domingo, 9 de agosto de 2026

Biometano: a oportunidade de transformar resíduos em competitividade -EIXOS

 

Biometano: a oportunidade de transformar resíduos em competitividade, por Jamille Moreira de Souza [na imagem], gerente de Gestão e Consultoria em Gás Natural na Thymos Energia (Foto Divulgação)
Jamille Moreira de Souza é gerente de Gestão e Consultoria em Gás Natural na Thymos Energia (Foto Divulgação)

Neste ano, a transição energética brasileira deu um mais um passo capaz de acelerar a descarbonização da indústria sem abrir mão da segurança do abastecimento.

A Lei do Combustível do Futuro (lei nº 14.993/2024) estabeleceu o mandato do biometano e criou metas graduais para a redução das emissões de gases de efeito estufa por parte de produtores e importadores de gás natural, com piso inicial de 1% e limite de até 10%.

A regulação atribui ao CNPE a competência para fixar essas metas anuais e para, excepcionalmente, defini-las abaixo do piso de 1% em casos de interesse público justificado ou de oferta insuficiente de biometano.

Foi com base nessa prerrogativa que o CNPE fixou a meta inicial em 0,5%, conforme a Resolução CNPE 04/2026.

O valor definido representa metade do piso previsto originalmente na lei e reflete, sobretudo, o estágio ainda inicial da oferta de biometano no país. Ainda assim, a regulamentação representa um importante sinal econômico.

Ao criar demanda obrigatória por biometano para produtores e importadores de gás natural, o país busca oferecer previsibilidade aos investidores, estimular novos projetos e fortalecer uma cadeia produtiva com enorme potencial de crescimento.

O biometano é um combustível renovável. Ele é produzido a partir do aproveitamento do biogás gerado pela decomposição de resíduos orgânicos. Esses resíduos incluem materiais de aterros sanitários, estações de tratamento de esgoto, resíduos agroindustriais e dejetos da pecuária.

Após passar por um processo de purificação, ele alcança intercambiabilidade com o gás natural fóssil, conforme previsto pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Assim, pode ser utilizado nas mesmas aplicações industriais, comerciais e veiculares, sem necessidade de adaptações significativas na infraestrutura existente.

O Brasil reúne condições particularmente favoráveis para liderar esse mercado. Poucos países concentram uma produção agropecuária tão robusta, um parque sucroenergético consolidado e uma geração expressiva de resíduos orgânicos.

Trata-se de uma matéria-prima abundante que, até pouco tempo, era subaproveitada. Agora, pode se transformar em combustível renovável, reduzir de emissões, gerar renda e, assim, contribuir para o desenvolvimento socioeconômico do país.

O mandato previsto na Lei do Combustível do Futuro busca criar exatamente o elemento que faltava para acelerar essa transformação: um mercado consumidor garantido.

Projetos que antes enfrentavam maior dificuldade para viabilizar investimentos passam a contar com uma perspectiva concreta de demanda de longo prazo, condição fundamental para atrair capital e ampliar a oferta do combustível.

A legislação também trouxe flexibilidade para o cumprimento das metas.

As empresas poderão reduzir suas emissões de duas formas: a primeira consiste na substituição direta do gás natural pelo biometano em suas operações. A segunda ocorre por meio da aquisição dos Certificados de Garantia de Origem de Biometano (CGOB), mecanismo que permite comprovar a descarbonização mesmo quando não há consumo físico do combustível.

Essa dupla possibilidade amplia o alcance da política pública. Enquanto empresas localizadas em regiões com oferta de biometano poderão consumir diretamente a molécula renovável, organizações que ainda não têm acesso à infraestrutura poderão cumprir suas obrigações por meio dos certificados. Assim, cria-se um ambiente mais inclusivo para a expansão do mercado.

Esse modelo contribui ainda para reduzir uma das principais barreiras da transição energética: a necessidade de grandes investimentos imediatos em infraestrutura.

A negociação dos certificados permite que a descarbonização avance enquanto a oferta do combustível e a logística de distribuição amadurecem.

O mercado de gás natural avançou nos últimos anos. Isso mostra que o ambiente regulatório brasileiro está se abrindo mais e se tornando mais competitivo.

O mercado livre, por exemplo, já permite que consumidores escolham seus fornecedores, negociem preços e construam contratos mais aderentes às suas necessidades, movimento que amplia o número de participantes e fortalece a concorrência.

Ao mesmo tempo, a ANP adotou medidas recentes para ampliar o acesso de novos agentes à infraestrutura de gás. Essas ações reforçam o processo de modernização do mercado.

Espera-se que um ambiente mais competitivo facilite, a longo prazo, a entrada de novos fornecedores e estimule investimentos.

Naturalmente, ainda existem desafios. A expansão da produção exigirá aportes em plantas de purificação, redes de distribuição, integração logística e mecanismos eficientes de certificação.

Também será fundamental garantir segurança regulatória para que os empreendedores tenham confiança em projetos de longo prazo.

Apesar disso, o saldo da nova legislação é claramente positivo.

O mandato do biometano deixa de tratar a descarbonização como uma meta ambiental e passa a transformá-la em política de desenvolvimento econômico.

Ao incentivar o aproveitamento de resíduos, o Brasil estimula investimentos privadose cria um mercado para um combustível renovável. Assim, dá um passo importante para consolidar uma matriz energética ainda mais limpa, competitiva e alinhada às demandas da indústria do futuro.

Se bem implementada, essa medida pode transformar o biometano em mais que uma alternativa ao gás fóssil. Ele poderá se tornar um novo vetor de crescimento para o setor energético brasileiro. Além disso, poderá agregar valor à produção nacional, reduzir emissões e fortalecer a segurança energética do país.


