pagamento no cartão”, conta.
A diretora geral da Payleven Brasil, Adriana Barbosa, conta que o negócio foi criado em 2012. “Identificamos que havia oportunidade de criar uma solução de aceitação de cartão que fosse acessível e desburocratizada, voltada para microempreendedores e profissionais liberais. A parceria com a Acelera MEI está nos ajudando a atingir o objetivo de democratizar a aceitação de cartões no Brasil.”
19.7 Adriana Barbosa da payleven
Em 2014 a Payleven fez uma pesquisa e identificou que o principal motivo que fez com que os estabelecimentos passassem a aceitar cartão é porque 41% deles perdiam venda. “O consumidor não anda mais com dinheiro, apenas com cartão, sem essa opção de pagamento, eles perdiam vendas.”
Adriana diz que outro motivo está relacionado ao parcelamento do pagamento, muito difundido no País. “Esse sistema incentiva o consumidor a gastar mais, o que faz aumentar a receita do lojista. Estabelecimentos que passaram a aceitar cartão com a Payleven, depois de um ano tiveram aumento de 175% no faturamento. Um resultado bastante relevante para o mercado”, afirma.
A empresária conta que trabalha para tornar a experiência cada vez mais acessível ao usuário. “Agora, por exemplo, o usuário não tem mais custo fixo com a ferramenta. Ele pode comprar o leitor em nosso site e pagar em 12 parcelas fixas de R$ 23,90. O produto é entregue no endereço indicado em seu cadastro. Depois de pagar o leitor, só terá algum custo quando fizer venda.”
Segundo ela, pagamento feito com cartão de crédito à vista, tem taxa de 3,39% e o empreendedor recebe o dinheiro em 30 dias. Para receber o valor da venda em dois dias a taxa é de 4,39%. Sendo que há acréscimo de 1,99% para cada parcela adicional no cartão de crédito. Os pagamentos feitos com cartão de débito tem taxa de 2,69% e o recebimento do valor da venda ocorre em dois dias úteis.
Adriana conta que no final de 2014, a Payleven tinha 60 mil clientes usando a solução, distribuídos em 1,6 mil cidades. “Em abril deste ano, já estávamos em duas mil cidades e com 100 mil clientes.”
Segundo ela, a parceria com a Payleven é perfeita porque ambos atuam no mesmo nicho. “Enquanto a atuação deles visa proporcionar uma visibilidade maior aos MEIs e aproximá-los do consumidor por meio da plataforma, a nossa atuação visa facilitar o crescimento dos MEIs, por meio do aumento de receita decorrente das facilidades oferecidas aos clientes nas formas de pagamento.”