quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Mendonça recebeu Vorcaro no STF para tratar de precatórios que beneficiavam o Banco Master, FSP

 

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça admitiu nesta quarta (2) que recebeu o ex-banqueiro Daniel Vorcaro para uma conversa em março de 2025.

A revelação foi feita pelo site ICL Notícias.

Homem de meia-idade com cabelo curto e escuro veste terno preto com gravata cinza, sentado em cadeira de couro marrom claro, olhando para frente com expressão neutra.
Ministro André Mendonça em sessão no STF - Adriano Machado - 12.ago.26/REUTERS

"Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro", afirma Mendonça em nota.

A revelação ocorre um dia depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da PF (Polícia Federal) que revela os detalhes da relação do ministro Alexandre de Moraes com o dono do Banco Master.

Segundo o ICL, a aproximação de Vorcaro com Mendonça foi articulada pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira, do PL de São Paulo.

Mensagens capturadas do celular do ex-banqueiro mostram que Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Mendonça e afirmou que estava "trabalhando" para o banqueiro enquanto levava o ministro a uma alfaiataria.

"Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno", disse o advogado em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.

Segundo ainda o ICL, Ciro e Cezinha conversaram previamente com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central.

Em outro áudio, o advogado disse ter deixado o ministro "balançado" com o assunto que levou a ele e afirmou que Mendonça queria receber Vorcaro.

"O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo", relatou Ciro. "Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele."


Na nota, Mendonça afirma que Vorcaro buscou interlocução com outros magistrados para tratar de precatórios, tema que estava sob análise do STF e interessava ao Banco Master.

"Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto", afirma.

Mendonça diz também que votou contra os interesses do empresário.

"Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos", afirma.

Disse ainda que não comentaria os diálogos revelados pelo ICL, que mostram o advogado de Vorcaro comentando encontros com o magistrado.

"Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade", finaliza.

Supremo em chamas- Luís Francisco Carvalho Filho -FSP

 Ao tornar público o relatório elaborado pela Polícia Federal sobre as relações impróprias de Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, o ministro André Mendonça lança uma granada de mão no plenário do STF.


Estamos diante de um jogo político de final imprevisível. Além de ajudar a destruir a reputação do magistrado que julgou e prendeu o golpista Jair Bolsonaro (seu chefe, de quem foi ministro da Justiça, arbitrário e submisso), os estilhaços da granada de André Mendonça também acertam o procurador-geral da República Paulo Gonet, promovendo uma espécie de desagravo silencioso à memória do sumido e melancólico Augusto Aras, que tanto envergonhou a instituição.

Não há inocentes úteis ou inúteis no enredo que se apresenta ao país.

Homem calvo veste terno preto, camisa branca e gravata rosa, sentado em cadeira de couro marrom em ambiente institucional. Outras pessoas aparecem desfocadas ao redor.
O ministro Alexandre de Moraes na sessão de reabertura dos trabalhos do judiciário no STF - Pedro Ladeira/3.ago.26/Folhapress

Paulo Gonet, que rapidamente proferiu um parecer pela nulidade da investigação contra Alexandre de Moraes, é a mesma autoridade que comemorou o convite para a viagem a Londres por conta de charutos e doses do puro malte escocês que o banqueiro gentil e corrupto patrocinava.

Detalhe importante, as investigações de André Mendonça não alcançam a figura de Dias Toffoli, o outro ministro do STF enredado nas teias ardilosas de Vorcaro: Toffoli, como se sabe, apesar de ter sido nomeado por Lula, é amigo do peito do chefe de Mendonça, o golpista Bolsonaro.

Estilhaços da explosão também atingem o presidente Edson Fachin, por enquanto incapaz de cobrar de seus colegas um mísero código de ética (até o PCC tem o seu), que vê, imobilizado, crescer a corrosão moral do Supremo.

O STF se tornou um monstrengo institucional quando perdeu o caráter de colegiado e se constituiu num organismo esdrúxulo, formado por onze gabinetes isolados, cada um com sua própria pauta de interesses políticos, negociais e administrativos.

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A granada de André Mendonça revela, por outro lado, o esfacelamento da outrora vigorosa Polícia Federal. Não apenas porque o diretor-geral também passeou às custas de Vorcaro.

A impressão que se tem é que os gabinetes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça (os dois comandaram a PF depois do impeachment de Dilma Rousseff) adotaram a estratégia de recrutar dois bandos de policiais de estrita confiança para o exercício de uma magistratura bem pouco republicana e transparente, especializados em vazamento de informações estratégicas.

