quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A cidade vista de um degrau - Mauricio Portugal Ribeiro - FSP

 Há algumas semanas, um pé imobilizado me apresentou uma cidade que eu não conhecia. É a mesma cidade em que vivo há anos, com as mesmas ruas e os mesmos edifícios. Mas nela as calçadas têm abismos, as escadas viraram muralhas, as rampas, íngremes demais, prometem o que não cumprem e um degrau, que ontem eu nem notava, hoje decide onde posso ir. Descobri no corpo o que sabia em tese: a cidade não é a mesma para todos. Ela se abre ou se fecha conforme o corpo que a percorre.

Não se trata de experiência de minoria. Segundo a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) de 2022, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 18,6 milhões de brasileiros —8,9% da população— têm alguma deficiência. Quase metade tem 60 anos ou mais. Com o envelhecimento da população, esse contingente crescerá. A ele se somam, a cada dia, os temporariamente impedidos: quem quebrou o pé, quem empurra um carrinho de bebê, quem se recupera de uma cirurgia. Acessibilidade não é política para os outros. É política para cada um de nós, em algum momento da vida.

Normas não faltam. A Convenção da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência foi incorporada ao nosso ordenamento com status de emenda constitucional. A LBI (Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência), de 2015, garante o direito ao transporte e à mobilidade em igualdade de condições. A PNMU (Política Nacional de Mobilidade Urbana), de 2012, elege a acessibilidade universal como seu primeiro princípio. O problema não está no papel. Está na distância entre o papel e a calçada.

Escada de concreto com seis degraus, corrimão de metal e vidro ao lado direito. Paredes de concreto ao redor e piso azul ao fundo.
Falta de acabamento nas escadas da Estação Agua Branca na Linha 6-Laranja, inaugurada em julho deste ano - Zanone Fraissat - 31.jul.26/Folhapress

Parte dessa distância tem explicação econômica. Incorporar acessibilidade a um projeto novo custa pouco: uma rampa desenhada antes da obra é apenas geometria. Adaptar o que já existe custa muito: instalar elevadores em estações antigas, alargar calçadas estreitas, nivelar embarques em terminais concebidos para outro tempo exige obras caras e tecnicamente complexas. Por isso, exigir tudo de todos, imediatamente, é o caminho mais curto para que nada seja feito. O realismo recomenda outra rota: acessibilidade plena obrigatória em toda infraestrutura nova, e, para a infraestrutura existente, planos de adaptação com prioridades, prazos e metas verificáveis.

E aqui entra o que as normas gerais não alcançam: os contratos. Boa parte das infraestruturas brasileiras —rodovias, aeroportos, metrôs, terminais— é operada por concessionárias privadas. Alguns contratos já ensaiam o caminho. Nos aeroportos concedidos, o tempo de atendimento a passageiros que necessitam de assistência especial é um dos indicadores que afetam as tarifas. Os contratos de trens metropolitanos paulistas mostram a evolução em curso. No das Linhas 8 e 9, a acessibilidade aparece, no componente de desempenho, como um dos atributos da pesquisa de satisfação –medida, portanto, por percepção, que capta mais o humor do passageiro do que a realidade do serviço. No contrato da Linha 7, mais recente, a medição é objetiva: um indicador afere a disponibilidade efetiva dos equipamentos das estações, inclusive elevadores e escadas rolantes, com nota própria e efeito sobre a receita.

Há, porém, algo que indicador nenhum captura: acessibilidade é, antes de tudo, obrigação de investimento –o elevador precisa ser instalado antes de ser mantido. Por isso o desenho completo exige as duas ferramentas: obrigações de investimento com escopo e cronograma definidos, para implantar; e indicadores objetivos de desempenho, com consequência financeira, para garantir que o implantado funcione.

Obrigações difusas geram disputas sobre seu significado; indicadores geram medições. E o que entra na fórmula de remuneração entra no planejamento de investimentos da concessionária —deixa de ser custo de conformidade e vira parte do negócio. O que se mede e se paga, acontece. O que fica na promessa, espera.

Há ainda uma dimensão que escapa às rampas e aos elevadores. Deficiências visuais, auditivas e intelectuais pedem outra engenharia: pisos táteis, sinalização sonora, informação simples e legível. A acessibilidade plena é menos uma lista de equipamentos e mais uma pergunta de projeto: este serviço pode ser usado, com autonomia, por qualquer pessoa?

E se cada degrau tivesse que justificar sua existência? Um dia o pé sara, a bota ortopédica vai para o armário e a cidade volta a se abrir –para mim. Para milhões, ela permanece fechada. E se a acessibilidade saísse das declarações de princípio e entrasse nos cronogramas de investimento e nas fórmulas de remuneração? Talvez a cidade começasse a se abrir para todos. Não por bondade. Por contrato.

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Com a ditadura no bolso Ruy Castro _FSP

 Diante da hipotética possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial (afinal, está concorrendo), vamos a um rápido e razoável exercício de adivinhação sobre o que poderá acontecer. Na posse, como já prometeu, ele subirá a rampa do Planalto de braço com seu pai, um subitamente ágil e lépido Jair Bolsonaro, sem soluços e com os movimentos peristálticos funcionando. Ao receber a faixa das mãos de seu antecessor, não será surpresa se Flávio B. retribuir esse gesto democrático com uma cusparada no rosto do ex-presidente.