Jamille Moreira de Souza é gerente de Gestão e Consultoria em Gás Natural na Thymos Energia. Especialista em gás natural e biometano, com foco na gestão do consumo de grandes usuários, migração para o mercado livre de gás natural e comercialização de energia – negociando GSA, GTA, MSA, entre outros modelos de contratos. É bacharel em ciência e tecnologia e engenheira ambiental e urbanística pela Universidade Federal do ABC e possui MBA em transição energética pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Movida a biometano, UTE Paulínia Verde inicia operação comercial com contrato no LRCAP, EIXOS

 A Usina Termelétrica (UTE) Paulínia Verde iniciou, no dia 1º de agosto, sua operação comercial para atender o volume contratado no Leilão de Reserva de Capacidade 2026 (LRCAP).

O acordo para o fornecimento de energia firme ao Sistema Interligado Nacional (SIN) tem vigência de dez anos.

O projeto é desenvolvido pela Mercurio Partners, em parceria com a Orizon VR e a Gera Energia.

Localizada na Região Metropolitana de Campinas (SP), um dos principais centros de carga do país, UTE foi uma das vencedoras na rodada 2026, para térmicas existententas, com 21,3 MW.

Segundo a companhia, a usina é a primeira movida a biometano a integrar a rede nacional. A planta já havia sido vencedora do Procedimento Competitivo Simplificado (PCS 2021).

Com investimento de R$ 180 milhões e capacidade instalada de 23,4 MW, a unidade utiliza o biogás gerado pela decomposição da matéria orgânica do lixo urbano depositado no aterro Ecoparque de Paulínia (SP).

Por meio de processos de purificação, o insumo é transformado em biometano, que é queimado nos motores da usina para a geração de energia elétrica. O processo evita a emissão anual de aproximadamente 80 mil toneladas de CO2 equivalente.

A linha que está dividindo as eleições, The News

 

Olhando os grandes temas do debate político hoje, fica a impressão que a política brasileira se divide apenas entre direita e esquerda, ou entre simpatizantes de Lula e de Bolsonaro.

Mas pesquisas, dados e relatórios recentes mostram que não é só por aí que existe uma fronteira nas eleições. Está presente também em um fenômeno chamado gender gap.

Esse nome mais técnico se refere a disparidade de intenção de voto entre os gêneros, e se consolidou como a variável mais decisiva para a corrida presidencial.

O que quer dizer? Basicamente, enquanto os homens estão mais inclinados à direita, as mulheres estão se posicionando cada vez mais à esquerda.

Para muitos especialistas, o gênero passou a ser a principal linha divisória da política brasileira.

Vamos aos números…

Se olharmos para os dois principais candidatos para assumir o Palácio do Planalto, entre o eleitorado masculino, Flávio Bolsonaro lidera contra Lula por 50% a 41%.

Quando o recorte é feito apenas com as mulheres, a fotografia se inverte. Lula lidera com 52% contra 37% do senador.

O movimento acontece em um momento decisivo. Pela primeira vez em mais de uma década, mais brasileiros se declaram de direita ou centro-direita (44%) do que de esquerda ou centra-esquerda (39%).

(Imagem: DataFolha | Veja)

No caso das mulheres, o jogo é um pouco diferente, já que 44% dizem estar mais alinhadas à esquerda, contra 38% à direita.

Talvez você se pergunte o porquê dessa distância só aumentar, e a resposta está ligada a economia, a segurança e a rotina. Lembre-se, aqui são os dados.

  • O lado feminino: Especialistas apontam que a inclinação das mulheres à esquerda tem menos com a polarização ideológica e mais com uso prático dos serviços públicos. Elas priorizam proteção social, saúde, educação e igualdade no mercado de trabalho.

  • O lado masculino: Parte dos homens tem respondido com mais tração a discursos de autoridade, visão liberal na economia e pautas mais ‘’duras’’ de segurança — a principal sendo a flexibilização de acesso a armas, amplamente rejeitada pela maioria feminina.

Os dois lados da moeda não são exclusivos do Brasil. O cenário espelha a dinâmica americana, onde a rejeição feminina a discursos conservadores impulsionou movimentos anti-Trump, ao mesmo tempo em que a pauta anti-woke cresceu entre os homens.

Os posicionamentos impactam nas campanhas

Com o eleitorado rachado ao meio, os dois lados precisam recalibrar os discursos para tentar furar a bolha do gênero oposto.

O plano de Lula

Para segurar o eleitorado feminino, o governo tem apostado forte em agendas trabalhistas, com lei da igualdade salarial, a discussão pelo fim da escala 6x1 e a ampliação de programas sociais.

O grande desafio do petista é reduzir a rejeição entre os homens, que chega a 55%.

O plano de Flávio

Do outro lado, o candidato do PL tenta suavizar a resistência do público feminino ao clã Bolsonaro. Flávio passou a intensificar agendas com mulheres e colocou a esposa Fernanda na linha de frente dos compromissos.

O problema é que problemas dentro da própria base tem atrapalhado. Ruídos públicos entre o senador e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro acabaram gerando desgaste.

Apesar de representarem a maioria da população e do eleitorado, as mulheres ocupam hoje apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados. No entanto, se a presença institucional ainda é baixa, a força nas urnas é definitiva.

Em uma disputa que promete ser decidida voto a voto, a corrida presidencial no Brasil não será vencida apenas por quem convencer o eleitorado tradicional, mas por quem conseguir decifrar e responder às demandas do gender gap.