segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Reciclagem não será solução para crise global gerada pelo lixo plástico, aponta estudo- FSP

 A produção global de plástico aumentou de 2 milhões de toneladas em 1950 para 475 milhões de toneladas em 2022, segundo um relatório publicado na revista científica "The Lancet" nesta segunda-feira (4). A projeção dos estudiosos é que o número triplique até 2060.

Outros especialistas afirmam que isso poderia acontecer até 2050, usando cerca de um quarto do orçamento de carbono restante — ou seja, a quantidade de gases de efeito estufa que ainda pode ser emitida até que a atmosfera do planeta aqueça de forma descontrolada.

E o estudo adverte que "está claro que o mundo não conseguirá sair da crise da poluição plástica por meio da reciclagem". Hoje, apenas cerca de 9% dos plásticos, entretanto, são reciclados.

Os novos dados foram publicados um dia antes da retomada de negociações em Genebra entre 180 países para chegar a um tratado sobre como lidar com a poluição causada pelo plástico, depois de outras tentativas já terem falhado. Interesses de governos e corporações na indústria, entretanto, desafiam o andamento das conversas.

O plástico foi inventado no fim da década de 1940. Embora alguns dos seus produtos sejam hoje essenciais, grande parte é destinada a itens descartáveis, que não apenas causam poluição plástica direta, como também têm impacto prolongado no meio ambiente e no clima. Mas especialistas enxergam poucos sinais de uma mudança na tendência de crescimento da produção.

Microplástico que chega com a correnteza é encontrado em área de preservação ambiental em Fernando de Noronha — Foto: Fábio Tito/G1

Microplástico que chega com a correnteza é encontrado em área de preservação ambiental em Fernando de Noronha — Foto: Fábio Tito/G1

Mais produção fora da Europa

Cerca de 99% dos plásticos são derivados de combustíveis fósseis. O refino e transformação dos combustíveis fósseis em produtos plásticos, como embalagens, têxteis, eletrônicos e materiais de construção, liberam bilhões de toneladas de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Em 2019, esse processo respondeu por mais de 5% das emissões globais.

Um número crescente de países já limita produtos plásticos de uso único, com pelo menos 140 nações tendo implementado proibições ou restrições a algum tipo de produto plástico.

"O único lugar onde a capacidade está diminuindo um pouco é na União Europeia," diz Joan Marc Simon, fundador da Europa Sem Lixo (Zero Waste Europe, em inglês), rede dedicada à redução do lixo plástico. "O resto do mundo está aumentando."

No entanto, isso acontece porque os altos custos de produção levaram os fabricantes a produzir fora da Europa ou importar plástico de outras regiões, explica.

China e Brasil são focos

A China é a maior fabricante de plástico do mundo, respondendo por cerca de um terço da produção global.

"O que sabemos com certeza é que todos os principais produtores estão aumentando sua capacidade: EUA, China, África do Sul, Brasil, Irã, Arábia Saudita," prossegue Simon, acrescentando que mais plástico virgem também está sendo produzido em países como Malásia, Vietnã, Tailândia, Indonésia, em grande parte por empresas chinesas.

Em 2019, um estudo do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) apontou o Brasil como o quarto maior produtor de plástico no mundo, com 11 milhões de novas toneladas então produzidas ao ano.

Já em 2022, a produção chegou a 13,7 milhões de toneladas, uma média de 64 quilos por pessoa no ano, segundo pesquisa da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

No Brasil, segundo a Abrelpe, mais de 3 milhões de toneladas de resíduos sólidos vão parar nos rios e mares todos os anos, quantidade suficiente para cobrir mais de 7 mil campos de futebol.

Risco à saúde

A poluição por plásticos é "um perigo grave, crescente e pouco reconhecido à saúde", custando pelo menos 1,5 trilhão de dólares por ano globalmente, de acordo com o estudo na The Lancet.

Outra pesquisa deste ano, conduzida por cientistas da NYU Langone Health, nos Estados Unidos (EUA), já sugeriu que cerca de 10% das mortes por doenças cardíacas entre adultos de 55 a 64 anos naquele ano podem ser atribuídas aos ftalatos — compostos químicos usados para aumentar a durabilidade e a flexibilidade dos plásticos.

"Não há como subestimar a magnitude da crise climática e da crise do plástico", diz Philip Landrigan, pesquisador na Universidade de Boston, dos EUA. "Ambas estão causando doenças, mortes e incapacidades em dezenas de milhares de pessoas hoje, e esses danos se tornarão mais graves nos próximos anos, à medida que o planeta continua a aquecer e a produção de plástico continua a aumentar."

Ativistas defendem há muito tempo que a solução para o excesso de plástico é reduzir a produção desde o início. Mas, por anos, discussões públicas e negociações internacionais focaram em lidar com o lixo gerado, com iniciativas como limpeza de praias e reciclagem.