Como seu primeiro ato será assinar a anistia dos criminosos do 8/1, a cerimônia será abrilhantada pelos oficiais condenados por tentativa de golpe e assassinato de autoridades, adrede libertados das prisões onde cumpriam pena. Ao seu lado, na foto oficial, Antônio Cláudio Ferreira, destruidor do relógio de Dom João 6º, dona Fátima de Tubarão, hidrófoba senhora que ia "pegar o Xandão", e Fábio de Oliveira, que se sentou na cadeira do ministro no STF. Com os pés no assento do Rolls na carreata comemorativa, estará não apenas o 02 Carlos Bolsonaro, repetindo sua façanha de 2019, como o 03 Eduardo Bolsonaro, desembarcado em segredo naquela manhã.

O discurso de moderação desaparecerá assim que o novo presidente destampar a caneta. Empossado, Flávio B. tirará do bolso o plano urdido por seu pai para o segundo mandato que não houve: o de aferrolhar por dentro as instituições —militares, jurídicas e policiais— e instituir a ditadura.

O Supremo sofrerá intervenção imediata, com a demissão dos ministros independentes e sua substituição por sequazes invertebrados. A maioria dos parlamentares, como é de tradição da categoria, se acoelhará à nova ordem —isto se o Congresso não for fechado. Órgãos de comunicação, cultura e ensino serão arrolhados pela censura ou asfixiados financeiramente. A Faria Lima estourará champanhas e, dispensando intermediários, um dos seus comandará a economia.

Metade do país aplaudirá essas medidas. Falta combinar com a outra metade.

Democracia disfuncional e geração distribuída, Jerson Kelman, FSP

Suponha que, numa dessas pesquisas sobre eleições, pergunte-se ao entrevistado em quem ele prefere votar: no político que vai destinar dinheiro público para a festa junina ou no político que promete salvar vidas, diminuindo a fila do SUS?

Tenho fé no bom caráter dos brasileiros. Acho que a esmagadora maioria escolheria a segunda alternativa. Mas, na prática, vota na primeira. Essencialmente porque não sabe que é preciso fazer escolhas, pois os recursos públicos são limitados. Não sabe que, enquanto os impostos servirem para viabilizar a corrupção e os gastos supérfluos, o essencial continuará claudicante. Não sabe que, para o Brasil funcionar melhor, é preciso acabar com emendas parlamentares abusivas e isenções tributárias injustificáveis e rever gastos constitucionalmente obrigatórios. Não sabe que precisamos eleger para o Congresso Nacional pessoas capazes de empreender uma discussão equilibrada sobre tributação e alocação dos escassos recursos públicos, como ocorre nas democracias funcionais.

Não tenho ideia do que seria preciso fazer para evoluirmos em direção a uma democracia funcional, além de prover educação de qualidade para todos, desde a primeira infância. Reconheço que essa é uma condição necessária, mas não suficiente. Por isso, volto ao tema desta coluna: energia.

Aqui também abundam isenções, mais tarifárias do que tributárias: são os subsídios cruzados. Por exemplo, o desconto da ordem de R$ 17 bilhões (somente em 2025) em favor dos proprietários de placas fotovoltaicas instaladas em telhados ou terrenos, conectadas à rede de distribuição de eletricidade, a chamada geração distribuída (GD).

As placas injetam na rede o excesso de produção nos horários com sol. Em troca, seus proprietários não pagam pelo custo de fornecimento de igual quantidade de energia ao anoitecer, que é cerca de 20 vezes mais cara que nas horas ensolaradas. Além disso, a tarifa de fornecimento à noite, economizada devido ao escambo energético, inclui não só o custo da energia como o custo, também descontado, da rede elétrica, dos tributos e dos encargos setoriais.

Esse subsídio é pago pelos consumidores "sem placa", em geral de menor poder aquisitivo. Não cabe culpabilizar os consumidores "com placa" por essa perversa transferência de renda. Eles apenas reagem racionalmente ao incentivo. O erro está na manutenção do incentivo. Por outro lado, devem ser punidos os consumidores que instalam placas sem autorização (o "gato solar").

Uma boa notícia: a Procuradoria Federal junto à Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) confirmou a possibilidade de aplicação compulsória da tarifa horária (Tarifa Branca) aos consumidores-geradores enquadrados na lei 14.300/2022.

Significa que a lei não assegura a permanência dos "com placa" na tarifação convencional (preço único, sem variação horária) e que a modernização da estrutura tarifária pode ser aplicada imediatamente. Por exemplo, criando uma classe de consumo específica para os "com placa". Ou seja, não há direito adquirido à imutabilidade regulatória.

O mesmo raciocínio deveria ser aplicado às isenções tributárias. Numa democracia madura e num setor elétrico justo, regras do jogo devem privilegiar o interesse coletivo, não perpetuar exceções injustificáveis.