terça-feira, 3 de novembro de 2026

Economista americano citado por Lara Resende diz que brasileiro propõe uma teoria sem histórico, FSP

São Paulo

O economista John Cochrane, da Universidade Stanford, cujo trabalho serve como uma das bases teóricas para a ideia de André Lara Resende de como derrubar a Selic (a taxa de juros básica da economia), afirmou que não há nenhum precedente histórico para as propostas do brasileiro, classificadas pelo americano como sofisticadas e intrigantes.

Para Resende, um dos formuladores do Plano Real, o problema fiscal está nos juros, não no gasto público. Ele propõe que um Conselho Fiscal e Monetário Nacional fixe uma faixa para a Selic, hoje em 13,75%, entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (5,5%). Para chegar lá, o BC cortaria a taxa gradualmente até 7,5% em 12 meses e usaria as reservas para segurar o dólar (leia a íntegra aqui).

Homem grisalho, com barba, camisa azul sem gravada e terno marrom em uma mesa com um microfone.  Há uma bandeira do Brasil no fundo.
Economista André Lara Resende durante lançamento de livro em 2022

A ideia é que os juros muito altos também podem causar inflação, e que, com a derrubada da taxa básica, não haveria essa pressão.

"Há muitos precedentes de pacotes de reformas em que a inflação para [de subir], a dívida é paga, e os juros despencam. Mas essas três coisas acontecem juntas. Isso não quer dizer que Resende esteja errado. Quer dizer apenas que estamos nos aventurando em um terreno teórico que pode funcionar, mas que nunca foi testado", respondeu ele nesta terça-feira (3), em sua página The Grumpy Economist (o economista rabugento).

Resende publicou seu texto em 25 de setembro, mas o conteúdo só começou a chamar a atenção do mercado depois que saíram notícias sobre um suposto encontro do economista, um dos responsáveis pelo Plano Real, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que não há um encontro marcado, mas pessoas ligadas ao governo, como José Sérgio Gabrielli (responsável pela elaboração do plano de governo da candidatura do presidente) e Gleisi Hoffmann (PT-PR), elogiaram as considerações de Resende.

O economista brasileiro usa uma série de ideias para embasar suas propostas, entre elas, a teoria fiscal do nível de preços, de Cochrane, sobre a inflação: no fundo, é a política fiscal que determina a inflação, e não a política monetária.

Resende diz que o problema atual da dívida pública brasileira é causado pelos juros altos, e não pelo resultado fiscal primário (que exclui os juros). Ele afirma que "a taxa nominal de juros e a inflação estão positivamente, e não inversamente, correlacionadas como se convencionou acreditar".

Ele propõe uma série de medidas. Entre as principais, estão a ideia de estabelecer uma meta fiscal e monetária por um período de cinco anos e usar reservas internacionais para defender o real de desvalorização logo após uma queda dos juros básicos.

Um dos trechos que mais chamaram a atenção foi o seguinte: "O Banco Central anunciaria a redução gradual do juro básico, ao longo de cerca de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial (do PIB) mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano".

Cochrane é cético sobre a parte fiscal da proposta. Resende diz que a política fiscal deveria se concentrar em racionalizar e simplificar receitas e despesas. "‘Racionalizar e simplificar’ seria ótimo, assim como eliminar desperdício, fraude e abuso", diz o americano. Sobre as metas plurianuais, ele disse: "Bem, ‘metas’ são bonitas. Políticos as fazem o tempo todo. Mas daí as coisas acontecem".

Para Cochrane, o mecanismo só funciona se o mercado acreditar que o governo fará superávits no futuro, e isso exige instituições duradouras e não tanto metas. Ele cita como modelo um freio constitucional da dívida da Suíça, mas também diz que os suíços são poupadores patológicos. O economista também duvida de que o governo deixaria intocada uma economia de cerca de 8% do PIB: "O Brasil realmente não vai gastar um real a mais, ou cobrar um real a menos de impostos?".

A ideia de usar as reservas internacionais para conter desvalorizações do real é outro ponto de desconfiança. "Segurar a moeda tem uma longa e não muito bem-sucedida história na América Latina", escreveu. Para ele, se a queda dos juros de fato melhorar a situação do país, o real deveria se valorizar, e não se desvalorizar.

