domingo, 3 de junho de 2012

Empresas fecham fábricas para fugir dos altos custos


Fabricantes de alumínio e de vidros não resistem à alta dos preços de insumos nos últimos anos, como energia e gás natural

03 de junho de 2012 | 3h 09
RENÉE PEREIRA - O Estado de S.Paulo
Ficou tão caro produzir no Brasil que algumas empresas desistiram de manter suas unidades em operação. A indústria de alumínio primário, por exemplo, já fechou duas fábricas e estuda desativar mais uma. Os fabricantes de vidros seguem o mesmo caminho e começam a desligar fornos por falta de competitividade para concorrer com importados no mercado interno.
Nos dois casos, a origem do problema chama-se custo Brasil - expressão que o governo muitas vezes traduziu como choradeira de empresário. Altamente dependente da energia elétrica ou do gás natural, que chega a representar 50% dos custos da empresa, a indústria de alumínio e do vidro sucumbiram à escalada dos preços dos insumos nos últimos anos. "O setor foi atingido na veia", afirma o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo.
Entre 2006 e o primeiro semestre do ano passado, o custo da eletricidade para o setor subiu 76%, de US$ 42 para US$ 74 o megawatt/hora (MWh) - a média mundial está em torno de US$ 40. Do outro lado, o preço do alumínio caiu 15% no mercado internacional, achatando as margens das companhias.
"O Brasil reúne todas as condições para ser uma província do alumínio. Tem bauxita de qualidade, energia hídrica e uma indústria de transformação inovadora. Mas tudo isso tem sido anulado pelo avanço nos preços da energia", lamenta Azevedo.
Fábricas. Exemplo disso, é que desde a década de 80 não há nenhum projeto novo de produção de alumínio primário no País. A última grande unidade aberta foi em 1985, com a Albrás, em Barcarena, no Pará. De lá pra cá, vários investimentos foram feitos, mas todas em expansão de fábricas já existentes. Nos últimos quatro anos, nem isso tem ocorrido. Pelo contrário.
As unidades da Valesul, no Rio Grande do Sul, e da Novelis, na Bahia, fecharam as portas e derrubaram em 220 mil toneladas a produção nacional de alumínio primário, hoje em 1,44 milhão. Recentemente, a multinacional americana Alcoa, pressionada pela matriz nos Estados Unidos, também anunciou que poderá fechar a unidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, e reduzir a produção da gigante Alumar, no Maranhão.
O alerta foi parar em Brasília, que no fim do ano passado já havia criado um grupo de trabalho para promover a competitividade do setor. Mas com a piora do cenário, a presidente Dilma Rousseff entrou no caso e pediu 60 dias de prazo - que terminou semana passada - para tentar encontrar uma saída. Algumas medidas foram indicadas, como a redução dos encargos setoriais e do preço da energia com o fim dos contratos de concessão. Mas, por enquanto, ninguém bateu o martelo sobre como devolver a competitividade para a indústria brasileira.
A ameaça que atinge a Alcoa também ronda a fábrica da Albrás, subsidiária da norueguesa Norsk Hydro. "O empreendedor não quer parar um investimento de US$ 3 bilhões, US$ 4 bilhões. Você só reduz capacidade quando está perdendo dinheiro", afirma o diretor presidente da companhia, Luis Jorge Nunes. Segundo ele, hoje não há sentido econômico para aumentar a produção da empresa. Em 2004, a parcela de energia no custo da Albrás era de 29,58%. No ano passado, já estava em 43,91%.
A alta do dólar promoveu um suave respiro para a empresa, mas não foi suficiente para resolver todos os problemas. Nunes conta que para fechar o orçamento do ano, a empresa foi obrigada a cortar até mesmo investimentos básicos de R$ 12 milhões, fundamentais para sustentar a operação da fábrica. "Esse investimento será zero em 2012. Estou sucateando meu parque operacional."
Enquanto isso, países vizinhos estão assediando investidores para se instalar em seu território, oferecendo custos mais baixos. A multinacional anglo-australiana Rio Tinto, por exemplo, estuda uma planta de alumínio US$ 4 bilhões no Paraguai.