Apenas cerca de 9% dos plásticos, entretanto, são reciclados, e muitos tipos não podem ser transformados em novos produtos. Como resultado, a grande maioria acaba em aterros sanitários ou é incinerada.

Muito plástico vaza ainda para o ambiente em forma de microplásticos, encontrados nas regiões mais remotas do planeta, no ar e dentro dos corpos humanos.

"Ao contrário do papel, vidro, aço e alumínio, plásticos quimicamente complexos não podem ser facilmente reciclados”, alerta o relatório. "Agora está claro que o mundo não conseguirá sair da crise da poluição plástica por meio da reciclagem. O controle da crise dos plásticos exigirá pesquisas contínuas, aliadas a intervenções baseadas na ciência — leis, políticas, monitoramento, fiscalização, incentivos e inovações."

Ponto de atrito

A redução da produção foi o principal ponto de divergência nas negociações globais inconclusivas sobre plástico que aconteceram em dezembro na Coreia do Sul. Embora limitar a produção levante muitas questões — incluindo se isso significaria impedir a abertura de novas fábricas —, o principal obstáculo é simplesmente alcançar consenso sobre a redução.

No ano passado, enquanto mais de 100 governos apoiavam limitar a produção, outros países bloquearam a medida. Dentre eles, Rússia, Arábia Saudita, Irã e China.

"Este pequeno grupo de países, que são predominantemente economias petroleiras, está dizendo que esta é um claro limite a não ser cruzado," diz Christina Dixon, da ONG britânica Agência de Investigações Ambientais.

Já a advogada Giulia Carlini, do Centro para Legislação Internacional Ambiental (CIEL, na sigla em inglês), diz que um dos obstáculos para reduzir a produção é a forte influência que poderosos atores corporativos estabeleceram nas negociações internacionais.

Segundo análise do CIEL, lobistas do setor de combustíveis fósseis e químicos formaram a maior delegação nas negociações da Coreia, maior que a da União Europeia e seus Estados-membros juntos. Carlini acrescenta que, em alguns casos, esses lobistas estão inclusive registrados como parte das delegações nacionais.

Fazer um Ironman virou kinda cool, The News

 

A moda dos triatletas pegou. A Ironman — que organiza provas de natação, bicicleta e corrida — fechou 2025 com mais de 250 mil inscrições em 148 eventos no mundo.

A prova completa tem 3,8 km de natação, 180 km de bicicleta e 42 km de corrida e pode levar até 17 horas. Mesmo assim, a média de idade dos competidores está caindo.

Entre os iniciantes, o crescimento foi de 10% em um ano. Já os estreantes com menos de 30 anos mais do que dobraram desde 2019. Só na prova completa, a alta foi de 46% em um ano.

Os jovens querem sexo, drogas e rock’n roll nadar, correr e pedalar. Na América do Norte, a média na prova completa passou de 42,5 para 40 anos. No top tier, a campeã mundial da modalidade feminina tem 28 anos, assim como o vice-campeão masculino.

Por que isso importa? Só a cidade de Florianópolis — sede de uma das principais provas no país — movimenta +R$ 70 milhões na economia local durante o evento. Os profissionais dividem um prêmio anual de US$ 6M.

🌎 O hype é global. A França já é o segundo maior mercado de triatlo do continente, com +31% de estrangeiros. Na América Latina, o México responde por quase 1/4 dos atletas da região. O Oriente Médio também vai receber sua primeira prova completa em Omã.

O esporte, antes associado a atletas veteranos, está rejuvenescendo, e as vagas estão cada vez mais disputadas. Para se ter ideia, 32 provas da temporada se esgotaram apenas neste ano.

Nas Filipinas, ilha combate avanço do mar com natureza, não concreto - FSP

 Pam Castro

Malolos (Filipinas)

Durante anos, moradores de uma ilha sujeita a inundações, ao norte de Manila, capital das Filipinas, elevaram suas casas sobre sucessivas camadas de concreto. A força das águas, porém, sempre voltava a ameaçá-las.

Os 3.000 habitantes da pequena ilha de Pamarawan são castigados por fortes marés de tempestade, pela subsidência do solo e pela elevação do nível do mar, agravados pelas mudanças climáticas. Agora, passaram a recorrer a estacas de bambu e conchas de ostras descartadas para construir uma barreira que enfraqueça as ondas e controle as inundações.

"Ficávamos apavorados sempre que havia tufões. Não conseguíamos dormir à noite", conta o pescador Edgar Javier, lembrando como ondas fortes chegaram a derrubar uma das paredes de concreto de sua casa. "Sempre que as ondas batem, a parede treme."

O projeto começou quando a prefeitura de Malolos, município ao qual pertence a ilha, iniciou um estudo com uma consultoria holandesa de engenharia. "Projetos de infraestrutura de concreto não serão suficientes", diz o prefeito Christian Natividad.