Cochrane diz preferir um pacote coordenado de reformas fiscal, monetária e microeconômica, como o dos anos 1990, quando o regime de metas de inflação veio acompanhado de medidas fiscais e de estímulo ao crescimento. Para ele, as reformas voltadas ao crescimento são as mais importantes. O americano não endossa nem rejeita a proposta de Resende. "Ideias são como filhos. Elas precisam encontrar seu próprio caminho."

Apesar das ressalvas, Cochrane elogia o texto de Resende em vários momentos. Logo na abertura, ele diz que o artigo é "intrigante" e que, mesmo sem concordar com tudo, considera as ideias do brasileiro "sofisticadas do ponto de vista econômico" e com "um argumento coerente". Ao tratar do risco de o corte de juros elevar a inflação no curto prazo, ele diz que Resende "resume bem" o problema.

O americano também diz que a estrutura da dívida brasileira, curta e atrelada à Selic, evita o mecanismo pelo qual a queda dos juros poderia pressionar os preços. Em outro trecho, ele diz que o argumento do brasileiro é mais sutil do que uma simples defesa de juros baixos, e chama de interessante a parte internacional da proposta, embora depois diga duvidar dela.

Mercado de apostas espera decisão de Fux, mas não voltará como era antes de proibição, diz associação, FSP


Felipe Mendes

29.out.2026 às 4h00

São Paulo

O mercado de apostas aguarda uma providência do ministro Luiz Fux, relator no STF (Supremo Tribunal Federal) das ações que contestam a legitimidade da MP (medida provisória) do governo Lula (PT) que proibiu as atividades do setor no país.


Nesta semana, as bets podem ter suas licenças oficialmente cassadas pelo Ministério da Fazenda.


"É claro que a gente gostaria que o ministro Fux concedesse a liminar o mais rápido possível, porque quanto mais tempo demora para a concessão de liminar, os efeitos negativos da proibição, como as demissões, aumentam", afirma Carlos Lima, presidente do IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável). Segundo ele, o tempo de paralisação aumenta a apreensão do mercado.



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Pessoas ligadas ao mercado disseram, sob condição de anonimato, que a MP causou desconfiança nos investidores das bets e que não pretendem voltar a atuar no país mesmo em caso de reversão da medida. O IBJR compartilha do receio do mercado, embora não saiba dizer, no momento, quantas empresas já deixaram o país de forma definitiva.


Homem de meia-idade com barba e óculos, veste blazer azul e camisa branca, está de braços cruzados em frente a estantes cheias de livros.

Carlos Lima, presidente do IBJR - Eduardo Tarran/Divulgação

"Algumas empresas reduziram absurdamente a sua força de trabalho no Brasil. Demitiram praticamente todo o quadro de funcionários e mantiveram apenas aquela estrutura básica para a empresa continuar minimamente legal aqui no Brasil, que são departamento jurídico e de compliance, mas áreas como atendimento ao consumidor, por exemplo, foram extintas", diz Lima.



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"É difícil dizer quantas e quais empresas não vão conseguir voltar a operar. Mas empresas de pequeno porte, que não têm lastro ou sustentação de grandes grupos, talvez não tenham fôlego para continuar no Brasil. Acho que o setor não volta a ser como era antes."


No setor, há a expectativa de que Fux tome alguma decisão sobre o tema nos próximos dias. O ministro convocou uma audiência pública sobre o caso para 3 de novembro. A MP precisa ser analisada em 120 dias pelo Congresso Nacional para se tornar lei em definitivo.


A cassação das licenças é um dos efeitos previstos pela medida. As companhias do setor regulado investiram R$ 30 milhões, cada, na taxa de outorga obrigatória e mais R$ 5 milhões como reserva financeira.


O governo recebeu cerca de R$ 2,55 bilhões em 85 outorgas –valores que não serão devolvidos, segundo o governo.