Empresas fecham fábricas para fugir dos altos custos


Fabricantes de alumínio e de vidros não resistem à alta dos preços de insumos nos últimos anos, como energia e gás natural

03 de junho de 2012 | 3h 09
RENÉE PEREIRA - O Estado de S.Paulo
Ficou tão caro produzir no Brasil que algumas empresas desistiram de manter suas unidades em operação. A indústria de alumínio primário, por exemplo, já fechou duas fábricas e estuda desativar mais uma. Os fabricantes de vidros seguem o mesmo caminho e começam a desligar fornos por falta de competitividade para concorrer com importados no mercado interno.
Nos dois casos, a origem do problema chama-se custo Brasil - expressão que o governo muitas vezes traduziu como choradeira de empresário. Altamente dependente da energia elétrica ou do gás natural, que chega a representar 50% dos custos da empresa, a indústria de alumínio e do vidro sucumbiram à escalada dos preços dos insumos nos últimos anos. "O setor foi atingido na veia", afirma o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo.
Entre 2006 e o primeiro semestre do ano passado, o custo da eletricidade para o setor subiu 76%, de US$ 42 para US$ 74 o megawatt/hora (MWh) - a média mundial está em torno de US$ 40. Do outro lado, o preço do alumínio caiu 15% no mercado internacional, achatando as margens das companhias.
"O Brasil reúne todas as condições para ser uma província do alumínio. Tem bauxita de qualidade, energia hídrica e uma indústria de transformação inovadora. Mas tudo isso tem sido anulado pelo avanço nos preços da energia", lamenta Azevedo.
Fábricas. Exemplo disso, é que desde a década de 80 não há nenhum projeto novo de produção de alumínio primário no País. A última grande unidade aberta foi em 1985, com a Albrás, em Barcarena, no Pará. De lá pra cá, vários investimentos foram feitos, mas todas em expansão de fábricas já existentes. Nos últimos quatro anos, nem isso tem ocorrido. Pelo contrário.
As unidades da Valesul, no Rio Grande do Sul, e da Novelis, na Bahia, fecharam as portas e derrubaram em 220 mil toneladas a produção nacional de alumínio primário, hoje em 1,44 milhão. Recentemente, a multinacional americana Alcoa, pressionada pela matriz nos Estados Unidos, também anunciou que poderá fechar a unidade de Poços de Caldas, em Minas Gerais, e reduzir a produção da gigante Alumar, no Maranhão.
O alerta foi parar em Brasília, que no fim do ano passado já havia criado um grupo de trabalho para promover a competitividade do setor. Mas com a piora do cenário, a presidente Dilma Rousseff entrou no caso e pediu 60 dias de prazo - que terminou semana passada - para tentar encontrar uma saída. Algumas medidas foram indicadas, como a redução dos encargos setoriais e do preço da energia com o fim dos contratos de concessão. Mas, por enquanto, ninguém bateu o martelo sobre como devolver a competitividade para a indústria brasileira.
A ameaça que atinge a Alcoa também ronda a fábrica da Albrás, subsidiária da norueguesa Norsk Hydro. "O empreendedor não quer parar um investimento de US$ 3 bilhões, US$ 4 bilhões. Você só reduz capacidade quando está perdendo dinheiro", afirma o diretor presidente da companhia, Luis Jorge Nunes. Segundo ele, hoje não há sentido econômico para aumentar a produção da empresa. Em 2004, a parcela de energia no custo da Albrás era de 29,58%. No ano passado, já estava em 43,91%.
A alta do dólar promoveu um suave respiro para a empresa, mas não foi suficiente para resolver todos os problemas. Nunes conta que para fechar o orçamento do ano, a empresa foi obrigada a cortar até mesmo investimentos básicos de R$ 12 milhões, fundamentais para sustentar a operação da fábrica. "Esse investimento será zero em 2012. Estou sucateando meu parque operacional."
Enquanto isso, países vizinhos estão assediando investidores para se instalar em seu território, oferecendo custos mais baixos. A multinacional anglo-australiana Rio Tinto, por exemplo, estuda uma planta de alumínio US$ 4 bilhões no Paraguai.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Selic a 8,5% e o mundo não se acabou