Três trabalhadores com roupas azuis recolhem lixo acumulado sobre redes de contenção na costa. Ao fundo, barco e estrutura de madeira no mar sob céu claro.
Trabalhadores removem lixo acumulado sobre sacos de fibra de coco preenchidos com conchas de ostras que formam quebra-mar na ilha de Pamarawan, próxima a Manila, capital das Filipinas - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

A abordagem faz parte da chamada adaptação climática a partir de soluções baseadas na natureza. O conceito é especialmente atraente para o país, que ainda enfrenta um escândalo bilionário relacionado a desvios de dinheiro em projetos de controle de enchentes feitos com concreto de baixa qualidade —e, em alguns casos, inexistentes.

O projeto é o o primeiro desse tipo no país. Inicialmente, enfrentou resistência de autoridades e moradores, mas Natividad explica que eles não tinham nada a perder.

"É como escolher entre aceitar inundações diárias ou fazer algo diferente, assumindo o risco", disse. "Eu escolhi o risco."

Reduzindo a força das ondas

Em maio do ano passado, trabalhadores, muitos deles moradores da ilha, começaram a instalar ao longo da costa estacas de bambu preenchidas com galhos e vegetação. As estruturas foram projetadas para reduzir a velocidade da água e reter sedimentos, com o objetivo de elevar gradualmente o leito marinho e favorecer o crescimento de manguezais.

No início deste mês, sob um calor escaldante, homens de boné fincavam estacas de madeira usadas para prender sacos de fibra de coco cheios de conchas em uma faixa litorânea artificial criada anteriormente com areia do mar, a cerca de 100 metros da costa

"O principal objetivo deste quebra-mar é reduzir o impacto das ondas antes que elas cheguem à comunidade", afirma a gerente do projeto, Lyana Galang. As barreiras funcionam em conjunto com as estruturas de bambu que retêm sedimentos.

Comunidade costeira com casas coloridas próximas a tanques retangulares de criação de peixes delimitados por cercas na água. Áreas de vegetação e canais circundam a região.
Armadilhas de sedimentos feitas de bambu reduzem a velocidade da água próximo às residências de Pamarawan e retêm sedimentos que irão abrigar manguezais - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

O cientista filipino Antonio Contreras diz que o país há muito depende fortemente de diques e paredões de concreto, muitos deles construídos sem estudos adequados.

"Alteramos tanto o meio ambiente que tendemos a trabalhar contra a natureza, quando, na verdade, deveríamos trabalhar com ela", afirma, observando que algumas falhas de projeto ligadas à corrupção custaram vidas.

Ele alerta, porém, que as soluções baseadas na natureza não são uma resposta universal, sobretudo durante inundações catastróficas, e devem complementar a infraestrutura convencional.

A abordagem adotada em Pamarawan poderia ser reproduzida em outros lugares, desde que as condições ambientais locais fossem cuidadosamente consideradas. Além disso, é necessário levar consideração o modo de extração do bambu e das conchas, que precisam ser obtidos de forma sustentável.

As instalações baseadas na natureza, que cobrem cerca de 14 hectares ao longo da baía de Manila, custaram US$ 1,1 milhão (cerca de R$ 5,9 milhões), incluindo a manutenção. Um paredão de concreto custaria cerca de US$ 1,4 milhão (R$ 7,5 milhões), segundo o prefeito. Ele estima que o bambu precisará ser substituído a cada cinco anos.

Pés secos e inundações contidas

Com a primeira fase concluída no fim de 2025, a instalação já trouxe algum alívio aos moradores. O pescador Edgar Javier diz que os quebra-mares reduziram a força das ondas e ajudaram a conter as inundações durante os tufões e as chuvas de monção deste ano.

"Isso fez uma enorme diferença para nós. Ainda sentimos as ondas, mas elas enfraqueceram significativamente. Agora, quase não são nada", afirma.

Arsenia Cabigao, 58, disse que as inundações antes prejudicavam seu sustento ao alagar os locais onde seca peixes para vender. "Finalmente nossos pés estão secos", diz.

Mulher em roupa clara com estampa floral seca peixes dispostos sobre uma estrutura de bambu em uma rua estreita de bairro residencial. Casas de alvenaria e madeira cercam a cena, com sombra parcial e céu azul ao fundo.
Arsenia Cabigao seca peixes ao sol na ilha de Pamarawan, na cidade de Malolos, Filipinas - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

A eficácia do projeto no longo prazo continua incerta. Segundo Natividad, uma avaliação científica prevista para o próximo ano determinará se o plantio de manguezais poderá começar.

Ao longo da próxima década, os sedimentos acumulados devem estabilizar o leito marinho e permitir o crescimento dos manguezais, que formarão outra barreira natural, afirma ele.

"É difícil lutar contra a água. Agora estamos tentando conviver com ela", diz Natividad.