Com a cassação das autorizações existentes, as empresas poderão acelerar o ritmo das demissões, pois só há necessidade de manter os diretores estatutários do negócio. Estima-se que mais de 3.500 pessoas perderam empregos no setor.


Quatro jogadores em campo disputam a posse da bola durante jogo noturno. Dois atletas vestem uniforme branco com detalhes vermelhos, enquanto dois usam uniforme azul com listras vermelhas e brancas. O jogador de azul tenta controlar a bola com o pé direito, cercado por adversários. Ao fundo, público e placas de publicidade iluminadas.

Em partida contra o Bahia pelo Campeonato Brasileiro, Flamengo usa camisa com a frase 'Proibir não é proteger' estampada ao centro do uniforme, parte da campanha promovida pelo mercado de apostas em meio MP que proíbe jogo no país - Rafael Rodrigues - 18.out.26/Divulgação EC Bahia

As bets se tornaram um dos temas centrais do governo e da campanha de reeleição do petista. Um dos motivos são estudos que ligam o acesso a essas plataformas ao aumento do endividamento e ao vício.



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A Fazenda ainda não emitiu portaria comunicando a cassação das outorgas, o que era previsto para 25 de outubro. Juristas entendem que a cassação pode se dar de forma automática, sem necessidade de comunicado às empresas.


Procurada pela Folha, a pasta diz que "a extinção das autorizações não afasta a obrigação dos agentes operadores de cumprir as exigências remanescentes com término do prazo em 15 de dezembro de 2026", mas não detalha o andamento da medida.


Enquanto aguardam uma liminar que as coloque de volta ao jogo, as bets lançaram a campanha "Aposto que você não sabia", encabeçada pelas duas principais associações do setor, a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) e o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável). O intuito é jogar luz sobre a regulação do setor no país e os riscos do jogo ilegal.


Proibidas de mostrar suas marcas nas camisas dos clubes e nas placas de publicidade de partidas de futebol, as bets cederam esses espaços para expor mensagens da campanha nos jogos do Campeonato Brasileiro. Clubes como Flamengo, São Paulo e Fluminense disputaram partidas com uma das frases da campanha estampada: "Proibir não é proteger".


"Apesar das pessoas acharem que a proibição pode ter sido algo positivo, a proibição não quer dizer proteção. Na verdade, com a proibição, as pessoas ficaram mais expostas aos golpes aplicados pelas plataformas clandestinas", diz Lima.


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Após a assinatura da MP, em 25 de setembro, as bets receberam apoio dos clubes de futebol do país, dependentes dos valores pagos em publicidade pelo setor. As casas de apostas injetam mais de R$ 1 bilhão por ano em patrocínios no futebol brasileiro.



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Maior beneficiado do dinheiro das bets, o Flamengo, que recebe R$ 268,5 milhões ao ano pela Betano, entrou com uma contestação na ação que tramita no STF sobre o fim do setor. Em jogo disputado contra o Fluminense, em 11 de outubro, torcedores do Flamengo hostilizaram o presidente Lula devido à extinção do mercado de apostas.


O presidente do IBJR diz que a intenção do setor "nunca foi politizar o tema" por meio da campanha lançada junto aos clubes.


"O IBJR é apartidário", afirma Lima. "Mas acho que no Brasil tudo acaba sendo politizado. Não é só a nossa campanha. Qualquer coisa que você faz no Brasil hoje corre o risco de ser politizado."



As bets reclamam de insegurança jurídica e da falta de previsibilidade sobre os valores pagos pela outorga. Não se sabe se, caso o setor volte a funcionar, será necessário fazer outra regulação do mercado, o que representaria mais custos para as empresas do setor.


Questionada pela Folha se as outorgas do setor já estavam sendo cassadas e se o valor pago pelas bets seria devolvido pelo governo, a Fazenda disse que "a norma estabelece prazos específicos para a proibição de novos aportes, alimentação de dados no Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), restituição de valores aos apostadores e redirecionamento dos sites."



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Lima, do IBJR, diz que o setor "sempre esteve aberto ao diálogo" e prevê uma evolução em caso de liberação. "A legislação tinha temas que precisavam evoluir, inclusive em termos de publicidade e de proteção ao consumidor, e a gente sempre esteve aberto para dialogar em relação a isso", complementa.