A PF, que já se notabilizou pelo profissionalismo, precisa de mais uma reforma institucional.

Não se trata de uma disputa pela moralidade ou outros princípios constitucionais. Não haverá renúncia nem impeachment. Mendonça protege Flavio e associa Moraes a Lula. Por trás do conflito está a eleição presidencial e, por tabela, a sobrevivência política dos próprios ministros.

Triste Brasil, "ó quão dessemelhante", diria o poeta barroco Gregório de Mattos: "tanto negócio e tanto negociante".

O fator Augusto Cury, elio Gaspari, FSP

A surpresa despontou durante o debate da Band, na noite de 23 de agosto: o médico e escritor Augusto Cury era o campeão de buscas na internet. Augusto de quê? Passou-se uma semana e a surpresa encorpou. As pesquisas BTG/Nexus e AtlasIntel/Bloomberg colocaram-no à frente de todos os aspirantes à terceira via. Cury saiu do nada e conseguiu 8% na do BTG e 7,8% na do AtlasIntel. É uma mixaria, já que Lula tem 37% e Flávio Bolsonaro tem 30%. Na pesquisa estimulada, quando o entrevistado recebe um cartão com os nomes dos candidatos, marcou 11%, contra 2% da pesquisa anterior. Continua sendo uma mixaria. Não é mixaria o fato de ele ter pulado de 8,3 milhões de seguidores para 10,5 milhões em menos de uma semana, um dos maiores incrementos do mundo.

Com 35 segundos no horário gratuito de TV ele seria um projeto de Enéas nas campanhas de 1989, 1994 e 1998. Ele só podia dizer que "meu nome é Enéas". Passados mais de 30 anos, as campanhas têm outra química e fica uma pergunta: para onde irão esses votos num segundo turno? O sonho de Ronaldo Caiado e Romeu Zema era chegar a setembro com dois dígitos nas pesquisas. Até agora, não deu.

Cury não se apresenta como portador de uma bala de prata. Ele é um reflexo de um eleitorado que não sabe precisamente o que quer, mas identifica o que não quer: PT e Bolsonaro.

Homem de meia-idade com óculos e blazer azul segura um pastel com guardanapo em uma mão e um pedaço do recheio na outra, sentado em mesa de lanchonete. Ao fundo, outras pessoas estão em pé e sentadas, algumas comendo, em ambiente interno iluminado.
Augusto Cury (Avante) durante encontro na sede do Sebrae em Curitiba - Equipe Campanha Augusto Cury

Restando Lula e Flávio, o candidato com maior possibilidade de mudança pode ser Lula. Não só porque ele já se definiu como uma "metamorfose ambulante" e em 2002 assinou e cumpriu a Carta aos Brasileiros. Falta-lhe a humildade de há um quarto de século, mas essa é outra história.

Lula e Flávio decidiram não ir ao debate da Band porque a sabedoria convencional ensinava que virariam vidraça para os outros candidatos. Virariam, mas o resultado foi o aparecimento de Augusto Cury, com quem deverão aprender a lidar —não para destruí-lo, mas para atrair seus eleitores. Vale lembrar que no Índice de Popularidade da Quest, no qual Cury dobrou seu capital, Lula e Flávio tiveram quedas.

Historicamente, o PT tem dificuldade para lidar com redes sociais. Até hoje essa dificuldade incomodava, e só. Cury mudou essa escrita. Em menos de uma semana ele incorporou 2,1 milhões de seguidores nas redes sociais. Há murmúrios de que esse aumento viria da entrada de robôs no jogo. A equipe de Flávio diz que localizou máquinas indianas. Prova? Nem um fiapo.

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Lula lidera em todas as pesquisas, mas não se deve perder de vista que há uma dissonância em seu favoritismo. Ele lidera as pesquisas e seu governo é mal avaliado. Pode-se desprezar essa má notícia, mas ela indica que um pedaço do fio está desencapado.

De certo modo, uma campanha que parecia tomada pela monotonia, com dois candidatos numa disputa apertada, acordou. Lula e Flávio precisam, às pressas, aprender a ouvir a turma do Cury. Até na divulgação das pesquisas eles ficavam numa espécie de vala comum dos "indecisos". Agora ficou claro o que boa parte dos indecisos quer.