Coluna Econômica - 01/06/2012
Notícia 1: Com a decisão de quarta-feira passada, o Copom (Comitê de Política Monetária) trouxe a taxa Selic para o mais baixo patamar da sua existência: 8,5% ao ano.
Notícia 2: com a Espanha em crise total, bancos ameaçados, a própria Espanha ameaçando sair da União Europeia, a taxa básica do país explodiu para... 5,5% ao ano.
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A diferença é acachapante. O país ainda pratica taxas de juros estratosféricas. Só agora caminha para uma taxa básica apenas muito elevada - não escandalosamente elevada.
Desde agosto o Banco Central vem perseguindo essa redução de juros. No início, enfrentando o alarmismo inconsequente  de analistas financeiros e comentaristas de rádio e TV.
Em outros momentos da história, esse alarmismo sempre logrou manter a Selic em patamares escandalosos. E sempre as mesmas figuras - Mailson, Loyolla, Blanche, Tendências - acenando com o fim do mundo, com a volta da hiperinflação e outros fantasmas.
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O que levou o BC, agora, a derrubar a taxa Selic foram os mesmos fatores que deveriam ter levado à queda da Selic em 2008: queda na atividade econômica, reduzindo as pressões sobre preços. Mas, naquele tempo, em plena crise, o BC - presidido por Henrique Meirelles mas tendo, entre seus diretores, o atual presidente Alexandre Tombini - subiu os juros, ao invés de descer.
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Há muito se sabe que é mínimo o efeito da Selic sobre os índices inflacionários. Ela pouco impacta taxas de juros (cujo spread é imensamente superior às variações da Selic), e, por conseguinte, níveis de estoque, de demanda.
Mas são imensos os estragos sobre os recursos orçamentários - tirando dinheiro de investimento, saúde, educação, segurança para pagar juros.
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O BC de agora não ficou mais sábio do que o dos tempos de Meirelles. Apenas sua orientação política - no melhor sentido da palavra - mudou. Mudando, deixou de ser prisioneiro de falácias monumentais, brandidas diariamente por analistas pífios.
Por exemplo:
1. Passou a aceitar que as medidas prudenciais (as que impactam diretamente o crédito) são muito mais eficazes que a elevação da Selic.
2. Constatou o óbvio: que, a não ser por alguma pressão sobre serviços, a inflação brasileira é fundamentalmente influenciada pelos preços internacionais de commodities e por indexação de contatos - sobre os quais a Selic não tem nenhuma interferência.
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O desafio, agora, será impedir um crescimento pífio do PIB este ano. Terá que suar muito:
1. O consumo interno garantiu o PIB dos últimos anos. Daqui para frente, seu crescimento será cada vez mais próximo do crescimento do PIB. Há um primeiro salto, quando ocorre a mudança nos hábitos de consumo das classes incluídas. O primeiro salto esgota parte da capacidade de contrair financiamentos.
2. Bens de consumo durável e cadeias podutivas continuam sob fogo intenso dos importados. Por enquanto, o novo nível do dólar não segurará a invasão externa. Muito menos permitirá aumento das exportações de manufaturados.
3. Resta a perna do investimento. É por aí que o governo aposta todas as suas fichas. Anunciou um conjunto de medidas de apoio. Mas serão necessários alguns meses ainda para que os empresários acreditem que a nova etapa - crescimento baseado em investimentos - já se consolidou.