"Nós vínhamos dialogando com o Ministério da Fazenda sobre o que precisa ser feito para melhorar a regulação. Tivemos publicação de portarias com novas regras de publicidade e estávamos clamando que o governo tomasse medidas mais efetivas contra as plataformas que divulgavam bets ilegais."

Deirdre Nansen McCloskey - Natal Votar é bom, mas não é a vontade de todos, FSP

Admito que alguns projetos planejados, intencionais e coletivos de que "nós" participamos são boas ideias para os brasileiros, ou os paulistas, ou os moradores da Vila Madalena, ou sua adorável reunião familiar na ceia de Natal.

Mas lembre-se de que, em todos esses níveis da sociedade, os projetos planejados, intencionais e coletivos, mesmo quando votados, muitas vezes são más ideias. Por exemplo, seu novo experimento com Lula pode ter alguns maus resultados. Talvez não. Vamos torcer. Mas pode ficar muito ruim —quero dizer, ruim como com Maduro ou Castro.

Declaração do presidente Lula após o anúncio oficial do TSE, no Hotel Intercontinental, em São Paulo - Rafaela Araújo - 25.out.26/Folhapress

Nesse caso, talvez os eleitores brasileiros queiram mudar de rumo novamente. Espero que dessa vez seja a favor de mercados que permitam que as pessoas cantem a própria música, harmonizando-se com quem elas quiserem.

Mas também sou democrata. Temo que, nesse intervalo, o governo corroa as eleições. No meu próprio país, os eleitores acabam de mudar de rumo, depois de dois anos em que Donald Trump usou sua estreita maioria para fazer algumas coisas ruins. Entre as piores está a tentativa de corromper esta eleição para o Congresso. Ele parece estar se preparando para uma corrupção ainda maior na eleição presidencial de 2028. Afinal, tentou fazer isso na de 2020, numa ação de massa imitada no ano seguinte por alguns brasileiros.

Lula pode se manter fiel aos valores estritamente democráticos e liberais e não interferir nas próximas eleições. Ótimo. Como disse Churchill, o voto majoritário é o pior sistema... exceto por todos os outros sistemas que foram experimentados de tempos em tempos.

Então está tudo perfeito, certo?

Não. Trago à sua atenção um velho senso comum, elaborado matematicamente por muitos teóricos, desde Ramon Llull em 1299 e Condorcet em 1785, até Kenneth Arrow em 1951 e, desde então, por muitos outros economistas, cientistas políticos e até matemáticos puros.

A conclusão deles é que não existe um sistema ideal de votação. Por "ideal", eu e os outros que refletem sobre o assunto queremos dizer algo como "seguir os desejos do povo". Afinal, essa é a promessa da democracia, o governo do demos, do povo, do "nós".

Os cínicos dizem que, de qualquer forma, é impossível por causa das coisas estúpidas que nós, o povo, desejamos. Até recentemente, a própria ideia de democracia tinha má reputação. Geralmente era descrita como "governo da turba".

Além das más notícias sobre os desejos infantis da população, porém, a má notícia matemática é que nenhum sistema de votação consegue realizar completamente os desejos de todos. Obviamente. Deixemos a matemática de lado. O senso comum diz que você e seu cônjuge não conseguem concordar exatamente sobre muitas coisas coletivas. Ele quer que vocês dois vão à luta de boxe. Você quer ópera. Sem saída.

Os adultos conversam para resolver isso, é claro. Um famoso professor de Oxford, G. A. Cohen, pensou que estava provando que o socialismo funciona ao imaginar amigos planejando uma viagem de acampamento. Eles discutem e decidem.

Agora, amplie isso para um país de 214 milhões de pessoas. Hã?

A decisão da maioria, assim como a decisão de um único tirano, não discutem o assunto. Ambos simplesmente gritam mais alto que os perdedores.

Casais amorosos criam um dueto harmonioso. Os mercados permitem que cada um cante sua própria música em paz.

Votar não é o desejo geral. Rousseau se enganou. Não existe um "nós".

Exceto na Copa do Mundo.